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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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DAA.SU 



D E 

JOÃO DE BARROS 

DOS FEITOS, QUE OS PORTUGUEZES FIZERAM. 

NO DESGUBRIMENTO , E CONQUISTA DOS 

MARES , E TERRAS DO ORIENTE. 

DÉCADA TERCEIRA 

PARTE SEGUNDA. 




LISBOA 

Na Regia Officina Typografica. 
anno mdcglxxvii. 

Com Licença da Real Meta Ç enfarta 9 t Privilegio Real 





3)5 






ÍNDICE 

DOS capítulos, que se contém 

NESTA PARTE II. 

DA DÉCADA III. 

LIVRO VI. 

CAP. T. Como Simão tf Andrade foi A 
China : e do que lá fuccedeo a Tho* 
mê Pires , que Fernão Peres d ^ An- 
drade feu irmão leixou em Cantam pêra 
ir a EIRey da China : e como fe lã apre-* 
goou guerra contra nós , e as caufas por- 
que. Pag. i. 

CAP. II. Do que Simão d' Andrade fez ent 
quanto efleve no porto de Tamou da Chi* 
na , por onde houve caufa do alevanta- 
mento daquellas partes contra nós : e dos 
males que os nojfos paffàvam nejle tem- 
po , e depois que Duarte Coelho pelejou 
com os Capitães dos Chijs. i^. 

CAP. III. Como Diogo Lopes de Sequeira , 
eflando em Ormuz a requerimento d?EU 
Rey , mandou António Corrêa â Ilha Ba* 
harém f obre EIRey Mocrim , que ejlava 
alevantado contra Ormuz. 25% 

CAP. IV. Em que fe defcreve todo mari* 

timo , que o mar Parfeo contém emji: 

e ajfi do Jltio P e fertilidade da Ilha Ba* 

harém. 35*; 

*« CAP. 



Índice 

CAP. V. Como António Corrêa fahio em 
terra na Ilha Babarem , e pelejou com 
EIRey Mocrim , na qual peleja foi ferido 
de huma efpingarda y que caufou haverem 
os nojfos vitoria , e depois foi tomado o 
feu corpo j d morto. 41. 

CAP. VI. Como D. Aleixo de Menezes man- 
dou D. Jorge de Menezes per terra com 
foccorro a EIRey de Cochij , que ejlava 
em guerra com o Çamorij de Calecut : e 
do que Diogo Fernandes de Reja paffou 
fobre a barra de Dio : e o que Diogo 
Lopes de Sequeira fobre ijfo fez depois 
que o foube. $2. 

CAP. VII. Do que fucceãeo a Diogo Fer- 
nandes de Reja na cofia de Dio , onde 
Diogo Lopes lhe mandou que efperajfe té 
elle partir de Ormuz : e o que elle tam- 
bém paffou naquelle caminho té chegar 
a Chata , onde começou huma fortaleza > 
e as ca ufas porque. 62. 

CAP. VIII. Como Fernão Camelo veio de 
Nizamaluco , e trouxe recado feu a Dio- 
go Lopes de Sequeira , que fizeffe forta- 
leza em Chaul , e a caufa porque ; e co- 
me çanâo-fe a obra , vieram as fuflas de 
Melique Az a impedir que fe não fizef- 
fe : e o damno que os nojfos receberam 
clelle. 6cf. 

CAP. IX. Como Diogo Lopes de Sequeira 

en- 



dos Capítulos 

entregou a capitania da fortaleza de 
Chaul a Henrique de Menezes , e a ca- 
fitanía do mar a Diogo Fernandes de 
Beja j e fahido do rio de Chaul pêra fe 
ir d Índia 5 fe deteve por caufa das cou- 
fas que Aga Mabamud fez em a Arma- 
da em que morreo Diogo Fernandes : e 
entregou a Armada que elle tinha a An- 
tónio Corrêa , e elle Diogo Lopes fe par- 
ti o pêra a índia. 82. 
CAP. X, Como Aga Mabamud mandou per 
hum ardil commetter o baluarte onde ef- 
tava Pêro Vaz Permao , no qual commet- 
timentv , pofto que morreo Pêro Vaz , e 
outros , os Mouros foram vencidos : no 
fim do qual feito veio D. Luiz de Mene- 
zes , a quem António Corrêa entregou 
a Armada , e dahi fe foi a Cochij em- 
barcar com Diogo Lopes de Sequeira , 
que partio pêra efte Reyno > aonde che- 
gou a falv amento. 92. 

LIVRO VIL 

CAP. I. Como EIRey D. Manoel man- 
dou por Governador d Índia Dom 
Duarte de Menezes , o qual partio def 
te Reyno o anno de quinhentos e vinte 
e bum. Pag. 104. 

CAP. II, Das coufas que moveram a EI- 
Rey 



Índice 

Rey D. Manoel mandar que na Alfan- 
dega de Ormuz houveffe Officiaes Portu- 
gueses : e o que fobre ijfo primeiro paf- 
fou : e como EIRey de Ormuz fe levan- 
tou por ejje refpeito. 113. 

CAP. III. Do mais que os nojjbs pajjaram 
paffada aquella noite : e como mandaram 
nova d índia de/te cajo , e foram foccor- 
ridos per Triftao Vaz da Veiga , e de- 
pois per Manoel de Soufa Capitão mor 
do mar* 131. 

CAP. IV. Do que paffdram os noffos no 
cerco que tiveram ; e vendo EIRey de Or- 
muz quão pouco damno lhes podia fazer , 
defpejou a Cidade , e fe foi pêra a Ilha 
Queixome ? e depois a mandou queimar : 
e como com a vinda de hum navio , e hu- 
ma não for ayn provi dos do necejfario. 146. 

CAP. V. Como Manoel de Soufa , e Trif- 
tão Vaz da Veiga tornaram d Cofia de 
Mafcate , e das coufas que alli fizeram 
té vir D. Luiz de Menezes , e do que 
elle alli fez fobre a tomada da Villa Soar : 

* e do mais que paffou tê chegar a Or- 
muz. 157. 

CAP. VI. Como D. Luiz de Menezes che- 
gou a Ormuz , e dahi foi ter d Ilha de 
Qiieixome 5 onde EIRey ejiava : e os meios 
que teve pêra affentar paz com elle y 
com as condições nella conteiídas. 171. 

CAP, 



DOS C APITULOS 

C AP. VIL Corno per huma das nãos , que 
ejie anno partiram pêra a índia , Dom 
Duarte foube do fale cimento d?ElRey Dom 
Manoel , e o que fobre ijjò fez , e as nãos 
que defpachou pêra diverfas partes : e 
como D. Pedro de Cajlro Capitão de hu- 
ma de duas nãos , que invernãram em 
Moçambique , dejiruio a Ilha Querimba y 
e como em Goa fobre amarra a fua não 
N azar et h fe foi ao fundo. 1 8o. 

CAP. VIII. Como D. Duarte de Menezes 
partio pêra Ormuz : e como no caminho 
per hum defcuido os Mouros de huma 
não rendida tomaram huma galé de duas 
que a tinham tomada : e do que em Or- 
muz fe p a ffou ante de lie chegar. 189. 

CAP. IX. Como o Governador D. Duarte 
de Menezes chegou a Ormuz , e tornou 
affentar as coufas daquelle Reyno , com 
accrefcentar fobre os vinte e cinco mil 
xarafijs , que EIRey pagava , outros trin- 
ta e cinco mil : e como per confelho de 
Raez Xarafo mandou hum Embaixador 
a Xdlfmael: e do que D. Luiz de Me- 
nezes fez na ida do mar Roxo , e das 
ndos que partiram dejie Reyno. iyy. 

CAP. X. Como as terras firmes de Goa , 
que Ruy de Mello tomou fendo Capitão 
de Goa , os Mouros as vieram conquiflar 
em tempo de Francifco Pereira Peflana 

Ca- 



Índice 

Capitão de Goa : e algumas pelejas que 
foram J obre ellas , e por derradeiro fe 
leixdram ao Hidalcão , cujas eram dan- 
tes , por caufa da paz que tinham com 
elle. 213. 

CAP. XI. Das coufas , que em diverfos 
tempos os nojjos puderam faber por man- 
dado d^ElRey , do Corpo do Bernaventu- 
raâo S. Tbomé , que pregou , e converteo 
a gente dfi Malabar , e terra de Choro- 
mandei , onde ejlava fua fepultura. 222. 

LIVRO VIII. 

CAP. I. Em que fe defcreve parte da 
Ilha Çamatra , e os Reynos que ti- 
nha por vizinhos nojfa fortaleza Pacem , 
vnde D. André Henriques e flava por Ca- 
pitão : e as diferenças que entre os Reys 
bárbaros delles houve , donde procedeo 
leixar D. André a fortaleza. Pag. 239. 
CAP. II. Como D. André Henriques , por 
ajudar a ElRjey de Pedir nojfo amigo y 
que fe recolheo d noffa fortaleza , em. que 
elle ejlava , mandou com elle feu irmão 
D. Manoel Henriques , que morreo na~ 
quella ida per hufna traição que os Mou- 
ros tinham ordenado , e o mefmo Rey ef- 
çapou : e do que paffou Domingos de Sei- 
xas 



dos Capítulos 

ucas com huns alevantados Portuguezef , 
onde foi prezo , e cativo. 248. 

CAP. III. Como por algumas ãijferenças 
que D. André teve com Lopo d Azevedo , 
que o Governador mandava pêra Capi- 
tão daquella fortaleza de Pacem a re- 
querimento de lie D. André \ Lopo d? Aze- 
vedo fe foi pêra Malaca : e do mais que 
pajjbu té D. André entregar a fortale- 
za a feu cunhado Aires Coelho 3 e fe ir 
pêra a índia. 259. 

CAP. IV. Como Bajliao de Soufa , e Mar- 
tim Corrêa chegaram a Pacem 3 depois 
que partiram da índia , e Bajliao de Sou- 
fa ter pajfado muito trabalho na Ilha de 
S. Lourenço : e como D. André tornou 
arribar a Pacem , e não podendo defen- 
der a fortaleza , a leixdram , e fe foram 
pêra Malaca. 268. 

CAP. V. Como Martim Ajfonfo de Mello 
Coutinho foi â China pêra fazer huma. 
fortaleza , e ajfentar paz : e como a Ar- 
mada dos Chijs pelejou com elle , com 
que lhe conveio tornar-fe. 281. 

CAP. VI. Como com o favor do damno que 
Jorge d^Alboquerque recebe o em Pintam , 
o Rey dejia Ilha mandou hum Capitão 
com grande frota fobre Malaca : e man- 
dando Jorge d? Alboquerque fobre elle ao 
rio de Muar feu cunhado D. Sancho 

Hen- 



Índice 

i Henriques , porfaber que ejiava elle den- 
tro , por huma trovoada que veio , fe veio 
desbaratado pêra Malaca com perda de 
viuita gente , que lhe os Mouros mata- 
ram , e fe afogou. 288. 

C AP. VIL Como ejlando D. Sancho Henri- 
ques no Reyno de Pacem a bufe ar man- 
timentos , foi morto das lancharas de 
Bintam : e de outros defaftres y que os 
nojfos tiveram com efta guerra , que el- 
le s faziam a Malaca. 294. 

CAP. VIII. De algumas coufas , que os 
nojfos pajfdram na Ilha da Jaua , em que 
alguns pereceram per traições de Mou- 
ros : e do que Simão de Soufa , e Mar- 
tim Corrêa fizeram na Ilha de Banda , 
onde acharam Martim Affonfo de Mello 
Jufarte em guerra com os naturaes : e 
como depois cada hum fe partio a fazer 
fuás viagens por razão de feu provei- 
to. 301. 

CAP. IX. Como Cachil Mamolle irmão baf- 
tardo de Cachil Daroez , que andava 
degredado em vida d^ElRey feu pai , por- 
que feu irmão o não confentia na terra , 
determinou de o matar ? e elle cahio no 
laço: e do ódio queElRey Almançor te- 
ve a Cachil Daroez polo favor que ti- 
nha noffo. 310. 

CAP. X. Como ateada a guerra entre os 

nof- 



dos Capítulos 

wofjòs , e EIRey Almançor de Ti d ore > 
ainda que no principio delia aconteceram 
defajlres com morte , e feridas de alguns 
dos nojfos y por fim de alguns grandes 
ãamnos que EIRey recebeo 5 veio pedir 
paz a António de Brito , que lhe elle 
não concedeo. 322. 

LIVRO IX. 



CAP. T. Em que fe efcreve o modo que 
fe tem na eleição da peffoa do Go- 
vernador da índia : e quando falece , co- 
rno o fuccede a pejfoa que lã eftá : e co- 
mo o anno de quinhentos e vinte e qua- 
tro EIRey D. João mandou o Conde da 
Vidigueira por Vifo-Rey d índia : e 
do que paffou no caminho té chegar a 
Goa. Pag. 540. 

CAP. II. Do que o Vifo-Rey fez em Goa , 
e no caminho dahi té Cochij , onde che- 
gou :e as Armadas que ordenou pêra 
diverfas partes , ejlando doente da enfer- 
midade de que faleceo. 3^4. 

CAP. III. Como aberta afuccefsao do Con- 
de Almirante , fe achou que havia de 
governar a índia ú. Henrique de Me~ 
nezes , que ficara iio~ ia pi tão em Goa: 
t o que fez nefte tempo té lhe ir recada 

da 



Índice 

da fuccefsão \ e partido de Goa pêra Co~ 
chij , fez algumas coufas no caminho. 370. 

CAP. IV. Como D. Henrique fe apercebeo 
em Cochij de huma Armada que fez de 
cincoenta velas , e foi f obre o lugar de 
Panane d^ElRey de Calecut , o qual def- 
truio ; e -pajfando per Calecut , lhe de o 
hum caftigo 5 e dahi foi ter ao lugar de 
Coulete. 382. 

CAP. V. Como D. Henrique determinou de 
fahir em Coulete , o qual com huma gran- 
de vitoria que houve dos Mouros , o quei- 
mou , e alji grande número de navios , 
que eftavam no porto : e dahi fe tornou 
a Cananor , e efpedio D. Simão de Me- 
nezes com huma Armada pêra aquella 
cofia de Malabar. 393. 

CAP. VI. Do que pajfou António de Mi- 
randa d J Azevedo com a Armada que foi 
ao eftreito : e affi a D. Simão de Mene- 
zes na cofia de Malabar té fe recolher 
a invernar. 402. 

CAP. VIL Como oÇamorij de Calecut de- 
fejando de tomar a noffa fortaleza de 
Calecut , por artificio mandou commetter 
pazes ao Governador D. Henrique ; e 
por lhe não ferem concedidas com as con- 
dições que elle queria , veio cercar a nof- 
fa fortaleza. 410* 

CAP. VIII. Como EIRey de Calecut corne-* 

çou 



dos Capítulos 

Cou combater a fortaleza , e o foccorro 
que o Governador D. Henrique lhe man- 
dou : e dos trabalhos que os noffos pade- 
ciam nefte cerco. ^ij. 

CAP. IX. Como o Governador D. Henri- 
que proveo por algumas vezes a fortale- 
za de Calecut com gente , e mantimen- 
tos , e outras munições , e as coufas que 
nella pajfdram té elle vir emfeu foccor- 
ro: e as diferenças que teve no feu con- 
felho .fobre fahir elle com agente em ter- 
ra , e por fim deflas dijferenças fe ajfen- 
tou que fahiffe. 426. 

CAP. X. Como D. Henrique logo aquella 
noite depois de ter ejle confelho , ordenou 
de metter gente dentro na fortaleza , e 
depois fahio em terra : e pajjados certos 
dias de trégua , que lhe o Çamorij pedio 
pêra entenderem na paz , porque não fe 
concertaram nas capitulações delia , Dom 
Henrique derribou a fortaleza , efepar- 
tio : e o que o Çamorij por ijfo fez* 44 1* 

livro x. 

CAP. I. Como D. Henrique de Mene- 
zes , depois que acabou as coufas de 
Calecut , ordenou outras com fundamen- 
to de ir tomar a Cidade Dio , entre as 
quaes foi mandar huma Armqâa t Capi~ 

tãa 



Índice 

tão Heitor da Silveira , o qual , por lhe 
não ir o recado que elle efperava , foi buf- 
car , por lhe fer mandado , D. Rodrigo 

■ de Lima ao Reyno do Prefte João. Pag. 45 3. 
Cx\P. II. £m que fe conta a ida de Fero 

Mafcarenhas a Malaca , ^ algumas cou- 
fas que lá eram acontecidas no tempo 
do Governador D. Henrique de Menezes y 
que o defpachou , fendo Capitão Jorge 

■ d^Alboquerque , a quem elle Pêro Maf- 
carenhas fuccedeo. . 463. 

CAP. III. Como hum arrenegado de appel- 
lido Avelar , que andava lançado com 
EIRey de Bintam , lhe moveo hum modo 
de guerrear Malaca : e como não aprovei- 
taram fuás indujlrias coufa alguma. 474. 

GAP. IV. Como D. Garcia Henriques par- 
tio de Malaca pêra fervir de Capitão 
de Maluco em lugar de /intonio de Bri- 
to : e como na Ilha de Banda achou Mar- 
fim Ajfonfo de Mello Jufarte , e o que 
aconteceo a ambos com a gente da ter- 
ra. 482. 

CAP. V. Como D. Garcia Henriques che- 
gou a Maluco , e as dijferenças que teve 
com António de Brito té lhe entregar a 
fortaleza : e como ambos mandaram def- 
cubrir ouro á Ilha de Celebes : e como 
defcubríram outra Ilha nova de gente mui 
efiranha. 4^ 

CAP. 



dos Capítulos 

CAP. VI. Como Pêro Majcarenhas vifos 
os trabalhos da guerra , que fazia El- 
Rey de Bintam a Malaca , determinou 
de ir fobre elle : e o que pêra ijjò orde- 
nou , fem ãaquella vez haver effeito. 495'. 

CAP. VIL Do que Jorge d\4lboquerque 
Capitão que foi de Malaca pajfou depois 
que delia partio : e o Governador Dom 
Henrique fobre ij/o fez. 500. 

CAP. VIII. Do que D. Henrique de Me- 
nezes fez o inverno que efteve em Cochij y 
onde Cide Alie menfageiro de Melique 
Aliaz o veio vifitar : e o requerime7ito 
que lhe Lopo Vaz de Sampaio Capitão 
de Cochij fez , vendo os apparatos da 
guerra , com que elle queria partir de 
Cochij. 506. 

CAP. IX. Como o Governador D. Henri- 
que partio com huma Armada de deze- 
fete velas caminho de Cananor. 510. 

CAP. X. Como o Governador D. Henrique 
crefcendo o mal de fua enfermidade , en- 
trou na fortaleza de Cananor , onde pri- 
meiro que chegajfe a hora da morte , pro- 
vêo algumas coufas : e o que fe fez de- 
pois que faleceo. 519. 



D& 



ST* 



+*+•?••*• +♦*•'**+ ++•*"*•*+ r***^****************** 






DÉCADA TERCEIRA. 
LIVRO VI. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fizeram 
nodefcubrimento, econquiíla das ter- 
ras , e mares do Oriente: em que fe 
contém as couias que fe nelie fi- 
zeram té o fim do tempo que 
Diogo Lopes de Sequeira go- 
vernou aquellas partes. 

CAPITULO I. 

Como Simão d 9 Andrade foi á China : e do 
que láfuccedeo a Th orne Pires , que Fernão 
Peres d? Andrade feu irmão leixou em 
Cantam pêra ir a EIRey da China : 
e como fe lá apregoou guerra con- 
tra nós , e as caufas porque. 




Epois que Fernão Peres d' An- 
drade partio da Cidade Can- 
tam da Província da China, 
ficaram as coufas daquellas par- 
tes taoafíentadas perelle, que 
fegura , e pacificamente corria o commercio 
Tom.IILP.iL A en- 



2 ÁSIA de João de Barros 

entre nós , e aquella gente , em o qual ne- 
gocio os homens faziam muito proveito. E 
eftando as coufas em tal eftado, porque feu 
irmão Simão d'Andrade foi provido perEl- 
Rey D. Manuel que fizeíTe huma viagem 
pêra aquellas partes da China , partio elle 
pêra lá em Abril de quinhentos e dezoito 
em tempo de Lopo Soares ; em companhia 
cio qual de Malaca foram três juncos , cu- 
jos Capitães eram Jorge Botelho , Álvaro 
Fuzeiro , Jorge Alvares \ e Francifco Ro- 
drigues. Chegado com eftas quatro velas á 
China em Agofto daquelle anno , tomou o 
poufo no porto da Ilha Tamou, onde feu 
irmão eftivera , porque como já efcrevemos 3 
per ordenança da Cidade Cantam não po- 
diam ir mais adiante, ealii faziam feu com- 
mercio. No qual tempo acharam ainda que 
não era partido Thomé Pires o Embaixa- 
dor , que Fernão Peres leixou pêra ir a El- 
Rcy da China , por lhe não fer vindo re- 
cado d'ElRey que folie ; porque, (como 
atrás efcrevemos , ) he tanta a mageílade def- 
te Príncipe , e os negócios defta qualidade 
são tão vagarofos , principalmente quando 
gente eftrangeira ha de ir a elle , por tudo 
ièr refguardos , e cautelas , que lia mifter 
muita paciência quem houver de efperar feus 
vagares. E com tudo fendo já idos três re- 
cados de Cantam a ElRey , e elle ter man- 

da- 



Década IIL Liv. VI. Cap. I. 3 

dado outros tantos aos Governadores da 
Cidade , perguntando mui miudamente por 
nofías coufas , mandou que fofíe o Embai- 
xador. O qual partio em Janeiro de qui- 
nhentos e vinte 5 que foi depois da chega- 
da de Simão d'Andrade , levando três na- 
vios de remo á maneira de fuftas concerta- 
dos ao nofíb modo de bandeiras , e toldo 
de feda. Não porque nefíe concerto lhe fa- 
çamos vantage , ante . elles a fazem a nós ; 
fomente por honra deite Reyno levava as 
bandeiras com as armas , edivifa delle, ar- 
voradas per meio daquellas regiões tão re- 
motas , a que podemos chamar fim do Mun- 
do , pois elles tem o Oriente de terra ha- 
bitável , e nós o Occidente ; é mais fendo 
o Príncipe delias de tanta mageítade , que 
não pôde alguém arvorar bandeira fenão das 
fuás armas , que hc hum Leão rompente. 
Partido Thomé Pires com aquella pompa 
íempre per agua , chegou ao pé de huma 
ferrania , onde nafce o rio per que elle foi , 
a qual ferrania , chamada Malenxam , come- 
ça em a enleada daCauchichina , evai atra- 
veíTando grande efpaço de terra contra o 
Oriente, té acabar na Província Foquiem, 
que he a marítima , e das mais Orientaes 
daquelle grande eítado da China. Leixando 
efta ferrania pêra a parte do Sul, que he a 
eftas Províncias , Caníij , Cantam j 
A ii Fo- 



4 ÁSIA de João de Barbos 

Foquiem , ao modo que os montes Pyrencos 
apartam a Hefpanha de França. E em toda 
eíta ferrania não ha mais que dous portos , 
per que eftas Províncias debaixo le com- 
municam com as de cima -, hum deites paf- 
fos he onde Thomé Pires foi aportar, que 
da parte do Sul á entrada da ferra tem hu- 
ma Cidade , e paíTada ella de Norte tem 
outra , onde fe pagam os direitos do que 
entra j e íahe de cada parte. Do qual por- 
to efereveo Thomé Pires a Simão d' Andra- 
de , como chegara alli a falvamento , e que 
houveíTe a Cidade Cantam em pequena cou- 
fa em refpeito de outras que tinha viílo. 
Partido elie Thomé Pires deite paífo, che- 
gou á Província de Nanquij , a principal Ci- 
dade delia , chamada do meirno nome , on- 
de EIRey eítava , e poz em vir de Cantam 
aqui, caminhando quafi fempre pêra o Nor- 
te , quatro mezes , em que fe pode notar quão 
grande coufa he o Império daquelle Prín- 
cipe Gentio. O qual mandou dizer a Tho- 
mé Pires que o foífe efperar a Pequij , que 
lá o defpacharia , que he huma Cidade de 



outra Provincia também aííí chamada 



que 



eftá muito mais contra o Norte , na qual 
EIRey eítava o mais do tempo , por fer na 
fronteira dos Tártaros , a que elles cha- 
mam Tátas , ou Tancas , (como já difle- 
mos , ) com quem. continuadamente tem guer- 
ra. 



Década III. Liv. VI. Cap. I. ? 

ra. Chegado Tliomé Pires a efta Cidade y 
já em Janeiro do anno feguinte de quinhen- 
tos e vinte e hum veio EiRey ; e primei- 
ro que entraíle na Cidade , deteve-fe em 
hum lugar duas léguas delia a julgar hum 
feito de hum parente feu , o qual tinha amo- 
tinado hum a Província , levantando-fe con- 
tra eíle , e foi condemnado que morrefíe 
per efta maneira : primeiro foi enforcado 
com pregão de ladrão , dizendo levantar-fe 
com outros ladroes a roubar a terra 5 e de- 
pois queimado com pregão detrédor, por- 
que efte crime fe pune com fogo , por não 
ficar memoria na terra dos oíTos do culpa- 
do nefte cafo. Acabado efte feito , que Ei- 
Rey não quiz que fe fizefie na Cidade Pe- 
quij , por fer cabeça principal das quinze 
Províncias que tem 5 por a não macular com 
caftigo de tal crime entre elles o mais eftra- 
nhado , entrou nella , e quiz logo entender 
no defpacho de Thorné Pires 5 por ferem 
idas cartas dos Governadores de Cantam , 
e aíli do Governador da Cidade Manquij , 
onde EIRcy eftivera» As quaes cartas eram 
de males de nós-outros , dizendo que todo 
noflb officio era ir efpiar as terras com ti- 
tulo de mercadores , e que depois vínha- 
mos ás armas , e tomávamos qualquer ter- 
ra onde mettiamos hum pé , e que efte mo- 
do tivéramos na índia, e aífi em Malaca, 

por 



6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

por tanto que não convinha darem-nos en- 
trada em parte alguma daquelle Reyno. A 
caufa de os Governadores de Cantam efere- 
vereni eftas cartas , foi de algumas couílis 
que Simão d' Andrade fez em quanto eíle- 
ve na Ilha Tamou , fazendo feu commer- 
cio , como veremos ; e também de hum Em- 
baixador chamado Tuam Mahamed , que 
EIRey de Bintam , que fora de Malaca , man- 
dara diante de Thomé Pires , queixando-fe 
a EIRey da China como lhe tínhamos to- 
rnado o feu Reyno , pedindo-lhe que o 
mandaííe foccorrer , pois era feu vaííallo > 
e tinha recebido o feu fello em final de obe- 
diência, O qual Embaixador , quando Tho- 
mé Pires chegou á Cidade Manquij , anda- 
va efperando que o ouviííe EIRey ; e quan- 
do fe EIRey partio pêra Pequij , mandou- 
lhe dizer que foífe trás elíe que lá o ouvi- 
ria. Ficando eíle Tuam Mahamed alguns 
dias em Manquij , teve intelligencia com o 
Governador da Cidade , e com peitas al- 
cançou delle que efereveífe a EiRcy toda- 
las mis informações que elle Tuam Maha- 
med lhe deo de nós , pêra que quando che- 
gaíTe a Pequij foíTe eile lá melhor ouvido , 
do que té então fora 5 e afli foi. Das quaes 
cartas íuecedeo , em EIRey entrando na Ci- 
dade , querer logo faber ao que Thomé Pi- 
res hia y e mandou-lhe que emregaíTe as car- 

tas 



Década III. Liv. VI. Cap. I. 7 

tas que levava pêra elle, e que depois lhe 
refponderia ao mais que diiTeíTe ; e eítas 
que elle entregou , foram ainda mais da- 
mnofas que as outras. Porque elle levava 
três cartas , hum a d'ElRey D* Manuel , o 
qual efcrevia ao modo que elle ufava es- 
crever aos Reys Gentios daquellas partes , 
guardando preeminência áquelie Principe , 
por a grandeza de feu Império , e policia 
delle. Outra carta era de Fernão Peres d' An- 
drade , e cila efcreveo elle também confor- 
me a inílruccáo que levava d'E!Rey Dom 
Manuel febre a ida daquelle Embaixador , 
a qual elle mandou trasladar em língua dos 
Chijs pêra logo fe achar quem a ieííe. Cuja 
fubftancia os traslaiadores mudaram quaíi to- 
da 3 por imitarem o modo que íè tem de fallar 
ao leu Principe , fem Fernão Peres o íaber. 
Dizendo nella , que elle Capitão mór do 
Rey dosFrangues, (nome per que nos no- 
iíieam aquelles Orientaes,) chegara áqueila 
Cidade Cantam com hum Embaixador , o 
qual hia a elle filho de Deos , e Senhor do 
Mundo , pedindo o feu fello pêra o Rey 
dos Frangues , porque queria fer feu vaíTaí- 
lo , e levar mercadorias boas , e ricas pêra 
o feu Reyno. Eíle fello , que aquelle Empe- 
rador dá a todolos Reys , e Príncipes , que 
fe fazem feus vafíallos , he da fua divifa , 
c com elle fe aífignarn elles em todalas car- 



8 ÁSIA de João de Barros 

tas , e efcrituras : por demoítração de ferem 
feus fubditos. A terceira carta , que mais le- 
vava Thomé Pires , era dos Governadores 
de Cantam ; e como no tempo que a de- 
ram citavam muitos contentes de nos , por- 
que foi ante quetomaífem efcandalo do que 
fe fez em quanto Simão d' Andrade eíteve 
na Ilha , hia quaíi conforme á de Fernão 
Peres que os línguas trasladaram. E dizia 
mais efta carta, que pedíamos cafa na Cida- 
de de Cantam pêra ter alli Feitoria , e mais 
que éramos gente má de contentar , e mui- 
to fumofa em coufas de honra , e que fe 
dizia termos tomado Malaca ao Rey delia. 
Viftas eftas cartas no Confclho d'ElPvey quão 
diííerentes eram 3 foram chamados os lín- 
guas , e perguntados cada hum per fi , co- 
mo dizia a carta que elles trasladaram cou- 
fa tão diíferente do que dizia a do Rey 
dos Frangues. Refpondêram , que elles não 
viram a carta do Rey dos Frangues , por- 
que o feu Embaixador que alli vinha lhe 
diífera que hia cerrada , e não fe podia abrir , 
porque fe havia aífi de dar na mão do filho 
de Deos , e Senhor do Mundo. Que a ou- 
tra que elles trasladaram , poílo que ella di- 
zia outras palavras , fora a fua trasladação 
com aquellas com que fe falia á peífoa do 
filho de Deos , e não como os Frangues 
■foliavam j e quanto á dos Regedores deCan- 



Década III. Liv. VI. Cap. I. 9 

tam , não labiam como a elles efcrevêram. 
Finalmente , com a differença deftas cartas , 
eniás informações das fegundas , que foram 
(como diflemos) primeiro iidas , foi aífenta- 
do entre aquelles do Confelho d'ElRey , 
que aquella embaixada era falia , e que Tho- 
mé Pires hia a efpiar a terra. E o pedir da 
cafa em Cantam era pêra dahi começar- 
mos a fazer guerra 3 como coílumavamos 
nas outras partes na índia , e que bem íe 
moftrava íèr aífi ; porque quando alli veio 
o primeiro Capitão , que leixára aqutile Em- 
baixador , no tempo que eftivera na Ilha Ta- 
mou fazendo mercadoria , elie mandara hum 
feu navio defeubrir a terra , e cofia do Chin- 
cheo. Levado ante EIRey efte parecer , e 
voto de feus Officiaes , a que pertencia o 
■defpacho daquellas coufas , a primeira que 
mandou , ante que fe determinaíTe no que 
devia fazer a Thcmé Pires , foi mandar que 
elle não fofíe mais ao Paço a lhe fazer obe- 
diência. 'E pêra fe íaber o modo que efte 
Príncipe tem de receber os Embaixadores 
que vem a elle, diremos o que fez ao nof- 
fo, eaffi a outros que depois delle vieram. 
A hum dos Tártaros , com que tinha guer- 
ra , eaffi a outros Reys vizinhos, que havia 
mifter pêra feus negócios , foram recebidos 
com honra , indo por elles ao caminho no 
dia da entrada onde EIRey eítava alguns 

dos 



io ÁSIA de JoÃo de Barros 

dos principacs fenhores ao modo que fe cá 
ufa entre nós. E a outros Embaixadores de 
Reys , e Príncipes , que lhe tinham dado 
fua obediência , ou eram de partes remotas , 
e de que EIRey tinha pouca noticia , não 
lhe fizeram recebimento algum. Porém de- 
pois que entraram na Cidade , onde EIRey 
eftava , e per as cartas que levavam , e in- 
formação de pefíòas que mandou faber del- 
les a que vinham, ante que foííem a elle, 
foube ferem feus requerimentos coufa de feu 
contentamento , então foram levados ao Pa- 
ço com algum modo de honra. E a que os 
noíTos viram fazer a alguns deites , foi efta , 
( á qual o noiTo Embaixador não chegou 
polo que logo veremos.) Depois que foram 
apouíenrados , não podiam ir ao Paço fenao 
quando lhes era concedido; eifto tanro por 
ler coílume daquelles Príncipes não ir a elle 
peííba eftrangeira fenão per lua íicença , por 
mageílade fua , como por razão de querer 
que feja em hora eleita per Aílrologia , pê- 
ra que os negócios fejam em feu contenta- 
mento , e proveito , e as mais das vezes são 
aos quinze dias da Lua. E quando efte Em- 
baixador hia y era a pé , ou em cima de 
hum rocim com cabrefto de palha por hu- 
mildade \ e tanro que chegava em hum gran- 
de terreiro ante as cafas d 5 ElRey , alii efta- 
va quedo té que vinha a elle hum homem 

\ ao 



Década III. Liv. VI. Cap. L n 

ao modo que fe coftuma em Roma ante o 
Papa oMeíire das ceremonias. OqualMeí- 
tre em certo lugar levando o Embaixador 
pela mao , o fazia poer os giolhos em ter- 
ra , e as mãos levantadas juntas , como quan- 
do louvamos a Deos , e depois debruçava 
a face no chão , inclinando a viíta contra 
huma parede das caías dos Paços , onde lhe 
dizia eíte Meílre que eftava EIRey. Levan- 
tado o Embaixador , a tantos pálios torna- 
va mais adiante outra vez a mefma reve- 
rencia , e não fe chegando mais , contra a 
parede fazia eíla adoração cinco vezes , e 
dalíi per o mefmo modo vindo recuando 
tornava fazer outras cinco , té fe tornar aon- 
de começou a primeira , e aiii era efpedi- 
do que fe foíle pêra fua cafa , e ifto cha- 
mavam elles ir ver EiPvey. E quando era 
no tempo que lhe davam licença que po- 
dia faliar em o negocio a que era enviado , 
então na derradeira adoração eftava aííi em 
giolhos 3 té que vinha hum homem a ma- 
neira de Secretario , que recebia per efcrito 
tudo o que dizia , e elpedia-o que fe foííe , 
dizendo , que fe daria razão daquelle feu 
requerimento ao Senhor do Mundo. Eíla 
ida ao Paço d' ElPvey , que Thomé Pires nof- 
fo Embaixador houvera de fazer, lhe não 
foi concedida por razão das cartas , que 
diílemos que deram má opinião de nós, e 

que 



12 ÁSIA de João de Barros 

que elle Thomé Pires era enviado mais a 
efpiar a terra , que a outro fim. Succedeo 
que neíles dias em que Thomé Pires eítava 
efperando o que fariam delle , fegundo lhe 
as línguas diziam , adoeceo EIRey , e foi 
de tal enfermidade , que dahi a três mezes 
roorreo , de maneira, que fe entreteve o feti 
deípacho outro tanto tempo. Finalmente , 
dando-fe conta ao Rey novo daquelle ca- 
fo , poílo que a voz dos feus Officiaes , per- 
quepaííavam aqueílas coufas , era que Tho- 
mé Pires , e quantos com elle foram , raor- 
reflem como eípias , diífe , que ou foíTe 
verdadeira , ou falia iua embaixada , baila- 
va pêra lhes não fer feito mal em fuás pef- 
foas 5 entrarem naquelle Rcyno com titulo 
de Embaixada. Que viíio o que fe dellcs 
dizia nas fegundas cartas , e aíli o que con- 
tra elles requeria o Embaixador cPEIRey 
de Malaca , que alli andava , pois era feu 
vaíTallo , a que devia favorecer , elÍQ havia 
por bem que o noflb Embaixador fe tor- 
naife a Cantam com o prefente que leva- 
va , e os Governadores o tiveíTem em euf- 
todia , em quanto foiTem cartas ao Capitão 
noífo , que eftava em Malaca ; e ao que ci- 
tava na índia , e aflí ao feu Rey que def- 
pejalíem Malaca ao Rey, que lançaram fo- 
ra delia , por fer feu vaíTallo. E que em 
quanto não vieíTe efte recado , couía noíía 

não 



Década III. Liv. VI. Cap. I. 13 

não foíTe recebida , nem recolhida em por- 
to algum de feu Reyno , pois éramos gen- 
te tão prejudicial. E vindo recado como 
Malaca era entregue ao Rey delia , que en- 
tão o noíTo Embaixador foííe folto com fua 
gente , e efpedido fem efcandalo , mandou- 
lhe que não foliemos mais áquellas partes , 
fendo certo que fe lá fofle navio algum nof- 
fo , que feriamos tratados como imigos , 
por quanto elle não havia por bem que gen- 
te tão revoltofa , e cubiçoía trataíle em feu 
Reyno. E quando vieííe recado que não 
queríamos deíiílir de Malaca , em tal cafo 
o noíío Embaixador foíTe julgado per juíti- 
ça íègundo as Leis do feu Reyno ; pois 
tendo offendido a EIRey de Malaca feu 
vaffailo , não lhe queriam fazer reftituição 
do que lhe tinham tomado. E quanto ás 
outras coufas que mais fe diziam de nós , 
bailava fermos gente eftrangeira , que não 
fabiamos os coítumes da terra , que as gen- 
tes deita qualidade, em quanto faziam as cou- 
fas per ignorância , não deviam fer punidas, 
iènão avifadas do que deviam fazer. Dado 
eíle defpacho , Thomé Pires foi trazido per 
guia té Cantam , no qual caminho poz qua- 
tro mezes e meio de tempo. E pêra que fe 
veja fe o defpacho que efte novo Rey deo 
foi juílo 5 ou não , fegundo o que fe dizia 
de nós ? neíte feguinte Capitulo eferevemos 

pai> 



14 ÁSIA de João de Barros 

parte das coufas , de que elle teve informa- 
ção termos nós feito no porto de Tamou ? 
as quaes eram verdade. E íègundo aquelle 
Príncipe cuida de fi que he Senhor do 
Mundo , e que tcdos lhe hão de obedecer , 
e he ciofo de gente eftrangeira entrar no feu 
Reyno 5 eftas verdades baftavam pêra o que 
fez com Thomé Pires. Quanto mais ter car- 
tas dos Governadores de Cantam , que di- 
ziam roubarmos os navios de eíírangeiros > 
que chegavam ao porto de Tamou, e que 
lhe não queria leixar fazer fuás mercado- 
rias , nem pagar direitos das fuás ; e que 
hum Foão homem principal Official feu do 
arrecadar os taes direitos , indo fallar ao 
Capitão nofíò fobre aquelle cafo , elle o 
mandara, tratar mui mal. Finalmente , diziam 
que comprávamos moços , e moças furta- 
das , filhos de peííbas honradas , e que os 
comiamos aífados , as quaes coufas elles 
criam ferem aííi , porque de gente que nun- 
ca tiveram noticia, e éramos terror, c me- 
do a todo aquelle Oriente , não era muito 
crer-fe que fazíamos eftas coufas , porque 
outro tanto cremos nós deiles , e de outras 
nações tão remotas ; e de que temos pouca 
noticia, 



CA- 



Década III. Livro VI. 15: 

CAPITULO II. 

Do que Simão d* Andrade fez em quan- 
to efteve no porto de Tamou da China , por 
onde houve caufa do alevant amento da- 
quellas partes contra nós : e dos males que 
os nojos paffavam nefle tempo , e depois 
que Duarte Coelho pelejou com os Capitães 
dos Chijs. 

Simão d'Andrade tanto que chegou á Ilha 
de -Tamou , a primeira eoufa em que 
entendeo , como quem efperava fazer feu 
commercio de vagar , foi fazer em terra 
huma força de pedra , e madeira , com fua 
artilhcria pofta nos lugares per onde o po- 
diam offender , por ter fabido que ordina- 
riamente fempre acudiam alii muitos coifai- 
ros a roubar os navegantes 5 e ás vezes vi- 
nham tantos ; e tão poderoíbs , que as Ar- 
madas queElRey da China mandava andar 
naquella paragem , muitas vezes fe acolhiam 
a boas abrigadas fem oufar de os ccmmet- 
ter. Fez- mais , que defronte em hum iiheo 
mandou fazer huma força , dizendo fer pê- 
ra qualquer dos noííos que fizeíTem algum 
infulto , porque viííem os Chijs que caftigo 
fe dava aos que faziam algum mal, ouda- 
mno , na qual força elle mandou enforcar 
hum homem do mar por hum delido que 

fez y 



i6 ÁSIA de João de Barros 

fez , com pregão , e tanta cereinonia , co- 
mo fe fora dentro nefte Reyno. Porque Si- 
mão d 5 Andrade como era cavalleiro de fua 
peflba , mui pompofo , gloriofo , e gaftador ^ 
todas fuás obras eram com grande mageftade , 
e tanta 3 que elle foi o primeiro homem que 
mandou eníinar índios a tanger charame- 
las , e fervir-fe com ellas. O qual modo de 
juftiça os de Cantam houveram por grande 
foltura nofla , e defacatamento á peflba do 
feu Rey 5 e aíli ter feita cafa forte com ar- 
tilheria , como quem queria tomar poffe na 
terra , fem pêra iííb ter licença d 5 ElRey. 
Aconteceo também que em quanto elle aíli 
cíleve 3 vieram algumas náos dos Reynos 
de Sião y de Camboja , Patane , e de outras 
partes , que coftumavam vir fazer alli fuás 
mercadorias , aos quaes Simão d' Andrade 
não confentia venderem primeiro que elle , 
pela pramatica da terra , que éra o primei- 
ro junco que chegaíTe áquelle porto fica- 
va Capitão dos outros que depois vieífem , 
c elle faria primeiro fua carga que os ou- 
tros , e per eíle modo os fegundos com os 
terceiros , o qual cafo pelo modo com que 
fe fez , foi caufa de grande efcandalo. E o 
que mais indignou aos moradores de Can- 
tam > foi ? que defpachado elJe 5 e vindo pê- 
ra a índia , onde chegou a Cochij a tempo 
que Diogo Lopes de Sequeira eílava fobre 

a Ci- 



Década IIL Liv. VI. Cap. II. 17 

a Cidade Dio , acháram-fe menos de Can- 
tam muitos moços , e moças filhos de gen- 
te honrada , os quaes Simão d 5 Andrade , e 
os de íua Armada compravam , não lhe pa- 
recendo que offendiam niflb a Cidade. Por- 
que fabiam que geralmente em todas aquel- 
las partes Orientaes coftumavam os pais , e 
mais venderem os filhos , e os dam em pa- 
gamento y ou penhor > parecendo-lhes que 
áquelles que lhes vieram vender, eram deita 
qualidade , e não furtados per ladroes , co- 
mo eram os que houve. E pofto que por 
lei da terra ifto aíli feja , quando alguma 
peííoa quer vender filho, ha de vir ao Juiz 
denunciar fua neceílidade ; e fe he tal que 
anão pode fupprir outro modo , então ufam 
deíía ceremonia. O Elcrivão de ante o Juiz 
faz huma carta de venda em nome do. pai, 
e da mai que vendem o filho , onde cada 
hum delles , fe o outro he falecido , alíigna , 
que fe são vivos , ambos hão de concorrer 
nefte confentimento da venda. E por final 
da efcritura , o Efcrivão faz o feu Ordiná- 
rio , e o pai do moço borra a palma da 
mão direita com tinta groíTa á maneira da 
que ufam os impreífores acerca de nós , a 
qual poe fobre a carta 5 imprimindo toda 
a figura da mão , e outro tanto faz com a 
planta do pé direito , e a mãi ufa de outra 
ral ceremonia ; no fim da qual , ambos tan- 
Tm.IIL P.iL B to 



18 ÁSIA de João de Barros 

jto hum como outro recebem feu dinheiro 
entregando o filho. E o acrédor per feme- 
lhante modo levando feu devedor ajuízo, 
file aíligna a eícritura como fe dá por ca- 
tivo por tanto que deve ; ou fe he peffoa 
que fe vende a íi mefmo , declarando a quan- 
tia com pauto de tornar á fua liberdade, 
dando a fomma que deve , ou recebe. Ufam 
defte modo de íinal nefte cafo de fe vender , 
por fer natural da peflba , e mais certo , e 
y.erdadeiro qtue os artificiaes , que fe podem 
faííificar , porque não poílam as partes ven- 
didas 5 ou que fe vendem , allegar falfidadc, 
Sobre .eftas coufas que eram paíTadas entre 
os noííos , as quaes fizeram grande cfcan- 
dalo na terra ? fuccedeo a morte d'ElRey , 
como diíTemos. E também fuccedeo chegar 
no porto de Tamou huma náo , que pardo 
defte Reyno , a qual era de D. Nuno Ma- 
nuel Almotacer mór 3 a quem EIRey Dom 
Manuel deo licença que pudeífe armar pê- 
ra aquellas partes , de que era Capitão Dio- 
go Calvo. Em companhia do qual de Ma- 
laca foram outros navios , os quaes por irem 
já tarde , não fe puderam defpachar pêra fe 
partir em companhia de Simão d'Andrade , 
nem menos o junco de Jorge Alvares , por 
haver mifter corregimento. E como per or- 
denança da China , tanto que morre o Rey , 
nenhum ejuangeifo pode eftar na terra , nem 

me- 



Década III. Liv. VI. Ca?: II. 19 

menos em algum porto fob pena de mor- 
te : vinda a nova 3 foi Diogo Calvo , e os 
outros requeridos que fe partifíem dalli , o 
que elles não quizeram fazer , ante fe pu- 
zeram em defensão. E acaufa defta prama- 
tica foi , porque tinha acontecido muitas 
vezes faquearem os naturaes da terra fuás 
próprias Cidades com favor das nãos , e 
navios que eftavam no porto , e depois di- 
ziam que os eftrangeiros o faziam : dos quaes 
infultos por os naturaes não terem que al- 
legar , procedeo fazer hum Rey efta orde- 
nança. Diogo Calvo , Jorge Alvares 3 e os 
outros que com elles eftavam , não o qui- 
zeram fazer por não terem feito fua mer- 
cadoria, de que fuccedeo prenderem Vafco 
Calvo irmão de Diogo Calvo 5 e alguns 
homens com elle ? que andavam em Can- 
tam. E foram também tomados dous na- 
vios que alli vieram ter , hum de Patane, 
e outro de Sião , em que hiam alguns nof- 
fos , que andavam nelles ganhando fua vi- 
da , e vieram cahir em laços de morte y 
porque hoje hum , e á manha outro , toma- 
ram todos três. E as principaes peflbas del- 
2es eram Bartholomeu Soares , Lopo de 
•Góes ; Vafco Alvares , e hum Clérigo per 
íòbrenome Mergulhão , que morreo em 
Jium delles pelejando , e os outros foram 
levados prezos, E como os Governadores > 
B ii e Of- 



no ÁSIA de João de Barkos 

e Officiaes de Cantam começaram goftar dei- 
te roubo 3 favorecidos do tempo , e deíò- 
bediencia noíía , e principalmente por te- 
rem nova quão mal fora recebido Thomé 
Pires na Corte d'EiRey ; mettêram todo feu 
poder pêra tomar efta náo , e fete , ou oito 
juncos , que alli eftavam noíTos. Pêra o qual 
feito fizeram huma Armada de muitas ve- 
las, que os tinha quaíi cercados, depois de 
os terem commettidos algumas vezes no por- 
to onde eftavam , fem oufarem abalroar 
com elles. Eftando os noíTos no qual tra- 
balho , e perigo , em vinte e fete de Junho 
de quinhentos e vinte e hum chegou Duar- 
te Coelho em hum junco feu bem aperce- 
bido , e com elle outro dos moradores de 
Malaca. O qual tanto que foube dos nof- 
fos o eftado da terra, e como o Itáo* que 
era Capitão mór do mar , os commettêra 
já per vezes , quizera-fe logo tornar a fa- 
hir; mas yendo que os noííos não eftavam 
apercebidos pêra iífo , poios ajudar a falvar 
ficou com elles. E principalmente por amor 
de Jorge Alvares , que era grande feu ami- 
go , o qual eftava tão enfermo , que da che- 
gada deJle Duarte Coelho a onze dias fa- 
leceo , e foi enterrado ao pé de hum pa- 
drão de pedra com as Armas defte Reyno, 
que elle mefmo Jorge Alvares alli puzera 
hum anno ante que Rafael Pereftrello fbífe 

áquel- 



Década III. Liv. TL Cap. II. 21 

áquellas partes ; no qual armo que alli eíle- 
ve , elle tinha enterrado hum feu filho , que 
lhe faleceo. E peró que aquella região de 
idolatria coma o feu corpo , pois por hon- 
ra de fua pátria em os fijs da terra poz aquel- 
le padrão de feus defcubrhnentos , não co- 
merá a memoria de fua fepultura , em quan- 
to eíla noíTa eferitura durar. O Itáo Capi- 
tão mor do mar , tanto que foube que eram 
entrados eítes dous navios, por vir já com 
dobrada força de té cincoekta velas , fendo 
as nolfas cinco , três que eítavam (Tantes, 
e duas que trouxera Duarte Coelho , da fua 
chegada a dous dias veio íòbre elles. Duar- 
te Coelho vendo o grande perigo em que 
eítavam , mandou-íhes hum recado , pedin- 
do-lhes que houveíTe por bem não haver 
mais rompimento de guerra , e o paliado fe 
remediaífe com paz , e foliem amigos , e 
outras palavras que aproveitaram tão pou- 
co , que veio logo fobre os noífos. Mas 
aprouve a Deos que fe houveram com elle 
de maneira , que fe apartou bem efcalavra- 
do da noífa artilheria , com morte de mui- 
ta gente , que foi caufa que o commettia 
poucas vezes , fomente eftava fobre elles 
em modo de cerco , por fer lugar tão ef- 
treito , que mais fe ajudavam as noflas cin- 
co velas delles , que o grande número das 
fuás delias , principalmente por a melhor 

ar- 



2,2 ÁSIA de Jo£o de Barros 

artilheria que tinham. E havendo quarenta 
tiias que eílavam neíle trabalho , fobreveio 
Ambrofio do Rego com hum navio , e com 
elle outro junco dos moradores de Malaca. 
E a caufa de elle Ambrofio do Rego não 
fer viíto da Armada do Itáo foi , porque 
ao tempo da fua entrada no porto eílava 
o Itáo em huma bahia , três léguas donde 
os noflbs eílavam , enterrando huns poucos 
de mortos que lhes elles mataram havia três 
dias em huma peleja que tivera com elle. 
Duarte Coelho , Diogo Calvo , e Ambro- 
fio do Rego vendo- fe cercados , e que lhes 
convinha per qualquer modo fahirem-fe dal- 
li , e que Jorge Alvares era falecido, e que 
no feu junco havia pouca gente , por ter já 
perdida alguma , e outra lhes fer preza logo 
no princípio daquelle rompimento quando 
tomaram os juncos , e que nos outros que 
alli eílavam nenhum paíTava de oito ho^ 
mens Portuguezes , e toda a mais gente eram 
eferavos , que mareavam os navios : orde- 
naram de recolher tudo em os feus três na^- 
vios , e commetter a fahida ., como fizeram 
de noite. Peró como o itáo tinha vigia fo- 
bre elles , ao outro dia pela manha os foi 
commetter , c houve neíle commettimento 
huma femelhàn^a do inferno entre fogo, e 
fumo ; porque abalroarem não convinha aos 
ííoíTos , poiMião haverem miíler mais que 

ca- 



Década III. Liv. VI. Cap. II. *$ 

caminho defpejado pêra fua viagem , nem 
elles oufavam de o fazer , por quão quei- 
mados já andavam deite commertimento. 
Duarte Coelho , fobre quem então pendia 2 
ordem daquelle negocio , além de fer ea- 
valleiro de fua peíloa i era homem mui ea- 
tholico , e devoto de N. Senhora ; e por 
efte commettimento dos imigos fer a oito 
de Setembro do anno de quinhentos e vin- 
te e hum , que era a fefta do Nafcimento 
àc N. Senhora 3 encomirsendou a todos que 
tomaíTem o feu appeliido , porque com o 
feu nome eile efperava que os falvaria. E 
como ella coítumava acudir áquelles , que a 
chamam em taes neceíliciades , acudio com 
huma trovoada, que pêra nós foi a popa, 
e aos imigos caufa de íè derramarem , e per- 
derem alguns , com que Duarte Coelho , e 
feus companheiros vieram ter a Malaca no 
fim de Outubro do anno de vinte e hum ; 
onde ellc em louvor de N. Senhora fun- 
dou huma Cafa no outeiro, que eílá fobre a 
fortaleza , que fe ora chama N. Senhora , 
por memoria defte milagre que fez por el- 
les. E porque oltáo, além das perdas que 
d'antes tinha recebido dos nolTos , naquelíe 
dia não fomente recebeo outra da gente 
morta, e navios perdidos da tormenta, mas 
ainda fe houve por injuriado de lhe aíli en- 
caparem- ; foram todas eftas coufas caufa de 



24 ÁSIA de João de Barros 

indignarem mais a elle , e aos Governado- 
res de Cantam de maneira , que chegando 
Xhomé Pires nefta conjunção com o defpa^ 
cho que diffemos , foi logo prezo , e toda 
a fua gente. E não fomente elle , mas qua^ 
tro, ou cinco juncos , que depois da partia 
da de Duarte Coelho vieram ter ao porto 
de Tamou , foram roubados , c a gente moi> 
ta , e outra preza , huns delles eram de Patane y 
e os outros de Sião, por irem nelles alguns 
Portuguezes. E fegundo duas cartas que os 
nofíòs dahi a dous , ou três annos houve^ 
ram deites dous homens , Vafco Calvo ir- 
mão de Diogo Calvo , e Chriftovao Viei- 
ra , que eftavam prezos em Cantam , era 
çoufa piedofa ouvir os martyrios que paA 
fáram , e os roubos , que os Governadores 
fizeram em navios de eflrangeiros , tudo com 
achaque que levavam Portuguezes, Té que 
de cá foi Martim Affonfo de Mello 5 que 
com fua chegada lá , ( como adiante vere* 
mos , ) acabaram de matar alguns dos noA 
íbs que ficavam , e Thomé Pires morreo 
em huma cadea , e o prefente que levou 
foi roubado, E a elle , fegundo diziam as 
cartas dos prezos , foi tomada efta fazenda: 
vinfe quintaes de ruibarbo , mil e feiscentas 
peças de damafco ? cetim , e outro género 
de feda tecida de que elles ufam , e mais 
cie quatro mil lençoes de feda, a que eííes 

çhfo 



Deg. III. Liv. VI. Cap. II. E III. 2jT 

chamam Xópas , e de ouro oitenta taes , 
cada hum dos quaes reduzidos aos taes de 
Malaca , vai huma onça três oitavas e meia 
das noíTas. E mais três arrobas de almifcre 
em pó , e três mil e tantos papos delle , e 
quatro mil e quinhentos taes de prata por 
lavrar , e muitas peças ricas dâquellas par- 
tes de grande eílima , com outra muita fa- 
zenda da que levava da índia , a qual té 
então tinha por empregar. 

CAPITULO III. 

Como Diogo Lopes de Sequeira , ejlanâo em 
Ormuz a requerimento (PElRey , man- 
dou António Corrêa á Ilha Babarem 
fobre EIRey Mocrim , que ejiava 
alevantado contra Ormuz. 

EM a fegunda Década , fallando na li- 
nhagem dos Reys de Ormuz , e íuc- 
cedimento de huns a outros , efcrevemos co- 
mo pola ajuda que Atjoát Rey de Lafah 
deo a Sargol pêra elle reinar em Ormuz , 
houve contrato entre elles , per o qual Sar- 
gol deo a Atjoát a Ilha Baharem , e Cati- 
fe na terra da Arábia , que eram fuás. Sar- 
gol , depois que fe vio pacifico Rey deite 
Reyno Ormuz , como aqueílas duas peças 
que deo a Atjoát eram as melhores em ren- 
dimento de quantas tinha , arrependeo-fe. E 

não 



16 ÁSIA de JoÃo de Barros 

não lhe falecendo razões pêra as tomar a 
Atjoát 5 que já citava em pofle delias , man- 
dou a Raez Nordim íèu Governador do 
Reyno fobre ellas ; e porque daquella. vez 
lhe foram defendidas, feira outra maior Ar- 
mada , EIRey Sargol em peíToa foi nella 5 
e as tomou. Finalmente ficou daqui atea- 
da huma guerra entre eJles fobre efta pro- 
priedade , que ora a pofiuia hum , ora ou- 
tro de maneira , que já de canfados da- 
quella demanda , houve entre elles concer- 
to : Que EIRey de Lafah ficaífe com a pro- 
priedade , e foíTe obrigado pagar de páreas 
a EIRey de Ormuz hum tanto. A conti- 
nuação do qual pagamento durou per mui- 
tos annos , té que tomado per nós o Rey- 
no de Ormuz , EIRey de Lafah fe levan- 
tou com as parcas , com que obrigou a EI- 
Rey Ceifadim , que então reinava, ir fobre 
elle. E efta ida era em tempo que Diogo 
Fernandes de Beja per mandado de Affon- 
fo cPAlboquerque foi bufcar as páreas a 
Ormuz , (como atrás efcrevemos , ) e por 
efta caufa o não achou em Ormuz , e Raez 
Nordim Governador do Reyno lhas entre- 
gou , reinando em Lafah hum Rey per no- 
me Mocrim , filho de Zamel , e neto de 
Atjoát , donde vinha efta aução de Baharem 
pelo contrato que fizera com Sargol , ( co- 
mo diííemos.) O qual Mocrim , além de 

não 



Década III. Liv. VI. Cap. III. 27 

•não querer pagar as páreas a EIRey de Or- 
muz , não confentia que Raez Xaráfo Gua- 
izil (TElRey , e Governador do Reyno Or- 
muz arrecadaíTe as rendas que tinha na 
Ilha Baharem de feu património , que lhe 
importavam mais de cinco mil xarafijs. E 
eftando Mocrim nefta contumácia , e Dom 
Garcia Coutinho Capitão da fortaleza que 
•tínhamos em Ormuz , pedindo elle as pá- 
reas a EIRey Torunxá , que então reina- 
va , dava-lhe por efeufa a rebelião deite 
Mocrim , e as Armadas que contra elle fi- 
zera té ir lá em lua peflba , como elle fa- 
bia , em que tinha feito grandes defpezas. 
,E pois EIRey de Portugal era Senhor da- 
quelle Reyno , e elle era obrigado ao am- 
parar , e defender, e não confentir ferem 
feus tributos , e rendimentos roubados , e 
retidos per alguém , lhe pedia que man- 
daífe dar gente , e navios pêra em compa- 
nhia de huma fua Armada irem tomar Ba- 
harem 5 e Catife. Porque além de Mocrim 
negar as páreas que lhe devia , novamente 
começava intentar huma coufa , que fe foíTe 
avante , feria opprefsão pêra Ormuz , a qual 
já fentia. E o negocio era , que Mocrim 
tinha feito alguns navios de remo per in- 
duftria de alguns Turcos , que pêra iífo ti- 
nha , com os quaes começava roubar alguns 
navios , que hiam , e vinham de Bafçora 

pe- 



28 ÁSIA de JoÃo de Barros 

pêra Ormuz , da qual foltura podia depois 
tomar tanta licença , que occupafle todo 
aquelle eftreito com navios. D. Garcia ten- 
do já informação deite negocio , e vendo 
como EIRey de Ormuz desfalecia na paga 
das páreas, que cada anuo era obrigado pa- 
gar , por eíta , e outras rendas das terras 
firmes lhe não acudirem ; ordenou de lhe 
dar a ajuda que adiante veremos , que fez 
pouco , ou nada , com que Mocrim ficou 
com maior oufadia. Em tanto , que quando 
Diogo Lopes de Sequeira chegou a Or- 
muz , onde foi ter a quinze dias de Maio 
de quinhentos e vinte e hum , depois que 
fe partio de Dio , (como atrás fica , ) que- 
rendo eile pôr os OíKciaes Portuguezes na 
Alfandega , e ordenar outras coufas , que 
EIRey D. Manuel mandava .que Azeite , 
(como adiante efcrevemos , ) huma das cou- 
ías principaes com que lhe davam no rof- 
tro pêra não poder pagar eílas parcas , era 
o levantamento deite Mocrim. Dos quaes 
queixumes forçado eile Diogo Lopes en- 
tendeo logo em remediar efte mal. Pêra o 
qual negocio eile Rey offereceo duzentas 
terradas , que são navios de remo, e três 
mil homens Parfeos , e Arábios , da qual 
frota havia de ir por Capitão Raez Xarafo 
Regedor do Reyno ; porque além de lhe 
competir eíta ida por fer huma coufa tão 

prii> 



Década III. Liv. VI. Cap. III. 29 

principal , elle a requereo por também to- 
mar conclusão no feu que lhe Mocrim im- 
pedia. Ordenada huma Armada de fete ve- 
las , deo Diogo Lopes de Sequeira a capi- 
tania mor a António Corrêa , e os outros 
Capitães eram Ruy Vaz Pereira , Gomes de 
Souto-maior , João Pereira , Álvaro de 
Moura , Fernando Alvares Cernache , e ou- 
tro de alcunha Pinto. Em a qual Armada 
levaria té quatrocentos Portuguezes , de que 
os cento delles eram homens Fidalgos , e 
Cavalleiros , criados d'E!Rey , e parte da 
outra gente era de béfteiros , e efpingardei- 
ros , e os mais de efpada , e lança. Partido 
António Corrêa a quinze de Junho via de 
Baharem com bom tempo , aos dous dias 
faltou com elle vento tão furioíò , e con- 
trario, que lhe efpalhou toda a Armada de 
maneira , que aos vinte e hum dias elle fe 
achou fomente com João Pereira , toda a 
outra frota correo a diverfas partes. E quan- 
do elle fe determinou , ( como adiante ve- 
remos , ) fahir em terra , que foi a vinte e 
fete de Julho , huma das fuftas era arribada 
a Ormuz , e a outra chegou , como dizem , 
ao atar das feridas , porque as houve ahi 
boas nefte cafo , e das terradas de Xarafo 
faleceram muitas. E não era muito fer ifto 
aífi , por ellas ferem coílumadas bufcar ne£ 
•tes taes tempos boas abrigadas 7 não fómen*. 

te 



30 ÁSIA de JoÃo de Barros 

te por razão do vento , mas de pelejar, e 
mais contra Mouros, muitos dos quaes hiam 
!á contra fua vontade , e affí o moítráram 
elles no commetter do cafo , como vere- 
mos , e muito mais tinham moftrado da pri- 
meira que lá foram per mandado de Dom 
Garcia Coutinho. O qual, (como atrás fi- 
ca,) a requerimento do meímo Rey de 
Ormuz , e de Raez Xarafo , mandara Go- 
mes de Souto-maior na galé em que anda- 
va , e Fernando Alvares Cernache na fuíla , 
Rey Varella em outra , com os quaes iriam 
té cento e vinte homens , e em lua compa- 
nhia o meímo Raez Xarafo com quarenta 
terradas , em que levaria té mil e duzentos 
homens. E fendo tanto avante como o Ca- 
bo Verclaílam , que he na terra firme da 
Perfía , pêra dahi atraveffarem a Baharem , 
deo-lhe também hum tempo, com que to- 
da a Armada de Raez Xarafo arribou a 
•Ormuz. E fomente huma das fuás terradas 
com dous cavallos foi ter a Baharem com 
Gomes de Souto-maior, o qual eíleve na- 
quelle porto treze dias efperando pelos ou- 
tros dous Capitães , e aííi por Raez Xara- 
fo. E quando vio que não vinham, man- 
dou tirar fora hum cavallo , e com té fef- 
denta homens lavradores , e féis Portugue- 
ses efpingardeiros , entrou dentro pela Ilha 
té huma mefquita P que feria da ribeira hu~ 

ma 



Década III. Liv. VI. Cap. IIL 31 

ma boa légua ; por elle dizer aos Mouros 
que defejava dar huma viíla aoíitio da ter- 
ra, fem achar coufa que lhe défie prefum- 
pção de muito atrevimento , ou defconfian- 
ça dos Mouros que levava ; tão pacífica e£ 
tava a terra , e tão defejoía de íer fubdita 
a EIRey de Ormuz. E a caula de a terra 
eftar tão fó que lhe ifto fez commetter , era 
por EIRey Mocrim fer ido em romaria a 
Meca viíitar feu logro o Xeque delia , e 
tinha levado comíigo toda a gente nobre 
da Ilha por duas caufas : a primeira , por- 
que não confiava muito nelles , por lhe ver 
huma inclinação a EIRey de Ormuz, e te- 
mia que em quanto elle fofle a Meca, que 
lhe deflem avifo , com que elle mandaíle 
tomar pofle da terra , e quando elle Mo- 
crim tornaíTe, que lha defenderiam. E le- 
vando-os comíigo , era em modo de reféns y 
por lhe ficarem fuás mulheres , e filhos na 
terra , e trabalhariam por fe tornar a jrsSá* 
tuir no feu , fe EIRey de Ormuz mandaíle 
metter gente na terra pêra lhe impedir a 
elle Mocrim a tornada. A fegunda caufa 
era , que o principal caminho que os Par- 
feos fazem , quando vam em romaria a 
Meca , e aífi os Arábios que habitam na- 
quellas Comarcas de Lafah , nefta mefma 
Cidade fe vem ajuntar em cáfilas , pêra atra-» 
veíFaremi aquelle defeito de Yaman. A qual 

ca- 



32 ÁSIA de João de Barros 

cáfila muitas vezes he comrnettida dos Alar-* 
ves que paftam aqueíle defeito , que são 
de huma cabilda chamada Bengebra , te- 
mendo elle Mocrim que poderia deíles Alar^ 
ves receber algum damno , quiz ir podero- 
famente. Aííi que por cada huma deitas cau- 
fas , ou por ambas 5 não quiz leixar na ter- 
ra alguma gente nobre ; e fe Raez Xarafo 
com fua Armada chegara , e os outros nof- 
fos navios , fem dúvida ella fora tomada; 
mas parece que não era vinda fua hora. 
Gomes de Souto-maior neíta jornada não 
ganhou mais que a feguridade com que 
entrou na Ilha , pêra faber dar razão a 
D. Garcia Coutinho do que havia nella , e 
do modo da terra, pêra com efta informa- 
ção poder prover no cafo , quando outra 
vez lá mandaífe , e com eíle recado fe tor- 
nou a Ormuz. EIRey Mocrim , além do cui- 
dado que tinha de fe armar de maneira , 
com que fe pudeífe defender d'ElRey de 
Ormuz , trabalhava também por fe fazer fe- 
nhor daquelle eítreito , com trazer muitos 
navios no mar , e deita vez que veio de 
Meca trouxeffe alguns Turcos Officiaes de 
fazer furtas , e outros que andaífem nelías , 
por os Alarves Arábios , de que elle era 
fenhor , não faberem das coufas do mar. E 
quando chegou a Meca , e achou nova do 
que Gomes de Souto-maior fizera > e que 

fe 



Década III. Liv. VI. Cap. III. 33 

lè a Armada que levava chegara junta , fe- 
gundo a terra ficava , fem dúvida fe fizeram 
ienhores da terra , deo-lhe efta ida grande 
aviíb pêra o que ao diante havia de fazer. 
E pofto que logo começou a fe prover de 
armas , pólvora , artilheria , e outras coufas 
neceíTarias a feu intento , quando foube que 
Diogo Lopes era em Ormuz > dobrou to- 
das eítas munições , e forças : confiderando 
que íè D. Garcia , que era Capitão de Or- 
muz , mandara quarenta terradas , e três 
navios Portuguezes , e tanta gente como le- 
vavam , que faria o Governador da índia. 
Aífi que deitas fuás coníiderações , e da no- 
va que lhe logo foi de Ormuz , tanto que 
António Corrêa fe fez preftes , a grão pref- 
la começou de fe fazer forte ; e ainda pêra 
dobrar mais nçftas forças , chegou António 
Corrêa da maneira que diíTemos. E o aper- 
cebimento com que efle Mocrim o eftava 
efperando , eram doze mil homens , em que 
entravam trezentos de cavallo Arábios , e 
quatrocentos frecheiros Parfeos , e vinte Ru- 
mes efpingardeiros , com outros da terra 
a que elles tinham enfínado efte ufo. E no 
porto diante da Cidade Baharem , de que 
a Ilha tomou o nome, onde le podia des- 
embarcar , por não ter outro porto , tinha 
feito hum entulho de dez palmos de largo, 
e as faces defte entulho eram de pés de 
Tom. III. P.il Ç pai- 



34 AS TA de João de Barros 

palmeiras , tudo tao alto , e forte , que fup- 
prio por hum muro de pedra, e cal mui for- 
te. E em dous , ou três lugares , por o com- 
primento deite muro fer mui grande , fica- 
vam ferventias pêra a ribeira , as quaes tan- 
to que António Corrêa furgio no porto, 
logo elle mandou fechar. È per cima do 
muro nos lugares de fufpeita poz toda a 
artilheria que tinha , e repartio aquelle com- 
primento de muro em capitanias , tudo or- 
denado como homem induítriofo , e bom 
Capitão , e cavalleiro que era , porque to- 
das eitas coufas elle moílrou de li no dia 
que António Corrêa o commetteo. E por- 
que convém pêra melhor entendimento def- 
te feito , e de outros que ao diante fucce- 
dêram, queremos aqui dar noticia deita Ilha 
Baharem , e das fuás coufas, primeiro po- 
rém do maritimo que jaz dentro deite mar 
Parfeo , porque o não temos ainda feito ; 
e quando dêmos geral noticia das outras 
coitas da Tndia , de induítria leixámos a re- 
lação deile pêra eíte lugar. 



CA- 



Década III. Livko VI. 3? 

CAPITULO IV. 

Em que fe defcreve todo marítimo , que o 

mar Parfeo contém em fi : e afji do Jl- 

tio , e fertilidade da Ilha Babarem. 

ESte mar , a que chamamos Parfeo , jaz 
entre duas terras , hurna que lhe fica ao 
Ponente chamada Arábia , e a do Levante 
Parfea , e tomou mais o nome deíla , que 
da outra , porque o marítimo da Perfia he 
bem povoado. E ainda que não íeja de tão 
notáveis , e célebres Cidades ccmo ella tem , 
são villas, e nobres povoações, que fe fer- 
vem delle ; e do interior da meíma Períia 
alguns rios notáveis vem defcarregar fuás 
aguas nelle , e a terra da Arábia não tem 
alguma coufa delias. Porque começando do 
Cabo chamado Moçandam , a que Ptolo- 
meu chama Afaboro promontório , que íí- 
tua em vinte e três gráos e dous terços de altu- 
ra do Norte , e nós em vinte e féis , té o fim 
defte mar , que he na foz dos rios Eufrates , 
e Tigre não ha em toda eíla cofia mais 
que quatro povoações. Logo em dobrando 
eíle Cabo Moçandam jazem eíles três , Ca- 
rauzar, e Gaçapo, que eftam mui vizinhos 
hum ao outro , ambos Aldeãs de pefcado- 
res de algum aljofre pouco que alli pef- 
cam ,ea villa Julfar , que he mais povoada ^ 
G ii , e de 



36 ÁSIA de João de Barros 

e de maior peícaría , e por iíTo rende a 
EIRey de Ormuz o dobro dos outros. A 
quarta povoação he a villa de Catifa 5 que 
.eítá defronte da Ilha Baharem obra de dez 
léguas , que fegundo a íituaçao delia pare- 
ce fer aquella , a que Ptolomeu chama It- 
mar , que eítá fronteira á Ilha chamada per 
elle Ichara , que por fer a maior, e mais 
junta á terra Arábia y digamos que feja a de 
Baharem , pofto que elle íitue o lugar, e 
a Ilha em altura de vinte e cinco gráos da 
Norte, e nós em vinte e féis e hum quar- 
to. Todo o outro marítimo , fob reveren- 
cia, de quantas Cidades y villas, lugares y 
portos , e rio Laris y que elle Ptolomeu 
alli íitua , tudo he hum, areal o mais defer- 
to , e cíteril do que Arábia tem , a qual 
parte os Arábios chamam Yaman. E por 
razão da eílerilidade deita coita deram ao 
mar a denotação mais de Parfeo , que Ará- 
bio 5 porque da parte da Perlia tem os lu- 
gares que veremos. Leixado o lugar de Ia£> 
que , que he a mais notável coufa que aquel- 
la cofta tem y ainda que eítá fora da gar- 
ganta daqueile eítreito , o qual nós Íituam09 
em vinte e quatro gráos largos da parte da 
Norte , e Ptolomeu em vinte e dous e 
meio , chamando-lhe Carpella promontório t 
cindo pêra dentro do eftreito /entramos na 
terra chamada Mogaítam , que quer dizer 

pai- 



Década III. Liv. VI. Ca?. IV. 37; 

palmar , por o grande número de palmei- 
ras que ha per toda aquella Comarca , on- 
de ha muitos lugares pequenos, de queEI- 
Rey de Ormuz tem rendimentos. No qual 
Mogaftam hoje apparece a memoria da Cida- 
de Ormuz que alli efteve , a que Ptolomeu 
chama Armuza , que fe trafpaffou na Ilha 
Geru , que he a que hoje chamamos Or- 
muz , pola caufa que já atrás diíTemos fat- 
iando no fundamento defte Reyno. E co- 
mo a mais deita terra Mogaftam lie alaga- 
diça, e doentia ao longo da coita, não tem 
lugares fenão ao modo de Aldeãs , de que 
os principaes são eíles ; Cuxítach , Chacoá , 
Braemi , que he o porto de Mogaftam , e 
Ducar , Angom , defronte dos quaes eftá a 
Ilha Geru , em que eftá íítuada a Cidade 
Ormuz , que fera da terra firme té quatro 
léguas pouco mais , ou menos , junto da 
qual Ilha eftá outra mui pequena per no- 
me Larec. E tornando á coita , corre ao 
longo delia a Ilha Queixome, que tem de 
comprido vinte léguas , em que ha alguns 
lugares pouco notáveis por fer mui doen- 
tia. E do fim deita Ilha té o Cabo chama- 
do Nabam , que fera diftancia de trinta e 
féis léguas , a qual coita de terra os natu- 
raes chamam Doleftam , jazem eftas Ilhas 
de nome Pilot , Caez , que foi já cabeça 
do Reyno , e fe desfez com a fundação da 

Ci- 



38 ÁSIA de J0X0 de Barros 

Cidade Ormuz , (como atrás efcrevemos,) 
e adiante eílá Lara. E defle Cabo Nabam 
té a viila Rexet , onde entra o rio Rodon , 
fe faz a terra curva á maneira de enfeada , 
na qual diílancia , em que haverá quarenta 
léguas , eílam eílas villas , Bedican , Chiláo , 
e o Cabo de Verdeítan. E da villa Rexet 
té a foz do rio Eufrates , que íerá efpaço 
de cincoenta e oito léguas , eílá a Ilha Car- 
gue , notável neíte mar y que diílará da ter- 
ra firme cinco léguas , e da villa Rexet 
quinze ; e mais adiante feguindo a cofia, 
Mahar , onde entra hum rio , e depois Dir- 
táo , Ancuza , Turáco , e o rio Charom. 
Leixando o interior que jaz das fozes do 
rio Eufrates , a que os Parfeos chamam 
Fiat, e ao Tigre, que fe nelle mette, Digi- 
lá ; e começando na Ilha Murzique, que 
faz ao rio duas Bzes , a qual Ptolomeu 
chama Teredon , e fítua em trinta e hum 
gráo , e nós em trinta eícafTos , torna a coi- 
ta a voltar pêra o Sul com nome da terra 
Arábia. E o epitheto de deferta bailava pê- 
ra fe faber não fer tão habitada como elle 
Ptolomeu a faz: , por a terrra em li fer 
tal ; que mais fe pode dizer paílada , que 
habitada • e ainda efti partes he tão areen- 
ta , e tal \ que não ,ha ahi paílo pêra aves , 
qinnto mais pêra alimárias . de maneira , que 
daqui té a villa de Catife , que eílá defron- 
te 



Década III. Liv. VI. Cap. IV. 39 

te da Ilha Baharem , e delia té o Cabo 
Moçandam não ha mais povoações das 
que diíTemos. O que a terra tem em íí, e 
o modo de feu viver , em os Livros da 
noíla Geografia fe verá , tirado da Geogra- 
fia dos próprios Arábios > e Parfeos , dos 
quaes nós temos cinco Livros , dous em a 
lingua Arábia , e três na Parfea. Fica ago- 
ra pêra fabermos deite mar Paríeo eftar 
nelle a Ilha Baharem , a conquifta da quai 
nos fez dar noticia do marítimo delle , a 
qual terá em roda pouco mais , ou menos 
trinta léguas , e na maior longura delia ha- 
verá pouco mais de fete léguas , e djílará 
da Ilha Ormuz cento e dez. E na terra a 
ella fronteira , dentro no fertao vinte lé- 
guas pouco mais , ou menos , eftá a Cidade 
Láfath , a qual com íeu contorno de terra 
he a mais fértil , e mimo ta que tem toda 
aquella parte chamada Yaman , e de que 
Mocrim , fobre quem António Corrêa hia, 
( como diflemos , ) era Rey. O fitio delia 
Ilha em íi he terra baixa , e de grandes 
palmeiras, e terra mui húmida, e viçofa; 
porque em qualquer parte que cavam , acham 
logo agua , mas he çalobra , donde fe cau- 
fa fer mui doentia , e principalmente em 
certos mezes do anno , que sáo do fim de 
Setembro té Fevereiro ; e he ás vezes táo 
peílenencial neíte tempo > que a mais da 

gen- 



40 ASIÁ de JoXo de Barros 

fjente nobre neítes mezes vam eftar na vil- 
a Catife, e pelo marítimo de Arábia. O 
maior rendimento que efta Ilha tem da no- 
vidade delia , he de tâmaras , por ferem 
tantas , que daqui fe levam pêra muitas par- 
tes, e ha delias grande diverfidade, porhu- 
mas ferem de huma forte, e outras de ou- 
tra ao modo que cá vemos nos figos , e 
peras. Além deita fruta , tem quaíi toda a 
nofía de Hefpanha , principalmente a orta- 
da , aífi como romans , pêíTegos , figos , e 
todo generq de hortaliça. Os moradores 
delia todos são Mouros Arábios , e a prin- 
cipal povoação que tem , he huma Cidade 
chamada Baharem , que deo o nome da 
Ilha ; e todalas outras povoações , que são 
mais de trezentas, não tem a policia detta. 
A qual he de boas cafas de pedra, e cal , 
fobradadas > com eirados , varandas , e ja- 
nellas , principalmente os paços d'E!Rey, 
que querem imitar a policia dos Parfeos, 
por a terra fer mui rica. Cá ella tem duas 
coufas , que a fazem fer frequentada, afli 
da Arábia, como da Períía: a primeira , a 
novidade dás tâmaras , que naquellas par- 
tes he como acerca de nós o mantimento 
do figo paíTado do Algarve, que corre pe* 
ra diverfas partes; e a outra coufa que a 
mais nobrece he a pefearia das pérolas , e 
aljofre, que fe alli peitam, que he o me- 
lhor 



Dec. HL Liv. VI. Cap. IV. e V. 41 

íhor de todo aquelle Oriente , aífi em gran- 
deza , como em fer Oriental , principalmen- 
te as pérolas. Mas não he tamanha eíta pef- 
caria como a da Ilha Ceilão da índia , e 
Aynam da China , as quaes três Ilhas são 
os principaes mineiros de todo aquelle Orien- 
te , onde fe aquella oílra cria. Das quaes 
peícarias, e aíli das que ha nas Antilhas de 
Caítella , tratamos particularmente em os 
jioíTos Livros do Commercio 3 no Capitulo 
das Pérolas , e Aljofre v> como já em outra 
parte apontámos. 

CAPITULO V. 

Como António Corrêa fahio em terra 
na Ilha Babarem , e pelejou com EIRey 
Mocrim , na qual peleja foi ferido de hu~ 
ma efpingarda , que caufou haverem os nof- 
fos vitoria y e depois foi tomado o feu cor- 
po já morto. 

ANtonio Corrêa, tanto que os navios 
de fua Armada chegaram , per os 
quaes efperou féis dias primeiro quefeajun- 
taíTem com elle , teve confelho com os Ca- 
pitães no modo que teriam ao defembar- 
car , pêra commetter aquella força , que EI- 
Rey Mocrim tinha feita , a qual elle mais 
fortaleceo do que efcrevemos , em quanto 
António Corrêa fe deteve efperando polas 

ou- 



42 ASIÀ de JoXo de Barros 

outras velas que lhes faleciam. Na qual con- 
fulta fe aíTentou que commetteflcm aquella 
força per duas partes , elle per huma com 
o corpo de toda a gente Portuguez , e Raez 
Xarafo com os feus Mouros per outra; 
porque como eram muitos ? e mais gente 
não mui fiel , pareceo coufa mais fegura ca- 
da hum pelejar a lua parte. Peró nunca po- 
de acabar com Raez Xarafo que foíTe co- 
mo elle António Corrêa queria , nem me- 
nos em o dia que elle defejava , que era 
dia do Apoílolo Sant-Iago, por íer Patrão 
de Hefpanha, cujo appellido fe invoca no 
commetter batalha contra Mouros. Final- 
mente elle António Corrêa paíTado o dia 
de Sant-Iago , dahi a dous , que eram vinte 
e fete de Julho , fe embarcou em todolos 
bateis , tendo aflentado com Raez Xarafo 
que faria outro tanto , e aíTi o fez , não 
que foííe romper nos Mouros , mas foi-fe 
por em hum tefo donde pudeffe fegura men- 
te ver o fucceífo da batalha, pêra fe deter- 
minar no que faria. António Corrêa , por- 
que ir commetter de frecha a força dos 
Mouros no lugar onde fe defembarca , era 
muito maior perigo por razão da artilheria 
que tinham alli aíTefíada , e mais podiam- 
Ihe impedir a fahida , quiz que foíTe hum 
•pouco mais acima , pêra vir ão longo da 
força commetter per onde a gente não fof- 

fe 



Década III. Liv. VI. Cap. V. 43 

fe tao aventurada. E pofto que niííb teve 
bom refguardo no lugar que tomou , ainda 
que não foi de tanto perigo , foi de mais 
trabalho ; porque como o mar onde elle fa- 
hio efpraiava muito por fer alli mui baixo , 
a toda a gente lhe dava a agua pola coixa 
de maneira , que em fahindo , hiam mais 
pêra fe pôr a efcorrer da agua , que correr 
o caminho, que logo tomaram apreíTado: 
feu irmão Aires Corrêa com cincoenta ho- 
mens , a que elle deo a dianteira , e elle 
António Corrêa ficou na trazeira com todo 
o outro corpo da gente , que feriam té cen- 
to e fe tenta. E porém primeiro que fe apar- 
taífe dos bateis, leixou nelles toda a gente 
do mar , e por Capitão delia Triftao de 
Caílro , ao qual mandou que fe puzeíTe de 
largo com os bateis , e que em nenhuma 
maneira recolheííe peífoa viva , fenao per 
fcu mandado. Aires Corrêa como era ho- 
mem mancebo , defejofo de honra , e hia 
acompanhado de alguns Fidalgos de fua 
idade , que também a defejavam ganhar , e 
mais pois lhe davam aquella dianteira , met- 
teo-fe tão rijamente com os Mouros , co- 
mo chegaram ao lugar do combate , que 
alíi com béílciros , e efpingardeiros que le- 
vavam , como ás lançadas feriram , e derri- 
baram muitos Mouros. Porém eíla obra 
também foi á cuíta do feu fangue , receben- 
do 



'44 ÁSIA de JoXo de Barbos 

do logo Aires Corrêa duas frechadas , é 
aíli os outros que com elle hiam também 
foram encravados ; na qual fúria fobreveio 
António Corrêa com o corpo de toda a 
gente. O qual tanto que deo Sant-Iago , 
aífi obrou o ferro de todos , que a pezar 
dos Mouros elles fe fizeram fenhores de al- 
guma parte das tranqueiras ; e feguindo mais 
avante , começaram os Mouros defamparar 
fua defensão , e recolhcr-fe pêra a Cidade, 
O qual retraimento pareceo em alguma ma-* 
neira artificio ; porque como elles eram mui- 
tos aífi de pé, como de cavallo, e não ha- 
via hum dos noíTos pêra cento delles , fize- 
ram tão grande praça , que pareceo a An- 
tónio Corrêa que os levava de vencida. Se- 
não quando EIRey Mocrim fahio com hum 
corpo de gente de cavallo , e aífi aperta- 
ram com os noíTos , qtie lhes fizeram per- 
der o lugar que tinham tomado , e os lan- 
çaram pelas tranqueiras fora de maneira, 
que os noíTos ficavam entre elles , e o mar. 
E como era lugar mais largo , acudio tan- 
to pczo de gente fobre os noíTos , que an- 
davam mui mal tratados : cá não fe apro- 
veitavam tão bem das fuás armas, como os 
Mouros. Os quaes traziam humas lanças 
de trinta palmos , que eram maiores hum 
terço , que as dos noíTos de maneira , que 
afeufalvo davam quatro lançadas primeird 

que 



Década III. Liv. VI. Cap. V. 4? 

que recebeíTem huma ; e nefte aperto dei- 
las , e aíli de muita frechada , em que os 
Parfeos são déítros , como os Arábios no fe- 
rir de lança , foi derribado , e mui mal fe- 
rido Aires Corrêa. E dando a nova a feu 
irmão António Corrêa , dizendo que era 
morto , refpondeo : Avante , amigos , lei- 
xa-o que acaba em feu officio. E verdadei- 
ramente elle acabara alli feus dias , fenão 
fora per Aleixo de Soufa Chichorro filho 
de Garcia de Soufa, e per Ruy Corrêa fi- 
lho de Jorge Corrêa do Pinheiro , e outros 
que eram com elle , os quaes o defenderam 
que o não acabaíTem de matar , já com dez , 
ou doze feridas ,. andando eiles também ver- 
tendo o feu fangue de outras que alli hou- 
veram* A efte tempo em ambas as partes 
havia aíTas trabalho , porque os noflòs fe 
viam mui perfeguidos do grande número 
dos Mouros , e das compridas lanças que 
traziam , e frechadas que pareciam exames 
de aguilhões de morte. Eelles também an- 
davam de maneira , que eram mortos dous 
cavallos debaixo das pernas a EIRey Mo- 
crim, fem fer conhecido em mais, que fer 
hum dos que melhor pelejavam na diantei- 
ra : com o qual trabalho houve de ambalas 
partes reter-fe cada huma em íi pêra tomar 
algum alento. Porque além do trabalho do 
ferro , era tão grande a calma, que anda- 
vam 



46 ÁSIA de João de Barros 

vam os homens aífogados fem alento al- 
gum , com o qual tempo de trégua Antó- 
nio Corrêa muito folgou , não tanto por 
dar vida ahuns, quanto por não acabarem 
de morrer naquella praia outros , que fe 
não podiam ter nas pernas do muito fan- 
gue que fe lhes hia , os quaes logo mandou 
recolher aos bateis , e a feu irmão Aires 
Corrêa com dks. Recolhida efta gente fe- 
rida , e feito António Corrêa em hum cor- 
po com a outra , deo novamente Sant-Iago 
nos Mouros ; e foi a coufa aíli favorecida 
de Deos , que começaram elles de fe re- 
traer ; e porém não perdendo o campo em 
rnodo de fugida , mas como gente attenta- 
da ■ , e que não oufava defapparecer d'ante 
os olhos de leu Senhor. O qual como era 
homem que entre os Alarves tinha fama de 
cavalleiro , e queria moftrar que o era em 
ferir os noííos , oufadamente fe punha na 
dianteira 3 com que hum dos noífos efpin-* 
gardeiros veio a tentar naquella ília foltu- 
ra , fem faber quem era , lhe deo per hu- 
ma coixa que lha paífou , com que fe elle 
fahio daquelle conflito , e fúria da peleja , 
e em fua companhia alguns Mouros prin- 
cipaes que andavam em fua guarda, A ou- 
tra gente commum , como foube da caufa 
da ida d'ElRey , começou logo largar o 
campo > e de pouco em pouco vieram de 

to- 



Pecada III. Liv. VI. Cap. V. 47 

todo a virar as cofias a quem melhor cor- 
ria. Aos quaes António Corrêa não quiz 
feguir j porque ainda que em todos havia 
boa vontade , as pernas os não ajudavam : 
cá aléfti do trabalho de pelejar , era tanta a 
calma , que ella bailava pêra os deter, e 
não feguir mais a vitoria. Raez Xarafo 
quando vio que era por nós a vitoria , fa- 
hio com ília gente das terradas , moftrando 
que té então não pudera mais fazer por a 
íua gente fer muita , e outras defeulpas de 
homem manhofo , que primeiro quiz ver o 
termo em que os noflbs ficavam pêra fe 
determinar. António Corrêa , pofto que en- 
tendeo o feu modo , e cautelas > diífimulou 
com elle , recebendo-lhe fuás defeulpas , e 
mandou que foltafle fua gente no alcance 
dos imigos. Mas clle tinha mais olho no 
roubo da Cidade , que ir trás elles , e co- 
meçou de entrar nella, o que lhe António 
Corrêa não confentio té primeiro fe fazer 
fenhor das cafis d'ElRey Mocrim , que 
eram mui boas , onde elle António Corrêa 
íè poz a fazer Cavalleiros áquelles que o 
quizeram fer , por o feito fer mui honra- 
do, e dos bem pelejados daquellas partes , 
em que morreram dos noííos féis , ou fete , 
dos quaes hum delles era Jorge Pereira , e 
aíli houve muitos feridos. E dos Mouros , 
além d'E!Rey Mocrim > que morreo dahi a 

três 



48 ÁSIA dê J0X0 de Barros 

três dias , na mefquita onde foi ter Gomes 
de Souto-maior , ( como atrás diíTemos , ) 
morreo o Governador daquella Ilha Baha- 
rem , e cinco, ou féis Mouros honrados, 
a fora outros de cavallo , que feriam per 
todos té vinte e cinco , e da gente commum 
mais de duzentos , tudo feito em efpaço de 
duas horas. António Corrêa , entregues as 
cafas d'ElRey a Raez Xarafo, recolheo-íè 
ao mar , e mandou primeiro pôr fogo a 
mais de cento e quarenta terradas, aífi das 
que havia na terra pêra a pcfcaria do aljo- 
fre , como pêra ferviço da Cidade ; e não 
mandou queimar huma galeota que eftava 
em eftaleiro , que os Turcos tinham feita , 
porque a quiz levar a Ormuz ; e ao outro 
dia que a mandou lançar ao mar , que não 
foi com pequeno trabalho , lhe poz nome 
Mocrim em memoria d'ElRey que a man- 
dara fazer. E quando chegou ao galeão y 
foi huma piedade ver como a gente jazia 
muita delia ainda por curar ; e pofto que 
elle também houvera miíler fcr curado de 
huma ferida que levava em hum braço , 
não defcançou té mandar curar a todos. E 
não foi nada o trabalho daquella primeira 
cura pêra o que tiveram aquella noite com 
hum pouco de fogo , que fe accendeo no 
galeão : a revolta do qual fez levantar a to- 
dos > e a muitos dellcs quebraram os pon- 
tos y 



Década III. Liv. VI. Cap. V. 49 

tos , e ao outro dia lhos tornaram a cozer. 
Havendo já quatro , ou cinco dias que era 
paíTado efte da vitoria 5 mandou Raez Xa- 
rafe dizer a António Corrêa , que elle tinha 
fabido como Mocrim aquella noite paflada 
falecera , e os feus determinavam levar o feu 
corpo a enterrar a Lafah , ou Catif aquella 
noite feguinte , que lhe pedia houveíTe por 
bem de elle mandar a Raez Sadradim feu 
parente com algumas terradas pêra na tra- 
veíla da Ilha á terra firme o irem tomar, 
e lhe fer cortada a cabeça publicamente , o 
que lhe foi concedido. E foi efta ida feita 
tão preíles , que chegaram a tempo que to- 
maram o corpo de Mocrim , e foi-lhe tira- 
do a cabeça , e esfolada , e cheia de algo- 
dão , tudo feito tão fubtilmente pelos Mou- 
ros , que foi levada em íinal de vitoria a 
EíRey de Ormuz per Balthazar PeíToa ? que 
António Corrêa mandou em huma fuíla a 
Diogo Lopes de Sequeira. O qual com pa- 
recer d'ElRey de Ormuz fe fez na praça 
da Cidade huma fepultura , em que ella foi 
mettida com dous letreiros 5 hum em noífa 
linguagem Portuguez, e outro em Parfeo, 
em que fe relatava o cafo como paííou. 
Com a morte d ? EíRey Mocrim , e pregões y 
que fe lançaram pela Ilha de Baharem , no- 
tificando como aquelles, que não fevieílem 
metter debaixo da obediência d'E!Rey de 
Tom.IU. P.il. D Or- 



5o ÁSIA de João de Barros 

Ormuz , fe procedia contra elles como t re- 
dores , hum fobrinho d'ElRey Mocrim cha- 
mado Xech Hamed , debaixo do governo 
do qual toda a gente da Ilha eítava, e affi 
a Villa Catif , mandou a António Corrêa 
dous cavallos de pre lente em lugar de vi- 
fitaçao , dizendo , que elle ? e toda a gente 
daquella Ilha, e affi da Villa Catif, defe- 
javam metter-fe debaixo da obediência d'El- 
Rey de Portugal; que fe lhe déífe fèguro , 
viria a elle tratar algumas coufas pêra ha- 
verem effeito as que lhe mandava dizer. Da- 
do efte feguro per António Corrêa , veio a 
elle , e affentou que fe déífe paífagem pêra 
a terra firme de Arábia a elle , e todolos 
Turcos , e eftrangeiros , affi Arábios , como 
de qualquer outra nação que alli eram vin- 
dos eiir favor d^ElRey Mocrim feu fobri- 
nho , e elle lhe entregaria a Ilha , e a Villa 
Catif pacificamente lem mais trabalho al- 
gum. O que lhe António Corrêa concedeo 
com tanto , que não levaffem armas , nem 
cavallos comfigo , fomente fuás peíTòas , e 
qualquer outra fazenda que tiveflem ; e por 
ferem contentes diífo , depois de a terra fir- 
me poíla em noífo poder , Raez Xarafo nas 
fuás terradas paflbu da outra banda da Ará- 
bia todos aquelles que fe quizeram ir, E 
per derradeiro elle meG.no foi tomar pofle 
da Villa Catif, onde eíleve per alguns dias 

té 



Década III. Liv. VI. Cap. V. 5-1 

té fe ir pêra Ormuz, leixando alli alguma 
gente fua de guarnição. E também leixou 
António Corrca por Governador de Baha- 
rem a hum homem velho , e horfrado per 
nome Bucar , Arábio de nação, com que 
os da terra ficaram contentes , porque fof- 
frem mui mal ferem governados por gente 
Pariea polo ódio que entre íi tem. E de- 
pois que António Corrêa foi em Ormuz, 
mandou Diogo Lopes pêra alli João Boto 
moço da Camará cPElRey por Feitor , e 
António Abul feu Efcrivão , com féis , ou 
kit Portuguezes , os quaes depois foram 
mortos pelos Mouros no alevantamento de 
Ormuz , como adiante fe verá , em que efte 
João Boto foi havido por verdadeiro mar- 
tyr deChriílo no género de fua morte. An- 
tónio Corrêa , pofto que ainda tinha muitas 
coufas por acabar na terra , aíli na arreca- 
dação dos cavallos , e armas que leixáram 
os Arábios , como em outras coufas pêra 
bem da fazenda d'ElRey , e mais aífento 
da terra ; entregou o cuidado de tudo a 
Raez Xarafo , por fe não poder mais deter : 
cá levava por regimento de Diogo Lopes, 
que não fizefle mais demora , que té poder 
fer com elle em Ormuz per fim de Julho , 
porque nefte tempo efperava de fe partir 
pêra a índia , e elle não fe pode efpedir 
dos negócios menos que a doze deAgofto, 

D ii que 



5*2 ÁSIA de JoXo de Barros 

jque fe partio com íua frota , e chegou a 
vinte e cinco , onde foi recebido com gran- 
de honra , e prazer de todos , e principal- 
mente d ? ElRey de Ormuz , mandando-lhe 
cavallos , arreios , e muitas peças 5 e affi aos 
Capitães que com elle vieram , por o tra- 
balho que levaram em lhe reftituir aquella 
Ilha á íua obediência. 

CAPITULO VL 

Como D. Aleixo de Menezes mandou 
D. Jorge de Menezes per terra com foc~ 
corro a EIRey de Cochij , que ejlava em 
guerra com o Çamorij de Calecut : e do 
que Diogo Fernandes de Beja pajjbu fobre 
a barra de Dio : e o que Diogo Lopes de 
Sequeira Jobre ijjo fez depois que o foube. 

M quanto eítas coufas pairaram em Ba- 
harem , fe fizeram na índia outras , de 
que convém darmos relação polas inflar- 
mos em leu próprio lugar. A primeira foi , 
que entre EIRey de Cochij , e o Çamorij 
de Calecut havia grande rotura de guerra. 
E peró que EIRey de Cochij com favor 
noííb tinha entrado pela terra obra de fete 
léguas , e eftava em feu arraial fronteiro a 
feu imigo , todavia em comparação do po- 
der do Çamorij era coufa mui deíigual , 
que caufou ver-fe elle tão apertado , que 

mau- 



Década IIL Liv. VI. Cap. VI. 5-3 

mandou pedir a D. Aleixo , que eftava in- 
vernando em Cochij com os poderes de 
Governador , que o provefle de alguma gen- 
te de béfteiros , e efpingardeiros pêra fe fa- 
vorecer com elies , por eftar pofto em mui- 
ta neceífidade. O que D. Aleixo logo pro- 
veo , mandando D.Jorge de Menezes filho 
baítardo de D. Rodrigo de Menezes com 
té trinta efpingardeiros , e cinco trombetas , 
o qual ante de chegar ao arraial onde El- 
Rey de Cochij eftava alojado , elle o veio 
receber obra de meia légua , dando-lhe mui- 
tos agradecimentos de fua ida ? fabendo fer 
primo com irmão de D. Aleixo. E dizen- 
do , que com fua chegada tinha certa a vi- 
toria de feu imigo , porque nunca tivera 
Portuguezes em lua ajuda , que não foífe 
vitoriofo , quanto mais com fua peífoa em 
que havia tantas qualidades. E não fe en- 
ganou niífoElRey de Cochij , porque Dom 
Jorge era muito cavalleiro , e logo na pri- 
meira batalha que deo ao Çamorij elle fen- 
do tanto fer aquella ajuda noífa , que fe 
afFaftou do lugar onde eftava três léguas , 
tendo naquelle tempo juntos mais de duzen- 
tos mil homens , e EIRey de Cochij qua- 
renta. E defte poufo foi tomando outros 
dous , de três em três léguas , fem entre el- 
ies haver rompimento. Porque como eftes 
Príncipes toda a fua guerra são os appara- 

tos 



?4 ÁSIA de João de Barros 

tos delia , e eleições do dia da peleja , e 
huma íigralha que voa da parte contraria , 
fegundo fuás feiticerias , he impedimento 
pêra não pelejar ; andou lá D. Jorge hum 
mez fem fazer mais coufa algum3. E ain- 
da deram entender os Sacerdotes a EIRey 
de Cochij , que elle era impedimento an- 
dar naquelle arraial , por quanto os feus Ído- 
los fe anojavam de fua eftadavalli , e não 
queriam dar refpoíta do que eram pergun- 
tados ; e foubefíe certo que feu imigo de 
todo fe recolheria pêra fuás terras , como 
elle D. Jorge foíTe partido. A qual refpoí- 
ta cites Sacerdotes davam , fegundo os no£ 
íòs depois fouberam , porque viam que com 
elles ferem prefentes , eílava EIRey de Co- 
chij tão confiado , e íeguro , que fazia pou- 
cas interrogações a elles Sacerdotes ; e ven- 
do que perdiam parte do leu credito ? e 
não eram tantas vezes chamados ás conful- 
■tas , fizeram efta amoeftação a EIRey , que 
efpediífe a D. Jorge. E afll fe fez , tornan- 
do-fe elle pêra Cochij , moftrando-lhe EI- 
Rey o grande contentamento que tivera de 
fua ida , e que elle fora caufa de feu imigo 
fe recolher. Tanto pode o intereífe parti- 
cular , que muitas vezes a vida , e o eílado 
de hum Príncipe pende de hum máo con- 
felho ; e aííi houvera de acontecer a efte Rey 
d€ Cochij polo credito que deo a eítes Sa- 

cer- 



Década III. Liv. VI. Cap. VI. 57 

cerdotes. Os quaes ainda que foíTem do De- 
mónio , e não podiam aconfelhar outra cou- 
fa fenão obras delle , muitos falfos profe- 
tas houve na Lei daEfcritura, per os quaes 
aífi nas coufas da guerra , como da paz , 
os Reys , e Príncipes daquelle povo de Is- 
rael fe governavam ; e com elles dizerem , 
eftas coufas manda Deos , aconfelhavam ou- 
tras , que mandava o feu próprio intereífe. 
O qual modo ainda vemos continuado na 
Igreja de Deos , e permittio elle , porque 
como a congregação Chriftã confta de dous 
gládios , efpiritual , e temporal , em muitas 
partes fe troca eíle poder em peílbas incom- 
petentes , lavrando a terra com a efpada , 
e pelejando com o arado. O qual abufo 
vem a fer o próprio açoute do erro : cá 
nunca Deos difle verdades per inílrumento 
impróprio , fenáo per o natural daquelle 
ufo porque guarda ajuítiça nas coufas, ex- 
cepto alguns particulares cafos íignificativos 
de Myfterio , como a profecia de Balam , 
e a fua afna , &c. Aíli eíx^ Rey de Cochij , 
tendo neceflidade de gente de armas , que 
era o inílrumento próprio que lhe fervia no 
efrado em que elle eftava , com a chegada 
do qual vio logo princípio da fua vitoria 3 
acceitou o confelho de profetas falfos, por 
razão de feu particular intereífe , que lhe 
fizeram perder a honra : que tinha ganhada 

com 



56 ÁSIA de JoÁo de Barros 

com a vinda de D. Jorge. Cá fabendo o 
Çamorij fua partida , veio outra vez íbbre 
EIRey , o qual fe vio tão neceífitado de 
remédio , que fe acoiheo a Cochij a buícar 
o noífo abrigo 5 que tinha engeitado na e£* 
pedida de D. Jorge. Nefte mefmo tempo 
que Diogo Lopes eíleve em Ormuz , foi 
dar com elle Diogo Fernandes de Beja , 
que elle leixára fobre a barra de Dio efpe- 
rando pelo recado d'ElRey de Camb3ya , 
a que tinha mandado Ruy Fernandes , (co- 
rno atrás efcre vemos , ) o qual recado foi 
conforme a todalas outras verdades de Me- 
lique Az. Porque como elle não trabalhava 
em outra coufa , fenão em que nós não hou- 
veíTemos d 5 ElRey fortaleza em Dio , quan- 
do Ruy Fernandes chegou onde EIRey ef- 
tava 5 que era na Cidade Champanel , já Me* 
lique Az per feu filho tinha recado do que 
paliara com Diogo Lopes , e que a eífe fim 
mandava aquelle menfageiro a EIRey. Me» 
lique Az primeiro que elle vieíTe a EI- 
Rey ? já tinha aííentado com elle a refpoG- 
ta que havia de dar de maneira , que não 
deo efpaço algum que elle Ruy Fernandes 
pudeífe ter intelligencia com alguns dos Se- 
nhores da Corte , que a elle Melique Az 
não tinham boa vontade , per meio dos 
quaes elle Ruy Fernandes pudeífe mover a 
EIRey ao que lhe Diogo Lopes mandava 



Década III. Liv. VI. Cap. VI. 57 

pedir. E a refpoíla que EIRey deo foi, 
que fe tornaffe logo , e diílèffe ao Gover- 
nador Diogo Lopes , que Melique Az anda- 
va lá com aquelle requerimento per fua par- 
te polo muito que defejava eílar alli huma 
fortaleza d'ElRey de Portugal , e que com 
algumas occupaçóes elle o não tinha des- 
pachado ; que como os negócios lhe def- 
ícm lugar , elle o defpacharia com recado 
pêra elle Governador. Diogo Fernandes 
quando vio eíta refpoíla , diílimulou com 
Melique Saca , moftrando que queria efpe- 
rar que vieífe feu pai , pêra com fua vinda 
levar recado a Diogo Lopes ; e entretanto 
ordenou com Fernão Martins Evangelho , 
que começaífe recolher pouco a pouco a 
fazenda que tinha comfigo , porque elle ef- 
perava de notificar a guerra a Melique Sa- 
ca 5 como lhe Diogo Lopes mandava. Fer- 
não Martins , porque também fentia delJe 
Melique Saca que por recado que tinha de 
feu pai reinava alguma maiicia fe Diogo 
Fernandes quizeííè eftar alli muitos dias 5 o 
mais diííimuladamente que pode , polo não 
fentirem ? e reterem , (como já outras vezes 
fizeram 5 ) dinheiro, e alguma fazenda que 
fe podia encubrir , de dia a mandava em 
certos em volta com os mantimentos , que 
ordinariamente enviava a Diogo Fernandes , 
té que huma noite recolheo fua pelloa. Me- 

li- 



58 ÁSIA de João de Barros 

liquc quando pela manha foube fer elle Fer- 
não Martins recolhido , e a caía eítava co- 
mo coufa leixada , e com algumas que elle 
não podia levar comligo , aíli como cobre , 
e outras fortes de mercadoria de grande vo- 
lume; entendeo que Diogo Fernandes efta- 
va mudado do que dizia , e diífimulada- 
mente lhe mandou hum recado. Trás o qual 
veio logo outro dizendo , que a elle fe vie- 
ram queixar alguns mercadores , que Fer- 
não Martins lhe devia muito dinheiro de 
mercadorias , que lhe tinham vendido fia- 
das , que o mandaíTe logo a terra pêra ef- 
tar á conta com elles , e lhe pagar, fenão 
que feria neceíTario , por elle fazer juíliça 
ás partes , mandar fuás fuftas fazer repreza- 
ria naquelles feus navios. Ao que Diogo 
Fernandes refpondeo , que elle mandara a 
Fernão Martins que fe recolheífe , por ef- 
tar naquella Cidade havia muito tempo , 
quaíí em modo de arrefem , fem elle , nem 
leu pai confentirem que fe foíTe , e que le- 
var fazenda alheia, elle a não levava, an- 
te leixava muita na cafa onde poufava , a 
qual elle Diogo Fernandes lha havia por en- 
tregue , pêra em todo tempo dar delia ra- 
zão. E quanto ao que dizia das fuás fuftas , 
ellas podiam ir ; e fe foliem , foubeífe cer- 
to que lhe havia a paz por quebrada , e 
lhe faria todo o damno que pudeífe , co- 
mo 



Década III. Liv. VI. Cap. VI. ff 

jno a coufa de imigos. Melique Saca , por- 
que eíle rompimento era o que leu pai de- 
fejava , por não vir a defcubrir quanta men- 
tira tinha dito , fe a paz mais durafTe, lo- 
go pela manhã mandou fobre Diogo Fer- 
nandes o feu Capitão Aga Mahamud com 
grande número de fuftas. Eaííi trataram os 
noíTos navios com fua artilheria , que mui- 
to maior damno fizeram a Diogo Fernan- 
des , do que lhe elle fez , com que lhe con- 
veio fazer-fe á vela caminho de Ormuz le- 
var eíle recado a Diogo Lopes. O qual , 
peró que tinha dado por regimento a Dio- 
go Fernandes , que quando denunciaíTe a 
guerra a Melique Saca , ou a feu pai , ( íe 
foíle prefente , ) não fe detiveíTe mais , fe- 
não fazer feu caminho , poílo que as fuás 
fuílas o commetteíTem , quando foube o ca- 
fo , e o modo de fua partida , ficou mui 
agaítado , por ver quanto mal lhe tinha fei- 
to o geral voto dos Capitães , no confelho 
que lhe deram , fobre o negocio de dar em 
Dio. E como eílas indignações que os ho- 
mens tem nos cafos da conjunção perdida , 
fe remata na efperança de fe poderem vin- 
gar , confoíou-fe Diogo Lopes no que ef- 
perava fazer fobre eíle cafo. E primeiro que 
partiíTe de Ormuz, acabou de aífentar ou- 
tro, que não deo menos trabalho que eíle 
de Dio , parecendo a EIRey D. Manuel y 

que 



6o ÁSIA de João de Barros 

que lho mandou fazer , que aíTentava a? cou- 
fas daquelle Reyno em mais proveito do 
niefmo Rey \ e o cafo foi efte. Ao tempo 
que Aífonfo d 5 Alboquerque mandou fazer 
hum livro de todolos rendimentos que elle 
tinha , e aíli de fua defpeza , não foi pêra 
mais que faber pontualmente o que podia 
ficar a EIRey de Ormuz pêra lhe pagar 
as páreas , que lhe per elle Aífonfo d'Al- 
boquerque eram poílas. E achou-fe , vifto 
o rendimento , e defpeza , (de que atrás de- 
mos relação,) que folgadamente o podia 
fazer, fe EIRey náofoíle tão roubado , co- 
mo era per feus Officiaes. E porque todo- 
los annos , quando lhe mandavam pedir et- 
tas páreas , clamavam que não rendiam as 
entradas das mercadorias , nem menos as 
terras firmes , e os outros direitos , e im- 
poítos que EIRey punha , tanto que baílaf- 
fe pêra a defpeza ordinária do Reyno , quan- 
to mais pagar páreas , e eítas coufas todas 
vinham cá ter a EIRey D. Manuel ; efcre-« 
veo fobre iíío a Diogo Lopes de Sequeira , 
mandando-lhe , que como foífe em Ormuz, 
dando conta a EIRey que tudo fe fazia 
pêra melhor arrecadação de fua fazenda, 
elle puzera Officiaes na Alfandega da Ci- 
dade , onde fe pagavam todolos direitos que 
a ella vinham , affi per entrada , como fa- 
hida , fegundo o foral da terra , por efte 

fer 



Decaia III. Liv. VI. Cap. VL 61 

fer o maior rendimento que o Reyno tinha. 
Os quaes Officiaes fofíem Portuguezes pef- 
foas de bom faber , que fe avieífem bem 
com os Mouros , que o mefmo Rey alli 
havia de pôr da fua mão , com os quaes 
fe haviam de concertar os livros que fizef- 
fem deite rendimento , pêra no cabo do an- 
no , affi os livros dos Officiaes Portugue- 
zes , como dos Mouros , fe cotejarem , e 
ver em verdade quanto valia toda a máfia 
da Alfandega , fem entender no rendimen- 
to das terras firmes. Raez Xarafo , que era 
Governador do Reyno , e os Tliefoureiros 5 
e Officiaes , per cujas mãos fe defpendia to- 
da a fazenda d ? Ellley , ou (por melhor di- 
zer) fe repartia , que elle levava a menos 
parte , não podiam foffrer efte jugo , por fer 
ornais duro que lhe podiam pôr. E já quan- 
do AfFonlb d'Alboquerque quiz íaber de to- 
dolos rendimentos 3 o foffrêram mal , quan- 
to mais pôr Officiaes Portuguezes , que ha- 
viam de fer olheiros de fuás coufas ; porém 
como não podiam mais fazer , diííirnula- 
vam , e encubriam efta dor pêra a moílrar 
cm feu tempo , como veremos. Finalmente 
pêra elle negocio ficaram pofios eítes Offi- 
ciaes na Alfandega : Manuel Velho por 
Juiz , e Provedor delia , Ruy Varella The- 
foureiro , e por Efcrivães Miguel do Val- 
le, Ruy Gonjalyes d' Acoita ; Diogo Vaz, 

Nu- 



62 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

Nuno de Caftro , Vicente Dias. Acabado 
o qual negocio , como Diogo Lopes não 
elperava mais que a vinda de António Cor- 
rêa , tanto que chegou com a vitoria que 
houve em Baharem , partio-fe pêra Dio, 
tçndo já mandado diante a Diogo Fernan- 
des de Beja , que fe fofle andar na paragem 
da ponta de Dio ás náos que vinham do 
eílreito , e alli o efperaíTe , com o qual ire- 
mos continuando nefte feguinte Capitulo. 

CAPITULO VIL 

Do que fuccedeo a Diogo Fernandes 
de Beja na cofta de Dio , onde Diogo Lo- 
pes lhe mandou que efperajfe té elle partir 
de Ormuz : e o que elle também pajjbu na- 
quelle caminho té chegar a Chaul , onde co- 
meçou huma fortaleza , e as caufas porque. 

Diogo Fernandes pêra efte cafo que Dio- 
go Lopes o enviava diante , levou qua- 
tro velas , elle em hum galeão grande, e 
Nuno Fernandes de Macedo, e feu irmão 
Manuel de Macedo, e Gafpar Doutel eram 
Capitães dos outros navios. O qual , tanto 
que foi na paragem da cofta da Cidade Pa- 
tane f tomou dous zambucos , e Nuno Fer- 
nandes que hia mais empegado , pofto que 
per defaftre lhe eícapulio huma náo que vi- 
nha do eílreito , veio dar com elle outra 

mui- 



Década III. Liv. VI. Cap. VIL 63 

muito maior , e mais rica , e armada , em 
que vinham mais de cento e vinte homens 
Mouros brancos , e Rumes. Com a qual , 
tanto que abalroou na entrada delia, foi elle 
ferido com hum zarguncho de arremefíb , 
e António d'Araujo que foi o primeiro que 
entrou , e com elíe Álvaro de Brito , e ou- 
tros. Peró eíies foram vingados deite da- 
mno ; porque como a outra, gente que fica- 
va no galeão entrou , foi a coufa de manei- 
ra travada, que durou o jogo de lançadas, 
frechadas , pedradas , e outros artifícios de 
morte per toda huma hora , defendendo , e 
offendendo a íi , e a feu imigo , té que a 
maior parte dos Mouros ficaram eílirados 
onde a morte os tomou , leixando os nof- 
fos bem fangrados. E porque em a náo vi- 
nham muitas mulheres, e crianças, acabada 
a náo de íe entregar , mandou-as Nuno 
Fernandes paliar ao íèu galeão ; e baldeada 
da náo parte da fazenda , que fe achou per 
cima , mandou a dous carpinteiros que def- 
fem dous rombos á náo pêra fe ir ao fun- 
do. Osquaes rombos foram taes , que apar- 
tado Nuno Fernandes delia , alguns Mou- 
ros que ficaram efcondidos, acudiram a el- 
les , com que a náo ficou fegura , e fempre 
Nuno Fernandes tornara a eíla , fenão fuc- 
cedêra cafo que lho impedio , e foi eíle. 
Melique Az como fabia que eíle era o tem- 
po 



64 ÁSIA de João de Barros 

po em que Diogo Lopes havia de vir de 
Ormuz , por ler já meado de Setembro , e 
também era a monção de as náos de Me- 
ca , e de toda aquella cofta de Arábia vi- 
rem a Dio 5 por as fegurar de nós , e lhe 
dar guarda , tinha mandado fahir a íua Ar- 
mada de fuítas , que feriam té vinte , de que 
era Capitão Aga Mahamud , que andaííem 
naquella paragem, por fer já perto de Dio. 
E como elle trazia fuás atalaias , que lhe 
defcubriam o mar , tanto que houve vifta 
das noífas náos , e principalmente o galeão , 
e náos dos Mouros , que tinham afferrado , 
entendendo o que era , veio dar-lhe vifta. 
Os noífos como naquella paragem não eram 
coftumados verem tal recebimento como e£- 
te que lhe hiam fazer, e citavam defcuida- 
dos diífo , acháram-fe hum pouco confu- 
fos , porque além de não eílarem muito 
apercebidos , acalmou o tempo , que era 
próprio das fuflas , e elles ficavam decepa- 
dos pêra poderem andar , ou ajudar huns 
aos outros. Cá per ordenança de Diogo 
Fernandes hiam todos três tanto affaítados 
hum do outro , que fe pudeífem ver , pêra 
que vindo alguma náo pêra Dio , que vief- 
fe a cada hum deiles cahir-lhe na rede ; e 
€Íla ordem que elles traziam pêra damnar 
a outrem ofFendeo a elles , e foi per efta 
maneira. Aga Mahamud como os vio aíli 

ef- 



Decadâ TIL Liv. VI. Cap. VIL 6$ 

efpalhados , e que o mar eftava por elle , a 
primeira coufa que fez foi mandar duas 
fuílas á náo dos Mouros , que Nuno Fer- 
nandes leixou , que a rebocaífem , e levaf- 
fem caminho de Dio , e com as outras fuf- 
tas fe repartio de maneira , que a todalas 
três náos deo tanto que fazer com artilhe- 
ria que trazia , que metteo o navio de Gaf- 
par DouteJ no fundo , e tomaram vinte e 
íinco dos noíTos cativos , em que entrou o 
Meílre da náo. Aga Mahamud , dando ca- 
bo a efta , dobrou as fuílas fobre as outras , 
e trataram tão mal a Diogo Fernandes com 
alguns tiros groíTos de artilheria , que lhe 
houveram de metter o galeão no fundo ; 
porque houve tiro tão groífo ao lume da 
agua 5 que á mingua de não haver em o 
galeão huma paíla de chumbo , com que 
IhetapaíTem aquelle buraco, per que entra- 
va muita agua, lhe pregaram hum bacio 
de prata de agua ás mãos , de maneira , que 
eíleve Diogo Fernandes quafi mettido no 
fundo fenao acertara de fazer damno a al- 
guns , com hum camello, e dous falcões, 
que ellavam poílos em hum batel grande , 
que tinha junto de li , que as fez affaílar 
longe. Nuno Fernandes de Macedo também 
nefte tempo não padecia menos trabalho : 
cá além de lhe matarem cinco, ou féis ho- 
mens , hum dos quaes foi o Efcrivão do 
Tom. III. P.iL E ga- 



66 ÁSIA de João de Bakros 

galeão , e ferirem mais de vinte ,. todos com 
artilheria groíla , chegavam-fe tanto a elíe , 
fem a noíía os poder caçar , que não havia 
coufa que não elliveíTe encravada com fé-' 
tas; e verdadeiramente fe per muito tempo 
o mar eftiveífe morto , as fuítas os mettê- 
riam no fundo. Mas aprouve a Deos que 
refrefcou o vento de maneira , que lhe ti- 
veram os noííbs vantagem. E como hiam 
neceffitados de agua 5 e de fe repairar , fi- 
zeram fua derrota via de Chaul , pêra tor- 
narem outra vez efperar Diogo Lopes , in- 
do fcmpre as fuftas ladrando trás elles , em 
quanto o tempo lhe deo lugar , té que hu- 
ma trovoada que fobreveio as fez recolher 
pêra Dio. E pofro que naquella trovoada 
lhe íupprio parte da neceííidade da agua que 
tinham , todavia encaminharam a Chaul , e 
neíla traveíla tomaram dous zambucos , que 
hiam da terra de Africa da Cidade de Bra- 
va carregados de efcravos daquella coita. 
Chegado Diogo Fernandes a Chaul , foi 
logo provido de agua , e mantimentos per 
o Feitor Diogo Paes", que ahi eftava ; e 
leixados os feridos em cura com efta gente 
que tinha , tomou em bufca de Diogo Lo- 
pes 3 o qual veio tomar a tempo que lhe 
aproveitou muito ; porque Diogo Lopes ti- 
nha aílentado em Ormuz , que quando tor- 
naíTe havia de fazer fortaleza emMadrefabá 

cin- 



Década III. Liv. VI. Cap. VII. 67 

cinco léguas além de Dio pêra a enfeada de 
Carnbaya , onde elle tinha mandado ver, e 
fondar o porto per António Corrêa quan- 
do eítevc íbbre Dio. E como ifto foi ne- 
gocio público , e não ordenado com aquel- 
le fegredo que fe querem as taes coufas , 
per os Porruguezes que fe tomaram em o 
navio de Gafpar Doutèl , foi Meíique Az 
fabedor deíla fua determinação , e dobrou 
logo fobre elle com o favor que tomou da- 
quella vitoria , fazendo gente na terra , e 
defensão no porto , e mais número de fuf- 
tas , pêra na terra, e no mar lhe dar^ tra- 
balho. Das quaes coufas houve logo nova 
em Chaul , e foube-as Diogo Fernandes , 
que foram grande avifo a Diogo Lopes 
pêra não commctter o que trazia determi- 
nado; e o que além difto o mais defviou 
foi hum defaftre que lhe aconteceo já fobre 
Dio , que ainda que nelle fe perdeo gente , 
e fazenda , per ventura fegundo a coufa ef- 
tava efperando por elle, foi mercê deDeos. 
Cá verdadeiramente , polo que depois fuo 
cedeo da foltura deitas fuftas de Melique 
Az em Chaul, (como veremos,) não pu- 
dera leixar de acontecer muito maior defaf» 
tre , fe Diogo Lopes commettêra fazer a 
fortaleza em Madrefabá , e o defaftre foi 
efte. Vindo elle Diogo Lopes com fua fro- 
ta de Ormuz , tomou no caminho huma náo 

E ii de 



68 ÁSIA de João de Barros 

de Mouros , que hia pêra Dio , os cativos 
da qual mandou repartir pelas náos. E es- 
tando já defronte de Dio , os Mouros que 
hiam na náo chamada Santa Maria da Ser- 
ra , de que era Capitão Aires Corrêa , co- 
mo defeíperados , eílando debaixo da cu- 
berta , puzeram-lhe fogo , o qual 3 tanto que 
foi dar na pólvora , pinchou logo ascuber- 
tas pêra o ar , e o calco fe foi ao fundo. 
Em o qual deíaílre fem pelejar 5 morreo Ai- 
res Corrêa , livrado de tanta ferida como 
houve em Baharem , quaíi ataíTalhado del- 
ias , fegundo contámos , e aíli fe perdeo a 
maior parte da gente. E porque Diogo Lo- 
pes nefta náo trazia todalas munições , com 
que efperava de poer mãos á obra da for- 
taleza que queria fazer em Madrefabá , quan- 
do fe vio manco fem o neceflario pêra ella, 
e mais per tal deíaílre morrer Aires Corrêa , 
a que queria muito , tanto por fer feu fo- 
brinho , como por fua peííòa, deíiftio de 
fazer a fortaleza em Madrafabá. E princi- 
palmente por não achar alli D. Aleixo de 
Menezes , a que elle tinha mandado que o 
vieífe efperar té per todo Agoílo , que ha- 
via de trazer gente , e Provisões pêra efte 
feito , e também por faber de Diogo Fer- 
nandes como Melique Az eílava mui aper-< 
cebido pêra lhe defender aqueíle lugar; com 
as quaes coufas elle fe foi direito a Chaul , | 

P e " I 



Dec. III. Liv. VI. Cap. VIL e VIII. 6 9 

pêra lá fazer efta fortaleza , porque quando 
ie partlo pêra Ormuz , a efte fim mandou 
Fernão Camelo a Nizamaluco , como atrás 
efcrevemos , da refpofta do qual neíle fe- 
guinte Capitulo daremos razão. 

CAPITULO VIIL 

Como Fernão Camelo veio de Nizama- 
luco , e trouxe recado feu a Diogo Lopes de 
Sequeira , que fizejfe fortaleza em Chaul , 
e a caufa porque \ e começando-fe a obra , 
vieram as fufias de Melique Az a impe- 
dir que fe não fizejfe \ e o damno que os 
nojjbs receberam delle. 

AO tempo que Diogo Lopes chegou 
a Chaul , era já vindo Fernão Camelo 
com recado do Nizamaluco , o qual havia 
por bem que fe fizefle alli huma fortaleza 
com certas condições , fegundo elle efcrevia 
a hum feu Capitão que ahi eftava , chama- 
do Letefican Mouro Parfeo Coraçone , ho- 
mem principal , que o Nizamaluco alli manda- 
ra vir pêra aífentar as coufas daquella Ci- 
dade Chaul , que havia pouco tempo que 
fora queimada pelas furtas de Dabul ? que 
eram do Hidalcão , com quem elle naquel- 
le tempo tinha guerra , que foi grande par- 
te pêra o Nizamaluco dar licença pêra fe 
fazer a noffa fortaleza. Verdade he que já 

d'an- 






yo ÁSIA de JoÃo de Barros 

d 5 antes elle defejava alli huma Feitoria no£ 
fa , por caufa do proveito que nifío podia 
ter 5 e a efte-fim eram os Feitores noílos 
que alli efxavam quaíi fenhores da terra. 
E o* primeiro que alli eíleve foi João Fer- 
nandes , o qual no tempo que alli veio ter 
Fernão. Gomes de Lemos desbaratado do 
eílreito de Meca , onde fora com Lopo 
Soares > de fer mui fenhor da terra , os 
Mouros o mataram , (como atrás fica.) Ao 
qual fuccedeo Fernão Camelo , que fervio 
poucos mezes , e a elle Diogo Paes que 
neíte tempo fervia , os quaes fempre arre- 
cadaram os dous mil pardáos de ouro 3 que 
o Vifo-Rey D. Francifco puzera de tributo 
iquella Cidade , por caufa da morte de fea 
filho D. Lourenço , (como atrás efcreve- 
jnos , ) onde também tratamos do íitio def- 
ta Cidade* Confentir o Nizamaluco nefte 
tributo , fendo depois do Hidalcão o maior 
Senhor do Reyno Decan , e todos tão fti- 
mofos , que não foíFriam eftas coufas a nin- 
guém , não era por temor que tiveíle de 
nolías Armadas , podo que foííem fenhores 
daquelies mares , porque dh tinha mui pou- 
co que entender nelle , fomente por eíla 
caufa que diremos. Como muitas vezes 
atrás he efcrito r huma das coufas que da- 
va o principal fer áqueííes Capitães do Rey- 
tio ' Decan ,. eram os.cavailos que vinham 

de 



Década III. Liv. VI. Cap. VIII. 71 

de Arábia, e da Perfia per via de Ormuz, 
muita parte dos quaes ante que nós entraf- 
femos na índia , vinham ter a eíta Cidade 
Chaul , e a Dabul , e outros a Goa de ma- 
neira , que fe repartiram per eftes Capitães , 
e perElRey deNarfmga, entrando-lhe por 
Baticalá , e outros portos , que tinham ne£- 
te mar. Tomada Goa , ordenou Affonfo 
d'Alboquerque , que nenhum cavallo foífe 
a outra parte , fenão áquella Cidade, por 
o grande direito quealli pagam delles , que 
commummente são quarenta edous pardáos 
per cabeça , no qual tempo de Afroníò 
d' Alboquerque , e depois houve grandes re- 
querimentos deites Mouros , e aííi delRey 
de Naríínga fobre entrarem eftes cavallos 
pelos feus portos ; não tanto por haver os 
direitos delies , quanto por os haver á fua 
mão , e delia comerem os outros , por fer 
a principal força , e nervo da guerrra , e 
tão fubitancial , que trazem os Mouros em 
modo de provérbios eftas palavras : Senão 
houvera fojfr intento , não houvera já Mun- 
do y e fenão houvejje cavallos , não haveria 
guerra, Pois como o Nizamaiuco via que 
o Hidalcão feu imigo nenhuma outra cou- 
fa o tinha feito poderofo fenão irem os ca- 
vallos a Goa, e Chaul, que era a meio ca- 
minho , a que as partes mais folgavam de 
vir, por não correrem tanto rifeo, não ou~ 

fa- 



JZ ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

favam comnofco fenão furtadamante : defe- 
java elle fazer-nos tacs obras , e tanto íer- 
viço aElRey de Portugal, que houveífe por 
bem entrar per aquella ília Cidade Chaul , 
(que não tinha outra marítima alguma , ) 
certa fomma de cayallos por a grande ne- 
cellidade que tinha delles. E daqui vinha, 
que quanto aos dous mil pardaos que Chaul 
pagava de tributo , era mui contente , quan- 
to mais que elle os não pagava \ fenão os 
mercadores da meíma Cidade , e os feus 
rendeiros polo muito que lhe mais impor- 
tava , aíli pêra poderem navegar feguros de 
noíías Armadas , como no ganho que com- 
nofco tinham da entrada , e fahida das mer- 
cadorias. E quando Letefican o Governa- 
dor de Chaul aífentou o contrato com 
Diogo Lopes fobre o fazer da fortaleza , 
pêra que o Nizamaluco dava licença , to- 
daías condições delle quaíi fe rematavam 
nefta entrada de cavallos ; e tanto eftimava 
iíto , que fe contentou que foflern cada an- 
uo trezentos , dos quaes os direitos fe ha- 
viam de arrecadar pelo noífo Feitor ao 
modo de Goa. Aífentado efte contrato , co- 
meçou Diogo Lopes a obra da fortaleza 
meia légua da povoação dos Mouros con- 
tra a barra do rio da parte do Norte , on- 
de pareceo que ficava mais fcgura , e podia 
ter melhor foccorro em tempo de neçeífr* 

da^ 



Década III. Liv. VI. Cap. VIII. 73 

dade , por ter as outras noíTas fortalezas 
mui longe , e por vizinha a Cidade Dio , 
que começava já tomar oufadia polo que 
lhe tinha íuecedido em feu favor , porque 
té então tudo foram artifícios , e manhas > 
de que Melique Az era grande medre ; e 
tirando o cafo de D. Lourenço , onde elíe 
acudio como ajudador , e ainda hum pouco 
vagarofo , nunca veio com mão armada con- 
tra nós tão defeubertamente como nefte 
tempo. O qual favorecido do que feu Ca- 
pitão Aga Mahamud fizera , tanto que fou- 
be que Diogo Lopes eílava na obra da for- 
taleza per confentimento do Nizamaluco, 
entendeo que lhe não convinha fermos tão 
vizinhos , e que com noíTo favor Chaul fe 
faria mui profpera , com que avocaffe to- 
daias náos que vinham de Meca , por ler 
per alli huma grande entrada , e fahida de 
mercadorias pêra o Reyno Decan , o pro- 
veito das quaes elíe perderia. Por evitar o 
qual damno , ordenou Jogo de nos impedir 
cila fortaleza, aífipermar, como per terra ; 
e o modo que pêra iíTo teve , foi eíte. Ha- 
via em Chaul dous irmãos Mouros da ter- 
ra homens honrados , que a revezes gover- 
navam a Cidade , e iílo per via de arrenda- 
mento, porque geralmente os Príncipes da- 
quellas partes , ora fejam Mouros , ora Gen- 
tios, fazem Governadores da terra os ren- 
dei- 



74 ÁSIA de JoÃo de Barros 

deiros de fuás rendas , porque com efta jur- 
di^ao arrecadam , e roubam melhor , e per 
eíle modo lhes creícem as rendas. Hum def- 
tes irmãos chamado Xec Hamed , que era 
muito noífo amigo, fora os annos paliados 
Regedor , e per invejas veio lançar fobre 
elle o outro irmão chamado Xec Maha- 
mud , o qual quando Diogo Lopes fazia 
efta obra , governava a terra , e não nos ti- 
nha boa vontade por eftar mal com o ir- 
mão , por fer noflb amigo , tendo elle of- 
fendido ao mefmo irmão em o fazer tirar 
do governo. Eíle Xec Mahamud , peró que 
obedeceo ao que lhe o Governador Letefí- 
can mandou da parte doNizamaluco fobre 
o aviamento da obra da fortaleza , e elle 
moílrava ter muito contentamento delia pe- 
lo proveito que recebia de nós , pode tanto 
o intereífe particular que recebia de Meli- 
que Az , que não movia Diogo Lopes hu- 
ma pedra , que per elle o não foubeífe Me- 
lique Az. O qual Melique Az não fomen- 
te com eíle Mahamud citava liado centra 
nós , mas ainda tinha da fua mão a hum 
Xec Gil Capitão d'ElRey de Cambaya , 
que relídia em Baçaim , e guardava aquella 
coita de noífas Armadas , em cuja compa- 
nhia andava hum Capitão Abaffij , também 
homem de muita qualidade , de que EIRey 
de Cambaya fazia grande conta , e ambos 

te- 



Década III. Liv. VI, Cap.VIIL 75 

feriam té .trinta fuftas. Melique Az como 
teve a vontade deftes Capitães , os quaes 
per terra eram fempre aviíados de Xec Ma- 
hamud do que Diogo Lopes fazia , aflentou 
com elles que mandaria o feu Capitão Aga 
Mahamud 5 pêra que juntamente a hum tem- 
po correflem a Chaul impedir com rebates 
não fazerem os noffos a fortaleza. Ante da 
vinda dos quaes a eíle feito era chegado 
D. Aleixo de Menezes com três galés , hu- 
ma em que elle vinha , Capitão D. Jorge 
de Menezes feu primo com irmão , e ou- 
tra Capitão André de Soufa Chichorro % e 
Francilco de Mendoça da terceira , o qual 
por razão das barras dos rios , que não fe 
abriram fenão de meado Agofto por dian- 
te , não pode fer com Diogo Lopes mais 
cedo , e elle lhe deo nova como íobre Ba* 
ticalá achara D. Duarte de Menezes filho 
de D. João de Menezes Conde de Tarou- 
ca , e Prior do Crato , o qual vinha pêra 
governar a índia. E eíla nova lhe tinha já 
dado Simáo Sodré , que viera viíltar Diogo 
Lopes da parte de D. Aires da Gama 3 que 
eftava por Capitão de Cananor em duas 
fuftas com pólvora 9 e algumas munições , 
de que fabia ficar elÍQ desfalecido por'cau* 
fa da náo Serra , que fe lhe queimara, E 
quando Simão Sodré partio de Cananor, 
foi com três fuftas ; elle em huma, Diogo 

Lo- 



?6 ÁSIA de JoÁo de Barros 

Lobo em outra , e Duarte Fernandes na 
terceira ; o qual com defejo de tomar al- 
guma vacca pêra refreíco , foi tanto perlon- 
gando com a terra , té que faltou nella , 
onde o mataram , querendo-fe já recolher. 
Dado rebate a Simão Sodré defte defaftre , 
tornou atrás ; e onde foube que fe acolhe- 
ram os Mouros , que era em huma povoa- 
ção junto de Barcelor , deo nella 5 e com 
morte de alguns a defpejou. E tornan- 
do-fe a recolher 5 efpedio daíli a fufta de 
Diogo Lobo , que fe tornaíle a Cananor, 
e elle feguio feu caminho té chegar a Dio- 
go Lopes , a quem deo a nova da vinda 
de D. Duarte , (como diífemos , ) e também 
deo ávida a muitos com o refrefco, e pro- 
visão , que D. Aires mandava. E efta nova 
de como Diogo Lopes alli eftava tão necef- 
litado foubera elle D. Aires per duas náos , 
que Diogo Lopes efpedio chegando á barra 
de Chaul , Capitães Chriílovão de Sá , e 
Lopo d' Aze vedo. Diogo Lopes porque ti- 
nha já fucceííor na índia , apreífava-fe quan- 
to podia por leixar pofta aquella fortaleza 
em eítado que fe pudeffe elle ir ; mas pare- 
ce que ainda os feus trabalhos , e dos ou- 
tros Capitães , e peífoas que com elle fe ha- 
viam de vir pêra efte Reyno , ainda não 
eram acabados. Porque pelo concerto que 
Meiique Az tinha feito com o Capitão de 

Ba- 



Década III. Liv.VI. Cap. VIII. 77 

j Baçaim Xec Gil , ( como ora diíTernos , ) 
; mandou lá o feu Aga Mahamud com trin- 
I ta fuftas , e com as que clle tinha fizeram 
! número de cincoenta , com que vieram de~ 
| mandar a barra de Chaul a tempo que an- 
dava pêra entrar nella huma náo nofla , que 
vinha de Ormuz , Capitão Pêro da Silva 
de Menezes filho de Ruy Mendes de Vaí- 
concellos fenhor das Villas de Figueiró , e 
Pedrógão , o qual leixava lá Diogo Lopes 
pêra certas couías de prefente , que EIRey 
de Ormuz queria mandar a EIRey D. Ma- 
nuel , que não mandou 5 por ter já o animo 
damnado pêra o que commetteo , (como fe 
adiante verá.) Do qual Pêro da Silva, tan- 
to que as fuftas houveram viíla 3 foram-le 
nelle , e por o vento lhe não fervir bem 
pêra entrar , cm breve efpaço ás bombar- 
dadas o mettêram no fundo , fem lhe Dom 
Aleixo de Menezes Capitão mor do mar 
poder valer , quando com iua Armada fa- 
hio de dentro do rio a lhe acudir. Porque 
fendo na barra , como trazia três galeões , 
que haviam miíler vento, eelleera-lhe con- 
trario , o mais que fez , efpedio de fi as três 
galés , de que eram Capitães os atrás no- 
meados , e huma caravella Capitão Manuel 
de Macedo. Mas os Mouros como viram 
avantage que tinham na levidão do remo, 
por fe remarem pêra diante , e pêra trás , 

ha- 



78 ÁSIA de J0Ã0 de Barkos 

haviam-fe com ellas como ginetes com os 
homens de armas , entre os quaes houve 
tanta fúria de fogo , que todo aquelle mar 
andava feito huma névoa groíía de fumo , 
com que fe não viam huns aos outros , em 
que os noíTos receberam afifas de damno ; 
porque fomente na galé de D. Jorge , por 
ler mais leve no reinar , de hum tiro lhe 
mataram três homens , e aflbmbrárarn al- 
guns com o ar do pelouro. Gaílada eíia 
parte do dia , ficaram de noite todos na cof- 
ta do mar , tão juntos huns dos outros , 
que fe atreveo hum dos noíTos , dos que to- 
maram em a náò de Pêro da Silva , fogir 
a nado , e levou nova a D. Aleixo como 
elle era morto de huma bombarda , que lhe 
levara em claro a cabeça fora dos hombros . 
fem os noíTos té então terem fabido fer elle 
o que vinha em aquella náo tomada. Dom 
Aleixo quando veio pela manha , foi com- 
metter Aga Mahamud , e elle o veio rece- 
ber como homem que andava favorecido 
do tempo , repartindo-fe em três capitanias , 
elle com fuás trinta fuílas a huma , e Xec 
Gil com vinte, e o Capitão Abexij em ou- 
tras fuás. E tornando outra vez ao jogo 
das bombardadas , tinham efta ordem : em- 
palhadas eflas três capitanias, ellas mefmas 
íe faziam em mais partes por efpalhar as 
noíTas velas y e como viam manquejar algu- 
ma , 



Década III. Liv. VI. Cap. VIIL 79 

ma, que fe não podia ajudar da outra, car- 
regavam fobre eíla deícarregando todos alli 
fua artilheria pola metter no fundo. E pê- 
ro que tinham tanta vantage nefte modo fo- 
bre os ncíTos , todavia D. Aleixo os foi en- 
cerrar no rio deBaçaim, que era a fua aco- 
lheita por parte de Xec Gil , no qual Dom 
Aleixo não podia entrar pola muita agua 
que demandavam as fuás velas. Os Mouros 
como eram avifados per terra de Xec Ma- 
hamud , dahi a dous dias tornaram com- 
toetter D. Aleixo , que eftava ainda na bo- 
ca do rio efperando fua vinda , e ordena- 
ram- fc pelo mefmo modo quando foi ao 
pelejar ; e nefte dia , porque Francifco de 
Mendoça ficou em parte que não podia fer 
ajudado fenao de D. Jorge, elle levou mais 
damno que as outras velas de gente morta , 
e ferida. D. Aleixo vendo que dos galeões 
não fe podia aproveitar , metteo-fe na galé 
de D. Jorge, e ordenou hum batel grande 
de hum galeão com huma bombarda grof- 
fa , que deo a Francifco de Soufa Tavares, 
ecom mais huma fufta , e huma caravella, 
e duas galés foi bufcar Aga Mahamud , 
que eftava em huns ilheos acima de Chaul. 
O qual, como homem que já fabia andar ás 
voltas com os noífos navios , que eram pe- 
zados, o veio receber, e começaram feu jo- 
go de bombardadas de novo P andando fem- 

pre 



8o ÁSIA de JoÃo de Barros 

pre as furtas naquella repartição de capita- 
nias que diílemos. E tinha tal induftria, 
que como vinha a viração do rnar , logo fe 
punha de maneira , e em parte , que não 
pudeíTem os nofíbs ir a elies , porque naquel- 
le tempo , por ventar vivo , tinham mais 
alguma melhoria fobre elles. Finalmente , 
per efpaço de vinte dias nunca outra coufa 
fizeram , recolhendo-fe ás vezes a Baçaim 
a fe repairar do damno que recebiam , aíli 
em remeiros , como em lhe defapparelharem 
as fuíías - 7 porém logo tornaram a barra do 
rio onde D. Aleixo eítava , tudo a fim de 
pelejar, e oceupar os noíTos de maneira , que 
a obra da fortaleza fe não fizeífe , ou ao me- 
nos foííe mui de vagar. Porque elle Aga 
Mahamud todolos dias era avifado quanto 
Diogo Lopes trabalhava por leixar aquella 
fortaleza feita , por já ter nova fer outro 
Governador vindo. Diogo Lopes temendo 
que por eftas andarem mui azedas podiam 
commetter entrarem pe]o rio , e ir dar fo* 
bre certos cabouqueiros , que da banda da- 
lém do rio arrincavam pedra , e iílo indo- 
fe elle dalli ,. como efperava fazer ante que 
ella foííe acabada , porque lhe convinha fer 
em Cochij pêra a carga das náos \ ordenou 
na entrada do rio daquella mefma parte hum 
modo de baluarte de madeira com entulho 
de terra ao fob pé de hum morro, que eP 

ta- 



Década III. Liv. VI. Cap.VIII. 8x 

tava naquella ponta da terra. Com o qual 
baluarte ficava a entrada daquella barra a 
eiles mui defendida , e mais não podiam 
fazer tantos commettimeníos a noíTa Arma- 
da , que ficava defronte na outra parte da 
banda da terra , onde fe fazia a fortaleza ; 
e fe a commettelTem , ficava-Ihes a artilheria 
do baluarte nas coitas , de que podiam re- 
ceber muito damno. E neíla força poz té 
quinze , ou vinte homens , e por Capitão 
delles a hum cavalleiro chamado Pêro Vaz 
Permão , homem coftumado andar na guer- 
ra , e que trouxera honrado nome de Itá- 
lia, onde andou muito tempo. E aprovei- 
tou efta força tanto , que ficaram as fuíías 
tão efcarmentadas do primeiro commetti- 
mento fegundo feu coftume nos dias palia- 
dos, que não tornaram alii mais. 



Tovi.IILP.il F CA- 



tf ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO IX. 

Como Diogo Lopes de Sequeira entregou 
a capitania da fortaleza de Chaul a Hen- 
rique de Menezes , e a capitania do mar 
a Diogo Fernandes de Beja ; e fahiâo do 
rio de Chaul pêra fe ir d índia , fe dete- 
ve por caufa das coufas que Aga Maha- 
mu d fez em a Armada em que morreo Dio- 
go Fernandes : e entregou a Armada que elle 
tinha a António Corrêa , e elle Diogo Lo- 
pes fe partia pêra a índia. 

T' Anto que Diogo Lopes fegurou aquel- 
les commettimentos das fuítas 5 deter- 
minou de fe partir pêra Coehij , pêra ir 
fazer a carga da efpeciaria , e fe deípachar 
cedo pêra fe vir a eíte Rcyno , por fer já 
no fim de Outubro. E primeiro que o fizef- 
fe , tomou a menagem da capitania daquel- 
la fortaleza a. Henrique de Menezes filho 
de Gonçalo Mendes da Silveira , que era 
iòbrinho delle Diogo Lopes filho de lua ir- 
mã 5 e deo Alcaidaria mor a Fernão Ca- 
inello , e Feitoria a João Caminha ? e os 
mais officics a peííoas que per feu ferviço 
o mereciam. A qual fortaleza ficava fomente 
com a torre da menagem no primeiro fo- 
brado , e as outras officinas junto a elk , 
fem ter mais muro que as cerraííe , que a 

pri- 



Década III. Liv. VI. Cap. IX. 83 

primeira cerca de madeira , que fe fez pêra 
elegemento da grandeza da obra , dentro 
da qual fé lavrava a outra de pedra , e cal. 
E leixou por Capitão mor do mar a Dio- 
go Fernandes de Beja , o qual havia de fi- 
car alli na boca daquelle rio com as três 
galés , caravela , bargantim 5 e mais três 
náos , té que vieíle D. Luiz de Menezes , 
que vinha pêra fervir de Capitão mor do 
mar com feu irmão D. Duarte de Mene- 
zes , (como diífemos , ) que era vindo pêra 
fervir de Governador da índia , ao qual 
D. Luiz elle Diogo Fernandes havia de en- 
tregar toda aquella Armada. Aífentadas ef- 
tas coufas , fahio Diogo Lopes de dentro 
do rio , e veio-fe lançar na boca da barra , 
pêra que quando vieíTe a noite com o ter- 
renho , fe fazer á vela via de Cochij. E 
porque ainda de todo não eram fahidas as 
náos , que com elle haviam de ir , e quaíi 
todolos Capitães , que ficavam com Diogo 
Fernandes fe quizeram lançar junto delle 
Diogo Lopes , que era da banda donde ef- 
tava o baluarte , e iílo por cortezia , e fe- 
gurança de fua peíToa , por Aga Mahamud 
andar per diante delle ladrando , o que Dio- 
go Lopes houve por aíFronta ; mandou a 
André de Soufa Chichorro que fe foííe lan- 
çar com fua galé na barra , chegado hum 
pouco a terra , porque poder-fe-hiam cozer 
F ii tan- 



84 ÁSIA de JoÃo de Barros 

tanto çom ella os Mouros cditi fuás fuílas? 
que entraffem no rio a fazer algum damno. 
. Aga Mahamud tanto que vio André de Sou- 
fa a tempo que não podia fer foccorrido, 
foi-fe a elle já bem tarde eom fuás trinta 
fuftas , e as outras fe repartiram em duas 
partes , fegundo feu coftume , fazendo-fe na 
volta do mar. E como a noite veio , por 
terem marcada a galé de André de Soufa , 
onde lhe ficava pêra apontar nelle fua arti- 
lheria , começaram defcarregar nella fem 
canfar té. pela manha , no qual tempo lhe 
mataram fete homens , e feriram muitos , e 
feu irmão Aleixo de Soufa foi aleijado de 
hum braço. E víeram-fe os Mouros tanto 
a efquentar em animo, vendo que não po- 
dia fer foccorrido , por o vento fer contra- 
rio a toda noífa Armada , pêra poder ir a 
ella, que abalroaram com ella, em quecef- 
fáram as bombardas , e vieram ás lançadas 
té aos terços das efpadas. D.Jorge de Me- 
nezes como a fua galé era leve no remo , 
e ficava mais perto de André de Soufa , que 
as outras nofías velas , foi-lhe foccorrer o 
mais preftes que elle pode ; e indo a meio 
caminho , tirou hum tiro por final que hia 
a elle , com que deo animo aos noífos , por- 
que eftavam já tão canfados , que não po- 
diam manear os braços a tantas partes, co- 
mo eram commettidos. Chegado D. Jorge 

já 



Década III. Liv. VI. Cap. IX. 8? 

já junto da galé , vendo que na popa tinha 
hum cardume de fuílas , que a tinham cer- 
cada pêra de todas partes a entrarem , man- 
dou apontar nellas hum tiro groflb , o qual 
fez tanto damno nellas , mettendo huma no 
fundo , e outras defapparelhando , que não 
oufáram de efperar outro , pofto que Aga 
Mahamud trabalhava , ante que D. Jorge 
chegaíTe , de fe fazer fcnhor delia. Mas não 
lhe fuccedeo como clle cuidou : cá D. Jor- 
ge rompeo per meio delles , e foi-fe ajuntar 
com a galé , fazendo em huns , e outros 
bem de lenha na madeira , e fangue nas pef- 
foas. Na qual fúria chegou Diogo Fernan- 
des , que vinha na galé de Francifco de 
Mendoça com mais quatro bateis , que aca- 
bou de apartar aquella fuftalha , que fe da- 
mno Ieixou feito , também levou fua parte. 
Diogo Fernandes, porque a galé de André 
de Soufa era maravilhofa pêra ver, fegun- 
do era desfeita , e desbaratada , aíli da ma- 
reagem como da gente , mandou-a aíli 
aprefentar ao Governador Diogo Lopes. E- 
elle com os outros navios foi-fe pôr na en- 
trada do rio polo defender ás fuílas , paf- 
fando-fe da galé de Francifco de Mendoça 
á de D. Jorge de Menezes , por fer melhor 
de remo : parece que o chamava o leu der- 
radeiro dia naquellas mudanças , porque Aga 
Mahamud foi avifado aquella noite como 

a £ à- 



86 ÁSIA de JoXo de Barros 

a fahida do Governador era ir-fe já de ca- 
minho pêra a índia , e que a galé com que 
pelejara ficara tal , que não poderia mais 
fervir, fenão com grande corregi mento. E 
que entre os Portuguezes havia nova que 
feria alli cedo hum irmão do novo Gover- 
nador , por tanto que íè trabalhaífe por dar 
fim ao que tinham começado , pois o Deos 
favorecia, que foubefle íeguir a vitoria em 
quanto tinha tempo , e não vinha o Capi- 
tão que efperava. Aga Mahamud com eíle 
recado , logo aquella noite fe ordenou pêra 
o outro dia commetter as noflas galés ; e 
quando veio a manhã que não veio a galé , 
entendeo íkr verdade tudo o que lhe man- 
daram dizer , com que ficou com tanto ani- 
mo , que fe apartou com fuás trinta fuftas , 
e foi demandar Diogo Fernandes , que (co- 
mo diflemos) fe paliara á galé de D.Jorge. 
E pêra o cafo lhe fer mais favorável , acer- 
tou que a outra galé eftava lançada hum 
bom pedaço delia contra onde jaziam as 
náos , em que Diogo Lopes eftava pêra par- 
tir, e em parte onde com o vento que ven- 
tava, que era oterfenho da manhã, não fe 
podiam ajudar huma á outra. E as outras 
fuftas da capitania de Xec Gil também fe 
ordenaram pêra ir commetter a de Francif- 
co de Mendoça ; mas como ellas ficavam 
cm poíio, que aífí do baluarte, que eftava 

fei- 



Década III. Liv. VI. Cap. IX. Zj 

feito na entrada do rio , como das náos de 
Diogo Lopes poderia receber muito damno 
com a artilheria , leixáram-fe cftar té verem 
o que ella fazia de li. Aga Mahamud co- 
mo andava já deftro naqueíle jogo de bom- 
bardas , e favorecido do tempo , peia pon- 
ta do remo de que fe elle mais ajudava , 
e em que tinha avantaje aos noííos , com 
grande grita foi commetter Diogo Fernan- 
des , ea três , ou quatro bateis , que ertavam. 
com elle ; os quaes , como o ar foi cego 
da fumaça da artilheria , todos íe fizeram 
em hum corpo, empara ndo-íe com a galé. 
E durou efta fúria de fogo tanto , que o 
raafto , verga , remos , e toda a coufa , com 
que a galé fe podia íèrvir , foi quebrada , 
e feita em pedaços , e era arrombada no 
cortado per fete, ou oito partes. O Piloto 
vendo o muito damno que tinham recebi- 
do , foi-fe a Diogo Fernandes , dizendo , 
que feria bem mandar cear com alguns re- 
mos , pêra irem defcahindo fobre a outra ga- 
lé , que lhe ficava per popa, e que fe met- 
teriam nella , e nos bateis , o que pareceo 
bem a Diogo Fernandes pêra fe ajudar hu-> 
ma á outra. D. Jorge Capitão da galé , 
(porto que Diogo Fernandes era Capitão 
mor , ) vendo que não havia remos pêra 
aquella obra , e mais ainda que os houve£ 
fe , moftravam terem recebido muito damno , 

e fo- 



88 ÁSIA de JoXo de Barros 

e fobre iíTo grande fraqueza diante de 
quantos Mouros havia em Chaul , os quaes 
de terra , como quem vinha a ver fuílas , 
erampoftos pelos lugares altos a olhar, dif- 
fe contra o Piloto : Ninguém tome remo na 
mão pêra cear , porque lhe cortarei a ca^ 
beça com ejia ejpada , ante remem avante 
fe hi ha com que , moflremos ter vontade 
pêra ir a elles ; o que pareceo bem a Dior- 
go Fernandes. E porque os bateis noflbs, 
que traziam peças de artilheria , poílo que 
os enxotavam derredor da galé , não fa^- 
ziam fenao bufear abrigada , houve Diogo 
Fernandes paixão , e remettendo da popa , 
veio-íe á proa a bradar com os bateis , dir 
zendo-lhe palavras feas y porque não hiam 
avante. No qual tempo veio hum pelouro 
de huma bombarda , e deo em hum pião 
de hum falcão , e dalli resbaíou , e veio dar 
elle em Diogo Fernandes per huma ilharga 
que lhe metteo as armas per dentro , e car 
hio morto, fobre o qual hum moço leu, 
que eítava junto delle , íb poz a prantear ; 
a que D. Jorge logo acudio , e bradou 
com o moço que fe caíaíTe , e mandou cur 
]brir o corpo do morto com o bernio de 
hum remeiro. Quando os remeiros viram 
o rumor da morte do Capitão , como os 
mais delles eram Mouros , e gente forçar 
$a > começaram bradar per os Mouros das 



Década III. Liv. VI. Cap. IX. 89 

fuftas , que foíTem tomar a galé , ao qual 
rumor acudindo D.Jorge , ferio com a ef- 
pada a féis , ou íete , que os fez calar. E 
porque eram já muitos homens mortos , em 
que entrava o Condcítabre , e o Comitre , 
e outros tão feridos que não podiam traba- 
lhar 3 chamou hum Mouro remeiro , que 
lhe pareceo homem pêra iíTo , e diíTe-lhe 
que mandaífe a galé , que elle lhe dava li- 
berdade 5 e o havia por íeguro , e aííi fol- 
iou dez , ou doze degredados Chriftãos , 
mandando-lhe que o ajudaíTem , que além 
da foítura lhe faria mercê. Finalmente , fa- 
vorecida a gente , aprouve a Deos que os 
imigos enfraqueceram , e com o damno que 
recebiam dos tiros da galé fe foram aco- 
lhendo. D. Jorge quando os vio ir met- 
íeo-fe no efquife da galé , e acompanhado 
dos outros bateis , fez que hia trás elle , por 
moílrar aos Mouros de Chaul que os leva- 
va em fugida. Tornando á galé, fez que 
iurgifle , e mandou-a embandeirar , moítran- 
do a vitoria que houvera, e efteve aííi fur- 
to té vefpora , que com a viração fe foi 
aprefentar a Diogo Lopes , que eílava bem 
largo ao mar , o qual o recebeo com tanta 
honra , quanta teve de trifteza pela morte 
de Diogo Fernandes ; porque além de fe 
nelle perder hum homem , que pêra aquelle 
officio da guerra havia poucos c x ue lhe &> 

zef- 



90 ÁSIA de JoÃo de Barros 

zeííem vantagem , era grande feu amigo 
por coufas particulares. Ao qual mandou 
logo defarmar , havendo mais de quatro 
horas que era morto ; e tirando-lhe do pef- 
coço huma Cruz de ouro , em que trazia 
relíquias , começou lançar pelos narizes al- 
gum fangue , não tendo té então lançado 
huma gota , e dalli o mandou levar em hum 
efquife a enterrar a Chaul. Em lugar do 
qual proveo logo da capitania mor da Ar- 
mada , que alli havia de ficar ré vinda de 
D. Luiz de Menezes , a António Corrêa , 
e deo-lhe hum galeão , por fer peça que 
lhe podia fervir de baluarte em quanto ef- 
tiveíTe na barra , onde lhe mandou que fi- 
zeífe hum pêra daquella parte eílar a en- 
trada do rio tão fegura como da fronteira 
onde eftava o outro , de que era Capitão 
Pêro Vaz Permão. Dada efta ordem pêra 
guarda daquella fortaleza , partio-fe Diogo 
Lopes no fim de Dezembro pêra Cochij. 
E no caminho , fendo tanto avante como 
Dabul 5 começou a índia fazer feu officio , 
(como já diílemos,) que recebe aos que a 
vam governar , com alegre roílo , e quan- 
do os efpede de íi , he com todalas inju- 
rias que lhes pode fazer. Porque nefta para- 
gem achou D. Luiz de Menezes, que vi- 
nha com aquella pompa de muitas velas , 
e Capitão mór do mar ; ao qual mandou 

D. 






Década III. Liv. VI. Cap. IX. 91 

D. Duafrte fea irmão que vieííe acudir áquel- 
la fortaleza , que fe começava fazer em 
Çhaul , por ter nova do trabalho que os 
noííbs foíFriam das fuílas de Melique Az. 
Diogo Lopes , encontrado D. Luiz , efpe- 
rou que por fua dignidade , e idade que 
o foíTe ver ; e quando vio que o não fa- 
zia , metteo-fe no batel do feu galeão , por- 
que não levava mais velas , por as leixar 
todas a António Corrêa , e foi ver D. Luiz 
ao feu. Da qual viíla não ficaram conten- 
tes hum do outro , porque ainda D. Luiz 
quizera que elle Diogo Lopes lhe dera o 
galeão que levava ; e que fe fora em ou- 
tro navio pequeno , que lhe mandava dar. 
Partido hum do outro , chegou D. Luiz a 
Chaul a tempo que António Corrêa tinha 
acabado hum honrado feito, e foi eíle. 



CA- 



92 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO X. 

Como Aga Mahamud mandou per hum 
ardil commetter o baluarte onde ejlava 
Pêro Vaz Permao , no qual commettimen- 
to , pofto que morreo Pêro Vaz , e outros , 
os Mouros foram vencidos : no fim do qual 
feito veio D. Luiz de Menezes , a quem 
António Corrêa entregou a Armada , e da~ 
hi fe foi a Cochij embarcar com Diogo Lo- 
pes de Sequeira , que partio pêra ejle Rey- 
no , aonde chegou a fah } amento. 

PArtido Diogo Lopes , tomou António 
Corrêa poíTe com toda lua Armada da 
boca da barra , chegado muito a terra da 
banda de Chaul , onde Diogo Lopes lhe 
mandou que fizeíTe outra força como a 
fronteira, em que eílava Pêro Vaz: cá efta 
defenderia commetterem as fuítas entrar per 
aquella parte por varejarem com fua arti- 
Iheria aquelle lugar. Porque a ordem que 
António Corrêa , ( fegundo aíTentára com 
Diogo Lopes , ) efperava ter com aquelle 
Mouro Aga Mahamud , que tanto os per- 
feguia com a ligeireza das fuás fuftas , era 
que elle António Corrêa não fe moveíTe dal- 
li , e muito temperadamente , fe elle vieííe > 
gaílaíTe a pólvora, por a pouca que tinha: 
cá defpendendo em tiros perdidos } em pou** 

cos 






Década III. Liv. VI. Cap. X. 93 

cos dias a poderia gaitar de todo. Xec Ma- 
hamud , o noíío imigo , avifou a Aga Ma- 
hamud , que eftava em Baçaim reformando- 
fe do damno , que também recebeo de Dom 
Jorge , dando-lhe conta como o Governa- 
dor era partido , e que António Corrêa fi- 
cava pêra fazer hum baluarte da parte de 
Chaul. E que eftava aíTentado que não ha- 
via de fahir a elle a pelejar , fomente de- 
fender a entrada , que a elle lhe parecia que 
feria bem ordenar-le de maneira , como per 
algum modo entretiveffe a António Corrêa , 
e entretanto mandaffe commetter o baluar- 
te já feito da outra banda , onde não havia 
mais que té quinze homens. E que fe to- 
maíTe efta força ? ficaria fenlior do mar , e 
da terra , porque elle metteria também o lu- 
gar em alvoroço de maneira , que podia 
íucceder com que de todo nos lançafle dal- 
li fora ; e pêra o encaminhar per terra té 
elle dar no baluarte, lhe mandaria aquelle 
homem que lhe daria a carta. Aga Maha- 
mud , como teve efte aviíò de Xec Maha- 
mud , informado bem do ardil per efte ho- 
mem que lhe mandou , á grande preíla re- 
formou toda íua frota de munições, e gen- 
te frefca , e dahi a dous dias veio-fe pôr 
ante António Corrêa , provocando-o a fahir 
do poufo que tinha tomado; e quando en- 
tendeo fer verdade o que Xec Mahamud 

lhe 



94 ÁSIA de João de Bakros 

lhe tinha efcrito , ordenou o feu ardil per 
efta maneira. O baluarte , que diflemos que 
guardava Pêro Vaz , efta v a ao pé de hum 
morro > aíTentado de maneira , que da par- 
te do rio a terra era rafa , e dçfcuberta , 
com que elle podia bem varejar fua arti- 
Iheria a quem a quizefle commetter entrar 
pelo rio. E da outra parte contra a coita 
do mar eftava efte outeiro aífi ordenado , 
que quem fe puzeíTe de trás delle na parte 
de huma calheta , onde fe podia defembar- 
car em terra , ficava encuberta do mefmo 
outeiro , pêra não fer vifto do lugar onde 
António Corrêa eftava , nem do mefmo ba- 
luarte , que eftava ao pé delle. Nefta calhe- 
ta determinou Aga Mahamud que foíTe de- 
mandar Xec Gil , e o outro Capitão Abexij 
com té trezentos homens , e que levaíTe por 
guia o Mouro que lhe mandou Xec Ma- 
hamud : cá elle os levaria ao baluarte dos 
noflòs , e que em quanto elles commettef- 
fem o baluarte , elle Aga Mahamud eftaria 
no lugar onde eftava ás bombardadas por 
entreter os noííos. AíTentado efte feu ardil , 
levou Xec Gil quinze fuftas , e de noite por 
não fer vifto foi ter á calheta ? onde des- 
embarcou com fua gente , que foi levada 
pela guia que os havia de encaminhar ao 
baluarte dos nofíbs , onde eftavam mais quin- 
ze homens , que António Corrêa o dia dan- 
tes 



Década III. Liv. VI. Cap. X. 9? 

tes mandara a Pêro Vaz , como fe Jhe o 
efpirito differa o que havia de fer , com 
os quaes' fez trinta e tantas peflbas. Os 
Mouros , porque per onde a guia os levou 
era tudo mato , tiveram bem que fazer em 
chegar a fortaleza já alto dia ; e primeiro 
que fahiíTem da filada , tomaram fôlego do 
caminho , e dalli remettêram com huma 
grita , que deo grande fobrefalto aos rioP- 
íòs 3 por eílarem defcuidados daquella par- 
te. Mas como o temor eníína a falvaçáo , 
e elles não tinham outra fenão de fuás mãos , 
vendo que entre elles , e os Mouros havia 
tão defigual número , e mais não tendo por 
amparo mais que huns vallos , e hum pou- 
co de taboado ( com entulho de terra per 
dentro , receberam os imigos tão animofa- 
mente , que fendo pouco mais de trinta , 
pareciam outros trezentos , como os Mou- 
ros eram. António Corrêa , que eftava no 
feu poufo , quando da outra banda ouvio 
a grita dos Mouros , e vio o combate que 
davam , entendeo per onde fora a fua en- 
trada , e a grande preíía mandou dous ba- 
teis grandes com as peças de artilheria , que 
traziam ordenadas peraaquella defensão das 
fuftas , que acudiíTe ao baluarte com té fe£- 
fenta homens , dos quaes era Capitão Ruy 
Vaz Pereira. O qual atraveffando o rio da 
parte dalém, chegaram a tempo que eram 

já 



96 ÁSIA de Jo£o de Barros 

já mortos Pêro Vaz o Capitão, Simão Fer- 
reira , o Condeflabre dos bombardeiros , e 
outros com a mais da gente muito ferida. 
E havia homem que em huma rodela, que 
tinha a Cruz de Chrifto , (divifa dos Ca- 
valleiros defta Ordem , ) eftavam pregadas 
feííenta frechas , e nenhuma delias na Cruz > 
occupando ella com fua figura a maior par- 
te do campo derredor delia. E outros dous, 
que eram Manuel da Gunha^ e Pêro de 
Queirós , cada hum tinha na fua rodela de 
vinte e finco pêra cima. Finalmente , fegun^ 
do os Mouros eram muitos, foi hum gran- 
de milagre não terem tomado o baluarte , 
ante que lhe os dous Capitães acudiflem 
com fua gente , os quaes fizeram tal obra y 
que puzeram os Mouros em fugida ; e fe- 
não fora o mato do outeiro per onde elles 
vieram , no qual fe embrenharam , todos 
alli houveram de perecer: com tudo, fica- 
ram eftirados huns felTenta e tantos. Aga 
Mahamud quando foube defte desbarato dos 
feus , foi recolher fuás fuftas , e contentou- 
fe em o não irem demandar, com que fi- 
cou mais rnanfo , do que andava d'antes. 
Porque além de perder muita gente , a maior 
parte da qual era da mais nobre que elle 
trazia , entrou neíla o Capitão das fuftas Xec 
Gil , e o outro Abexij , e aíli morreo a guia 
que os levava y criado de Xec Mahamud. 

O 



Década III. Liv. VI. Cap. X. 97 

O qual defejando faber como aquelle Qa- 
fo paliara , por ter vigia nelle, e lhe fer 
dito que António Corrêa eftava no baluar- 
te , mandou-lhc hum batel carregado de 
refrefco- com hum recado de viíitação, An- 
tónio Corrêa como tinha já fabido quem 
elle era acerca de noflas coufas , mandou 
cortar as cabeças daquelles Mouros , que 
nos veftidos pareciam mais honrados , e 
xnandou-lhas , dizendo , que em retorno do 
refrefco lhe mandava aquellas cabeças , por 
faber quanto havia de folgar com a vitoria , 
que houveram os^ do baluarte , e os corpos 
de todos mandou enforcar ao longo da 
praia, que foi huma triíte vifta a todos os 
Mouros de Chaul. Quando elle Mahamud 
conheceo as cabeças dos Capitães , e a do 
criado , e outras peíToas nobres ,. foi tama- 
nha a dor nelle , que fem temor publica- 
mente moftrou quanto lhe pezava daquelia 
obra, dizendo que António Corrêa não lhe 
houvera demandar tal prefente em retorno 
da fua vifitação , e abadava a vitoria , e 
não mandar-lhe cabeças de homens , e mais 
fendo Mouros , entre as quaes podia haver 
coufa fua. Ecomo homem que fe difpunha 
a tomar de nós toda vingança , efcreveo a 
Aga Mahamud que fe avifaífe não partir 
dalli : cá lhe fazia faber que os noffos ti- 
nham gaitado toda a pólvora que trouxe- 
Tom. III. P.iL Q * ram. 



98 ÁSIA de J0X0 de Barros 

tâjn ò e com pouca aíFronta que lhe fizef» 
íem , lhe faria defender a que lhe ficava , 
de que lhe podia íiicceder huma boa ven- 
tura , com que recompenfaffe aquella per- 
da. Aga Mahamud tomando íeu eoufelho , 
não leixou de esbombardear a António Cor- 
rêa ; mas elle o entretinha , e todo feu cui- 
dado era defender que não foffe impedir 
acabar-fe de fazer o baluarte, em que poz 
vinte e cinco efpingardeiros , e por Capitão 
Álvaro de Brito. No qual tempo chegou 
D. Luiz de Menezes , a que elle António 
Corrêa , como Capitão mor do mar, en- 
tregou as velas que tinha , e elle veio-íè 
pêra Cochij em hum galeão pêra tomar 
Diogo Lopes de Sequeira, ante que partif- 
fe pêra eíle Reyno , por fer já no fim de 
Dezembro. O qual Diogo Lopes ainda não 
tinha feito entrega a D. Duarte do gover- 
no da índia por ter Provisão d^ElRey 
D* Manuel que té fe embarcar governaiTe ; 
c acabando de fazer fua carga , entregou o 
governo a D. Duarte de Menezes a vinte 
e dous de Janeiro de quinhentos e vinte e 
dous , e elle Diogo Lopes com oito velas 
carregadas de efpeciaria fe partio pêra eíle 
Pveyno , de que eftes eram os Capitães , el- 
le, D.Aleixo de Menezes, Ruy de Mello 
de Caftro , D. Aires da Gama , Manuel de 
k Cerda P André Dias ? Sancho de Toar 3 

Pe- 



Década IIL Liv. VI. Ca?. X. 99 

Pêro Quarefma , que todos chegaram a efte 
Reyno a falvamenco. E diante delle em vin- 
te e oito de Março chegou a náo Nuncia- 
da de Bartholomeu Florentim , Capitão feu 
filho Pêro Paulo Marchone, as quaes náos 
trouxeram muito boa carga de efpeciaria , 
e algumas delias eram do anno de vinte % 
por não terem por então carga > por efta 
caufa vieram nove náos. Eperó que a car- 
ga foi grande 5 foi a pimenta tal , que al- 
guma quebrou a fetenta por cento > e duas 
náos delia fe gaitaram á mingua de não ha- 
ver outra na cafa o anno de quinhentos e 
feflcnta e hum. A culpa da qual pimenta 
não teve Diogo Lopes , por elle íer-itefte 
tempo em Ormuz , e em Chaul fazendo a 
fortaleza ; mas André Dias Alcaide de Lis- 
boa , que veio por Capitão da náo Sant-Ia- 
go. Ao qual EIRey D. Manuel mandou o 
anno de quinhentos e vinte com grandes 
poderes , e regimento pêra elle feitor izar a 
carga daquelle anno , por fer homem que 
já no tempo do Vifo-Rey D. Francifco ef- 
tivera por Efcrivão da Feitoria em Cochij % 
e fabia o negocio daquellas partes. E elle 
em lugar de comprar pimenta , trouxe ter- 
ra y porque como os mercadores da efpe* 
ciaria entenderam que elle defejava de tra- 
zer grande carga pêra abonar fua diligen- 
cia , davam-iha verde, e ainda o anno de 
G ii -yin* 



too ÁSIA de Joio de Barros 

vinte e hum , que elle houvera de vir com 
ella , porque não pode haver quanta que- 
ria , ficou na índia , e mandou algumas náos 
com aquella que pode haver , e veio-íe eíle 
anno de quinhentos e vinte e dous. Puze- 
mos efta lembrança aqui, não por razão de 
hiítoria, mas como official do cargo de Fei- 
tor , que temos deita caía , per cuja mão 
palia a pimenta , e bondade delia \ porque 
feja avifo que pimenta, na índia hão deeP- 
tar os Officiaes compradores delia , e não 
mandados de cá em diícredito feu. E o que 
acerca diílo paíTa , leixo no meu peito , baf- 
ta que tenho experiência de trinta e oito 
annos de official , e vi paliadas , e prefen- 
tes experiências nefte negocio , que me faz 
dizer quanto mais aproveita aos Príncipes > 
pêra fazerem fua fazenda , fazerem mercê 
aos fieis , e caítigar cubiçofos , que defcon- 
fiar daquelles , per meio dos quaes neceíía- 
riamente le hão de fervir , porque na des- 
confiança não aíTornbram , mas indignam a 
quem tem pouca conta com a alma. E de 
EIRey D. João o Segundo de Portugal , 
{que foi hum Príncipe de grande governo,) 
conhecer bem a natureza dos Portuguezes , 
que com mais paciência recebem caíligo , 
que injúria , dizia por elles : Ao Portuguesa 
Tiao o enxovalhar , mas cajiigar quando o 
merecer. E já lhe aconteceo receber capítu- 
los 



Década III. Liv. VI. Câp. X. 101 

los de OfKcial de ília fazenda bem honra- 
do , e moílrar á parte que lhos deo , ter 
deícontentamento diflb , por faher que pro- 
cedia mais de ódio , que de zelo de feu 
ferviço. E também por não enxovalhar a 
parte diílimulou o caio mais de hum an- 
no , e neíle tempo ? fetri ò ninguém fentir , 
per íl mefmo tirou os capítulos , e achando 
a parte culpada nelles , lhe tirou o ofticio , 
e deo-lhe outro não menos honrado em 
cafa do Príncipe D. Affoníò feu filho , a 
quem então dava caia , moftrando ao Mun- 
do que fazia aquella mudança por fazer 
mercê á parte. A qual em fegredo repren- 
deo do que tinha fabido delle, não per via 
de capítulos , mas como Rey : cujo officio 
he faber como léus Officiaes vivem , pêra 
agalardoar os bons , e os que não são taes 
haverem feu caftigo. E porque as culpas 
deíla parte eram de cubica , por fer Offi- 
ciai de fua fazenda , em que ella padecia 
o detrimento , e não parte alguma : não 
foi o caftigo mais fevero , que tirar-lhe o 
azo de mais peccar ; porque trazia elle por 
coílume não caíligar a homens que comiam 
de fua fazenda, fenão a quem queria mais 
que comer. E eíla refpofta deo elle a hum 
Almoxarife dos mantimentos dos armazéns 
da Cidade de Lisboa , ao qual , pedindo-lhe 
que lhe accrefcentaíTe o mantimento , El* 

Rey 



ioz ÁSIA de JoÃo de Barroí 

Hey perguntou , que coufas recebia de feil 
officio j e elle lhe refpondeo , que farinha , 
bifcoito , carne , peicado , vinho , azei- 
te, vinagre, e outras coufas deita qualida- 
de pêra dar ás Armadas : ao que EIRey 
refpondeo : Pois ejjas coufas não são man- 
timentos ? Sao , Senhor (diífe elle) mas sãot 
de Vojja Alteza , e hei de dar boa conta del- 
ias. Comei vós ( diífe EIRey ) que eu não 
cajligo quem come , mas quem furta ; ha- 
vendo que comer , não merece cajligo fe* 
vão quem faz cafaria pêra viver , e lhe ren- 
derem , e cafa de honra , e fapenda pêra 
memoria de feu nome. E huma das coufas 
de grande prudência , e que louvam o Em- 
perador Carlos V* he , que de experimenta- 
do quanto damno lhe fazia per capítulos , 
e mexericos remover homens de cargos de 
feu eílado , principalmente quando per elle 
eram poftos no tal cargo , e nao inculcados 
per outrem , e de que tinha experiência , 
diílimulava com elles fem os ameaçar com 
defgoftos , e defeonfiança , ante nefte tempo 
moítrava ter delles muita , e os favorecia 
em fuás coufas por os mais confundir , o 
caftigar em feu tempo , que era quando aca- 
bavam de fervir feu cargo , como fazia , e 
achando o contrario , os remunerava com 
mercê. E já aconteceo ler-lhe dados capí- 
tulos de homem que elle tinha pofto em 

car- 



Década III. Liv. VI. Ca?. X. 103 

cargo de grande confiança de íeu eííado , e 
calando o nome de quem lhos deo , lhe 
mandou os próprios capítulos com palavras 
da confiança que tinha delle per experiên- 
cia de feus ferviços paíTados. íftp quafi ao 
modo de Alexandre Magno , que Íendo-Ihe 
dada huma carta , em que o avifavam que 
não tomaíTe huma purga , que lhe havia de 
dar o feu medico Filippo , porque nella hia 
peçonha pêra o matar , eftando elle doei> 
te; e pola grande confiança que tinha ne£~ 
le, quando veio ao tomar da purga, com 
huma mão tomou o vafo , per que bebeo 9 
e com a outra lhe deo a carta que a LeíTe, 
Porque dizia elle Emperador Carlos , que 
melhor fe achava da confiança que tiioftra-»- 
va aos homens de que tinha experiência, 
que de os remover dos officio6 , em que os 
tinha pofto , porque lhe acontecera muitas 
vezes damnar léus negócios em eítas mudan- 
ças. E nós-outros Portuguezes mais gloria 
temos no enxovalhar , que no caftigar , fen- 
do mais próprio da juftiçá o caftigo , que a 
injúria : cá o primeiro faz indignação, de 
que procede vingança ; e o fegundo con- 
funde com arrependimento da coufa \ por* 
que recebe a pena do caftigo. 



DE- 



DÉCADA TERCEIRA. 
L I V R O VIL 

Dos Feitos , que os Portuguezes fizeram 
no defcubri mento y e conquifía dos ma- 
res , e terras do Oriente : em que fe 
contém parte dascoufas que fe fi- 
zeram em quanto governou 
D* Duarte de Menezes. 



CAPITU LO L 

Como EIRey D. Manuel manâoii por Go- 
vernador á índia D. Duarte de Mene- 
zes , o qual par tio dejle Reyno o an- 
íto de quinhentos e vinte e hum. 

* 

Ste anno de mil e quinhentos e vin- 
te hum em Lisboa a treze dias do 
■^mez de Dezembro , ás nove horas 
depois de meio dia faleceo EIRey Dom 
Manuel .., o quatorzeno de Portugal , e pri- 
meiro defte nome , em idade de cincoenta 
e dous annos , féis mezes , e treze dias. Dos 
quaes reinou vinte e leis , hum mez , dez- 
enove dias. Foi fepultado no Moíleiro de 
N. Senhora de Beíhlem em Raftello , que 
(como no princípio deíla hiftoria efereve- 
nios) úíq novamente fundou em louvor de 

Deos , 




Década III. Liv. VIL Cap. L io? 

Deos , por lhe gratificar a mercê que lhe 
fizera no defcubrimento da índia. O Prín- 
cipe D. João feu filho , fendo em idade de 
yinte annos e quatro mezes , foi logo le- 
vantado por Rey na mefma Cidade de Lis- 
boa nos alpenderes do Mofteiro de S. Do- 
jningos. E pofto que na índia não fe fou- 
be efta nova fenão no anno feguinte de 
vinte e dous , em as náos que então parti* 
rain deíle Reyno [ porque D. Duarte de Me- 
nezes , que elle Rey D. Manuel tinha en- 
viado a ella por Governador , não foi en- 
tregue defíe governo fenão a vinte e dous 
de Janeiro de quinhentos e vinte e dous,. 
(como ora efcre vemos no fim defte fexto 
Livro , que atrás fica , ) convém que entre- 
mos neíle fetimo com o novo Rey , Se- 
nhor da conquifta , navegação , e commcr- 
cio do grão Oriente , que aquelle feliciííi- 
fflGj bemaventurado 5 e de gloriofa memo- 
ria EIRey feu padre lhe leixou por heran- 
ça , accrefcentada per elle á Coroa deites 
Reyno s de Portugal. E também começa- 
mos com novo Governador D. Duarte de 
Menezes, filho herdeiro de D.João de Me- 
nezes Conde de Tarouca, Prior do Crato 
da Ordem de S. João do Hofpital , e Ca- 
pitão da Cidade Tanger em Africa, eMor- 
domo mor que fora da cafa d 5 ElRey Dom 
Manuel > e feu Alferes mor > peífoa das no* 

ta- 



ioó ÁSIA de João de Barros 

taveis deite Reyno , aíll pelo claro íanguç 
de lua linhagem, como por fuacavalleria, 
e grandes qualidades. O qual D. Duarte 
não fomente tinha os méritos de feu pai, 
jnas ainda os de fua peflba , em honrados 
feitos que tinha acabado em Tanger , onde 
efteve por Capitão. Por os quaes refpeitos , 
c qualidades que té então não concorreram 
em quantos Governadores foram á índia, 
EIRey D.Manuel o efcolheo pêra efte go- 
verno , e conquifta , e lhe deo maior orde- 
nado do que tiveram os outros paíTados , 
e depois algum teve. E apercebida huma 
frota de doze velas , partio deite Reyno a 
cinco de Abril de quinhentos e vinte e hum : 
os Capirães das quaes velas eram elle , Dom 
Luiz de Menezes feu irmão Monteiro mór 
do Principe D. João , que logo reinou , (co- 
mo ora dííTemos , ) D. João de Lima filho 
de Fernão de Lima Alcaide mór de Gui- 
marães , que hia pêra Capitão da fortaleza 
de Calecut , D. Diogo de Lima filho do 
Bifconde D.João de Lima pêra Capitão de 
Cochij , João de Mello da Silva filho de 
Manuel de Mello Alcaide mór de Oliven- 
ça pêra Capitão de Coulão , Francifco Pe- 
reira Peílana filho de João Peftana pêra Ca- 
pitão de Goa , D. João da Silveira filho de 
D. Martinho da Silveira pêra Capitão de 
Cananor^ Diogo de Sepúlveda filho de João 

de 



Década III. Liv, VIL Cap. I. 107 

de Sepúlveda pêra Capitão de Sofala , 
Martim Affonfo de Mello filho de Jorge 
de Mello Lageo de alcunha, que da. índia 
havia de partir com três , ou quatro velas 
pêra ir afientar o trato da China, Gonçalo 
Rodrigues Corrêa de Almada Armador da 
própria náo em que hia , e Vicente Gil fi+ 
lho de Duarte Triílao , que também era Ar- 
mador da fua náo. E aíli hia em compa- 
nhia de Diogo de Sepúlveda em hum navio 
António Rico , que havia de fervir de Al- 
caide mor , e Feitor de Sofala , e nelle ha- 
via de vir Sancho de Toar, que lá eftava 
por Capitão. E apôs elle D.Duarte de Me- 
nezes partio Baílião de Soufa de Elvas , filho 
de Ruy d' Abreu Alcaide mor que fora de 
Elvas , por Capitão de duas velas , elle em 
huma náo , e João de Faria , e Henrique 
Pereira Cavalleiros da cafa cPElRey em 
hum navio , hum pêra fervir de Alcaide 
mor , e outro de Feitor de huma fortaleza 
que EiRey D. Manuel mandava fazer per 
elle Baílião de Soufa , de que havia de fi- 
car Capitão na Ilha de S. Lourenço em o 
porto Matatana por razão do gengivre 
que alli havia. Ao qual negocio já EIRey 
mandara a Luiz Figueira , que fez tão pou- 
co, como efcrevemos, quando Lopo Soa- 
res oanno de quinhentos e quinze indo pê- 
ra a índia o achou em Moçambique , e 

mui* 



io8 ÁSIA de JoXo de Barkos 

muito menos fez Baftião de Soufa, (como 
em feu lugar fe verá.) D. Duarte partido 
com fua frota ? e chegado a Goa , fabendo 
como Diogo Lopes , a quem elle hia fuc- 
ceder na governança da índia , eftava na 
preffa de fazer a fortaleza de Chaul , pola 
ncceffidade que tinha , e o tempo fer che- 
gado pêra fe elle vir pêra efte Reyno , não 
fez mais que ef pedir D. Luiz de Menezes 
feu irmão , como Capitão mor que era do 
mar , e de li metter os Capitães das forta- 
lezas em poífe , pêra que tivcíTem tempo 
de fe aperceber os que haviam de vir com 
Diogo Lopes de Sequeira, Entregue per 
Diogo Lopes da governança da índia a 
vinte edous de Janeiro , (como diflemos , ) 
e elle partido pêra efte Reyno , começou 
D. Duarte de Menezes entender no gover- 
no das coufas que ao prefente eram mais 
importantes acudir. E foi mandar algumas 
velas a feu irmão D. Luiz a Chaul , onde 
eftava, pêra leixar em guarda da fortaleza, 
e que elle a grão preífa foccorreíTe a Cida- 
de Ormuz ; por quanto viera o recado , ef- 
tando ainda alli em Cochij Diogo Lopes y 
que EIRey fe levantara contra os noííbs , 
e que a maior parte dos que poufavam fo- 
ra da fortaleza eram mortos , e os outros 
poftos em cerco. Ido efte recado a Dom 
Luiz , porque D. Duarte foubera que todo 

o da- 



Década III. Liv. VIL Cap. I. 10? 

o damno que fe recebera de Aga Maha- 
mud , fora por razão dos navios de remo 
leves que trazia ; ordenou de mandar logo 
doze fuftas , féis das quaes á fua cuíta fez 
Simão d'Andrade , a quem elle D. Duarte 
deo a capitania da fortaleza Chaul , leixan- 
do Diogo Lopes nella Henrique de Mene- 
nez , (como atrás fica.) Alguns quizeram cul- 
par D. Duarte , por tirar eíle lbbrinho de 
Diogo Lopes , a quem elle com mais razão 
podia dar efta fortaleza que a Henrique de 
Menezes , por ter em todolos Governado-» 
res Provisão d'E!Rey , que em qualquer 
fortaleza que fizeííem de novo 5 pudeíTem 
prover de Capitães , e Officiaes , té elle de 
cá do Reyno prover , o que D. Duarte não 
podia fazer , pois não vagara, E o porque 
fe iílo mais eftranhou , foi por elle D. Duar- 
te cafar huma filha baítarda , que cá leixou 
no Reyno , com Simão d 5 Andrade > e pa- 
recia fer a fortaleza dada por dote , o que 
não houve eíFeito , por elle falecer fem vir 
a eíle Reyno. Ao que D. Duarte dava por 
defculpa , que o fizera por Simão d 5 Andra- 
de fer hum homem mui antigo na índia , 
e experimentado na guerra delia , e que 
viera pouco havia da China muito rico 5 
c logo de boa entrada á fua cufta fizera féis 
fuftas. E que os homens deitas qualidades 
eram aquelles a que fe deviam entregar as 

for- 



ito ÁSIA de JoXo de Barros 

fortalezas cTElRey , por terem fubítanck 
pêra fufter todo trabalho , principalmente 
naquella de Chaul ainda por acabar, etão 
requeftada dos Mouros , eaffaftada de Goa, 
de que não podia em breve receber ajudas* 
E que Henrique de Menezes , pofto que 
folie bom Fidalgo , e Cavalleiro , era man- 
cebo , e novo da índia,. e íbbre iflb tão 
pobre , que não poderia foffrer os gaílos de 
Capitão \ e que fegundo a fortaleza eftava 
inquieta , primeiro ficaria de todo deftrui- 
do , que houveffe algum proveito* Final- 
mente com eílas , e outras razões, em que 
D. Duarte moftrou fer neceífaria efta mu- 
dança pelo eíhdo em que a fortaleza eíla- 
va , Simão d'Andrade partio pêra Chaul 
com regimento , que como foíTe mettido de 
pofle da fortaleza de Chaul , alfi as fuftas , 
como as outras velas que levava , repartif- 
fe em três capitanias pêra guarda daquella 
coita. Hum dos quaes Capitães foííe Dom 
Vafco de Lima , outro Franciíco de Soufa 
Tavares , e outro Martim Corrêa , por 
quanto feu irmão D. Luiz era ido ao levan- 
tamento de Ormuz a grão prefla , como lo- 
go veremos, Defte caminho foi Simão d'An- 
drade ter á barra de Dabul , onde foube que 
dentro no rio eftavam duas galés çle Ru- 
mes ., que alli foram ter a cafo vindo de 
Dio j íobre as quaes mandou hum recado 

ao 



Década III. Liv. VIL Cap. I. in 

ao Capitão da Cidade , que lhas mandaíTe 
entregar, por ferem de gente noíía contra- 
ria. E pofto que elie fe defendia com ra- 
zões de o não poder fazer, quando foube 
que Simão d'Andrade fe apercebia pêra as 
ir tomar á força de ferro , houve por me- 
lhor confelho mandallas entregar, temendo 
que não fomente daquella fahida , mas po- 
lo tempo em diante podia receber de Simão 
d'Andrade muito damno, pois vinha a fer 
feu vizinho na capitania de Chaul. Com 
as quaes galés Simão d 5 Andrade não fe con- 
tentou , mas ainda fez obrigar a Cidade 
que pagaíTem de páreas a EIRey de Portu- 
gal dous mil pardaos , pêra ficarem em ami- 
zade , e paz com eiles , por a vizinhança 
que haviam de ter , o que todolos morado- 
res com o Tanadar concederam. Chegado 
Simão d' Andrade comefta vitoria a Chaul , 
Marfim AíFonfo de Mello lhe entregou a 
fortaleza , ao qual D. Luiz leixaria alli cm 
guarda daquelle porto té elie Simão d 5 An- 
drade vir. E também pêra fe prover das 
coufas, que lhe convinha levar dalli pêra o 
refgate da pimenta , que havia de tomar em 
Pedir , que era a principal mercadoria 5 que 
havia de levar á China, onde havia de ir. 
Eefta foi acaufa porque elie veio a Chaul 
com D. Luiz , haver alli muita cópia da 
mercadoria pêra aquella parte de Camatra, 

E 



112 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

E cm quanto alli efteve , não rccebco aquel- 
les commettimentos das fuftas de Aga Ma- 
hamud , porque a chegada de D. Luiz af- 
Íombrou muito a Mclique Az. Porque co- 
mo elle fempre viveo de cautelas , e artifí- 
cios de prudência , e malicia pêra feus ne- 
gócios , tanto que D. Luiz alli foi , foube 
quem era 5 e cujo filho , e irmão do Gover- 
nador que novamente vinha , que era Ca- 
valleiro , e mui ufado na guerra dos Mou- 
ros , por eftar muito tempo em a Cidade 
de Tanger em Africa , dos quaes tinha ha- 
vido muitas vitorias. As quaes novas o en- 
freavam de maneira , que mandou ceifar as 
fuftas , e ordenou logo hum menfageiro a 
D. Duarte , e mandou-lhe de boa entrada 
huns Portuguezes cativos , que latinha, dos 
que foram tomados da náo de Pêro da Sil- 
va , (como atrás fica.) Martim Affonfo de 
Mello , tanto que fe aviou , foi-fe pêra Goa , 
e alli fe defpedio de D. Duarte pêra Co- 
chij , donde partio pêra a China ; da via- 
gem do qual adiante faremos relação , e 
aífi de D. André Henriques , que também 
D. Duarte mandou a tomar pofle'da forta- 
leza de Pacem ema Ilha Çamatra. E ante 
deftes dons Capitães tinha, mandado três 
náos caminho de Ormuz, que levaram João 
Rodrigues de Noronha pêra Capitão da for- 
Caleza ? e também favorecerem a D. Luiz; 

de 



Dec. III. Liv. VIL Cap. L e II. 113 

de Menezes , que era ido em foccorro do 
alevantamento da Cidade 5 do qual levanta- 
mento convém repetir-iè a cauía delle de 
.longe pêra melhor entendimento da hiílo- 
ria. 

CAPITULO IL 

Das coufas que moveram a FlRey 
D. Manuel mandar que na Alfandega de 
Ormuz houvejjè Oficia es Portuguezes : e 
o que fobre iffo primeiro paffou : e como 
EIRey de Ormuz fe levantou por efe ref 
peito. 

Epois que Affoníb d'Alboquerque o 
anno de quinhentos e oito per força 
.de armas fez que EIRey Ceifadim de Or- 
muz pagaííe de tributo a EIRey D* Ma- 
nuel em cada hum anno quinze mil xerafijs 
de ouro \ e por as razoes que atrás efcreve- 
mos , leixando a fortaleza por acabar , fe 
partio pêra a índia , com que parecia que 
eílas páreas não ficavam mui certas , toda- 
via elle as mandava arrecadar. Verdade he , 
que quando li mandou Diogo Fernandes 
de Beja , trouxe menos vinte mil xerafijs y 
do que devia. E no anno dequatorze, que 
lá foi Fero d^Alboquerque , quando defcu- 
brio Baharem , devia feííenta e cinco , e não 
pagou mais que dez mil , aqueixando-fe ren- 
iier o feu Reyno tão pouco , que não era 
~Tom.IILP.iL H ■ po- 



ii4 ÁSIA de JoXo de Barros 

poderofo pêra pagar tão grande tributo* 
Movido dos quaes queixumes o Vifo-Rey 
D. Francifco d'Almeida > ante difto lhe qui- 
tou cinco milxerafijs , e outros tantos Duar- 
te de Lemos , quando fendo Capitão da co£ 
ta da Arábia foi ter a Ormuz. E como 
Affonfo d'Alboquerque fabia , que os rendi- 
mentos daquelle Reyno eram mui grandes , 
e a maior parte era fonegada a EIRey per 
os feus Governadores , quando o anno de 
quinhentos e quinze tornou a tomar poífe 
daquelle Reyno 5 mandou fazer a diligencia 
que efcrevemos , em faber particularmente 
quanto rendia o Reyno , e as defpezas or- 
dinárias que tinha , por EIRey não allegar 
pobreza. E também , porque como lhe en- 
tregava aquelle Reyno , que elle Affonfo 
cPAlboquerque tinha ganhado por armas, 
como Capitão geral que era d'ElRey Dom 
Manuel de Portugal ; convinha que miuda- 
mente foubeífe parte delias couías , pofto 
que naquelle tempo pêra quietação , e go- 
verno do mefmo Reyno , foi neceífario tor- 
ndlo a entregar ao próprio Rey , a que 
foi tomado , pêra o governar em nome d 5 EI- 
Rey como vaíTallo feu , pela maneira que 
atrás efcrevemos. Depois em todo o tempo j 
de Lopo Soares , que fuccedeo no governo 
da índia a elle Affonfo d ? Alboquerque , pof- 
to que as páreas que EIRey de Ormuz pa- 
ga- 



Década HL Liv. VIL Cap. II. n? 

gava, que eram quinze mil xerafijs , foliem 
tão pouca coufa , que levemente o podia 
fazer , fempre o pagamento fe havia com 
trabalho , e clamor do mefmo Rey , dizen- 
do , que o Reyno rendia pouco , porque 
os Mouros affi da coita da índia , e Cam- 
baya , como os da parte da Arábia , por 
noíía caufa , não frequentavam tanto aquel- 
la Cidade Ormuz como fohiam , e ifto com 
temor de noífas Armadas , em que fe per- 
dia muita parte do rendimento da entrada , 
e fahida das mercadorias , que era a maior 
renda que o Reyno tinha. E além difto , e£ 
tava pofto em tanto ódio dos vizinhos , por 
fer noffo . que affi per mar , como per ter- 
ra padecia muitas aífrontas , pêra que lhe 
convinha manter muita gente de armas, hu- 
ma pêra andar de Armada contra os Nau- 
ta quês , e outra a defender as cáfilas da Per- 
ita , que vinham aos lugares da terra firme , 
que o Reyno lá fuftentava. E mais tinha 
outro novo trabalho muito importante , de- 
pois que tomáramos aquella Cidade , fe vie- 
ra levantar o Governador de Baharem com 
o tributo que era obrigado pagar a elle Rey 
de Ormuz , e pela mefma maneira o fazia 
o Guazil da villa de Calayate, de que Ei- 
Rey tinha muito rendimento , fem noífas 
Armadas acudirem a eítas opprefsões, e le- 
vantamentos , fendo o mefmo Reyno noífo. 
H ii Fi- 



u6 ASTÀ de JoÃo de Barros 

Finalmente per cite modo apontava muitas 
coutas , em que nos queria culpar, e defo- 
brigar a fi mefmo do que devia , não haven- 
do outra mais verdadeira caufa , que os rou- 
bos de íeus Regedores , e Officiaes. E por- 
que EIRey D, Manuel era informado def- 
tes roubos, quando António de Saldanha o 
anno de quinhentos edezeíete foi deite Rey- 
no , ( como atras eicrevemos , ) pêra andar 
com huma groíTa Armada , que havia de 
correr da coita de Cambaya té o Cabo Guar- 
dafu , levava em regimento que foííe a Or- 
muz f e tiraííe , e puzefle Officiaes pêra 
tudo andar em boa recadação. Sobre o qual 
cafo efereveo a Lopo Soares , mandando- 
Jhe que fizeffe eíta Armada a António de 
Saldanha de té dezelete velas com mil ho- 
mens , pêra tolher a navegação aos Mouros 
do mar Roxo , e de toda a cofta de Ará- 
bia : e os da índia não pudeffem navegar, 
ienão com hum faívo conduto noflb , a que 
elles chamam cartaz , pêra feguramente irem , 
e virem a noíías fortalezas té Ormuz por 
razão do rendimento. E affi lhe mandava 
que mettefiem debaixo da obediência d'Ei- 
Rey de Ormuz qualquer feu Guazil , e Re- 
gedor h que contra elle eftiveffe levantado. 
Mas nenhuma deitas coufas houve efFeito 
com a ida de Lopo Soares ao eftreito do 
mar Roxo 5 porque no inverno que veio ter 

a Or- 



Década TIL Ltv. VIL Cap. II. 117 

a Ormuz , fahindo deíle eftreito , entendeo 
em algumas coufas do rendimento daquelle 
Reyno , e houve por inconveniente ao fer- 
viço d 5 ElRey D. Manuel bolir com iífo. 
E por efta caufa rgandou elle Lopo Soares 
a António de Saldanha , ao tempo que lhe 
fez a Armada pêra andar na boca do eftrei- 
to y da vez que elle deftruio a Cidade Bar- 
bara , (como atrás eícrevemos , ) que quan- 
do íe recolhefie a invernar em Ormuz , não 
ufafíe do regimento que lhe EIRey dera 
pêra tirar os Officiaes da Alfandega , té elle 
informar a EIRey ^daquelle negocio , por 
fer caufa mui prejudicial a feu ferviço en- 
tão fazer aquella mudança. Todavia Antó- 
nio de Saldanha defta vez que foi ter a Or- 
muz , pofto que não fez mudança , fabendo 
EIRey de Ormuz que tinha elle poderes 
pêra iíTo , levemente acceitou accrefcentar- 
lhe mais dez mil xarafijs cada anno. Em re- 
compensao deíle accrefcentamento fez com 
EIRey de Baharem que pagaífe o que de- 
via ; e em pena das rebeliões que fez a 
EIRey de Ormuz , lhe pagaífe mais em ca- 
da hum anno dous mil xarafijs , e a EIRey 
D. Manuel mil. Todas eftas coufas eram 
paliadas ante que Diogo Lopes de Sequei- 
ra fofle por Governador á índia , e outras 
de que EIRey era informado per os Capi- 
tães ^ e Officiaes que eftiveram em Ormuz, 

fa- 



Ii8 ÁSIA de JoÃo de Barros 

fazendo-lhe crer importar muito a feu fer~ 
viço mandar pôr Officiaes feus na Alfande- 
ga , que tiveíTem conta com os rendimen- 
tos daquelle Reyno , por quanto era rou- 
bado per os Mouros , e que EIRey havia 
o menos , por fer homem que no governo 
era huma eftatua. Finalmente com eftes , e 
outros confelhos de homens , que querem 
comprazer os Principes , quando Diogo Lo- 
pes de Sequeira foi por Governador á ín- 
dia , EIRey lhe mandou que défle huma 
vifta a Ormuz , e fizeíTe o que tinha man- 
dado a António de Saldanha. E porque ao 
tempo que elle Diogo Lopes fahio do es- 
treito de Meca , quando veio invernar a Or- 
muz , como teftemunha de vifta , julgou fer 
mais ferviço d'ElRey D. Manuel leixar cor- 
rer as coufas do rendimento , e arrecadação 
delle per as mãos dos Mouros , que per 
nós 5 não quiz bolir na ordem que os Mou- 
ros niífo tinham. Porém porque achou na 
índia cartas d ? ElRey, em que lhe manda- 
va eftreitamente que puzeíTe aquella obra em 
efFeito , fe ainda tinha por fazer , não quiz 
tomar juizo fobre íi , pofto que outra cou- 
fa fentiíTe , e defta derradeira vez que inver- 
nou em Ormuz > fez o que lhe EIRey man- 
dava , (como atrás efcrevemos.) E o modo 
que teve nefte cafo foi dar primeiro a EI- 
Rey de Ormuz lmma carta d'ElRey Dom 

Ma- 



Década III. Liv. VIL Cap. II. ii£ 

Manuel, a fubííancia da qual era, Ter elle 
informado dos grandes roubos , que os feus 
Officiaes da fazenda faziam na arrecadação 
dos rendimentos do Reyno , principalmente 
n^ Alfandega , pela maneira que Diogo Lo- 
pes feu Governador lhe diria. EIRey y co- 
mo já do tempo de António de Saldanha 
andava aflbmbrado diíta , pareceo-lhe que 
não confentindo no que EIRey queria , o 
podiam tirar do Reyno , refpondeo que elle 
era vafTallo d ? E!Rey de Portugal 3 e aquelle 
Reyno de Ormuz era feu , que eftava obe- 
diente ao que Sua Alteza mandalíe. Porém 
como ifto era coufa mui nova , e que po- 
deria dar algum efcandalo aos feus Mires , 
e principalmente aos Officiaes da fua fazen- 
da , que traziam o maneio deitas coufas , 
pedia a elle Diogo Lopes que fobreviefle 
afli dous , ou três dias , té elle o praticar 
com elles , e os levar brandamente , e da 
maneira que convinha per$ EIRey de Por- 
tugal fer melhor fervido , fem alvoroço al- 
gum. Paífados eítes dous dias , em que EI- 
Rey praticou com os feus , peró que os 
achou conformes ao feu próprio animo , 
que era perder ante a vida , que ficarem ca- 
tivos , e atados das mãos per efte modo , 
porque* ao prefente aífi lhe convinha , tor- 
nou a Diogo Lopes com refpofta. E por 
diffimular com elle, propoz-lne alguns fra- 
cos 



I2G ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

cos inconvenientes ao que EIRey D. Ma- 
nuel ordenava, os quaes eile Diogo Lopes 
lhe desfez , com que o negocio íicou con- 
cluído. Do qual fuceedeo metter-lhe na Al- 
fandega eftes Officiaes : Manuel Velho pòr 
. Juiz , e Provedor das rendas delia , Thefour 
reiro Ruy Varella , Efcrivães Nuno de Cal- 
tro, Vicente Dias, Miguel do Valle , Ruy 
Gonçalves , Diogo Vaz. E com eftes quatro 
Efcrivães eram outros quatro Mouros , que 
também faziam Livros per 11 , que refpon- 
diam aos noíTos ; e fobre os Mouros havia 
a modo de Feitor , hum per nome Coge 
Hamed , grande Official daquella Alfandega, 
E porque nefta prática , que Diogo Lopes 
teve com EIRey , e feus Governadores fo- 
bre efte rendimento , e paga das páreas , 
clamavam que fe não podiam fazer , por 
Cambaya eílar de guerra comnofeo , e EI- 
Rey Mocrim de Baharem levantado contra 
Ormuz, fem querer pagar o que devia; or- 
denou Diogo Lopes , poios fatisfazer , de 
mandar António Corrêa a Baharem , onde 
fez o que atrás eferevemos. Finalmente tan- 
to que os Officiaes d'ElRey fe viram en- 
freados com os noííos , e que não podiam 
ufar dos roubos de que viviam , nem me- 
nos EIRey fazia as quitas dos direitos , que 
d^antes fazia a peílbas principaes da fazen- 
jda 3 que mandavam vir da índia , que in*- 

por- 



Década III. Liv. VII. Cap.-II. 121 

portava pêra rendimento huma grande quan- 
tidade , e outras graças , e mercês que da^ 
va , por fer homem de boa condição , e de 
pouco governo ; aqui fe perdeo entre elles 
toda a paciência , e determinação de fe le- 
vantarem contra nós. Peró em quanto Dio- 
go Lopes efteve em Ormuz ; encubríram 
muito efta indignação , que na vontade d'EI- 
Rey não era tão grave , como nos feus. 
Porque eile Rey Tornuxá era homem mo- 
ço de boa condição , e pouco íaber , fujei- 
to a qualquer coníèlho ; e em quanto viveo 
feu pai , que os Mouros tinham cegado , 
fempre foi muito fujeito a nós. Porque eíle 
oaconfelhava como homem experimentado, 
que fe não fiafíe dos Mouros , e todo fe 
íobmetteíle ao que EIRey D. Manuel lhe 
mandaiTe , porque em quanto lhe tiveíle ef- 
ta obediência , feria Rey ; e levantado , não 
teria Reyno , nem vida. Mas como lhe fa- 
leceo efte confelho do pai , e teve á orelha 
hum Xeque feu fogro , e Mir Hamed Mo- 
rado, homem manhofo , etãoacceito aelle 
Rey , que fe hia creando nelle outro Raez 
Hamed , que AíFonfo d^Alboquerque ma- 
tou, (como atrás efcrevemos,) logo ficou 
fujeito ao confelho defte , efquecido dos que 
lhe dava feu pai. E podo que Diogo Lo- 
pes eftando em Ormuz , foi avifado per al- 
gumas peífoas > como entre alguns Mouros 

an-i 



iiz ÁSIA de João de Barros 

andava rumor deita vontade que os prin- 
cipaes tinham de fe levantar, e a principal 
peíToa que iíto defcubrio a elle Diogo Lo- 
pes era hum Raez Delamixar irmão de 
Raez Xarafo Guazil d'ElRey , o qual fica- 
ra em Ba harém , ( como efcre vemos , ) da 
ida que foi com António Corrêa , e tinha 
paixões com eítes dous acceitos a EIRey; 
parecia a elle Diogo Lopes que toda eíta 
murmuração eram artifícios delle Xarafo , 
pêra ficar fó no governo do Reyno , por 
ler homem prudente , e mui fagaz no enfiar 
dos negócios a feu propoíito , ficando fem- 
pre de fora , e livre de íufpeitas que fe 
delle pudeíTem ter. E ainda pêra fe Diogo 
Lopes melhor enganar, per confelho deites 
dous feus acceitos , EIRey lhe pedio quan- 
do fe queria partir, que lheleixaffe alli hu- 
ína náo , porque nella queria mandar a EI- 
Rey D. Manuel hum prefente de jóias , e 
peças ricas. E com cilas também hum feu 
Embaixador fobre a mudança dos Officiaes 
daqueíla Alfandega , porque lhe parecia que 
aquella ordem , que Sua Alteza mandava , 
fora . per confelho de homens que mal en- 
tendiam o negocio , e que não podia muito 
durar. O qual requerimento Diogo Lopes 
lhe concedèo , e a eíte fim leixou Pêro da 
Silva com a náo , em que foi morto pelas 
fuítas de Melique Az, citando Diogo Lo- 
pes 



Década III. Liv. VIL Cap. II. 123 

pcs em a barra de Chaul 5 (como atrás es- 
crevemos.) E alguns dos noíTos que fabiam 
bem das coufas d\EiRey Torunxá de Ormuz , 
quizeram dizer , e com verdade , que eíle 
petitório da náo que elle fez a Diogo Lo- 
pes , fua tenção era mandar o prelènte a 
EIRey D. Manuel , e que pêra ifíb tinha 
aleito alguns homens nobres pêra Embaixa- 
dores , os quaes reprefentaflem a EIRey 
quanto mais damno, havia de trazer efta no- 
vidade, de mandar poer Oíficiaes Portugue- 
ses na Alfandega , que proveito algum , e 
também a lhe dar conta de algumas oppref- 
sões, e máo tratamento que recebia de al- 
guns Capitães que alli eftavam , e outras 
coufas que elle não oufava dizer. E quanto 
a mandar o prefente 3 D. Garcia Coutinho y 
que então eítava por Capitão em Ormuz , 
lho impediria , dizendo , que pêra o anno 
o mandaria per elle , por acabar o tempo 
que havia de eítar na fortaleza , e que le- 
varia comíigo os Embaixadores. Finalmen- 
te eftas , e outras coufas , que leixamos de 
contar , por não macular fama de nobre 
gente , padeceo EIRey , e aííí indignou a 
elle , e aos feus , que determinaram de tirar 
o jugo y que lhe cativava o feu modo de 
vida, eufo, e condição. Eoque elles mais 
fentíram , era tomarem-lhes parentas , e fer- 
vidores , de que os noíTos queriam ter ufo , 

mui- 



124 ÁSIA DE JoÂo DE IUrkos 

muitos das quaes lhe faziam Chriftans a feu 
pezar. Partido Diogo Lopes ; concorreram 
algumas couías pêra em mais breve tempo 
os Mouros effeituarem leu defejo , que era 
levantarem-fe contra nós. E a principal foi 
não leixar Diogo Lopes tanta Armada em 
guarda da fortaleza , como IheElReyDom 
Manuel mandava , e affi pêra guarda da 
cofia de Arábia , e a entrada daquelle eftrei- 
to de Ormuz , onde acudiram os Nauta- 
quês , povos que habitam o marítimo das 
regiões Quermam , e Macram , que jazem 
entre o rio índio , e boca do eftreito de Or- 
muz. Os quaes povos , poíto que feu pró- 
prio nome feja Baloches , o officio que ufam 
de ladroes lhe deo o de Nautaques , que 
quer dizer em fua lingua , o que nós dize- 
mos per ladrões do mar , chamando-lhescoC- 
lairos. Os quaes Nautaques tinham por vi- 
da fahir de íèus portos em navios pequei 
nos , e leves ; e como a náo paffava per fua 
paragem , fenão hia bem artilhada , e defen-* 
favel , a commettiam , e roubavam de ma- 
neira 9 que pêra fegurança dos que navega- 
vam pêra Ormuz, os Reys deite Reyno po- 
lo muito que lhe importava o rendimento 
da entrada , e fahida das mercadorias , que 
a elle concorriam , fempre no tempo da 
monção , com que aquelle mar fe navega- 
va 7 trazia naqueila coita huma Armada pe-* 

n 



Década III. Liv. VII. Cap. II. 125- 

ra defensão dos navegantes. A qual Arma- 
da , aífi pêra efte effeito , como pêra guarda 
da fortaleza não leixou , porque como dal- 
li partio com fundamento de fazer fortale- 
za em Dio , ou Chaul , como fez , tinha 
neceílídade da gente , e velas que levava, 
epareceo-lhe que bailavam eftas quatro que 
lhe leixou , hum navio redondo , huma ga^ 
leota 5 huma fufta , e huma caravela ; das 
quaes Manuel de Soufa Tavares era Capi- 
tão mor, e os outros Capitães eram Fran- 
cifco de Soufa , de alcunha o Bravo , Fer- 
nando Alvares Cernache , e João de Meira. 
Concorreo também pêra os Mouros porem 
em obra feu defejo , huma nova falia que 
lançaram , dizendo que os Nautaques > que 
ora diíTemos , eram lançados na coíla de 
Arábia ., e que faziam muito damno nas po- 
voações , que EIRey de Ormuz alli tinha y 
a que convinha logo acudir. Çom o qual 
fingimento EIRey pedio a D. Garcia Cou- 
tinho Capitão da fortaleza , que mandafle 
lá Manuel de Soufa em foccorro com os 
navios que alli tinha. Manuel de Soufa , 
como efte era feu officio , o mais brevemen- 
te que fe pode aviar , com parecer de Dom 
Garcia fe partio , levando fomente o navio 
em que elle andava , e a galeota , de que 
Fernando Alvares Cernache era Capitão. E 
os outros dous navios ficaram pêra ferviço 

da 



I2Ó ÁSIA de João dê Barros 

da fortaleza , que não aprouve muito ao# 
Mouros : cá feu defejo era ficarem os nof- 
fos fem íbccorro algum. Nefte tempo , por- 
que a noífa fortaleza não era tão grande , 
como ora he , não íe podia toda a gente 
agazalhar dentro , e poufavam na Cidade 
entre os Mouros muitos dos noflbs , e o 
mais perto que podiam da fortaleza , prin- 
cipalmente Ignacio de Bulhões , que era Fei- 
tor , e os Officiaes da Feitoria , e aííi Ma- 
nuel Velho com os Officiaes da Alfandega , 
Ouvidor , e outras peííbas que haviam mif- 
ter por caufa de feus officios grande gaza- 
lhado. E ainda a Feitoria de induftria a pu- 
zeram fora , por razão dos muitos Mouros , 
que por caufa do commettimento concor- 
riam a elle. E eílando dentro na fortaleza 
íimulando que hiam a efte negocio 5 fendo 
muitos , podiam commetter alguma traição. 
Finalmente como tiveram lugar pêra iíTo, 
com a aufencia de Manuel de Soufa , que 
foi hum Domingo á noite , fendo paliados 
os trinta dias do mez de Novembro , do 
anno de quinhentos e vinte e hum , na maior 
força do fomno o Xabandar , que tem car- 
go das coufas do mar ? a quem EIRey ti- 
nha commettido efta primeira obra , foi-fe 
com oito terradas , navios leves , onde efta- 
va a nofia caravela , e galé , e repartidas 
as terradas em duas partes x em hum inftan- 

te 



Década III. Liv. VIL Cap. II. 127 

te as coinmettêram , nas quaes não havia 
mais gente , que alguns marinheiros. E por- 
que a galé tinha menos que o navio , foi 
logo entrada , matando nella hum homem , 
e os outros fe falváram a nado , acolhen- 
do-fe á fortaleza , quafi todos frechados* 
Defpejada a galé dos noíTos , puzeram-lhe 
os Mouros fogo ; e como foi fobre huma 
pouca de olla , que eftava na coxia , maté- 
ria porfer de folhas de palma, queda mui- 
ta claridade em labareda , foi vifta de hu- 
ma torre alta, onde eftava pofta huma ata- 
laia pêra dar fignal. O qual fignal foi tan- 
ger nella, e depois per todas as partes da 
Cidade muitas bacias de arame , ao modo 
que coftumam em Hefpanha os moços , 
quando lançam entrudo fora. E ainda fobre 
efta motinada das bacias , efte Mouro que 
eftava por atalaia na torre , a que elles cha- 
mam Alcorão , feito o fignal , bradava altas 
vozes : Mata/los , matallos. Os que puzeram 
na galé efte fogo , que deo o fignal , com 
alvoroço das bacias , e defejo de acudir ás 
poufadas dos nofibs , por roubar , como 
que leixavam já a galé pofta em labareda , 
fahiram-fe delia. A qual labareda como era 
das palhas da olla que difíemos , foi logo 
apagada per hum moço grumete que fe ef- 
condeo , quando fentio os Mouros dentro, 
que N. Senhor falvou pêra efte beneficio de 

fe 



128 ÁSIA de João dé Barros 

fe não queimar a gale. O navio que foi 
commettido per as outras quatro terradas 
defendeo-íè mui bem , por nelle dormir 
rnais gente do mar que na galé , com que 
fe os Mouros afíaíláram. E por diffimular 
o cafo , e aííocegar os noíTos , diííeram que 
vinham da terra firme, e que lhes traziam 
agua , mas pois a não queriam receber , que 
lha não queriam dar , e foram-fe também 
á Cidade com alvoroço de prear. E porém 
de fete , ou oito homens que nelle havia > 
Jium ficou morto , e outros feridos , o qual 
xlamno lhes deo certo fignai fer traição dos 
Mouros , e não a agua que diziam ; por- 
que ainda que per muitas vezes a tinham 
delles recebido , não era per aquelle modo 
de os ferir, ante ouvindo a revolta da Ci- 
dade eftiveram mais á lerta. Os Mouros da- 
do o fignai da obra , que era feita no mar , 
€ ouviam na terra , juntos em magotes huns 
per huma parte , outros per outra , foram 
bufcar onde a mais da noíla gente poufa- 
va , que era em humas cafas grandes , a 
jque elles chamavam Madraçal , e affi a 
Jium Hofpital noílb , e as cafas da Feito- 
ria , que eram em outra parte. E muitos 
foram tomar a porta da fortaleza , porque 
quando os noííos fe vieíTem recolher , fe 
efcapaflem das mãos de quem os hia buf- 
: car ; vicílem cahir nas fuás. E verdadeira^ 

inen- 



Década III. Liv. VIL Cap. II. 129 

mente era tamanha a revolta , aíli em 09 
noíTos por fe falvar , como no commetter 
dos Mouros , que fe não entendiam huns , 
nem outros , nem havia naquelle tempo 
mais certa coufa, que fogo, efangue. Por- 
que fe os noíTos fe defendiam em ieus apou- 
fentos , a poder de fogo os faziam fahir das 
cafas , e faltar janellas ; e fe per ventura e£* 
capavam daqui , pelo caminho indo-fe reco- 
lhendo á fortaleza eram mortos , e feri- 
dos. E os mais que efcapavam eram aqueí- 
ks , que levavam comfígo muita companhia , 
aíu como o Feitor Ignacio de Bulhões com 
feus Officiaes , e Manuel Velho com os feus , 
e outra gente nobre , cuja familia lhe fazia 
corpo pêra fe defender , muitos dos quaes 
foram feridos primeiro que entraífem a pe- 
zar dos Mouros dentro na fortaleza. Final- 
mente cite levantamento , (não fallando em 
perda de fazenda , porque nefte tempo to- 
dos tinham mais tento em falvar a peífoa , 
que a ella , ) cuílou mais de cento e vinte 
Portuguezes , a fora efcravos , e efcravas 
Chriftãos que os ferviam. E porém eíla mor- 
tandade não foi toda em Ormuz , porque 
na Cidade morreriam té vinte e tantos , e 
cativos feriam té quarenta ; os outros neíle 
mefmo tempo foram fobrefaltados em as 
villas deMafcate, Curiate, Soar, eemBa- 
harem , que eram do Reyno de Ormuz, 
Tom. III. P.il. I on- 



130 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

onde nós tínhamos Feitoria com Officiacs 
do mefmo negocio , a fóra outros muitos 
que fe lá falváram , que logo veremos. Por- 
que como EIRey aííentou de fe levantar, 
a todos os Governadores deitas partes eícre- 
veo que não dçííem vida a Portuguez al- 
gum , e limita va-lhes o tempo , porque não 
houveífe efpaço de fe faber de hum lugar 
a outro. E entre eftes que padeceram nefta 
traição dos Mouros , que fe pode chamar 
martyr da Fé , foi Ruy Boto , que António 
Corrêa leixou por Efcrivao da Feitoria de 
Baharem, No qual por fe não querer fazer 
Mouro , fizeram cruezas , e lhe deram taes 
tormentos , que não houvera homem que 
nelles vivera , fe o Deos não o deleitara nel- 
les com o fogo da Fé , que o animava 
com tanta conítancia , que íegundo o que 
fe vio em quanto nelles viveo , e depois 
nos fignaes , e myílerios de íua morte , bem 
fe pode contar entre os Martyres da Fé de 
Chriito. 



CA- 



Década III. Livro VIL 13* 

CAPITULO III. 

Do mais que os vojfos pajpíram paf 
fada aquella noite : e como mandaram no- 
va á Índia defte cajò., e foram fo ocorri dos 
per Triftao Vaz da Veiga , e depois per 
Manuel de Soufa Capitão mor do mar. 

Aliada em Ormuz aquella parte da noi- 
te , com tanto trabalho , e confusão de 
morte como a em que fe os noíTos viram , 
em rompendo Alva, porque no Madraça!, 
e Hofpital , onde (como diflemos) poufa- 
vam muitos delles., que ainda não eram re- 
colhidos , por a grande fumaça que neílas 
cafas havia , mandou o Capitão D. Garcia 
vince e cinco homens , que viíTem fe podiam 
íalvar alguns que ainda lá podiam eftar. E 
per outra parte mandou gente com Francií- 
co de Mello , e João de Meira , que fof- 
fem trazer os feus navios , que ainda eíla^- 
vam fem damno algum , e os trouxeífem 
ante a fortaleza , pêra es defender com ar- 
tilheria , ante que os Mouros os tornaííem 
outra vez commetter ; e tomada pofle del- 
les, foíFem pôr fogo a .certas . náos , que ef- 
tavam no porto. A qual obra Fraricifco de 
Mello , ejoão de Meira fizeram mais a feu 
falvo , que os outros que foram ao Madra- 
gal : cá eftes por faivarem alguns , que ainda 
I ii eram 



13a ÁSIA de J0Ã0 de Barkos 

eram vivos , pelejaram tão cruamente , que 
de huma, e de outra parte houve mortos, 
e feridos , a fora o Ouvidor , e outros , que 
morreram aífogados de fumo , e queimados 
do fogo, que havia nascafas, onde osnof- 
fos fe tinham a noite paflada acolhido. E 
as peflbas notáveis que vieram a falvar os 
que fe falváram , foram : Manuel Velho , 
Ruy Varella , Manuel do Valie , Diogo 
Vaz , Diogo Fotjao , Gonçalo Vieira , Vi- 
cente Dias , Nuno de Caílro , os mais del- 
les Officiaes d'ElRey. Feita per elles cita 
obra , e pelos outros falvos os navios , e 
poílos defronte da fortaleza , porque ficava 
ainda por falvarem huma náo 5 que era de 
Manuel Velho , carregada de tâmaras , que 
eftava pêra partir pêra a índia , foi o mef- 
mo Manuel Velho com gente per terra , e 
outra per mar , e a trouxeram com aíTás pe- 
rigo , e cufio de fangue de todos , e vida 
de hum Gonçalo Vieira , que pelejou como 
valente homem de fua peííoa que era, A 
qual náo lhe foi mui proveitofa a carga das 
tâmaras pêra mantimento , e a madeira pê- 
ra repairos da fortaleza , em que depois ler- 
vio no cerco que tiveram. Tanto que eftas 
velas foram feguras , ao fegundo dia efpe- 
dio D. Garcia , per confelho que fobre iíTo 
teve , a João de Meira na fua caravella 
com recado ao Governador da índia Dom 

Duar- 



Década III. Liv- VIL Cap. III. 133 

Duarte de Menezes , fazendo-lhe faber eíle 
levantamento , e o eílado em que ficavam. 
E mandou a elle João de Meira que paf- 
faíTe per a cofta dos lugares Mafcate , Cu- 
riate , e Calayaté té lè ver com Manuel 
de Soufa , que lá era ido , (como diíTemos , ) 
e lhe déíTe eíta nova , afll pêra lhe acudir , 
como avifar os noíTòs , que eftavam per 
aquelles lugares, não incorrerem em algum 
perigo fe EIRey de Ormuz lá mandaíTe 
algum recado , como de feito mandou aos 
Guazijs delles. No qual tempo TriftãoVaz 
da Veiga , que Diogo Lopes de Sequeira 
tinha leixado em Calayaté pêra fazer alguns 
negócios de ferviço cPElRey , acertou de 
vir a Mafcate íobre o mefmo negocio , on- 
de achou Manuel de Soufa. E fahindo elle 
Triftão Vaz em terra , como era amigo do 
Xeque , que governava a villa , deo-lhe avi- 
fo quefeíalvaífe , porque tinha recado d'EI- 
Rey de Ormuz que prendeífe , e mataífe 
quantos Portuguezes alli foífem tfr , dan- 
do-lhe conta do levantamento. O qye Trif- 
tão Vaz logo fez , acolhendo-fe com grão 
trabalho ao navio de Manuel de Soufa, 
dando-lhe nova do que paííava. E ante que 
fizeífem mudança de fi , veio João de Mei- 
ra , que levava o recado que D. Garcia 
mandava ao Governador D. Duarte. E por- 
que elle João de Meira não levava batel , e 

ai* 



134 ÁSIA de JoÁo de Barros 

algumas coufas neceífarias pêra o caminho, 
Manuel de Soula o proveo de tudo, com 
que chegou á índia, e deo a nova a Dora 
Duarte. O aviíb que o Xeque deo a Trif- 
tão Vaz não foi tanto por fer feu amigo , 
quanto por fer Arábio , que naturalmente 
querem mal aos Parfeos , e além diíío por j 
ler homem prudente , e entendeo que efte ; 
levantamento d'EIRey era feito per confe- 
lhõ dos feus acceitos , e que per derradeiro ; 
nós haviamos de tornar a fer fenhores de 
Ormuz , e tomar emenda do damno , e 
mal que nos foífe feito, e por iífo naquel- 
le tempo quiz-nos fazer efta amizade , def- 
cubrindo efte negocio a Triílão Vaz. E ain- 
da per exhortaçoes que lhe o mefmo Tril- 
ião Vaz fez, levantou a voz porElRey de 
Portugal , dizendo , que negava a vaífalla- 
gem a EIRey de Ormuz pola traição que 
commettêra , do qual voto foram todoios 
homens honrados da terra , e atrás eílcs foi 
o povo. O Guazil , e Governador de Ca- 
layate , que era Pàrfeo , com outro tal reca- 
do que teve , fez o contrario defte , pren- 
dendo obra de trinta e tantos Portuguezes 
que ahi eítavam , delles da Armada de Ma- 
nuel de Soufa , que com hum temporal que 
lhe deo fobre amarra fe levantou , e os 
não pode recolher , e foi ter a Mafcate , 
<e os outros eram de Triílão Vaz* E pa- 
re- 



Década III. Liv. VIL Cap. III. 135: 

rece que N. Senhor ordenou eíle temporal 
pêra Manuel de Soufa fe achar em Mafca- 
te com eíle Triíião Vaz , pcra fazerem a 
obra que fizeram com o Xeque , o qual os 
proveo de mantimentos , agua , e do necef- 
íario pêra fe partirem a foccorrer os de Or- 
muz. Partido Manuel de Soufa em o feu 
navio , e Fernão Vaz Cernache na fuíla, 
acompanhou-os Triíião Vaz em hum pa- 
ráo, em quê viera* de Caíayate alli ter aos 
negócios , que (como diílemos , ) lhe man- 
dou Diogo Lopes 5 em o qual para o leva- 
ria té quarenta homens. E porém eíla com- 
panhia durou té meia noite feguinte , que 
lhe fobreveio hum temporal , do qual apar- 
tamento Manuel de Soufa fe queixava de- 
pois ? dizendo , que Trilião Vaz o fizera por 
não ir debaixo de fua bandeira , e não por 
o temporal. E feafíi foi, que por eíla cau- 
fa Triíião Vaz o fez , eíle fe aventurou a 
maior perigo do que importava a injúria , 
que deíle cafo podia receber. Porque em 
huma aguada que fez fio caminho , lhe ma** 
taram dous homens , e quaíi milagrofamen* 
te efcapou de mó fer morto com toda a 
gente que levava per huma Armada que 
EIRey de Ormuz tinha poíla fobre á Ilha. 
Mas parece que o quiz aíli N. Senhor , po- 
lo eílado em que os noífos eílavarn , que os 
mettia em grande confusão: cá o primeiro 

tra- 



236 ÁSIA de João de Barros 

trabalho em que fe viram ( depois daquella 
fúria da morte , foi queimarem-lhe a galeo- 
ta que fal varam', e aífí huma náo carrega- 
da de mantimentos , que vinha de Chaul 
pêra o Capitão D. Garcia , e ifto ante os 
íeus olhos. E o outro era queElRey tinha 
té três mil efpingardeiros , que mandou vir 
da terra firme feitos lá fecretamente pêra ef- 
te cafo , a fora os que na Cidade havia or- 
dinários pêra as Armadas , e com eftes fre- 
cheiros , e artilheria , a que a noíTa fortale- 
za ficava fujeita per íitio , nos fazia muito 
damno de maneira , que não lançava hum 
homem a cabeça per qualquer parte , que 
logo nãofoiTe frechado. Além deite' perigo , 
xjue os muito afadigava , tinham hum gran- 
de temor 5 que era falta de mantimentos , 
e tão pouca agua , que fe D. Garcia não 
fechara a cifterna , por não verem quão pou- 
ca era , efmorecêram de fe ver mortos á fe- 
de. Mas como N. Senhor nos caíbs de 
maior temor acode com o animo , que da 
fua mifericordia procede , permittio que a 
chegada deTriílão Vaz fofíe eftando todos 
com grande devoção ouvindo a MiíTa , 
que fe diz de noite pelaNafcença de Chri- 
fto Jeíus noíTa redempçao. A vinda do qual 
houveram fer milagre , porque o caftello ei- 
tava todo cercado per terra , e per mar ti- 
nha mais de cento e feffenta terrados ^ que 

foi 



Década III. Liv.VII. Cap. III. 137 

foi huma grande oufadia delle Triítao Vaz 
metter-fe per meio delles , fem os Mouros 
ofentirem; porque haveriam fer coufa im- 
poífivel vir barco noííò alli , e ainda que 
o fentiíTem, como era de noite, cuidavam 
fer navio feu. A feita do Santo Nafcimen- 
to foi com elte prazer celebrada de novo , 
com tantas folias , e prazer , que os Mou- 
ros de fora vieram a lentir que alguma cou- 
fa nova lhes era chegada , ainda que per ou- 
tra parte per efcravos Chriítãos cativos que 
tinham comíigo , cuidaram que procedia 
aquelle grande prazer da feita do Natal. 
Quando veio 20 dia deita folemnidade , co- 
meçaram os nofíbs a pôr os olhos no mar , 
olhando fe apparecia Manuel de Soufa, de 
que Triítao Vaz dera nova , e que fe apar- 
tara delle com o tempo que lhe deo ; o 
qual Manuel de Soufa á terceira oitava de 
Natal amanheceo furto duas léguas da for- 
taleza da banda da Ilha Queixome. D. Gar- 
cia , porque tinha fabido per Triítao Vaz , 
que elíe trazia mui pouca gente por razão 
da que lhe cativaram em Calayate , e tam- 
bém fentio logo grande rumor nas atalaias, 
como que mandava EIRey embarcar gen- 
te nellas pêra irem contra Manuel de Sou- 
fa , teve logo coníèlho fobre o que fariam 
naquelle cafo. E aflentáram , que pois na 
falvajão deite Manuel de Soufa eítava a de 

to- 



138 ÁSIA de João de Barros 

todos , e a delle nelles , pois corria tanto 
riíco , era necefíario acudir-lhes com gente 
no paráo de Triftão Vaz , por ahi não ha- 
ver outra embarcação. Finalmente ante de 
fe eleger quem havia de ir no paráo , Trif- 
tão Vaz fe offereceo com a gente que com 
elle viera , dizendo , que pois N. Senhor 
lhe dera de noite entrada naquelia fortaleza 
permeio das terradas 5 aífi efperava que lhe 
daria caminho pêra ir , e vir. Partido elle 
com efta gente que trouxe , e outra honra- 
da , que com elle quiz ir , quando foi no 
mar á vifta d'ElRey , a grande preíía man- 
dou chamar Coge Mahamud feu Capitão , 
e difle-lhe : Ou aquella gente he douda , ou 
defçfperada , porque oufadia não pode fer : 
por amor de mim ? que mos vades tomar 
ás mãos , e mandeis á gente que levais , 
que os não mate. Efte Capitão não pode 
tão preítès fahir do porto com oitenta ter- 
radas que levou , que quando fe poz em 
caminho já Triftão Vaz hia bom pedaço j 
em vifta do qual os npflbs eftavam encom- 
itiendando-o a Deos , principalmente? quan- 
do viram a força de remo ir trás elíe aquel- 
!e grão número de terradas , as quaes hiam 
tão alvoroçadas por lhe chegar , e corriam 
tanto por iífo , como que era algum paráo 
que haviam de ganhar na chegada. Triftão 
Vaz 7 como também remava feu remo igual , 

e nun- 



Década III. Liv.VII. Cap. III. 139 

e nunca fez tiro fenao depois que ellas fo- 
ram tão perto , que lhe lançaram dentro hu- 
ma chuva de frechadas , entáo começou de 
a entreter que não chegaíTem a elle com ar- 
tilheria miúda que levava. Com a qual el- 
les também o ferviam , e lhe atraveíTáram 
o leme , e outra peça lhe deo pelo coitado 
doparão, mas não lhe ferio peíToa alguma. 
Indo affi todos ladrando , e frechando nel- 
le , fem oufarem de o abalroar , polo da- 
mno que também recebiam , fendo jã bem 
perto do navio de Manuel de Soufa , man- 
dou-lhe bradar que eftiveffe preíles pêra o 
recolher , e aíFaftar de íi as terradas. Ma- 
nuel de Soufa parecendo-lhe que o paráo 
era negaça , e que vinha nelle algum arre- 
negado , que failava Portuguez , mandou- 
Ihe tirar como a cada hum dos outros imi- 
gos , e com huma efpingarda de outro ti- 
ro atraveíTáram a mão ao que governava. 
Quando Trilião Vaz vio o perigo que cor- 
ria , entendendo que de o não conhecer lho 
mandava tirar, levantou-fe em pé, e come- 
çou a bradar nomeando-fe. E como era ho- 
mem tão grande de corpo , que vifto em 
pé per quem o conheceífe , diria logo fer 
elle , e também não mudara o trajo com 
que poucos dias havia o viram ; foi aqui 
mais conhecido pelo corpo , que pela voz > 
que nâquelie tempo era tamanho eftrondo, 

que 



140 ÁSIA de João de Barros 

que não podia fer ouvido , quanto mais co- 
nhecido per ella. As terradas tanto que vi- 
ram Triftao Vaz recolhido dentro do na- 
vio , defefperáram de o tomar, e mais le- 
vando já morto o feu Capitão , e trinta e 
tantos homens , a maior parte dos quaes 
era gente nobre , e muitos outros feridos 3 
porque como as terradas faziam grande car- 
dume , não defparava o paráo tiro que 
foíTe fem damno dos imigos. E porque os 
mortos, por ferem peíToas notáveis, faziam 
mais receio aos outros , mandaram algumas 
terradas a terra com eíles corpos , e recado 
a EIRey , que mandava que fizeííem. Che- 
gadas eíías terradas á Cidade, foi logo pof- 
ta em tão grande pranto , que os noííos íhn- 
tiram na fortaleza , onde eftavam , terem re- 
cebido algum grande damno ; e por lhes 
quebrar os corações , mandou D, Garcia 
tanger as trombetas , e fazer grande eftron- 
do de folias , e prazer. EIRey tanto que 
ioube o que era feito dos feus , começou 
de fe indignar contra aquelies quelheacon- 
felháram o levantamento , dizendo , que fo- 
ram caufa de perder feu eítado , e que ef- 
perança teria elle de combater a noíta for- 
taleza, e de a tomar, pois em oitenta ter- 
radas não houve homem que oufaíTe abal- 
roar hum barco , o qual fe fora cercado de 
todas, fomente o bafo de tanta gente como 

hei- 



Década III. Liv.VII. Cap. III. 141 

nella hia , os afFogára , quanto mais tanta 
mão, E com grande fúria diííe , que fe fof- 
fem todos diante a embarcar nas outras ter- 
radas que ahi eftavam , e que qualquer ho- 
mem que abalroaíTe a noíTo navio , que lhe 
promettia de lhe fazer muita mercê; equem 
o não fizeíTe , que lhe havia de mandar pôr 
ria cabeça hum toucado de mulher, E fa- 
hindo-fe de fuás cafas meio doudo , foi-fe 
á praia , e maildou pôr duas mezas , huma 
cheia de moeda de ouro , e prata , e outra 
de toucados de mulheres, a que clles cha- 
mam macana ; e quando fe põe na cabe- 
ça de hum homem , he por alguma grande 
fraqueza que fez , e fica inhabil pêra toda 
fua vida , coufa entre os Parfeos mui ufa- 
da. Poftas as mezas com eftas duas diíFeren- 
ças de premio , aífi como andava doente , 
poz-fe EIRey a cavallo , e com hum páo 
na mão fazia embarcar a todo homem , in- 
dignando-fe muito contra os principaes , que 
os não via muito diligentes niíTb. RaezXa- 
badim , homem principal noílb amigo , e 
por cujo refpeito tinha recebido grandes 
oífenfas d'ElRey, e de feus privados, ven- 
do-o aífi indignado , diííe-lhe : Senhor , fe 
os que vos aconfelhdram , que era leve cou- 
fa lançardes os Portuguezes daqui , ama- 
ram tanto vojfo fervi ço , como eu amo , não 
eftivereis agora pojlo nefle trabalho , mm 

vos 






t$i ÁSIA de JoXo de Barros 

vos facão crer que he gente que entregue 
logo o que tem na mão , fenão entregando 
primeiro a vida. Eu irei aonde mandais a 
todos , e vos prometto de perder a vida > 
ou de vos trazer vojjòs imigos a ejjes voj 1 
fos pés , fe me Deos não decepar as mãos. 
Efpedido eíte Pvaez Xabadim ; metteo-fe nas 
ferradas com a gente que tinha , as quaes 
fe ajuntaram com as outras , e.fariam todas 
hum corpo de cento e trinta , nas quaes 
hiam todolos Capitães, e Mires d'E!Rey , 
que são como cá dizemos os Fidalgos de 
limpo fangue. EElRey efcolheo outros que 
ficafTem com elle , com os quaes fe poz a 
cavalío , efahindo da Cidade fe foi pôr em 
hum lugar te.fo , donde podia ver o que os 
feus faziam com os noífos pêra os obri- 
gar a mais. D. Garcia , e a gente da for- 
taleza^ que também eftavam com os olhos 
no que havia de fucceder naquelle cafo y 
quando viram o grande número de terra-? 
das, e a fúria que todos levavam por che- 
gar, houveram que fe N. Senhor milagro- 
famente os não falvaífe , não havia outra 
efperança de fuás vidas. Manuel.de Soufa , 
porque té. aquelle tempo não era vinda a 
viração, com a qual elle efperava de fe fa- 
zer ávéla, eííava furto, ordenando-fe pêra 
entrar naquelle conflito de morte. E o mo-r 
do que teve pêra mais feguramente ? .(fealli 

ha- 



Década III. Liv.VIL Ca?. III. 143 

havia feguridade , ) poder chegar á fortale- 
za , foi eíle. Tomou a fufía , e paráo de 
Trilião Vaz, e pollos nas ilhargas do feu 
navio mui bem aterracados que fe não pu- 
defiem alargar, e de maneira, que de hum 
em outro pudeííem faltar , e acudir onde 
mais neceííario foíTe. E porque a artilheria 
delles lhe ferviiTe a toda a parte , poz as 
proas da fuíla , e paráo na popa do navio 
de maneira , que ficavam ao longo do coi- 
tado delle , e da popa á proa tudo fogo 5 
com que ficavam hum baluarte de madeira 
com artilheria pêra fora , e per cima a ma- 
reagem das velas do navio , pêra que vindo 
o vento navegaífem. Chegado aquelle gran- 
de cardume de barcos , onde Manuel de 
Soufa eílava já poílo á vela , na primeira 
falva que lhe deram , foi juncarem os na^ 
vios de frechas de envolta com pelouros 
dos tiros de fogo que levavam , que fes 
huma fumaça , com que todo o circuito 
delles ficou fem viíla huns dos outros , por- 
que também a artilheria dos noíTòs fez boa 
parte deíla efcuridao. E porém nefta primei- 
ra chegada lhe encravaram muita gente da 
que eílava na fuíla , por fer rafa fem ampa- 
ro algum , com que o Capitão ficou ferido. 
Enao fomente lhe fizeram eíle damno, mas 
ainda como vinham com a fúria das in;ú- 
rias de feu Rey , de rondao entraram na 

fuf- 



144 ÁSIA de João de Barros 

fulta pelo efporao delia , fem temor da nof- 
íà artilheria. Eem continente per o mefmo 
efporao Raez Xabadim corn féis homens 
que pêra iífo efcolheo , como homem offe- 
recido á morte , e que queria fazer verda- 
deira a promeífa , que fizera a EIRey , co- 
meçou de trepar per o bordo do navio. O 
Capitão Fernãx) Vaz Cernache , peró que 
eftava ferido com os outros de fua compa- 
nhia y acudiram áquelle lugar; e aífí Ma- 
nuel de Soufa quando vio a oufadia dos 
Mouros , onde houve maior fervor de pe- 
leja , que em outra parte. No qual tempo 
Triftão Vaz da Veiga não fe contentou com 
efta defensão de cima do navio > mas lân- 
çou-fe dentro na furta , e atrás elle Baftião 
Vaz , e Mendanha , e outros que com gran- 
de animo fe mertêram ás cutiladas com os 
Mouros de maneira , que os enxutáram to- 
dos fora da fufla. E porque hum bombar- 
deiro que nella hia já não podia ufar de 
feti officio pêra cevar hum berço , por an- 
darem todos mais pelejando a braços , que 
a pontaria de artilheria ; com efte alijamen- 
to que Triftão Vaz , e os outros fizeram , 
teve o bombardeiro braços pêra fazer alguns 
tiros com hum berço , e fez tanto dam no , 
que fe alargaram os Mouros mais de pref- 
fa do que entraram. E entre algumas pef- 
foas , que no commettimento > que os Mou- 
ros 



Década III. Liv.VIL Cap. III. 147 

tos fizeram , em querer íubir per o bordo 
do navio , foi hum Framengo Condeílabre 
dos bombardeiros do navio , porque eíle 
não achou outra arma mais preftes , que o 
marrão com que atacava fua artilheria , e 
com elle derribou cinco , ou féis Mouros , 
como que matava porcos. Finalmente como 
homens que andavam luitando travados hum 
em outro , fem fe poderem derribar de bons 
luitadores , e afli travados correm todo o 
terreiro da luita té irem dar nos circumftan- 
tes que eítam vendo, afli as terradas trava- 
das em os noííos navios , e elles nellas , e 
huns , e outros fervidos de frechas , e pelou- 
ros da artilheria , já bem tarde , e todos bem 
canfados a maré os levou á fortaleza , on- 
de os noflòs foram favorecidos delia , tiran- 
do com artilheria ás terradas pêra lhes def- 
pejarem o porto onde furgiam > dos quaes 
trinta e tantos foram feridos , e hum fó 
Grumete negro foi morto. E pelo que fe 
depois foube , dos Mouros foram mais de 
oitenta mortos da artilheria , e muitos mais 
feridos. Ê fegundo os noflbs navios chega- 
ram juncados de frechas , e as velas , *en- 
xarcea , maftos, cofiados, tudo encravado 
delias ; foi hum grande milagre não recebe- 
rem maior damno , ante receberam algum 
proveito , trazendo muita lenha pêra cafa , 
porque fe affirma que muitos dias no fo- 
T0m.IILP.1L K gão 



146 ÁSIA de J0X0 de Barros 

gao dos navios á mingua de lenha fe quei- 
maram frechas , e a maré quando enchea 
trouxe á praia grande número delias. 

CAPITULO IV. 

Do que pajfdram os noffos no cerco que 
tiveram ; e vendo EIRey de Ormuz quão 
pouco damno lhe podia fazer , defpejou a 
Cidade , e fé foi pêra a liha Queixome , e 
depois a mandou queimar : e como com a 
vinda de hum navio , e huma náo foram 
providos do necejfario. 

REcolhidos os noííbs a falvamento da- 
quelle perigo , de que os N. Senhor 
livrou, quando veio ao outro dia teve JDom 
Garcia confelho , propondo a todos quão 
desfalecidos eítavam de tudo o que haviam 
miíter pêra aquelle cerco , principalmente 
de mantimento , e agua , de que haviam de 
viver , e de pólvora , e outras munições da 
guerra 5 com que fe haviam de defender de 
todo combate ; que a elíe lhe parecia bem 
defpejarem a fortaleza de eferavos , mulhe- 
res / moços , e gente fem proveito , que lhe 
comia os mantimentos. Os quaes deviam 
mandar á índia em aquelle navio de Ma- 
nuel de Soufa , e também levaria nova a 
D. Duarte em que eílado eílavam , porque 
podia acontecer coufa a João de Meira > 

que 



Década III. Liv.VIL Cap. IV. 147 

que o impedifle ir lá ter. E pela ida defte 
navio feguravam duas coufas , terem o foc- 
corro certo , e em quanto não vieííe, co- 
meriam o que elies haviam de comer. O 
parecer de muitos foi contrario a efte de 
D. Garcia ; e depois de haver contradição 
de votos , aííentáram , que logo armaíTem o 
navio , e fufta , e paráo , e foffem a pelejar 
com as atalaias d"ElRey , pois já tinham 
experiência delíes quão fracos eram , e o 
pouco damno que lhes podiam fazer. E 
dando-lhe N. Senhor vitoria , como tinha 
dado já duas vezes , ficavam mais fenhores 
do mar , com que podiam haver á mão 
náos , ou navios , dos que ordinariamente 
vinham a Ormuz , dos quaes j fe podiam pro- 
ver de muitas coufas , de que tinham ne- 
ceílidade. E per ventura neíle tempo viria 
algum navio noíío alli ter , com as quaes 
ajudas ficariam providos pêra muitos dias. 
E feita eíla obra , ahi lhe ficava tempo de 
mandarem á índia o navio que dizia , e 
quando os Mouros o viflem ir antes delies 
fazerem eíla moíira de íi, diriam que hiam 
fugindo ; e indo depois 3 entenderiam que 
o mandavam a pedir foccorro , já como 
gente confiada , e não temerofa. O qual vo- 
to , e confelho fe poz logo em eífeito ; mas 
os Mouros tomaram outro , por caufa do 
damno que tinham recebido 5 chegando luas 
K ii ter- 



148 ÁSIA de J0Â0 de Barros 

terradas tanto a terra , que ficava o noífo 
navio muito ao mar , fem lhe poder fazer 
algum mal , que mais não recebeffe. E a 
fufta , e paráo , que fe mais chegavam , em 
fuás barbas , (como dizem , ) lhe tomaram ' 
hum paráo , que vinha de fora carregado 
de mercadoria 7 coufa que elles muito fen- 
tíram. Com a qual indignação per induftria 
de hum Turco , homem a que EIRèy da- 
va grande credito ? ordenou logo eftancias 
com artilheria nos lugares onde nos podiam 
offender, e aíli muros falfos pêra entrarem 
per elles encubertos , com paredes de caías 
pêra os noflbs não poderem ver a obra. O 
que tudo , poílo que nos dava muito tra- 
balho , fervio-lhes pouco pêra feu intento 3 
ante azo de receberem de nós maior damno. 
Té humas efcadas que quizeram acoitar á 
noíía fortaleza , foram tantos delíes quei- 
mados de paneilas de pólvora , que vendo- 
fe EIRey defefperado de nos poder ofen- 
der : creo que não tinha gente pêra mais 
do que tinham feito , faltear-nos de noite co- 
mo a. gente deícuidada , e não fraca pêra 
defender as vidas 3 e que huma noíía havia 
de cuftar puiitas dos feus. Finalmente como 
homem defefperado , e temerofo , que vindo 
o Governador da índia , elle havia de pa- 
gar todo o damno que nos fizera , fenão 
com a yida 7 ao menos feria tomar-lhe o go- 

ver- 



Década III. Liv.VIL Ca?. IV. 149 

verno daquelle Pveyiio , determinou per con- 
felho dos que governavam leixar a Cida- 
de deferta , e fe paíTar á Ilha de Queixo- 
me. E efta Ilha eftá pegada na terra firme 
da Períia , e fera três léguas de Ormuz á 
tifta delia , corre ao longo defta coita da 
Perfia quaíi per comprimento de quinze lé- 
guas á maneira de huma faixa , por fer mui 
eftreita. A terra he fértil em íí, mas muito 
doentia , por razão do máo íltio em que 
eftá , fem fer lavada dos ventos , que dam 
faude ao corpo humano. O fundamento 
d'ElRey , e de quem o mandava , que era 
o Xeque feu fogro , e Mir Hamed Mora- 
do , com todolos mais em leixar aquella 
Cidade , era ? que os noífos leixariam a for- 
taleza. É ainda que EIRey , por razão da- 
quella mudança a Queixome , perdeíTe hum 
par de annos as rendas que tinha na Alfan- 
dega ? não vindo náos , melhor lhe vinha 
que fer fujeito , e tributário noífo por tão 
pouca cauíâ , como era perder aquella Ci- 
dade. E tenteando eftas , e outras razões y 
que todos davam a EIRey em feu favor , 
mandou -fe lançar hum pregão , que toda 
pefloa fob pena de morte embarcafle fua 
pelToa , família , e fazenda pêra a Ilha de 
Queixome ? pêra onde fe EIRey paífava a 
viver , pêra o que mandava a todos dar em- 
barcação nas terradas pêra fua paflagem. 

Quai> 



j$o ASIA de João de Barros 

Quando o povo ouvip o pregão , fez nelle 
hum tão grande eipanto , que fem temor 
algum todos a huma voz diziam mal d'El- 
Rey , e de quem o aconfelhava , e iílo com 
tantas lagrimas , que os mettia a todos em 
grande confusão de maneii*a , que entre os 
principaes começou haver diíFerenças , cul- 
pando huns aos outros , e quafi todos des- 
culpavam aElRey, porfaberem fer homem 
de boa condição , e entregue áquelles dous 
homens , que pêra efte effeito eram grandes 
amigos , e pêra todo o mais comiam-fe 
hum a outro. Ordenada a partida 5 EIRey 
fe paíTou huma noite o mais caladamente 
que pode , e leixou na Cidade hum Capi- 
tão feu per nome Mir Corxet com mil e 
quinhentos frecheiros , e feíTenta terradas 
pêra a gente fe paíTar pouco , e pouco. O 
qual Capitão teve falia com D. Garcia , di- 
zendo , que EiRey fe fora não tanto por 
íua vontade, quanto por feguir o coafelha 
de quem o governava, e que fentíra tanto 
o que era feito , que adoecera de paixão , 
de que hia mal. Como em verdade ainda 
que era homem de pouco faber, e difcur- 
fo das coufas , achava-fe cada dia mais des- 
acatado , que era lignai de hum dia o def- 
porem , como os Governadores dos Reys 
paífados o tinham feito ; mas o negocio che- 
gou a mais , como adiante veremos: parece 

que 



Década III. Liv.VIL Cap. IV. 15-1 

que o íeu efpirito Jhe revelava eíle mal. E 
ainda teve eíle Capitão Mir Corxet tanta 
prudência pêra encubrir a caufa principal 
de fua ficada alli , que deo a entender a 
D. Garcia, e ás principaes peífoas da for- 
taleza , com que ás vezes eítava á falia , que 
não era a outro fim fenao pêra tratar em 
negocio de paz , por quanto elle não fora 
no levantamento ; e quando com elle não 
quizeííem aíTentar eíla paz , que fofle com 
íèu cunhado Mir Cacero , que era homem 
de tanto credito ante EIRey , cortíà elles 
fabiam , e também fora contra o confelho 
dò levantamento , e ambos tinham commif- 
sao d'E!Rey pêra iíTo. Efíes dous homens 
eram mui acreditados entre os noííbs , por 
fe moílrarem publicamente fèus amigos y 
donde conceberam delles , principalmente do 
Mir Corxet que poderiam mover a EIRey , 
e aos principaes de feu confelho pêra fe 
tornarem a Cidade. Nas quaes práticas de- 
tiveram o Capitão , em quanto fazia fua 
obra, que era alijar o que haviam mifter, 
té que veio o Xabandar com recado d'El- 
Rey , que puzeíTe fogo á Cidade , o qual 
era defenganar os noífos, que fe hiam po- 
voar a outra parte. Pofto eíle fogo a deze- 
nove dias de Janeiro do anno de quinhen- 
tos e dous , ardeo a Cidade quatro dias 
com fuás noites tão bravamente , que os 

no£ 



i$z ÁSIA de JoXo de Barros 

noflbs temiam poder vir a elles. E entre te- 
mor , e piedade fazia-lhe grande admiração 
verem que per mãos dos próprios naturaes 
fe punha fogo a huma tão nobre , e formo- 
fa Cidade em edifícios , principalmente ás 
cafas dos principaes , que todas eram coufa 
maravilhofa de ver íeus lavores , e pinturas , 
por os Mouros ferem mui deliciofos niíTo. 
E com todo efte eftrago , que os noííos viam 
fazer , ainda efte Mir Corxet fazia crer a 
D. Garcia que elle não era author daquella 
obra , nem confentia nella por fua vonta- 
de , fomente temia a Raez Xabadim 3 que 
o fazia por eftar mui poderofo com mais 
gente que elle. E pofto que a voz era que 
o fogo fe poz acafo , e não per vontade , 
todavia diziam que Raez Xabadim o fizo- 
ra por encubrir quantos roubos tinha feito 
jiella , e também o fazia por fe vingar d'El- 
Rey , e de nós. Com eftas , e outras pala- 
vras íimuiadas , eftando D. Garcia aperce- 
bido pêra ambos fe verem em lugar con- 
veniente pêra a (Tentarem a paz , nefte dia 
que eram vinte e três de Janeiro huma an- 
te manhã mandou elle Mir Corxet pôr fo- 
go a hum trabuco , que eftava nas cafas 
d'ElRey , com que nos elles tiravam , e tam- 
bém nas próprias cafas. Porém nellas acer- 
tou de fer em parte , que logo fe apagou , 
e com efta derradeira obra fe embarcou 

com 



Década III. Liv.VIL Cap. IV. ift 

com toda a gente que comíigo tinha , fem 
ficar na Cidade mais peflba , que té duzen- 
tas e cincoenta , ou trezentas almas , tudo 
gente velha , e tão pobre 5 que não tinham 
com que fe embarcar. D. Garcia quando fe 
achou aífí enganado , ficou mui confufo ; 
e fufpeitando ainda que debaixo daquella 
ida ficava na Cidade algum grande perigo , 
principalmente nas cafas nobres , por não 
lerem queimadas , não quiz que efte perigo 
correflem os noílòs , e mandou alguns Ma- 
labares , que eftavam em noíTa companhia , 
que foflem ver per toda a Cidade fe era to- 
da defpejada. Temendo huma de duas cou- 
fas , ou que neftas cafas nobres ficava eft 
condida muita gente de armas , e como os 
noífos fahiífem, e fe derramaífem pelas ca- 
fas a roubar , dariam nelles ; ou leixariam 
feitas algumas minas de pólvora , a que po- 
riam fogo , como os tiveíTem neftas cafas 
grandes. Feita experiência per eíles Mala- 
bares como a Cidade era toda defpejada , 
e que não havia nella fenao aquella pouca 
gente mefquinha , e inútil , fahíram então 
os noífos , cada hum acudindo a fua pou- 
fada ver fe achava alguma coufa das que 
Jeixára , e tudo era feito em carvões. Já as 
calas nobres era a maior piedade ver a des- 
truição delias , que as queimadas , porque 
jieíias não havia coufa de que haver do, 

por 



1^4 ÁSIA de João de Barbos 

por tudo fer carvões , e em as nobres não 
havia laço , pintura , nem portas , janellas , 
ou coufa que foiTe pêra ver , humas leva- 
das, outras arrincadas, e efpedaçadas , por 
não nos aproveitarmos de alguma. Final- 
mente o deípojo foi acharem algumas jar- 
ras efcondidas de mantimento , e ciílernas 
particulares com agua , e lenha deita deftrui- 
ção pêra o fogo* E verdadeiramente o que 
queimou efta tão nobre Cidade , (ao menos 
os dous terços delia , ) mais fe pode dizer 
vir do Ceo , que da terra. Porque ainda 
que elle foi pofto per mão de feus próprios 
moradores , fem ferem conftrangidos per 
nós , chegarem a tal eílado que os obrigai- 
fe leixar o berço , em que fe creáram , e 
cafas de feu viver , e repoufo , Deos os in- 
dignou de íi mefmo , com que os metteo 
em fúria de fogo , e que foliem algozes de 
fuás torpezas , e nefandos vicios , vivendo 
tão publicamente nelles , que neíla permif- 
sao ficaram culpados alguns dos noítos , os 
quaes per outro modo também felhes quei- 
mou fua fazenda, té pagarem com a vida ; 
e fe todos não pagaram lá , cá os vivos 
affignados do dedo de Deos : e permittio 
afíi fua juíliça , porque faibam os homens , 
que peccados públicos , publicamente os caf- 
tiga Deos diante dos olhos , que foram tes- 
temunha delies y por elle não fer arguido 

per 



Década III. Liv.VII. Ca*. IV. i?? 

per juízos de homens de pouca fé. E logo 
no meio daquelle fogo, por trazer os nof- 
fos em confideraçáo deftas coufas , os efper- 
tou Deos com a mais contraria que o fogo 
tem , que he agua , porque entendeííèm que 
o fogo abrazou as torpezas dos Mouros , 
e comnofco queria ufar de lavatório de fua 
mifericordia com huma chuiva que man- 
dou , com que encheram muitas cifternas 
de agua , de que tinham muita neceflidade. 
Porque além de terem . pouca , o grande nu- 
me ro de gatos que havia na Cidade , vi- 
nham demandar as ciílernas a beber; e dos 
muitos que cahíram dentro , affi corrompe- 
ram a agua , que não oufavam de beber fe- 
nao cozida. É não fomente com efta agua 
que choveo ficaram remediados do beber 
com algumas aguadas, que também depois 
foram fazer a terra firme , por beberem 
agua frefca , e fem fufpeita de veneno , mas 
ainda do comer 5 com vinda de hum navio 
da índia de Baftião Ferreira com manti- 
mento. Com as quaes provisões , e faber 
per efte navio de Baftião Ferreira como já 
na índia era a nova daquelle levantamen- 
to , D. Garcia tomou caufa de mandar al- 
guns recados a EIRey de Ormuz á Ilha 
deQueixome. E porque eftes recados eram 
per hum António Dias língua criado dei- 
le D. Garcia , e iílo fe continuava fecreta- 

xnen» 



iyó ÁSIA de João de Barros 

mente entre elles , fem communicar eíle ne- 
gocio com as peffoas principaes , a que fe 
devia pedir voto 5 fe era bem do ferviço 
d'ElRey de Portugal ? houve prefumpção , 
( e depois o tempo o defeubrio , ) que Dom 
Garcia tratava coufa de leu interefle , que- 
rer que EIRey lhe pagafle alguma perda, 
que houvera naqueile levantamento. E pêra 
obrigallo a iiTo , o mandava aconfelhar o 
modo que havia de ter com o Capitão da 
fortaleza , quando viefle , que era João Ro- 
drigues de Noronha , que íe efperava cada 
dia por elle. E também que defeulpas ha- 
via de dar a D. Duarte , quando ahi foííe 
ter , os quaes confelhos , e modos , que Dom 
Garcia mito teve , damnáram muito a EI- 
Rey em feus negócios , e aíli ao que nos 
convinha , fem elle entender que niííb fazia 
tanto mal. E quem acabou de o damnar, 
foi D. Gonçalo Coutinho feu primo , filho 
de D. Diogo Coutinho , também cuidando 
que niflb acertava ? á volta de feu interek 
fe , ao qual D. Luiz de Menezes que efta- 
va em Chaul , a grande preffa , ranto que 
foube parte defte levantamento , mandou 
em hum galeão bem armado com muitos 
mantimentos , e coufas neceífarias pêra pro- 
visão daquelle accidente. E vindo ter a Ca- 
layate , tomou alli D. Gonçalo huma náo 
dos filhos de Alie Langerim y hum merca- 
dor 






Dec. III. Liv. VIL Cap. IV. e V. 157 

dor dos principaes de Ormuz, que tratava 
em cavallõs , e affi esbombardeou a villa ? 
por lhe fazer fobrancerias. E paffando per 
Mafcate, achou Manuel de Soufa Capitão 
mor do mar , e Triftão Vaz da Veiga , aos 
quaes deo nova que D. Luiz de Menezes 
não tardaria , e que elle trazia recado das 
pazes , que logo havia de afíentar com El- 
Rey de Ormuz. E com voz deitas pazes 
chegou a Ormuz , e dahi foi a Queixome , 
onde EIRey eílava tão ncceffitado de man- 
timentos 3 que lhe deo a vida com es que 
lhe vendeo , e boa efperança de D. Luiz , 
que dahi a poucos dias feria com elle 3 e 
tudo fe faria bem. 

CAPITULO V. 

Como Manuel de Soufa , e Triftão Vaz 
da Veiga tornaram d Cofia de Mafcate , 
e das coufas que aM fizeram tê vir Dom 
Luiz de Menezes í e do que elle alli fez 
fobre a tomada da villa Soar : e do mais 
que pajjòu té chegar a Ormuz. 

MAnuel de Soufa , e Triftão Vaz da 
Veiga , que D. Gonçalo achou em 
Mafcate , eram alli vindos per mandado de 
D. Garcia Coutinho Capitão de Ormuz , a 
ver fe poderiam tirar os Portuguezes do po- 
der dos Mouros, os quaes ficaram em ter- 
ra, 



iyS ÁSIA de João de Barros 

ra quando ambos fe partiram a foccorrer 
Ormuz , como atrás fica. E vindo de ca- 
minho na paragem de Orfacam, o Guazil 
que alli eílava deo a Triílão Vaz , que che- 
gara ao porto bufcar provimento 5 o que 
lhe pedio , como homem que eílava em nof- 
fa amizade , e mais hum Portuguez , e hu- 
ma mulher , que alli eítavam. E também 
neíte caminho tomou Manuel de Soufa duas 
terradas , huma que viera alli ter, em que 
tomou três bombardas ; e outra que eílava 
quaíi delcarregada do fato que trouxera de 
Mahamud Morado ; e quando chegaram 
a Mafcate , acharam o lugar defpejado, 
por tck o Xeque nova que Raez Delamixar 
irmão de Raez Xarafo vinha pêra Calaya- 
te a fervir de Guazil ; e receofo de lhe 
deítruir o lugar, por tomar voz porElRey 
de Portugal , mandou pôr toda a gente , e 
fazenda na ferra , e folgou muito com a 
chegada dos noíTos ; o qual veio logo dar 
conta diílo a Manuel de Soufa , pedindo- 
lhe que o amparaíTe , e fe leixafle alli eílar 
pêra o defender quando vieííe eíle feu imi- 
go , a qual detença não foi mais que qua- 
tro , ou cinco dias , e neíle tempo paífou 
per alli D. Gonçalo Coutinho , que deo a 
nova de D. Luiz , como ora diífemos. E 
porque em Calayate eílavam os mais dos 
cativos 7 e também a elle acudiam mais na- 
vios 



Década III. Liv. VII. Ca?. V. 159 

vios pêra as prezas que alii , paflbu-fe lá j 
onde tiveram prática com o Guazil , prove- 
cando-o á entrega dos cativos , c fazer ou- 
tro tanto como o Xeque de Calayate , o 
que elle não quiz. Dando em refpofta que 
havia de fer leal a EIRey , que elle tinha 
alii huma carta íiia pêra dar ao Capitão mor 
D. Luiz j quando viefle , e que nella eftava 
toda a refpofta que elle podia dar. Trif- 
tao Vaz , porque Manuel de Soufa fe foi 
contra o Cabo de Roçalgateás prezas, es- 
perando que viefle D. Luiz , leixou-fe alii 
ficar , e com o feu paráo defendia que os 
pefeadores não vieflem ao mar , porque não 
podia fazer maior guerra á villa , té que 
veio D. Luiz ; o qual trazia três galeões , 
e quatro fuftas , e huma caravella , de que 
era Capitão elle , Ruy Vaz Pereira , Antó- 
nio de Lemos , Nuno Fernandes de Mace- 
do , Henrique de Macedo feu irmão , Duar- 
te d 5 Ataíde , Pêro Vaz Travaços. E alii fe 
ajuntou com elle Manuel de Soufa , per os 
quaes elle foube o eílado de Ormuz , e lu- 
gares daquella coita. Ao qual veio logo 
hum Mouro dos honrados da terra , e trou- 
xe-lhe da parte do Guazil Coge Zeinadim 
a carta que dizia ter d'ElRey de Ormuz 
pêra elle , e aífi lhe aprefentou algum re- 
frefeo da terra. E na carta não fe continha 
mais que aggravos de Diogo Lopes de Se- 
quei- 



i6o ÁSIA de João de Barros 

queira , e dos Capitães de Ormuz ; e que 
eftes efcandalos indignaram tanto a gente , 
que fizeram o levantamento , em que elle 
não tinha culpa , e que com lua vinda elle 
efperava que tudo feria remediado. D. Luiz 
teve alguns recados do Guazil em refpofta 
do que lhe elle mandava dizer , fem tomar 
conclusão íbbre os Portuguezes cativos , que 
tinha em íeu poder , nem fuás fazendas que 
lhe pedia , e niílo acabou de fe refumir, 
que Raez Delamixar , que vinha por Gua- 
zil , feria alli mui cedo , e poderia trazer 
algum recado fobre a fua entrega , que en- 
tretanto devia de ir fazer fua aguada a Tei- 
ve. O qual confelho elle tomou 5 fem que- 
rer tomar emenda do lugar, temendo que 
qualquer damno que lhe fizeíTe , feria cau- 
far a morte aos cativos , que eram vinte e 
féis Portuguezes ^ e mais fabendo que toda 
a gente , e fazenda era pofta em falvo , fo- 
mente eftavam alli huns poucos de homens 
de armas frecheiros , que haviam de leixar 
a villa , pois alli não tinham mulheres , fi- 
lhos , nem fazenda. Chegado D. Luiz á 
aguada de Teive , porque os Árabes dalli 
lhe vinham fazer fuás algazarras , e fobran- 
cerias , fegundo feucoftume, moftrandoque 
lhe queriam defender a aguada ; mandou 
D.Luiz a Nuno Fernandes de Macedo que 
com fua gente huma manhã os aíFugentafle 

dal- 



Década III. Liv. VIL Cap. V. 161 

Àulli. Na qual fahida em terra cativotí , e 
matou alguns , com que os Arábios ficaram 
tão acanhados, que os parentes dos mortos, 
e cativos faltaram onde eftavam íete , ou o*- 
to Portuguezes cativos pêra os matar , e 
de feiro foram mortos , fe os não falváram 
as pefToas que os tinham em poder ; e to- 
davia per defaftre houveram hum á mão , 
em que fizeram fua gazua. E citando ainda 
aqui D. Luiz efperando João Rodrigues de 
Noronha , que da índia era partido pêra' 
entrar na capitania de Ormuz , polo qual 
D. Duarte de Menezes mandava efperar na- 
quella paragem , porque havia de vir com 
velas , e gente , pêra elle D, Luiz chegar 
a Ormuz mais poderofo , por não faber em 
que eítado eítava , chegou huma terrada do' 
Xec de Mafcate , que eítava por nós. O qual 
Xec foube fer D. Luiz alli pêra huma fuf- 
ta de fua companhia , que fe apartou deíle 
com tempo no Cabo Rofçalgate , e foi ter 
a Mafcate , per a qual terrada lhe fazia fa- 
ber como elle eítava por EIRey de Portu- 
gal , fegundo já teria fabido per Manuel de 
Sónia , e Triítão Vaz ; que lhe pedia que 
o favoreccfle com algum foccorro , por 
quanto lhe fazia faber como Raez Delami- 
xar vinha fobre elle com poder de gente. 
D. Luiz por eítar já informado do que efte % 
Xec tinha feito , mandou lá em feu favor 
Tom. III. P.iL L aHen- 



IÓ2 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

a Henrique de Macedo Capitão da cara- 
vella , e que eile com a fuíla que lá foi 
ter deílem rodo favor que pudeílem ao 
Xec ; e porém que por nenhum caio fahif- 
fem em terra , nem homem algum. Chega- 
do Henrique de Macedo a Maícate nas oi- 
tavas da Paícoa , íoube do Xec como Raez 
Delamixar era chegado per terra dahi a três 
léguas com té trezentos frecheiros , que 
lhe pedia que o ajudaíTem com alguma gen- 
te , porque eile determinava de o ir efperar 
a hum certo palTo de huma ferra a lhe 
impedir a pafíàgem, porque não tinha ou- 
tro caminho. Henrique de Macedo como 
lhe era defezo lançar gente em terra , fe ef- 
cufou com o regimento de D. Luiz , com 
que o Xec ficou muito defconfolado. Mas 
como receava que paliando o paíTb Raez 
Delamixar , ficava eile fujeito a muito peri- 
go por a pouca gente que tinha , e que 
lhe convinha partir-fe logo ante que eile 
chegaííe aopaffo; "tomou alguma gente Ará- 
bia que ahi eftava de humas náos de Baf- 
çorá , e cinco Portuguezes que eftavam com 
eile , que por íuas vontades o quizeram 
acompanhar , dous dos quaes eram criados 
de Triftao Vaz da Veiga. Finalmente eile 
defendco o paílb , eftando já desbaratado , 
e acolhido a hum alto, com matarem Raez 
Delamixar com huma eipingarda dosnoflbs, 

que 



Década III. Liv. VIL Cap. V. 163 

que fez pôr em fugida a todolos Parfeos 
com morte de dez , ou doze ; e fe houvera 
quem lhe feguíra o alcanço , alli ficaram to- 
dos. Dahi a dous dias que o Xec tinha ha- 
vido eíla vitoria , chegou D. Luiz , e quiz; 
Deos que chegaram também duas terradas 
carregadas do fato de Raez Delamixar , que 
vinham tomar poufada per mar , e elle ef- 
tava já enterrado. As quaes D. Luiz a min- 
gua de feu damno mandou recolher, e fez 
honra , e agazalhado ao Xec , dando-lhe 
muitas peças , e mais leixou-lhe alli huma 
fufta com quarenta Portuguezes , vinte pêra 
-andarem nella , e vinte pêra eftarem em ter- 
ra em feu favor. E havendo quatro dias 
que D. Luiz alli era chegado , veio João 
Rodrigues de Noronha em huma náo per 
nome S. Jorge , e com elle em outra náo 
chamada as Virtudes , Capitão da qual era 
Lopo d' Azevedo ; e porque D. Luiz não 
efperava outra coufa, partio-fe logo cami- 
nho de Ormuz. Nefte caminho , treze , ou 
quatorze léguas de Mafcate , eftá hum lugar 
chamado Soar , o qual pofto que feja de 
pouco trato , e trafego , e não de muitos 
moradores , tem huma fortaleza ; e como 
he mais perto de Ormuz que os outros , 
fempre he provido de gente de guarda, e 
fronteria por alguns imigos que tinham 
perto. Hum vizinho era Soltão Maçoude, 

L ii que 



164 ÁSIA dê J0A0 de Barros 

que vivia dentro no fertão perto da ferra > 
o qual fe intitulava por Rey , como íigni- 
fica eíle nome Soltao entre os Mouros ; o 
poder do qual feria té duzentos e cincoen- 
ta de cavai lo , e três mil homens de pé. O 
outro vizinho era hum Xec Hocem Bençai- 
de Capitão do grande Bengebra , que teria 
té trezentos de cavallo , e quatro mil de 
pé , o qual Bengebra lie hum Alarve, que 
come mais de quinhentas léguas de terra. 
Porque elle he fenhor quali de todo o fer- 
tão , que fe comprende da Ilha Baharem , 
correndo a coita té Dofar , dando fempre 
rebates nos povoados que eítam nefta ter- 
ra , a que os Arábios chamam Yaman. E 
os rebates são no tempo da novidade das 
tâmaras , de que efta terra he mui fértil , e 
aífi de outros mantimentos , recolhendo o 
que hão mifter pêra todo o anno , parte por 
rapina , parte por paclo em maneira de 
páreas , que lhe pagam eftes vizinhos. Dom 
Luiz pola informação que teve deílas duas 
peffoas tão poderofas , os quaes por ferem 
Arábios fempre eftam em guerra com os 
Parfeos do Reyno de Ormuz com que vi- 
zinhavam , elle os mandou chamar , e teve 
prática com elles , dizendo , que fua tenção 
era dar em Soar, onde fabia eílar humGua- 
zil d'ElRey de Ormuz com gente em guar- 
da, que lhe queria entregar eíle lugar, por 

fa- 



Década III. Liv. VIL Cap. V- 16? 

faber que os Arábios era gente mais fiel , 
e por efta caufa EIRey de Portugal feu Se- 
nhor havia muito de folgar ficarem os lu- 
gares daquella cofta em leu poder , e nao 
dos Parfeos , e mais fendo elles peílbas de 
tanta qualidade. E que delles nao queria 
mais que cercarem o lugar per parte da ter- 
ra , e elle daria pelo mar , porque temia 
que o Guazil Raez Xabadim , que eftava 
na fortaleza , fe acolheria pêra o fertão , 
quando pelo mar foíFe entrado. Aos quaes 
elle deo algumas peças , ficando mui con- 
tentes do partido , porque niífo nao met- 
tiam cabedal algum , e ficavam íènhores do 
que defejavam a cufta alheia. Mas o cafo 
não fuccedeo como D. Luiz defejava , por- 
que o tempo foi hum pouco contrario a 
D. Luiz y e ante de chegar a Soar, furgio 
tanto avante como hum lugar do mefmo 
Soltão. E porque do mar no porto do lu- 
gar viram os noííòs humas terradas , fem 
D. Luiz faber que havia alli povoação , 
mandou a ellas António de Lemos no feu 
efquife , e com elle humas almadias* O qual 
fem licença de D. Luiz , queimou as terra^ 
das , e o lugarinho , cativando obra de vin- 
te Mouros bem pobres , fem té então fe fa- 
ber o mal que fizeram , o que logo vere- 
mos. Chegando a Soar a onze de Março 
de quinhentos e viflte e dous ; foube Dom 

Luiz 



i66 ÁSIA de João de Barros 

Luiz que Raez Xabadim era já dalli parti- 
do , e que leixára em guarda da fortaleza 
té oitenta Parfeos , os quaes tinha cercado 
per terra Xec Hocem Bençaide , como fi- 
cara aiTentado. D. Luiz como foube peio 
mefmo Xec Hocem eíle recado , e vio que 
fua Armada vinha efpalhada , e era tão tar- 
de que não podia fahir aquelle dia em ter- 
ra , mandou a alguns dos Capitães , que já 
eram chegados , que com fua gente foliem 
guardar á praia , por fe não irem os Par- 
feos ,. pois per terra os tinha feguros , fe* 
gundo lhe mandara dizer o Xec Hocem , e 
pela manhã fahiria elle com o corpo de to- 
da a gente. Os Parfeos tanto que viram 
furta a noífá frota , parece que peitaram os 
Arábios, eante manhã per buracos do mu- 
ro da fortaleza os leixáram fugir. Os Ca- 
pitães que guardavam a praia , fentindo o 
rumor deita fugida , fem D. Luiz fer pre- 
feníe , remettêram delles á fortaleza , outros 
a queimar huma náo , que eftava no porto, 
E quando acharam a fortaleza defpejada , 
deram na villa , e fizeram nella hum bom 
eftra go , matando , e cativando quantos 
acharam , e per partes puzeram-lhe fogo. 
D. Luiz quando chegou a terra , e foube 
como os Parfeos eram fugidos , e o lugar 
entrado, e as duas partes d elle queimado, 
fem efperarem por elle a ficou muito indi- j 



Década III. Liv. VIL Cap. V. 167 

gnado contja os Capitães , e muito mais 
quando foube como o cafo paíTava. Por- 
que quanto ao lugarinho que António de 
Lemos atrás deílruíra , era de Soltão Ma- 
coube , o qual vendo o damno que lhe os 
noífos fizeram , ficou tão aggravado de Dom 
Luiz , que não quiz ir ao cerco dos Par- 
feos , como lhe promettêra. Também a po- 
voação de fora da fortaleza de Soar era 
toda povoada de Arábios , muitos dos quaes 
eram parentes dos Arábios , que andavam 
com Soltão Maçoude , e Xec Hocem , por 
cujo refpeito ambos ficaram bem efcandali- 
zados 3 e houveram que não íailavamos ver- 
dade. D. Luiz vendo que no feito não ha- 
via remédio , quiz latisfazer a efte efcanda- 
lo , mandando entregar quantos cativos fe 
alli tomaram , e toda a fazenda , ainda que 
era pouca , e elle per íi mefmo as andou 
per todas as náos vendo fe dos cativos os 
noíTos efcondiam algum. Finalmente elle lei- 
xou por Guazil , e Capitão daquella forta- 
leza a Xec Hocem Bençaide , e ao que dan- 
tes alli eftava leixou por Eícrivao das ren- 
das , e delpeza do lugar , obrigando-fe efte 
Xec Hocem de o ter por EIRcy de Portu- 
gal , e fobre iftb fizeram feus contratos com 
toda obrigação que o cafo requeria , com 
que Xec Hocem em alguma maneira ficou 
fatisfeito. Ante que D. Luiz fe partifle da- 
qui, 



i68 ÁSIA de Joio de Barkos 

qiíi , chegou a elle hum criado de D. Gar- 
cia Coutinho , per o qual lhe fazia íaber 
como elle mandara o Alcaide mor de Or- 
muz em hum navio 9 e huma fuíta a quei- 
mar o lugar de Lemma , que era d'EIRey 
de Ormuz ? o qual eftava áquem do Cabo 
Moçandam ante de entrar no eftreito obra 
de dez léguas , e houveram na deílruiçao 
deite lugar muitos cativos. E affi mandara 
dar alguns faltos derredor da Ilha Queixo- 
me , de que EIRey eftava mui agafiado , 
vendo que osfeus não podiam navegar fem 
receber muito damno de nós , e morriam á 
fome , porque não tinham mantimentos , e 
nao os podiam haver per outro modo kr 
não per efte de navegar. E também lhe fa- 
zia íaber que EIRey deíejava muito fua che- 
gada ; porque D. Gonçalo Coutinho lhe 
idifiera que em o negocio da paz faria tudo 
o que EIRey quizeíle , e com elle D, Gar- 
cia faber iftp de D, Gonçalo , leixára de fa- 
zer a guerra a EIRey, E porém depois que 
eftas coufas com a chegada de D. Gonçalo 
virem a efte cftado , fucçedêram outras ■, em 
que totalmente aquelle Reyno era perdido ; 
porque entre os principaes que governavam 
EIRey Torunxá , houve eftas diíferenças , 
Mir Corxet , e Cogelal feriram Mir Ha- 
med Morado , aquelle grão privado d ? El- 
Rey, e fe acolhera a Ormuz 7 ç tornara ou- 



Década III. Liv. VIL Cap. V. 169 

ira vez a Queixome , depois que foube que 
Raez Xarafo o Guazil mandara prender 
ao mefmo MirHamed Morado. E que elle 
Raez Xarafo , remendo que EIRey defcu- 
briíTe a elle D. Luiz ? e ao Governador Dom 
Duarte fe alli vieíTe , quanto mais culpa elle 
Xarafo tinha nefte levantamento , que pef- 
foa alguma das outras , por fer homem que 
fabia tirar a pedra , e eíconder a mão , elle 
fizera com Raez Xamixer , e Raez Gelai 
<]ue mataíTem a EIRey Torunxá. Porque 
fobre elle morto lançaria todalas culpas dos 
males que eram feitos , vifto que os mortos 
3iao fe podem defculpar do que contra el- 
íes fe diz. A qual morte houve effeito, e 
logo levantaram por Rey hum moço de té 
treze annos per nome Mahamud Xá , filho 
<l'ElRey Ceifadim paífado ; e que Xarafo 
governava tudo abfolutamente , e tinha eíte 
anoço em feu poder , e todo o thefouro , c 
fazenda do Reyno. D. Luiz quando ouvio 
tanta revolta, ante que tudo fe acabaíTe de 
todo , partio-fe logo , e fendo tanto avante 
como o Cabo Moçandam J chegou a elle 
huma terrada , em que vinha hum Mouro 
honrado per nome Coge Mahamud Safu- 
xá , per o qual o novo Rey Mahamud Xá 
o mandava viíitar , e que fua vinda folfe 
muito boa ; e aíli lhe mandava hum pouco 
de refrefço. D.. Luiz ante dçila yifitaçao, 

per 



170 ÁSIA de JoXo de Barros 

per o criado de D. Garcia tinha havida 
huma carta do Feitor Ignacio de Bulhões , 
o qual como fora criado do Conde Prior 
feu pai , com a mais liberdade que algum 
homem outro , o avifou do que lá paliava, 
E entre muitas coufas lhe dizia , que os 
Governadores d 5 E!Rey de Ormuz , e todo- 
los feus acceitos eílavam coítumados a fa- 
zerem tudo o que queriam , e depois re- 
miam as culpas com dinheiro , e que té en- 
tão ainda não tinham vifto quem lho engei- 
taíTe. E poílo que elle o conhecia mui bem , 
e fabia que era filho de feu pai , e neto 
de feus avós , que nunca fizeram coufa com 
Mouros que a cubica lhe fizeífe perdei a 
honra , todavia lhe fazia eíla lembrança. 
Que fe ante de fe ver com EIRey o man- 
dafle viíltar , e lhe mandaííe algum feirei* 
co , como elles coftumavam mandar , no 
qual refrefco vai envolta a brandura, com 
que elles. amançam os ânimos dos furiofos , 
fehouvelle de maneira com avifitação, que 
de faílar com elle fomente não fe pudelTe 
prefumir coufa alguma. Porque ainda que 
em toda parte os homens que mandavam, 
e governavam , e não são mui cautelofos 
no modo de fuás coufas , muitas vezes a 
juizo dos homens os condemnava por fuf* 
peita ; na índia corriam muito mais rifco 
que em outra parte, por citarem acoíluma- 

dos 






Dec. III. Liv. VII. Cap. V. e VI. 171 

dos os Mouros , e Gentios a peitar grof- 
famente ^ que efte feucoftume infamava a 
todo homem por jufto que fcíTe. Por o 
qual refpeito D. Luiz nao quiz ouvir efte 
menfajeiro , nem vello fomente , e mandou- 
Ihe dizer per Triftão Vaz da Veiga , que 
elle eftava táo perto de Ormuz como via , 
que lá o foífe efperar , e dahi lhe tomaria 
o recado d'ElRey, e aííi o efpedio. 

CAPITULO VI. 

Como D. Luiz de Menezes chegou a 
Ormuz , e dahi foi ter d Ilha de Queixo- 
me y onde EIRey eftava : e os meios que 
teve pêra affentar paz com elle > com as 
condições nella conte ti das. 

TAnto que D. Luiz chegou a Ormuz , 
e fe informou do que lhe convinha fa- 
ber , nao fomente de D. Garcia , mas de 
Ignacio de Bulhões , o qual polas razoes 
que diíTemos o podia informar -de toda a 
verdade , e elle acceitar feu voto como de 
homem que tinha amor a fua honra , e mais 
qualidades pêra iffo de prudência , e caval- 
leria , mandou vir publicamente o menfa- 
jeiro d'EiPvey , e tomou-lhe feu recado , o 
qual era de viíltaçoes. Ao que D. Luiz re- 
fpondeo graciofamente ; e porém não lhe 
quiz acceitar orefrelco, nem vello, fomen- 
te 



172 ASIÀ de João de Barros 

te tomou huma pouca de verdura , dizendo 
que era tão próprio dos homens , que an- 
davam no mar , folgarem com ella 5 que 
por iíTo a acceitava 5 e mais por fer da mão 
de hum Rey innocente , como era elleMa- 
Jiamud Xá , que não tinha culpa alguma 
em tão más coufas , como eram paíTadas em 
Ormuz. Partido efte menfagei.ro , ao outro 
dia veio outro por nome Coge Ceidadim com 
duas cartas , huma d^EIRey , e outra de 
Raez Xarafo feu Regedor , e com muitas 
peças de feda , e outras coufas que elles 
ufam mandar na chegada dos Capitães. Nas 
quaes cartas fe continham culpas d'ElRey 
Torunxá morto ^ inventor , e urdidor dê 
quanto mai té então era feito , e que a fua 
morte fora ordenada por Deos , por tirai 
daquelle lugar hum tão máo homem; porént 
elle Mahamud Xá fempre havia de obede- 
cer aos mandados d'ElRey de Portugal , e 
que eíla fora a primeira caufa de acceitar 
a eleição de Rey de Ormuz , que os feus 
Mires nelle fizeram. Finalmente per efte te- 
mor o morto era condemnado , € elles me- 
reciam mercê, e favor pola vontade que ti- 
nham , fem nas cartas fe tratar de outra 
coufa , tudo eram palavras geraes. E outro 
tanto fez efte mefmo menfageiro, aífi defta 
vez , como da outra que tornou , fem Dom 
Luiz lhe tomar de ambas coufa alguma das 

que 



Década III. Liv. VIL Cap. VI. 173 

que trouxe , e também lhe refpondia com 
palavras geraes. Porém porque elle Coge 
Ceidadim neíla fegunda vez como de feu 
apontou em prática a D. Luiz , que fe lhe 
déífe hum feguro pêra a peííoa cTElRey , 
e todolos feus , elle fe tornaria á Cidade, 
refpondeo D. Luiz , que elle não lhe re- 
fpondia por o requerimento não fer da par- 
te d'ElRey , fenao prática delie Coge Cei- 
dadim ; e quando EIRey niíFo mandaífe fal- 
lar , então refponderia , e com iílo o efpe- 
dio. Partido eíte Mouro, teve D.Luiz prá- 
tica com os Capitães , e principaes peílba9 
que alli eram , dando-lhe conta deitas viíi- 
tações que lhe EIRey fazia , e do que lhe 
movera eíle Mouro , que tudo iílo lhe pa- 
recia artificio de Raez Xarafo. Também ha- 
via oito dias que eram chegados , e paíía- 
va-fe o tempo fem ter feito coufa alguma, 
que a elie lhe parecia que deviam ir a 
Queixome , pêra qualquer coufa que fucce- 
deífe tomarem logo lá conclusão nella , e 
não eftar efperando , recado vai , recado 
vem, no qual parecer todos foram, e par- 
tio-fe ao outro dia com a maré. Raez Xa- 
rafo como fe vigiava de todolos autos que 
D. Luiz fazia , quando foube que hia pêra 
Queixome, temendo que EIRey Mahamud 
Xá , que eJJe levantara , foííe depoílo por 
lhe não pertencer , e que em feu lugar Dom 

Luiz; 



T74 ÁSIA de João de Barros 

Luiz levantafle a hum moço de doze ân- 
uos filho d'ElRey Torunxá morto ; cegou 
eíle moço pelo modo que elles cegavam os 
de que íè temiam , coufa mui coftumada 
naquelle Reyno , como já cfcrevemos. A 
nova do qual caio deram a D. Luiz inda 
de caminho pêra Queixome , a qual coufa 
não era verdade , mas artificio pêra o mais 
indignar. E tanro que chegou , que foi o 
primeiro de Junho , vieram logo a elle Co- 
ge Abrahem Secretario d'E!Rey , Coge Cei- 
dadim , e outros homens nobres a viíitallo 
de parte d'EIRey, e com algum refrefco,, 
aos quaes elle recebeo com gazalhado 5 e 
aíli o refrefco por ler fruita , e os não ef- 
candalizar , e com iílo os efpedio. A tenção 
de D. Luiz acerca do caftigo que queria 
dar a Raez Xarafo , e aíli áquelles Mou- 
ros 5 que revolveram as coufas que té alli 
eram paíTadas > era haver a feu poder a pef- 
foa d'ElRey , e delles per algum modo. E 
a elles ter prezos té o fazer faber a feu ir- 
mão D. Duarte, pêra determinar o que fa- 
riam , com que aquelle Reyno ficaíle em 
poder de homens de menos fufpeita do 
que elles eram. E com parecer de peíibas 
particulares , que eram poucas, por fe ofe- 
gredo não defcubrir , determinou de bufcar 
pêra fazer iílo a feu falvo , e fem perigo da 
noíTa gente ; peíibas que per terra o ajudaf* 



Década III. Li v. VIL Caí. VI. 175: 

fem , e elle daria pelo mar. E achou dous 
homens poderofos , que tinham feu eftado 
na terra firme , os quaes davam obediência 
a EIRcy , e porém tinham ódio mortal a 
RaezXarafo, por a qual razão acceitariam 
qualquer partido que lhe fizeífe. A hum 
deíles chamaram Mir Carcero , cujos avôs 
foram muito tempo Governadores do Rey- 
no Ormuz , e ao outro Mir Corxet feu cu- 
nhado. D. Luiz como foube particularmen- 
te de fuás coufas , e poder que tinham , íè- 
cretamente a Mir Carcero mandou Ruy 
Varella , e a Mir Corxet António de Fi- 
gueiredo , os quaes afTentáram com elles 
ferem contentes virem a hum certo tempo 
com gente dar nas cafas d'E!Rey , e elle 
D. Luiz per outra parte , e o tomarem ás 
mãos , e áquelles que foram caufa dos ma- 
les paliados. Ao Mir Carcero promettia 
D. Luiz a governança de Ormuz , e ao ou- 
tro as coufas de que fe elle contentava. Ten- 
do aífentado com eíles dous homens eíle ne- 
gocio , fentio D. Luiz depois nelles huma 
frieza de maneira , que converteo efte ardil 
o negocio corrente de contrato com o mef- 
mo Rey Mahamud Xá , e com os feus Go- 
vernadores. E ainda femetteo ncite negocio 
por concertador hum Embaixador do Xá 
Ifmael quealli era vindo 5 permeio do qual 
D.Luiz concedeo algumas couíàs \ moftran- 

do 



176 ÁSIA de João de Barros 

do que o fazia por amor do Xá líinael , e v 
comprazer a elie Embaixador , lendo ellas 
taes que a neceífidade o fazia conceder nel- 
las , porque fe lhe gaitava o tempo , e os~ 
Mouros andavam mui vagarofos , e fobre 
iííb moviam coufas novas de maneira , que 
havia D. Luiz que tornallos ao eftado em 
que eftavam , ante de lhe porem Officiaes 
na Alfandega , acabava grande coufa. E o 
que mais obrigou aèlle D. Luiz a iílo , foi 
mandar-lhe dker Mir Cárcere que elle não 
podia fer naquelle negocio . coníiderando 
os trabalhos, que os Capitães da fortaleza 
davam aos Governadores , que elle queria 
viver em paz , e efía fomente tomava por 
a melhor honra que alguém podia defejar. 
Seu cunhado Mir Corxet também fe efcu- 
fou com dizer, que pois feu cunhado não 
entrava niííb , que elle não o podia fazer 
fó. Além deite defengano houve ahi outra 
coufa mui principal , que fez concluir a 
D. Luiz : cá foi certificado que eftava Raez 
Xarafo tão temerofo de fua vida, que de- 
terminava de tomar EIRey , e fe ir com 
elle, e com o feu thefouro á Ilha Baharem y 
ou peraChiláo huma viíla na coita de Per- 
fia 3 de. que elle Raez Xarafo era natural, 
e levar comíigo também os principaes mer- 
cadores. Finalmente D. Luiz fe contentou 
com EIRey por efta .maneira > que elle Rey 

com 



Década TIL Liv.VIL Caí. VI. 177 

com todolos feus tornaíTe a povoar a Ci- 
dade Ormuz , e pagaife os vinte mil xera- 
fijs que pagava , e livremente governaria o 
Reyno , íem os Capitães entenderem nas 
coufas de fua fazenda , nem julliça , e que 
tornariam todolos Portuguezes cativos , e 
fazenda que lhe tomaram , e também paga- 
riam aos que eram vivos o que naquella 
revolta perderam , confiando por efcritura , 
ou teítemunhas dignas de fé , e pagariam as 
páreas que té o tempo do levantamento eram 
devidas. Acabado eíte concerto de pazes y 
depois que foi aílignado per D. Luiz , e per 
EIRey , e feuGuazilXarafo, como Gover- 
nador do Reyno , mandou EIRey a elle 
D. Luiz pêra enviar a Portugal a EIRey, 
e áPvainha perlas, e jóias de ouro, e mui- 
tas peças de feda , e ouro , e outras pêra 
elle mefmo D. Luiz , que elle acceitou , por 
não defprazer a EIRey; porém mandou-as 
entregar ao Feitor Ignacio de Bulhões pê- 
ra as enviar com as outras a eíte Reyno pê- 
ra EIRey. E porque as náos que João Pvo- 
drigues de Noronha levou comílgo haviam 
de vir pêra eíte Reyno com efpeciaria , dlo 
as defpachou logo pêra Cochij , mandando 
nellas eítas peças que EIRey de Ormuz deo, 
e affi o dinheiro das páreas que pagou. Em 
hurna das quaes vinha Lopo cPAzevedo, e 
Duarte d' Ataíde em outra > e na terceira Ma- 
Tom.IIL P.jL M nuei 



i?§ ÁSIA de João de Barros 

miei Velho , por Pêro Vaz Travaços Capi- 
úo delia ficar doente ern Ormuz. As quaes 
junto de Maícatc em huma aguada , que 
chamam de Coge Atar, tiveram hum tem- 
poral tão forte , e fubito de noite eftando 
fobre ancora 5 que foi ter a cofta a de Duar- 
te d'Ataíde , em que elle pereceo , e hum 
filho feu, eVaíco Martins de Mello , João 
Rabello , e D. Garcia Coutinho Capitão que 
fora de Ormuz , e muita outra gente nobre. 
E ao tempo que foi ter á cofta com a fú- 
ria que levava do temporal , deo pela náo 
de Lopo d' Azevedo que defapparelhou , e 
houvera de fe perder com ella , fe lhe não 
acudira Manuel Velho que a falvou. E aífi 
fe falvou a maior parte da fazenda perdida 
per indú-ílria, e ajuda do Xec de Mafcate, 
que mandou mergulhadores a iíTo. O qual 
beneficio ante que os noíTos fe dalli par|if- 
íèm , foi pago a efte Xec Raxit com lhe 
fer dada ávida perefta maneira. Como elle 
tinha morto Raez Delamixar irmão de Raez 
Xarafo no paflb que lhe defendeo , fegun- 
do atrás efcrevemos , tanto que Xarafo te- 
ve os concertos feitos com D. Luiz , fem o 
guardar pêra mais tarde , mandou hum feu 
criado em huma terrada com gente armada 
a matar eke Xec Raxit em vingança de feu 
irmão. Sabida a qual vinda , Manuel Velho 
fe metteo em o batel da fua náo , e com 



Década III. Liv. VIL Cap. VI. 179 

gente armada foi ter á aguada de Coge 
Atar, onde eílava eíie criado de Ráez Xa- 
rafo. E dando de íubito nelle , o prendeo 
na própria terrada , fendo a gente .de armas 
em terra , e o levou com os rcmèiros del- 
ia á fua náo , onde mandou vir Xec Ra- 
xit , e os fez amigos , efcrevendo fobre iíTo 
a D. Luiz , e a Raez Xarafo. Acabadas ef- 
tas amizades, e as duas náos remediadas do 
damno que receberam do temporal , partiram 
caminho da índia , aonde chegaram a falva- 
mento. D. Luiz também leixando as coufas 
de Ormuz no eílado que diííemos , porque 
havia de ir efperar as náos de Meca a ponta 
de Dio , partio-fe por fer já monção pêra iíTo , 
levando comíigo cinco galeões , hum navio ? e 
huma caravella. E fendo tanto avante como 
Dio , tomou huma náo ,\em que houve pou- 
ca preza , e por lhe vir hum temporal que 
o fez arribar a Chaul , a dezefeis de Setem- 
bro , e o tempo náo fer já pêra mais , da- 
qui fe partio pêra Goa , onde achou feu ir- 
mão D. Duarte , o qual eílava poílo em to- 
da triíleza , por a nova que tinham defte 
Reyno per huma das três náos , que o an- 
uo de quinhentos e vinte e dous partio , co- 
mo veremos neíle feguinte Capitulo. 



MU CA- 



i8o ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VIL 

Como per huma das mos , que ejle an~ 
no partiram pêra a índia , Z>* Duarte Jou- 
le do falecimento d?ElRey D. Manuel , e 
o que fobre ifjò fez , e as nãos que defpa- 
chou pêra diverfas partes : e como D. Pe- 
dro de C afiro Capitão d,e huma de duas 
lidos \ que invernar am em Moçambique , 
defiruio a Ilha Quer iniba , e como em Goa 
fobre amarra a fua ndo Nazareth fe foi 
ao fundo. 

EStando D. Duarte de Menezes em Goa 
na Sé hum Domingo á MiíTa ouvin- 
do a pregação do Bifpo D. Fernando Re- 
ligioío da Ordem de S. Francifco , chegou 
hum homem , e deo hum eicrito a elle Dom 
Duarte , o qual era de D. Pedro de Caftel- 
Jo-branco filho de D. Pedro de Caftello- 
branco , que chegara á barra de Goa por 
Capitão de huma náo , de três que efte an- 
no de vinte e dous partiram deite Reyno 
pêra a índia , e os Capitães das outras duas 
eram Diogo de Mello , que hia pêra Capi- 
tão de Ormuz na vagante de João Rodri- 
gues de Noronha ; e outro era D. Pedro 
de Caítro filho de Eílevão de Caftro > os 
quaes , por não poderem paíTar á índia , 
inyernáram em Moçambique > de que adian- 
te 



Década III. Liv. VIL Cap. VIL 181 

te faremos mais relação. Acabando Dom 
Duarte de ler o efcrito , foi tamanho o fen- 
timento , que não podendo diílmiular a dor , 
e trifteza da nova , que lhe D. Pedro dava , 
poz hum lenço no roíío , e fentindo os que 
eftavam junto delle o feu choro , cuidaram 
que no efcrito vinha nova que era falecido 
feu pai o Conde Prior. Mas como pelo 
meníàgeiro da carta fouberam fer EiRey 
D. Manuel , aífi a pregação como a MiíTa y 
foi huma contínua trifteza , e fez em todos 
grande confusão. E o que iílo mais accref- 
centou , foi verem que de três náos que fo- 
mente aquelle anno partiram deite Reyno > 
huma chegara á índia , e parecia-lhe que 
com a morte do feu Rey tudo falecia ■ pof- 
to que no Príncipe D. João feu filho , que 
era levantado por Rey , polo que delle ti- 
nham conhecido , cada hum em feu modo 
fe confortava , não perdendo a efperança de 
feus ferviços. D. Duarte logo aquelle dia á 
tarde mandou lançar pregões , que todos to- 
maíTem dó 5 e o deitem aos feus efcravos, 
e que não ficaíTe Mouro , ou Gentio que o 
não tomaífem , fob graves penas. E logo 
na Sé mandou ordenar huma éça , e con- 
certar todo o neceífario , e com grande fo- 
lemnidade fe cantaram befporas , e ao dia 
lèguinte MiíTa , e pregação por a alma d'EI- 
Rey , ao modo deite Reyno. Tendo dlo 

D, 



182 ÁSIA de João de Barros 

D. Duarte per fua própria peflba feito o# 
dous autos , aíli o da triíteza denunciando o 
falecimento d'EiRey, como o do prazer, 
e feda com toda íblemnidade, que convir 
nha ao levantamento d'ElRey D. João o 
Terceiro deite nome. E parece que permittio 
Deos que elle fizeíTe efte auto como filho 
de feu pai D. João de Menezes Conde de 
Tarouca , e Prior do Crato , que era AU 
feres mor deíle Reyno, a quem elle fucce- 
dia , o qual Conde o fez também neíle 
Reyno em Lisboa. E não fomente em Goa 
fe fizeram eftes autos , mas em todas as for^ 
talezas da índia noífas , e EIRey de Oiv 
muz tomou dó como vaíTalío d 5 EÍRey , e 
o de Cananor , e Cochij como amigos , e 
íèrvidores. E no fim deites autos chegou , 
(como difTemos,) D. Luiz de Menezes, 
que vinha de Ormuz , e de noite fahio da 
mar, e fe foi pêra D. Duarte, que de no-? 
vo entre íi fizeram outro novo pranto. Por- 
que além de perderem Rey , e Senhor, que 
os creou em grande mimo , por filhos de 
feu pai , o qual per fuás qualidades ain- 
da ficava naquella eftima em que de to- 
dos era havido , ficava fem o officio de 
Mordomo mor da Cafa d'ElRey , que he o 
mais principal delia. O qual cargo dle já 
tivera do Príncipe D. Aífonfo filho d'ElRey 
D ? João p Segundo ? não tendo ainda titulo 

de 



Década III. Liv.VII. Cap. VIL 185 

de Conde , nem o de Prior do Crato , que 
eftes lhe deo EiRey D. Manuel fomente 
por fua fidalguia , cavalleria 5 e qualidades. 
E no modo de lho dar ganhou elle ainda 
mais honra , e mercê , que o próprio offi- 
cio ; porque havendo naquelle tempo pef- 
foas muito nobres , e que tinham cafa, e he- 
rança , e não menos nobreza , em que o of- 
ficio por eílas razões parecia a muitos que 
lhe pertencia , diííe EIRey publicamente , 
que dava aquelle cargo a D. João de Me- 
nezes , porque era homem que fempre lhe 
fallára verdade , e nunca á vontade. Na 
qual palavra EIRey fe moílrou juílo , e ver- 
dadeiro , e imigo de liíbngeiros , e louvou 
a D. João de Menezes das mais principaes 
partes que hum homem pode ter pêra andar 
junto dos Reys , fe elles são taes , que as 
palavras, e obras lhes dam eíle nome, e di- 
gnidade. Tornando a D. Duarte de Mene- 
zes , com cila triíle nova fe foi a Cochij 
dar carga ás náos , que eíle anno haviam 
de vir pêra o Reyno ; e por as outras duas 
da companhia de D. Pedro invernarem , 
vieram aquelle anno fomente eílas náos , de 
que eram Capitães Garcia de Sá , Aires da 
Silva , Baílião Ferreira , Diogo Calvo em 
huma náo de D. Nuno Manuel , a qual veio 
ter á Ilha de S. Thomé , onde foi rouba- 
da dos Francezes , Manuel Gil filho de Duar- 
te 



184 ÁSIA de João de Barros 

te Triftão armador, e fenhorio da náo em 
que vinha , e Sancho de Toar, que veio 
de Sofala , por ter acabado feu tempo de 
Capitão , e em feu lugar foi Diogo de Se- 
púlveda. O qual quando daqui parrio com 
fc). Duarte de Menezes , foi ter á Ilha de 
S. Thomé , e dahi fe partio pêra Sofala* 
E aflí defpachou a Pêro Lourenço de Mel- 
lo pêra ir fazer huma viagem á China y 
com o qual hia também Martim Affonfo 
de Mello Jufarte , o qual foi diante a Pedir 
fazer carga de pimenta • e Pêro Lourenço 
com hum temporal que lhe deo foi ter ás 
Ilhas de Andramu adjacentes á cofia do 
Reyno Pegii , onde fe perdeo , eftando já no 
tempo de Diogo Lopes de Sequeira defpa~ 
chado pêra partir , e parece que lhe foi di- 
latada aquella ida por então pêra viver mais 
aquelle tempo té fe perder neíle. E também 
defpachou André de Brito pêra Malaca em 
huma náo própria delle André de Brito , 
pêra ir áquellas partes fazer feu proveito y 
onde paííou o que adiante veremos. As ou- 
tras duas náos qVie diíTemos invernáram em 
Moçambique , Capitães Diogo de Mello , 
e D. Pedro de Caílro , quiz João da Ma- 
ta , que alli era Capitão, e Feitor, aprovei- 
tar-íe delles por a gente não eítar ociofa , 
e eííando na terra aquelles mezes , podia 
pdpgçerj e a caufa que o moveo a iífo foi 



Década III. Liv.VIL Ca?, VIL 187 

efta. Dous Mouros fenhores de duas Ilhas 
Zenzibar - $ e Pemba , que eftam naquetla 
coita de Mombaça mui vizinhas a ella , fi- 
zeram-fe vaíTallos d'E!Rey de Portugal , e 
pagavam-Ihe parcas. E aelles pagavam ou- 
tras páreas as Ilhas de Querimba , as quaes 
por ferem mui vizinhas a EIRey de Mom- 
baça , com favor fcu por fer noíTo imigo 
negavam eftas páreas , e mais faziam-lhe 
guerra ? da qual coufa elles fe mandaram quei- 
xar per vezes a João da Mata , e que efta 
era a caufa por que lhe não podiam pagar 
as páreas. E vendo eftes dous fenhores de 
Pemba , e Zenzibar que invernavam alli aquel- 
las duas náos , mandaram menfageiros a João 
da Mata com efte requerimento \ o qual foi 
dar conta aos Capitães do cafo , levando 
comfigo os próprios. Dizendo-lhe quanto 
importava ifto ao ferviço d'ElRey , pedin- 
do-lhe da fua parte quizeífem ir dar hum 
caftigo áquelles Mouros de Querimba , e 
metter debaixo da obediência daquelles vaf- 
fallos d'ElRey , pêra delles haver as páreas 5 
que por efta caufa havia tempo que.não pa- 
gavam. Diogo de Mello como hia ordena- 
do pêra fervir a capitania de Ormuz , dan- 
do algumas razoes de o não poder fazer; 
acceitou D. Pedro de Caílro a ida ? e levou 
hum navio , em que andava Pêro de Mon- 
tarroio , que era Capitão daquelia cofta , e 

o ba- 



i86 ÁSIA de JoÁo de Bakkos 

o batel grande da fua náo , a que D. Pedro 
mandou levantar humas falcas pêra poder 
agazalhar a gente ; e affi levou mais o feu 
efquife, e dous, ou três zambucos da ter- 
ra , em as quaes vafílhas levaria té cem ho- 
mens , em que entravam eftes Fidalgos , que 
oquizeram acompanhar, D. Roque deCaf- 
tro feu irmão , e D. Chriftovão feu primo , 
D. Henrique cPEça , Chriítovao de Soufa y 
<]ue hia pêra Capitão de Chaul , António 
Galvão , e outras peflbas nobres. Chegados 
á Ilha Querimba , onde tinha huma boa po- 
voação pegada no mar em hum efcampado 
graciofo , repartio D, Pedro a gente em duas 
partes , huma deo a Chriftovão de Soufa 
por as qualidades de fua peííoa , e mandou- 
Ihe , que leixando a praia foíle encavalgando 
o lugar per cima dentro da terra , e clle 
com a outra parte da gente foi ao longo 
da praia. Indo nefta ordem ambos cada hum 
per fua parte , foram recebidos de muita 
frechada , de que os Mouros também leva- 
vam em retorno lançadas , e cutiladas com 
que os noífos os fangravam de morte. Em 
ajuda dos quaes Mouros por haverem kn- 
timento da ida dos noífos , era ahi vindo 
com muita gente hum fobrinho d'E!Rey de 
Mombaça , o qual cahio na parte de Dom 
Pedro ; mas eile não fe havia muito de glo- 
riar da honra que alli ganhou, porque. affi 

aper- 



Década III. Liv.VIL Cap.VII. 187 

apertaram os noíTos com elie , que começou 
logo de fe pôr em falvo. Chrifbvão de 
Soufa por o grande rodeio, que fez per ci- 
ma do lugar , levava já a gente tão canfa- 
da , que houvera miíter hum pouco de fô- 
lego pêra repoufar, enão a fúria dos Mou- 
ros que lhe fahíram ao encontro , por lhe 
tirar a vida , por íèr tal a peleja que foi 
.elle ferido , e Nuno Freire , Luiz Macha- 
do , e outros da fua companhia. Finalmen- 
te poucos ficaram que pouco ou muito não 
foííem magoados na carne , e não a honra 
que alli ganharam , porque á força do feu 
ferro defpejáram o lugar, que era grande, 
e mui rico , ao qual depois que foi defpe- 
jado, D. Pedro mandou pôr o fogo, com 
que de todo fe queimou, E porque deite 
feito os noíTos não ficaíTcm com mais, que 
com a honra delle , quanto fato tinham car- 
regado do esbulho , todo cr mar comeo. 
Porque per defcuido , e alvoroço da vito- 
ria , e cubica de carregar as vaíilhas , em 
que o embarcavam , ficaram com a muita 
carga em fecco na vafante da maré; e co- 
mo eftavam mais fobre o coitado , que fo- 
bre a quilha , quando tornou a encher , com 
a mareíia emborcou as vaíilhas , e o fato fi- 
cou perdido ; e ainda fez Deos mercê aos 
que já eftavam recolhidos falvarem-fe , e 
limito maior fer ante aquelle damno alli no 

por- 



i88 ÁSIA de João de Barros 

porto, que depois que partiram delle, por- 
que fem dúvida de todo fe perderam com 
o grande trabalho que tiveram em fe tor- 
nar , em tanto , que conveio a D, Pedro , 
por ter o vento contrario pêra Moçambi- 
que , mandar o navio que levava com a 
mais da gente a Melinde, fazendo funda- 
mento de a ir tomar alli indo pêra a ín- 
dia , como fez. E por razão deite tempo 
contrario , fe paífou elle D. Pedro a hum 
barco da terra , e navegava ao longo del- 
ia , não oufando de a Ieixar. E como elle 
era quartanairo , eftando com a febre an- 
corado , fem o íentir , fahio-fe D. Chrifto- 
vao filho de Filippe de Caftro , e outros a 
comer fruita do mato por a grande fome 
qíie paífavam. Aos quaes fahíram huns pou- 
cos de Negros da terra , e os vieram fre- 
chando té a praia , a que acudio D. Pedro 
com a febre -que tinha , quando foube do 
cafo , de que os falvou ; porém ficou Dom 
Chriftovão tão ferido , que ao outro dia 
morreo. Finalmente elle D. Pedro nefte bar- 
co 5 e Chriftovão de Soufa em outro , e 
António Galvão no efquife, cada hum per 
fua parte , todos pairaram mais perigos de 
fome, , fede, e trabalhos em chegar a Mo- 
çambique , do que foi o perigo da guerra 
de Querimba. Onde ante que partiíTem ás 
Ilhas circurnftantes , fe vieram a D* Pedro > 

te- 



Dec. IIL Liv. VIL Ca?. VIL e VIII. 189 

temendo o caíligo delle, e fe mettêram de* 
baixo da obediência de Zenzibár , e Pem- 
ba, que foi o fim defuaida, com que João 
da Mara arrecadou as páreas que deviam* 
E vindo tempo , D. Pedro , e Diogo de 
Mello fe partiram caminho da índia , e a 
D. Pedro não lhe baftáram eíles trabalhos , 
que nefta ida 3 e vinda de Querimba paíTou , 
mas ainda foi ver outro maior na barra de 
Goa , eftando ancorado , por a fua náo cha- 
mada Nazareth fer mui velha , e das maiores 
que fe fizeram nefte Reyno > com hum tem- 
po forte fe perder. 

CAPITULO VIII. 

Como D. Duarte de Menezes partio pê- 
ra Ormuz : e como no caminho per hum 
defcuido os Mouros de huma náo rendida 
tomaram huma galé de duas que a tinham 
tomada : e do que em Ormuz fe pajjbu an- 
te delle chegar. 

T Ornando a D. Duarte , que (como dif- 
femos ) veio defpachar as náos , que 
haviam de vir pêra efte Reyno , e outras 
que efpedio pêra di verias partes, ordenou 
duas Armadas , huma pêra elie ir dar vifta 
a Ormuz , por acabar de aíTentar as coufas 
que D. Luiz feu irmão leixava no eílado 
£U€ vimos y e outra Armada pêra a mefrao 

D. 



190 ÁSIA de João de Barros 

D. Luiz ir ao eftreito do mar Roxo a tra- 
zer D. Rodrigo de Lima , que Diogo Lo-* 

pes de Sequeira enviou por Embaixador ao 
Prefte , como atrás efcrevemos ^ e primeiro 
queelle partifle pêra Ormuz , fepartioDom 
Luiz pêra o eftreito , da viagem do qual 
adiante faremos relação. EUe tanto que fe 
apercebeq , partio com féis velas , de que 
eram Capitães D. Vafco de Lima , Francif- 
co de Mendoça , Francifco de Soufa Tava- 
res, Diniz Fernandes de Mello, e Baítião 
de Noronha, e Luiz de Noronha, ambos 
irmãos , cada hum em fua galé. Chegado 
a Chaul não fe deteve mais que em quan- 
to leixou algumas coufas ordenadas a Simão 
d' Andrade Capitão da fortaleza , e dahi atra- 
veífou a coita de Dio hum pouco largo da 
terra. Na qual paílagem indo as galés de 
Baítião de Noronha , e Luiz de Noronha 
juntas , largas da Armada delle D. Duarte , 
foram encontrar com huma não de Mou- 
ros , que vinha de Pegú mui rica de mer- 
cadorias , a qual era da Cidade Reiner, 
que eítá dentro da enfeada de Cambaya. 
Elles defejofos de tomar a náo, logo no 
princípio tiveram boa cautela não a queren- 
do abalroar , por fer mui alterofa , e elles 
tão rafos , como he huma galé , e começa- 
ram de a varejar com artilheria de manei- 
ra > que a náo hia toda trafpaíTada dos pe- 
lou- 



Dec. III. Liv. VIL Cap. VIII. 191 

louros ; e como era fobre a noite , por a 
não perderem , hum de huma parte , e ou- 
tro da outra , leixáram-fe eílar efperando a 
manhã. Os Mouros porque fe viam ir ao 
fundo , por a não eílar mui rota , determi- 
naram de fe aventurar , e perder as vidas , 
pois não podiam falvar a fazenda , e leixá- 
ram-fe carregar fobre huma das galés , que 
fentíram mais quieta , como que dormia a 
gente. E como lhe o maílo da galé ficou 
ao longo do coftado da náo , manfamente 
o reataram ao maílo da mefma náo ; e tan- 
to que a tiveram fegura , ás pedradas , e 
zargunchadas fizeram acordar os que dor- 
miam , e acordados do fornno , e defacor- 
dados na honra , lançáram-fe ao mar , por 
fugir aos Mouros, que tomavam poífe dei- 
la , e acolhêram-fe a nado á outra. A qual 
também teve tão pouco acordo , que não 
curou de feguir a galé , em que fe os Mou- 
ros falváram , e a fua náo fe foi ao fundo 
nomefmo tempo, fem delia falvarem mais 
que as peífoas , que foram ter a Reiner, 
onde logo Melique Saca filho do grande 
Melique Az , que havia pouco mais de an- 
uo e meio que era falecido , mandou com- 
prar a galé , e a poz em Dio cuberta de 
telha , gloriando-fe a quantos Rumes alli vi- 
nham , dizendo que as fuás cotias a tomaram 
aos noíFos. Do qual feito quando os irmãos 

che- 



192 ÁSIA de Joio de Barros 

chegaram a Mafcate , onde D. Duarte eíla- 
va , houve grande paixão , não tanto da 
perda da galé , como por leixarem ir os 
Mouros em falvo , fem os feguir com a ou- 
tra. E primeiro que elle chegue a Ormuz , 
queremos eícrever o que paflbu depois que 
fe D. Luiz partio , e o eílado em que Dom 
Duarte achou aquella Cidade, que era mui 
differente do que elle cuidava. D. Luiz no 
tempo que efteve em Ormuz todolos reca- 
dos , e coufas que fe paííáram entre elle, 
e EIRey ? té aílentar que fe vieíTe da Ilha 
Queixome povoar a Cidade Ormuz , bem 
fabia que todaías cautelas , e artifícios que 
niffo paliaram não procediam d'EÍRey , 
que era moço de treze annos , nemdosfeus 
Mires , e principaes da Cidade , fomente de 
Raez Xarafo , de cuja vontade tudo pendia. 
Porque já nefte tempo o Xec fogro d'El- 
Rey Torunxá morto , per quem elle era 
mandado , era lançado fora de Queixome , 
e aííi Mir Mahamed Morado , aos quaes 
elle tinha tomado íua fazenda. E por elle 
D. Luiz fer informado que em quanto Raez 
Xarafo foíTe vivo, as coufas de Ormuz não 
haviam de fegurar , por fer homem mui fa- 
gaz , e que podia revolver tudo , e pêra 
feus negócios tinha grande ajuda em Raez 
Xabadim leu cunhado , e elle D. Luiz o 
não poder acolher, commetteo a hum Raez 

Xa- 



Dec. ITL Liv. VIL Cap. VIIL 193 

Xamexir, (homem pêra aualquer feito dei- 
ta qualidade , por ver nelle difpofição pêra 
iílo , por o mal que queria a Raez Xará- 
fo , ) que o matafle , e a Raez Xabadim feu 
cunhado, promettendo-lhe por efte feiro o 
guazilado do Reyno , e mais dez mil xara- 
íijs , de que lhe deo hum aílignaào condi- 
cional , que havia de fer dentro em quaren- 
ta dias , e mais lhe deo outro de perdão 
daquelle feito , pêra poder moftrar ao Ca- 
pitão de Ormuz , fendo-lhe neceífario , po- 
lo muito que importava a ferviço d'ElRey 
fer ifto affi. Efte Raez Xamexir depois de 
acceitar o cafo , vendo quão recatado , e 
guardado Xarafo andava , diíle a D. Luiz y 
que efte feito não podia fer íenao depois 
da partida delle pêra a índia, porque def- 
cuidar-fe-hia Xarafo com fua aufencia de 
andar tão acompanhado de tanta vigia co- 
mo trazia fobre fu Partido D. Luiz , ficou 
Xarafo defabafado do temor que tinha del- 
le , e pareceo-lhe que não havia em Quci- 
xome de quem fe temer, e todo feu inten- 
to era bufcar modos de não ir a Ormuz , 
como tinha contratado com D. Luiz, mas 
elle o fez mais de preíTa do que cuidava. 
Porque Raez Xamexir como vio tempo , 
indo Raez Xabadim pêra ver EIRey , mais 
feguro do que andava , faltou com eJíe no 
meio do terreiro das cafas d'ElRey , e alli 
Tom. III. P.il. N orna- 



194 ÁSIA de João de Barros 

o matou , e quiz ir fazer outro tanto a Xa- 
rafo ás cafas ; mas elle fugio á fúria defte , 
quando foube o que paflava , e foi de hti- 
ma caía cm outra té fe lançar de huma ja- 
nella per huma touca. E porque no feu di- 
nheiro tinha elle fua vida , a/Ii com a cor- 
rida do temor que levava , foi-fc a fua ca- 
fa , e apanhando três cofres , metteo-fe em 
huma terrada com feus fervidores , e deo 
comfigo em Ormuz. Chegado á praia y man- 
dou pelos feus levar os cofres a fua cafa , 
e elle foi-fe á fortaleza aprefentar ao Capi- 
tão. Ao qual diífe como Raez Xamexir 
com alguns de fua valia matara feu cunha- 
do , e quizera matar a elle , fe o Deos não 
livrara ; e tudo iílo era porque queria cum- 
prir o que aílentára com D. Luiz , que era 
trazer EIRey pêra a Cidade. O que elle 
com feus amigos , e aliados contrariavam ; 
epois fe vinham abrigar ao poder daquella 
Cidade d^ElRey de Portugal , de que elle 
era Capitão , lhe pedia que o amparaífe , e 
lhe deííe licença pêra fe ir pêra luas cafas. 
João Rodrigues porque iílo o tomou de fu- 
bito, não íefabendo determinar no que fa- 
ria 5 diífe-lhe que repoufaífe hum pouco , 
que não íefoífe logo metter nas fuás cafas , 
que mais feguro eílava alli com elle 3 ou 
fizeífe o que lhe mais aprouveífe , tudo po- 
lo mais fegurar. Partido elle Raez Xarafo , 

te- 



Dec. III. Liv. VIL Ca?. VIIL 195: 

teve João Rodrigues prática com algumas 
peíToas prihcipaes , e foi voto de rodos que 
mandaíTem por elle , e o tiveifem a bom 
recado té faber per outrem como ifto paf* 
fava. Trazido per Ignacio de Bulhões Fei- 
tor , per quem João Rodrigues o mandou 
chamar , foi apoufentado em hum cubello , 
e por guarda Manuel de Vafconcellos. E 
não feria pofto neíta cuftodia , e guarda , 
quando chegou hum recado cPElRey de 
Ormuz a João Rodrigues , pedindo-lhe que 
mandafle prender aquelle trédor, e não lhe 
crcíTe coufa alguma de quantas diíTeíTe , por- 
que elle lhe mandaria dizer as cauías per 
que merecia efta prizao : e outro tanto lhe 
mandou dizer RaezXamexir. Xarafo como 
foube que era accufado per ElR^y , e per 
feu imigo i per efte > e outros recados que 
cada hora vinham , e que a elle attribuiam 
o levantamento de Ormuz , e que elle en- 
tretivera a EIRey té aquelle tempo , fem 
querer vir pêra a Cidade , dobrou fobre ef- 
tas culpas , dizendo a João Rodrigues , que 
foubeífe certo que EIRey em nenhum tem- 
po viria a Ormuz , porque todolos que fi- 
cavam com elle lhe aconfelhavam que o 
não fizeífe ; e foubeífe certo que de morto y 
ou deípofto de Rey, não podia efcapar. E 
que elle por ferviço d'E!Rey de Portugal 
queria fazer huma coufa, pêra fegurança da 
N ii qual 



ipó ÁSIA de João de Barros 

qual leixava em Ormuz fua mulher , e fi- 
lhos , e parte de fua fazenda , porque a ou- 
tra havia miíter pêra ajuntar gente, e íèus 
parentes. E era , que com ajuda de cem Por- 
tuguezes 3 que com elle foíTcm nas terra- 
das , elle daria em Queixome , e o deílrui- 
ria todo. E dk com feus parentes , e ami- 
gos fe atrevia a povoar a Cidade Ormuz 7 
e a tornar a tão profpero eftado como ef- 
tava ante do levantamento ; eque as rendas 
todas daquelJe Reyno leriam d'E!Rey de 
Portugal , pois o Reyno era feu , e que não 
havia neceífidade de haver Rey, que o Ca- 
pitão feu abaftava , e tudo iíío queria orde- 
nar , e fazer á fua cufta, EIRey como foi 
avifado deitas promeíTas de Xarafo , man- 
dou pedir ao Capitão João Rodrigues que 
lho mandaííe > pêra fazer juíiiça de quantos 
males contra fua peílba , e fazenda tinha 
commettido , da qual entrega João Rodri- 
gues fe efcufou com boas razões. Ante em 
favor das que Xarafo dava , lhe mandou 
dizer , que fe era verdade que elle impedia 
vir-fe pêra Ormuz 3 agora que eílava fora de 
feu poder como fenão vinha ? pois eram tan- 
tos dias paflados do termo , que pêra iífo 
tomou. EIRey quando vio que João Rodri- 
gues lhe não refpondia a feu propofito , mas 
que o culpava por fe não vir 3 e que daqui 
poderia tomar fufpeita fer verdade quanto 

lhe 



De a III. Liv. VIL Cap. VIII. 197 

lhe Xarafo diria , eíla fé lhe daria favor pê- 
ra o que promettia de deftruir Queixome; 
determinou-fe com eííes que o aconfelha- 
vam , de fe vir pêra a Cidade como veio 
a vinte e cinco de Novembro do mefmo 
anno de quinhentos e vinte e dous. E pof- 
to que com elle fe veio toda a gente nobre 
dos Mires , que he a fua Fidalguia , e os 
mercadores , nenhum deiles trouxe fua mu- 
lher, filhos, nem fazenda, fomente as pef- 
foas a modo de fronteiros , e naquelle pri- 
meiro dia EIRey dormio fora da Cidade 
^m tendas. Porque mais temiam ter Raez 
Xarafo ordenado alguma coufa , ( que em 
•chegando primeiro que o Capitão ellivefle 
•com elles , lhe fizeífe algum mal , ) que ao 
anefmo Capitão, e a noíTa gente. Todavia 
já com mais feguridade paliada aquella noi- 
te , ao fcguinte dia EIRey fe foi pêra íaas 
caías , onde João Rodrigues o foi ver , e 
aconfelhou acerca dos temores que tinha; 
c quanto ás coufas de Raez Xarafo ^ que 
■elle eftava a bom recado, té vir o Gover- 
nador D. Duarte , a quem o entregaria. 
Paliadas eftas , e outras coufas entre am- 
bos , dahi a cinco dias Raez Xamexir , au- 
thor da morte de Raez Xabadim, foi viíi- 
tar o Capitão João Rodrigues. No qual 
tempo não ficou Mouro que não olhaííe pê- 
ra as ameas da noíTa fortaleza , quando o 

lia<* 



198 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

haviam de ver enforcado em huma delias; 
mas como elle levava as provisões , que lhe 
D. Luiz de Menezes dera , tornou pêra 
cala dTSIRey com huma cabaia de leda vef- 
tida , que lhe João Rodrigues deo , e hum 
•carapução dos que elles ufarn em fignal de 
honra , e méritos de ferviço , de que todos 
ficaram efpantados , não fabendo a caufa , 
€ corria a gente a elle a lhe dar a prolfa- 
ça 5 como fe o viram efcapar de algum 
grande perigo. Depois deitas primeiras viíi- 
tações começaram de fe mover queixumes 
de todos os principaes Mouros contra Racz 
Xarafo, dizendo ao Capitão que o mandai- 
fe prender em ferros, e que aífi lho reque- 
riam da parte d 5 ElRey de Portugal , por- 
que os tinha todos roubados. Por quanto 
era hum homem mui manhofo , e que fe 
poderia ir fem delle fazerem juftiça , como 
efperavam de haver , tanto que vieíTe o Go- 
vernador , a qual obra João Rodrigues im- 
portunado dos requerimentos mandou fa- 
zer. E também elle mandou requerer a El- 
Rey que huns três mil homens de armas 
frecheiros que tinha dentro na Cidade , que 
os mandaíTe fahir delia , porque havendo 
entre elles paz , não parecia bem gente de 
guerra na terra. Ao que elle reípondeo, 
que fe os tinha , era por defender aquelíe 
Rejno ? que eia d'ElRey de Portugal , por- 
que 



Dec.III. Liv.VII.CAP.Vin. eIX. 199 

que bem fabia elle que os Nautaques an- 
davam roubando quantos navios vinham 
pêra aquella Cidade ; e também que alguns 
lugares da cofta da Arábia citavam levanta- 
dos contra elle Rey , e em Julfar eftavam 
todolos homens de armas de Raez Xara- 
fo , e lá fe acolheram todos feus parentes 
com hum filho de Raez Xabadim. O qual 
com os homens de feu pai fizera hum cor- 
po de gente , com que andava deftruindo 
toda a terra , que pedia o mandaíTe prover 
com alguma embarcação pêra nella mandar 
aquella gçnte ante que mais damno fe fi- 
zeífe. 

CAPITULO IX. 

Como o Governador D. Duarte de Me- 
nezes chegou a Ormuz , e tornou ajjentar 
as coufas daquelle Reyno , com accrefcen- 
tar fobre os vinte e cinco mil xarafijs , 
que EIRey pagava , outros trinta e cinco 
mil : e como per confelbo de Raez Xarafo 
mandou hum Embaixador a Xd Ifmael: e 
do que D. Luiz de Menezes fez na ida 
do mar Roxo > e das nãos que partiram 
defle Reyno. 

NEÍle eftado eftavam as coufas de Or- 
muz quando o Governador D. Duar- 
te chegou, o qual fendo informado de tu- 
do, e paliados os primeiros dias das viíita- 

£Ões 



200 ASIÀ DE JoÁO DE BARROS 

coes antrc elle , e EIRey , começou a en- 
tender nas culpas das partes , que foram au- 
thores do levantamento , e dos males que 
téalli foram feitos. No modo que D. Duar- 
te teve em pacificar todas aquellas revoltas , 
e tornar aquella Cidade ao eílado de fer 
povoada como dantes era , entendem diver- 
los juízos , huns havendo por bem tudo o 
que fez , pois o fim do cafo ficou em EI- 
Rey de Portugal ter mais páreas das que 
antes tinha naquelle Reyno , e os culpados 
ficaram com leu caftigo per diverfo modo , 
e mais tirou alguma femente de efcandalo. 
Outros feguem o contrario , té tocarem na 
limpeza da peíToa delle D. Duarte , em ve- 
rem que pedindo-lhe EIRey jufíiça de Raez 
Xarafo , e muitas partes a que tinha offen- 
dido em cafos de tyrannia per diverfo mo- 
do , todalas trovoadas que niíTo houve , fo- 
ram 5 como são os libellos poítos fobre al- 
gum malfeitor , que fe livra com boas , ou 
más razoes , cuja fentença nefte cafo foi ef- 
ta. Ficar Raez Xarafo no officio de Gua- 
zil como era , e que EIRey çafaífe com 
huma filha de Raez Xarafo , pêra lhe ter 
amor de filho , e elle de pai , por não ha- 
ver mais ódio entre ambos. E as culpas do 
levantamento fe carregaram' fobre EIRey 
Torunxá morto , e fobre feu fogro o Xec , 
# Mahamed Morado > e nos feus aceitos, 

quç 






Década III. Li v. VIL Cap. IX. 201 

que eram já paííados á terra da Períia. E 
as culpas de Xarafo dizem que as remio 
elle per dinheiro , e as que tinha aquelle 
Rey innocente de treze annos , foram pa- 
gas com pagar cada anno mais trinta e cin- 
co mil xarafíjs , que com os vinte e cinco 
que dantes pagava , eram feífenta mil. E 
que da fazenda que roubaram ás partes , fe 
fizeram dous livros , hum tal como o ou- 
tro , e feita diligencia pêra verdadeiramente 
per efcrito , teftemunhas , e juramento fe fa- 
ber o que cada hum perdeo , afli os prefen- 
tes , como aufentes em todo o tempo ha- 
verem o feu y e afli íe fez , hum dos quaes 
livros fez Ruy Gonçalves d 5 Acofta , e ou- 
tro Coge Abraem , que era Efcrivão da Al- 
fandega de Ormuz. E o galeão que houve 
Raez Xamexir por matar Raez Xabadim , 
foi-lhe pago em fer defterrado do Rey no 
de Ormuz , por tirar efte imigo mortal a 
Raez Xarafo , porque também houve cau- 
ílis novas pêra iíío , e for^m eílas. Como 
elle vio o fim deites concertos , ou que fof- 
fe verdade Ventre favorecido polo que fize- 
ra 5 e temick) de Xarafo , traziam muita gen- 
te comfigo , e hum dia fe levantou hum 
arroido entre os Mouros , em que foram 
mortos alguns dcs noíTos , a qual morte foi 
attribuida a elle 5 e mais diziam que -andava 
ordenando levantarem-íe os Mouros contra 

nós» 



202 ÁSIA de João de Barros 

nós. E como efte Mouro era aflbmado , e 
fallava muitas coufas hum pouco foltas , fo- 
ram todas tão claros íinaes de quão perigo- 
ío feria na terra , que o lançaram fora de 
Ormuz , com que os ânimos de todos fica- 
ram mais quietos por então. Mas como Xa- 
rafo era homem que fempre urdia coufas 
a feus propo fitos , parece que no tempo do 
levantamento fez com EIRey de Ormuz , 
depois que efteve em Queixome, que pêra 
fe valer de nós 3 convocaífc ajuda do Xá 
Ifmael , oíFerecendo-fe a coufas que elle mal 
poderia cumprir. Porque como D. Duarte 
acabou de alfentar as coufas daquelle Rcy- 
no , e páreas que havia de pagar com tan- 
to accrefcentamento , difle-lhe Raez Xara- 
fo 5 que na terra firme da Perfia era chega- 
do hum Capitão do Xá Ifmael 5 o qual não 
Jeixava vir as cáfilas a Ormuz , e pedia que 
lhe deffem as páreas , que lhe deviam de 
muitos annos. Que lhe parecia muito fer vi- 
ço d'ElRey de Portugal mandar hum Em- 
baixador ao Xá Ifmael , declarando-lhe o 
que era paíTado do levantamento daquella 
Cidade , por EIRey Torunxá fer homem de 
mão governo , e mui fujeito a quatro , ou 
cinco homens que lhe fizeram mover não 
fomente o que fez , mas mandar pedir aju- 
das contra os Portuguezes. E delle fer ho- 
mem que não merecia governar y os pró- 
prios 






Década III. Liv. VIL Cap. IX. 203 

prios Mouros o mataram , por fe não per- 
der de todo aterra; e em leu lugar levan- 
taram a Mahamud Xá , ao qual elle Dom 
Duarte por os poderes que tinha d'ElRey 
D. João de Portugal , como feu Governa- 
dor confirmara em Rey per aprazimento 
de todolos principaes , com que a terra ef- 
tava de todo aflentada. E por quanto ao 
■Bander de Angon , que lie hum porto da 
terra firme da Perfía , onde vem ter todaías 
cáfilas do interior dos feus Reynos , era 
vindo hum Capitão , que dizia fer feu , a 
impedir aquellas cáfilas em modo de repre- 
faria , té lhe pagarem certas páreas , lhe pe- 
dia pa{Ta fle feu formão , e patente a ElPvey 
de Ormuz , que ora reinava , e aos que 
diante foífem , que nenhum Capitão feu im- 
pediífe a vinda , e ida das cáfilas áquelle 
Reyno , pois era d'ElRey de Portugal , com 
quem tinha aífentado amizade per meio de 
feu Embaixador em tempo de AíFonfo d'Al- 
boquerque , que aquelle Reyno conquiftou. 
D. Duarte ouvidas elfos , e outras razoes de 
Raez Xarafo , e praticado tudo em confe- 
Iho , aífentou de mandar a eíle negocio Em- 
baixador. E por efpedir o Capitão que ef- 
tava no Bander, Raez Xarafo lhe mandou 
hum prefente, e D.Duarte recado que lei- 
xaífe o porto , e caminhos abertos pêra 
virem as cáfilas , por quanto elle mandava 

fo- 



zc4 ÁSIA de JoÃo de Barros 

íbbre o requerimento a que elle vinha hum 
Embaixador a Xá Ifmael , o qual Capitão 
coin efte recado , e prefente de Xarafo fe 
partio, E daqui , e de outros íinaes , que fe 
viram neíle negocio , houve depois fufpeita 
que tudo ifto foram artifícios de Xarafo, 
pêra fe defeulpar do pouco rendimento da 
Alfandega, donde fe haviam de tirar os fef- 
lenta mil xarafijs , que lhe D. Duarte puze- 
ra de tributo ; e a peflba que o Governador 
mandou com eíte recado ao Xá Ifmael , foi 
hum cavalleiro da Cafa d'ElRey chamado 
Bakhazar Pefloa , com dezoito homens de 
cavallo , dos quaes João deGouvea hia pê- 
ra ficar em feu lugar , falecendo elle , e Vi- 
cente Corrêa Efcrivão da embaixada , e Fran- 
cifeo Calado vSacerdote por Capellão , e 
António de Noronha por lingua, E levou 
também em fua companhia hum Mouro per 
nome Abedalá , que era criado do Xá If- 
mael , que elle enviara a certos negócios á 
índia 3 e era aquelle a que D. Luiz de Me- 
nezes nos concertos que teve com EIRey 
de Ormuz , deo entender que por fer cria- 
do do Xá Ifmael , com quem tínhamos ami- 
zade , e por fua peífoa , elle folgava de o 
comprazer. Com o Embaixador foi também 
hum prefente d'ElRey de Ormuz , e algu- 
mas peças do noífo ufo , que refpondiam 
ao requerimento , porque ainda que em to- 
da- 






Década IIL Liv. VIL Cap. IX. à@p 

dalas partes fe negocea por dar 5 hão por 
eftranho rtaquellas ir ante hum Príncipe com 
as mãos vazias. Foi também com Baltha- 
zar Peflba António Tenreiro , hum Cavai- 
leiro morador em a Cidade de Coimbra 9 
da qual viagem elle fez hum itinerário , 
que em alguma coufa nos deo lume á nof- 
la Geografia , porque como fabia a lingua 
Parfea , de curioíò de ver terras fe leixou 
lá ficar , e foi dahi ao Cairo. E depois tor- 
nado elle a Ormuz , como homem curfado 
na terra , Chriftovão de Mendoça Capitão 
defta Cidade Ormuz , per mandado de Lo- 
po Vaz de Sampaio , que era Governador y 
o mandou a efte Reyno com recado a El- 
Rey de coufis de feu ferviço. E peró que 
Balthazar Peflba foi mui bem recebido da 
Xá Iímael , elle fe tornou fem trazer reca- 
do doquehia requerer, porque da fua che- 
gada a poucos dias faleceo oXálfmael, e 
foi levantado por Rey da Períia Xá Ta- 
más feu filho maior , moço de quinze an- 
nos. O qual teve tanto que fazer com os 
levantamentos , e defaííocegos pola morte 
de feu pai , que em outra coufa não enten- 
dia, D. Duarte como tinha aflentado com 
feu irmão D. Luiz , que quando vieíTe do 
eílreito, paífaíTe per Ormuz pêra fe irem am- 
bos , tanto que chegou poz em obra par- 
tir-fe. Mas porque elle D. Luiz neíta ida 

do 



20Ô ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

do eílreito paíTou algumas coufas , primei- 
ro que vamos mais adiante convém dar re- 
lação delias. EUe D. Luiz quando partio 
pêra eíte eílreito do mar Roxo , levou no- 
ve velas , de que eram Capitães elle , Fran- 
cifco de Mendoça , Nuno Fernandes de Ma- 
cedo , Ruy Vaz Pereira, Aires da Silva, 
Fernão Gomes de Lemos , Henrique de Ma- 
cedo , e Lopo de Mefquita , e Coimo Pin- 
to em huma caravella. E chegado á Ilha 
Çocotorá , aqui com tempo fe perdeo Ai- 
res da Silva ? dando á coita com tormen- 
ta ; e feita lua aguada , atraveíTou daqui á 
coita de Arábia a dar huma vifta aos luga- 
res delia 9 e o primeiro foi á Cidade Xaer 
lituada çm coita brava , e tinha no porto 
huma fó náo varada em terra. Ao qual vie- 
ram receber féis , ou fete Portuguezes , que 
alli eítavam em hum navio fazendo feu com- 
mercio , e delles foube que áquelle porto 
viera humAíFoníb da Veiga com outro na- 
vio a fazer mercadoria , como elle vinha ; 
o qual havia quatro , ou cinco mezes que 
era falecido , e o Rey da Cidade lançara 
mão da fua fazenda , que valeria féis , ou 
lete mil pardáos , e não a queria entregar , 
requerendo- a elles pêra a levar , e entregar 
ao Provedor dos defuntos. O íeu Regedor , 
e principaes da Cidade como viram aquella 
Aripada fobre o porto , por EIRey fer fo- 
ra, 



Década III. Liv. VIL Cap. IX. 207 

ra , mandaram logo vifitar a D. Luiz com 
refreico da terra , o que elle não acceitou , 
e mandou dizer que não queria outro re- 
freico , íenão a fazenda deAffònfo da Vei-. 
ga , que alli falecera , e EIRey tinha em 
leu poder. Ao que elles refpondêram , que 
EIRey era dentro no fertão , que não fa- 
biam parte diflb , que viria elle , então la- 
beriam refponder ao que dizia. D. Luiz co- 
mo era coílumado a palavras de Arábios , 
e a fuás dilações polo que já tinha vifto del- 
les , mandou-lhes dizer que aquelía Cidade 
tinha cm fi a fazenda daquelles Portugue- 
zes , que fe determinaflem de lha mandar 
logo , fenao que elles a iriam bufear. E 
com elle recado mandou aos Portuguezes 
que eftavam em terra , que fe recolheífemt 
ao feu navio ; e não o podendo fazer a leu 
falvo , que de noite fe fizeílem fortes onde 
poufavam , porque elle efperava fahirem em 
terra em rompendo Alva ; e que nas cafas 
onde fe recolheííem . puzeífem hum íignal 
de huma touca branca em hum páo a mo- 
do de bandeira. A qual fahida D. Luiz fez 
com quatrocentos homens , quaíi todos mo- 
lhados por a coita fer brava ; e como fua 
fahida foi mais preftes do que os Mouros 
cuidavam , e fempre lhe pareceo que as pa- 
lavras de D. Luiz eram ameaças , poílo que 
elles acudiram á praia, não fizeram muita 

re- 



ao8 ASTA de João de Barros 

refiftencia , ante logo a defamparáram , por 
fe íegurar dentro dos muros da Cidade. 
Mas como os noííos ihe levavam boa von- 
tade , ás lançadas , cutiladas , e com efpin- 
gardas os foram levando per efías ruas, e 
elles fem virarem rofto atrás , vafáram per 
as portas que tinham contra a terra firme 
de maneira , que maior trabalho tiveram os 
noíTos em acarretar o movei que fe achou 
na Cidade , de que eílava bem chea , que 
de os lançar fora. Mas deite trabalho hou- 
veram pouco fruto , por fe erguer hum ven- 
to travefsáo , e embraveceo o mar de ma- 
neira, que ao primeiro batel que fe atreveo 
a falvar alguma coufa , foçobrou , e a gen- 
te fe faivou com trabalho , e ainda por en- 
cher comeo muito do fato que os homens 
tinham pofto á borda da agua , por o ter 
mais preíies pêra a embarcação. D. Luiz 
defefperado dé poder embarcar , e vendo 
que lhe convinha dormir em terra , do meí- 
mo fato , e trouxas delle mandou fazer hum 
cerco , á maneira de recolhimento com al- 
guns berços que fe tiraram dos bateis , e 
toda a noite paliou em vigia temendo al- 
gum rebate. E tanto que rompeo a manhã , 
que o vento deo lugar , a grande preíTa fe 
recolheo , recolhendo os homens mui pou- 
ca coufa do que tinham na praia. E foi 
grande dita eíte feu recolhimento 7 porque 

a no- 



Década III. Liv. VIL Cap. IX. 209 

a nova daquelle feito chegou EIRey, que 
eííava perto , o qual a mata cavallo acudio 
com tanta gente 5 que cobria os campos, 
mas os noífos hiam á véía , e houveram 
vifta delle - e elle da Armada. E daqui ef- 
pedio D. Luiz a Cofmo Pinto Capitão da 
caravella pêra Ormuz , por fer navio mui 
máo de vela , e no caminho achou três Por- 
tuguezes , que eílavam em Mete em poder 
do Xeque dalli , vindo perdidos da compa- 
nhia de hum António Faleiro aievantado, 
que andava per aquella cofía roubando, 9 
efcandalizando os lugares delia. Seguindo 
D. Luiz feu caminho , ante da noite chegou 
ao porto de hum lugar chamado Verruma , 
que era, d^ElRey de Xaer, onde Françiíca 
deMendoça eftava íbbre huma não, a que 
dera caça vindo com D. Luiz - y e vendo-fe 
mui acofíada delle , varou em terra junto 
de outras três , que já eílavam defcarregadas 
em Xaer , e por efte fer melhor porto fe 
vieram alli. E de noite a que varou em ter- 
ra tirou feu fato de maneira , que quando 
veio pela manhã , não fe houve delia mais 
que hum pouco de cobre , que trazia por 
laílro , que D. Luiz mandou recolher/, e a 
ellas queimar. Partido daqui foi ter a Adem, 
çnde fomente efteve meio dia esbombardean- 
do a Cidade fem mais outra coufa , por 
não levar força pêra iífo ; e paíTando per, 
Tom.IILP.iL O Mo- 



210 ÁSIA DE JOÃO DE BARKOS 

Moca , que eftá á de dentro das portas da 
eftreito 5 atraveflbu a outra cofta da parte 
Africa. A qual cofta os Mouros chamam 
da Abadia por fer dos povos Abaffijs , efta- 
do do Prefte , e com bom tempo chegou 
ao porto de Maçuá , onde Diogo Lopes de 
Sequeira leixou D. Rodrigo. O qual por 
muitos inconvenientes , poílo que D. Luiz 
lhe mandou dalli recado á Corte do Pres- 
te , não pode vir ao termo que lhe elíe li- 
mitou , por caufa da monção com que lhe 
convinha fafiir daquelle eftreito , e não aven- 
turar tanta gente a morrer , como era mor- 
ta a três Capitães > que naquelle eftreito en- 
traram , como atrás eferevemos. Affi que por 
efta caufa D. Luiz fe partio pêra a índia, 
leixando recado a D. Rodrigo da caufa de 
íua partida , e que pêra o anno fe fizeífe 
preftes , pêra no tempo da monção virem 
por elle. E no tempo que alli efteve , qua- 
tro Portuguezcs por fua doudice , e traição 
de certos Turcos que alli eftavam , foram 
mortos ? o que D. Luiz diífimulou , por 
aquelle lugar Arquico , onde os mataram , 
ler do Prefte , e mais foube que o cafo não 
era de caftigo por a culpa que os mortos 
niflb tiveram. E todavia o fez faber ao Ca- 
pitão , que o Prefte alli tinha, pêra judicia!-* 
mente fegundo íèu coftume caftigar o deli- 
do , dizendo ? que fe o lugar não fora do 

Pref- 



Década III. Liv.VII. Cap. IX. 211 

Preíte , elle o leixára feito em cinza. Parti- 
do daqui D. Luiz , paflbu per a vilJa Do- 
far , que he na coita Arábia , além do Ca- 
bo Fartaqui* e por elle fe defpejar fem pe- 
rigo algum , mandou faquear da pobreza , 
que os Mouros não puderam falvar. E fe- 
guindo a via de Ormuz, chegou a tempo, 
(como diíTemos , ) que D. Duarte feu irmão 
tinha aííentado as coufas do Reyno, algu- 
, mas não conforme ao que elle quizera , por 
onde fe partio logo em Agoílo defgoftofo 
delie pêra 3 índia com fundamento de ir 
efperar as rçáos á ponta de Dio. Mas como 
o tempo ejra ainda verde 3 tornou a arribar , 
e depois foi com o mefmo D. Duarte pêra 
a índia , onde acharam de oito velas que 
eíle anno deite Reyno partiram pêra a ín- 
dia , duas fomente pêra trazer carga de es- 
peciaria , Capitães Heitor da Silveira filho 
de Francifco da Silveira Coudel mór deite 
Reyno , e António d' Abreu filho de João 
Fernandes do Arco da Ilha da Madeira , 
que partiram de Lisboa a três de Maio. E 
D. António d'AImeida filho do Conde de 
Abrantes D. Lopo d'Almeida , e Pêro d'A- 
fonfeca filho de Gonçalo d'Afonfeca , e Dio- 
go da Silveira filho de Martim da Silveira , 
invernáram em Moçambique partindo pri- 
meiro , e Aires da Cunha ; outra náo fe per- 
deo a través de Moçambique , e falvou-íe 
O ii a gen- 



2T2 ÁSIA de JoXo de Barros 

â gente. Manuel de Macedo, que hia em 
hum galeão pêra andar na Índia , paíTou , 
e aífi paflbu a Ormuz em hum navio Si- 
mão Sodré, e foi lá tomar D. Duarte pri- 
meiro que partiííe. Eftas são as fortunas do 
mar , que huns fe perdem , outros invernam 
partindo primeiro, e os derradeiros chegam 
ao lugar que yàm , coufa mui regular nefte 
caminho da índia em as náos que partem 
em hum dia, quanto mais em diverfos tem- 
pos. E já aconteceo eftarem duas náos neP 
te porto de Lisboa pêra partir pêra Flan- 
dres , e por huma delias não poder fahir na 
maré da outra , nunca mais lhe fez tempo 
pêra partir , e tornou de Flandres primeiro 
que ella partiííe. Porque as coufas do mar 
são as mais incertas que os homens podem 
eíperar nefta vida, por não eftarem na fua 
mão ; e de alguns confiarem nelle mais do 
que deviam , chegaram a eftado de muita 
pobreza , porque ás vezes pefcam com an- 
zoilo de ouro, que Salamao defende. 



CA* 



Década III. Liv. VIL 213; 

CAPITULO X. 

Como as terras firmes âe Goa , que Ruy 
de Mello tornou fendo Capitão de Goa , os 
Mouros as vieram conquijlar em tempo de 
Francifco Pereira Peflana Capitão de Goa : 
e algumas pelejas que foram fobre ellas y 
€ por derradeiro fe leixãram ao Hidalcao , 
cujas eram dantes , por caufa da paz> que 
tinham com elles. 

A Trás efcrevemos que Ruy de Mello 
Capitão de Goa teve modo como to- 
mou as terras firmes delia em tempo que 
Diogo Lopes de Sequeira era no eílreito do 
mar Roxo ; agora efcrevemos o contrario , 
-como os Mouros as cobraram de nós fen- 
do Capitão de Goa Francifco Pereira Pef- 
tana : tanto poder tem conjunção das cou- 
fas. Porque no tempo de Ruy de Mello 
■andava o Hidalcao oecupado na guerra que 
tinha comElRey de Narfinga , e nefíe que 
as tornou a tomar , eftava ociofo , e porém 
-em todolos tempos fempre as poífuia com 
a lança na mão ; porque o Gentio , cujas 
^Ilas foram, como viam tempo defciam da 
ferra arrecadar dos Gançares o rendimento 
delias , e de todos eram cubicadas , por ren- 
derem mais de cem mil pardáos. E a força 
que nella tínhamos em tempo que eftavam 

por 



2,14 ÁSIA de JoXo de Barros 

por noíTas , era fomente com o favor da 
Cidade Goa , e tão pouca gente como abai- 
xo veremos. E pêra fe efta poííe melhor 
entender , pofto que quando falíamos da fun- 
dação de Goa , alguma noticia dêmos diíTo , 
aqui convém tratar das tanadarias, pêra fe 
melhor entender o que diíTemos. Todas 
aquellas terras firmes de Goa , fora da Ilha 
cm que ella eítá íituada , pagavam ao fe- 
nhor delia certo rendimento , fegundo fe 
com elle concertaram per modo de contra- 
to, e ifto antigamente, (como atrás efcre- 
vemos.) E pêra fe faber o que cada hum 
devia pagar , partiram eílas terras em Co- 
marcas , em cada huma das quaes fizeram 
huma cabeça , onde o rendimento de toda 
a Comarca fe recolhia , a qual cabeça cha- 
mavam Tanadaria , como em Hefpanha cha- 
mamos Almoxarifado , e fobre todas havia 
huma , onde as outras acudiam , ao qual di- 
reito, ou tributo elles chamavam cocivara- 
do. E porque , (como diíTemos , ) o Hidal- 
cao por caufa do Gentio , cujas ellas fo- 
ram , fempre hum Capitão feu andava no 
campo com gente de cavallo , e de pé , ef- 
te defendia não virem a ellas , e tratarem 
mal os Gançares , que haviam de pagar 
aquelle tributo. A efte modo também nós, 
depois que as Ruy de Mello tomou , as 
foftinhamos. Das quaes havia hum Capitão > 

que 



Década III. Liv. VIL Cap. X. 2ij 

que andava no campo , a que por razão 
delias chamavam Tanadar mor, que anda- 
va de huraas em outras fabendo íè havia al- 
guns levantamentos , e favorecendo a ter- 
ra , porque a gente não padeceíTe alguma 
força. Quem nefle tempo fervia eíte cargo 
•era Fernão Rodrigues Barba , ao qual en- 
carregou niflb Francifco Pereira Peílana Ca- 
pitão de Goa por ferem ambos parentes* 
E era Tbefoureiro deitas Tanadarias João 
Lobato , e Efcrivao Álvaro Barradas , dous 
Cavalleiros da Cafa d 9 ElRcy. E na Tana- 
daria de Pondá , que tem huma fortaleza 3 
eííava por Tanadar António Rapofo , e na 
de Mardor , e cm Cocora Ruy de Moraes , 
e na de Margam 5 que eram as principaes 
cabeças , as quaes Fernão Rodrigues Barba 
andava correndo; e porém o mais do tem- 
po eílava em Pondá , e trazia comíigo té 
vinte € cinco de cavallo , e de pé fetenta , 
afora feiscentos peaes da terra Canarijs , de 
que eram Capitães dous Gentios da terra ? 
homens conhecidos por fieis a nós , e Ca- 
valleiros de lua peílba , a hum chamavam 
Raulú Branco , e ao outro Malú Nayque. 
Eftando as Tanadarias nefte eftado , e cor- 
rendo o rendimento por nós do tempo de 
Ruy de Mello , entrou hum Capitão Gen- 
tio chamado Temerfeá , que era d^ElRey 
de Bifnaga , com té cem homens de caval- 
lo, 



ii6 ÁSIA de JoXo de Barros 

!o , e quatro mil de pé per aquella parte 
<ionde eítava a fortaleza Pondá. António 
Rapoíb , porque a efte tempo Fernão Rodri- 
gues Barba andava apartado delle , mandou- 
Ihe logo recado da entrada daquelle Gen- 
tio , e não tardou que fe veio ver com efte 
Capitão. O qual Gentio tinha tomado hum 
Portuguez , a que chamavam Francifco Fer- 
nandes, que andava ácaça de veados com 
huma efpingarda ; e tendo-o atado ao pé 
de huma arvore pêra o aíTetear, deram-lhe 
nova que vinha a noífa gente , e foi tama- 
nho o medo , que leixando de torvação a 
Francifco Fernandes , efcapou , e depois por 
razão daquelle caio chama vam-lhe por ap- 
pellido Temerleá , que era o nome do Ca~ 
pitão Gentio. O qual pofto que fabia ter 
gente pêra pelejar com outra tanta da nof- 
fa , e ainda com vantage , todavia temeo 
Fernão Rodrigues , e recolheo-fe. a hum paf- 
fo entre humas penedias , como quem fe 
queria fegurar. A eííe tempo era ido João 
Lobato , e Álvaro Barradas a Goa bufcar 
dinheiro pêra fazer pagamento á gente que 
fe devia feu foldo : e quiz Deos que che- 
gaíTern já per humas encubertas , por os não 
tomarem eftes Gentios ante que deífem ba- 
talha. Com a chegada dos quaes não fo- 
mente com luas peífoas ajudaram muito, 
çomq çavalleiros que eram, mas ainda de- 
ram 






Década TIL Liv. VIL Cap. X. 217 

ram animo por levar a paga que toda a 
gente eftava efperando. Pofto Fernão Ro- 
drigues em prática com elies , aíTentou de 
dar no Capitão \ e porém não com a gente 
de cavallo , que feriam té vinte , por o lu- 
gar onde eítavam ferfragofo, fenao lançou- 
Ihe diante os dous Capitães Gentios. E co- 
mo os rompeo eíla gente de pé , porque 
elles mefmos fe revolviam mal em ília de- 
fensão 5 por o lugar fer eílreito 3 defcêram 
-abaixo onde pagaram a vinda ? porque os 
trataram de maneira os noílos , que fe pu- 
zeram em fugida , e porém á cuíta do feu- 
fangue , ficando Fernão Rodrigues com o 
feu cavallo decepado a pé , mas em paga- 
mento delle houve o do Capitão Teme rfeá. 
Finalmente os noífos ficaram fenJiores do 
campo ? e Fernão Rodrigues com efta vito- 
ria fe veio a Goa , trazendo perto de du- 
zentas almas cativas. E a caufa de fua vin- 
da foi 3 porque chegou a efte tempo Fernão 
Annes de Souto-maior, a que o Governa- 
dor D. Duarte mandava por Tanador mor. 
E paliados dez , ou doze dias , foi logo 
viíitado per outro Capitão d'ElRey de Bif- 
naga chamado Caro Ponaique , fobrinho 
d 5 ElRey de Garfopa 5 com titulo que a he- 
rança daquellas terras lhe pertenciam , e tra- 
zia três mil homens de pé , e duzentos de 
^avalio 3 em que entravam vinte acufacrtados* 

O 



2l8 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

O qual começou fazer algum damno nas 
terras , que ainda eftavam por nós , que era 
Pondá , e as a ella vizinhas ; ao que Fran- 
ciíco Pereira acudio , indo-fe por no paflb 
Agacim , e dalli mandou Álvaro Barradas , 
e Duarte Diniz de Carvoeiros com té cin- 
coenta homens de pé , e dous de cavallo, 
quafí por defcubridores da terra , por não 
ter certa nova de quanta gente era ; e fen- 
do «Ha muita, faltou tamanho temor nella, 
parecendo-lhe que os noífos os hiam já fe- 
rindo , que fem os ver , os noíTos fe torna- 
ram pêra Goa , como fouberam que fugiam. 
Pairada eíla affronta , dahi a hum mez man- 
dou o Hidalcão hum Capitão com quatro- 
centos de cavallo , e cinco mil de pé, no 
qual tempo acertou Fernão Annes andar na- 
quella parte do Sul onde chamam Salfete , 
cujas Tanadarias são mais vizinhas ao mar, 
e efte Capitão entrara pela parte de Pondá. 
E como foube que Fernão Annes andava 
rraquellas partes , confiado na muita gente 
que trazia feus paíTos vagarofos foi atra* 
veflando as terras de Antrux, e recolhendo 
dos Gançares quaíl per força o rendimento 
do primeiro pagamento daquelle anno. E 
achando em huma daquellas Tanadarias An- 
tónio Pinto, hum dosTanadares pequenos, 
o matou , e a cinco Portuguezes que com 
elle eftavam. E dahi fe foi contra Cocorá , 

de 



Década III. Liv. VIL Cap. X. 219 

de que era Tanadar Ruy de Moraes , ao 
qual mataram cinco , ou féis peãcs da terra; 
e vindo-fe elJe recolhendo pêra Mardor, 
onde eftava Fernão Annes de Souto-maior, 
acertaram de eftar Duarte Diniz , e Pêro 
Gomes dous Cavalleiros , e a Aldeã Ver- 
nam , que ajudaram a falvar té chegarem 
todos em falvo onde eftava Souto-maior. 
O qual pola nova que lhe eftes deram da 
muita gente que vinha , por não ter comfi- 
go mais que vinte e cinco de cavallo , e té 
iètecentos peães do Gentio , em que entra- 
vam dos noíTos cincoenta j quiz ante ufar 
aqui de officio de Capitão , que de caval- 
leiro que elle era. Porque o Gentio íe poz 
logo dalli em falvo , com que lhe conveio 
foffrer o cerco , que lhe efte Capitão poz , 
onde já Fernão Annes pela gente da terra 
tinha fabido do que efte Mouro leixava fei- 
to. E como era Cavalleiro coftumado aos 
repiques dos Mouros de Africa , fahio ef- 
perar a eftes com té trinta de cavallo , e 
quando fe achou com tão pouca gente , e 
que os de pé principalmente os Canarijs 
eram acolhidos , temendo a multidão dos 
imigos , deo vifta de íi , e em voltas foi 
pelejando com elíes té fe recolher no Tem- 
plo de Mardor , o qual he feito a modo 
de huma fortaleza , e alli o tiveram os Mou- 
ros cercado dous dias té que Francifco Pe* 

rei* 



azo ÁSIA de João de Bakkos 

reira Capitão da Cidade , fabida efta nova , 
a grão preíía mandou António Corrêa com 
fuílas per o rio de Goa a velha com foc- 
corro. Com o qual foi Malu hum Gentio , 
que eraMocadam dos Marinheiros das fuf- 
tas de António Corrêa , o qual fahio tam- 
bém em terra com elíe. E como homem 
xle guerra 5 levou huma bandeira de Chriíto 
.das fuftas , e três , ou quatro camarás de 
•berço carregadas de pólvora ; e tanto que 
fahio do rio , indo diante de António Cor- 
rêa , por faber bem a terra , chegando a 
huma fornada donde pode fer vifto dos imi- 
gos , levantou fua bandeira , e tirou com as 
camarás. Os que tinham cercado Souto- 
maior , tanto que lhes foi dado efta moílra , 
entenderam que era foccorro , e receando 
que levavam artilheria , que elies muito te- 
mem , leixáram Mardor, e foram-fe mais 
abaixo , como gente vitoriofa , e que tinha 
o campo por feu. Fernão Annes por fe el- 
ies não irem gloriando que o tiveram cer- 
cado , levando a gente que António Cor- 
rêa trazia , feguindo fua trilha guiado por 
a gente da terra , que o encaminhava , foi-os 
achar junto de hum rio contra o mar , a 
que os noíTos chamam do Sul , que he hum 
eftreito que vai do mar , e entra pela terra ; 
os quaes como gente defcançada jaziam em 
folga eftendídos pela herva verde, com que 

to- 



De ca d- a III. Liv. VIL Cap. X. 221 

tomavam tanto campo , que quando de hu- 
ma affomada osnoílos os viram jazer, hou- 
veram fer dobrada gente da que partira de 
Mardor ; em tanto que os mais dos nof- 
fos eram em parecer, que não convinha pe- 
lejar com elles. Mas acudio-lhes Deos , que 
veio João Lobato com té feffenta béfteiros y 
e efpingardeiros , e cinco de cavallo , com 
a chegada do qual ficaram todos tão. con- 
tentes , e aílí os esforçou Fernão Annes ? 
que determinaram de dar nelles , como de 
feito deram. A qual oufadia , e animo Deos 
ajudou , porque íègundo os Mouros eram 
muitos , e os noílbs fomente trinta de ca- 
vallo , fe elle não entreviera com a fua aju- 
da , todos alli pereceram. Porque no pri- 
meiro rompimento da batalha , os Canarijs , 
e toda aquella gente civil da índia 3 como 
não tem por injúria fugir , fe puzeram em 
falvo , tornando porém depois ao defpojo , 
por efte fer feu coílume. Finalmente nefta 
batalha logo no primeiro rompimento mor- 
reram dos noífos cinco de cavallo , de que 
os principaes foi Paio Corrêa Alcaide mòt 
de Pondá , e Ruy de Moraes foi morrer a 
Goa , e outros três. E feridos foram , o Ca- 
pitão Fernão Annes de Souto-maior, Duar- 
te Diniz ; e da gente de pé foram quatro 
mortos , e muitos feridos ; e dos Mouros 
logo ficaram mais de vinte , a fora outros 

que 



iiz ÁSIA de João de Barros 
que foram morrer entre os feus. E quem 
naquella peleja íe moftrou tomar grande 
parte do vencimento fobre íi , foi João Lo- 
bato , no que fez de fua peííoa , mas todos 
ficaram taes , que foi neceíTario virem-fe cu- 
rar a Goa. E aíli pouco 5 e pouco fe foi 
diffimulando com eftas terras firmes , que 
por não quebrar as pazes que tinham com 
o Hidalcão y como elle entendeo nifíò , as 
leixáram. 

CAPITULO XI. 

Das coufas , que em dherfos tempos os 
wojjòs puderam faber por mandado d?El- 
Rey , do Corpo do Bemaventurado S. Tho- 
mé , que pregou , e converteo a gente do 
Malabar , e terra de Choromandel , onde 
ejlava fua fepultura. 

HUma das coufas que EIRey D. Ma- 
nuel muito encommendava aos Gover- 
nadores da índia , era , que mui particular- 
mente íbnbeíTem o que tinha aquella Chrif- 
tandade do Oriente da vida do ApoftoJo 
S. Thomé , e fe era verdade que o feu cor- 
po jazia naquellas partes ; e outro tanto man- 
dou EIRey D, João feu filho depois que 
reinou. E porque atrás promettemos de dar 
razão das couías que efta Chriftandade tinha 
deite Apoítolo Santo , Padroeiro noflb na- 

quei- 



Década III. Liv. VIL Cap. XI. 2-23 

quellas partes da índia , como Sant-Iago he 
da Chriftaudade de Hefpanha , aqui o que- 
remos fazer , por D. Duarte de Menezes 
fer o primeiro que niJTo fez a diligencia 
que veremos. Pofto que Nuno da Cunha o 
anno de quinhentos e trinta e três , fenda 
Governador da índia , por cumprir o man- 
dado d'ElRey , mandou tirar huma inqui- 
rição em Paleacate per Miguel Ferreira, 
que lá eftava por Capitão. A qual elle ti- 
rou per huns apontamentos que lhe EIRey 
de cá mandou , em que hia efcrita a vida 
de S. Thomé , fegundo a tem a Igreja Ro- 
mana , pêra ver le a Chriílandade daquel- 
las partes tinha alguma conveniência com 
ella. E primeiro que venhamos ao que ef- 
ta gente difto tem , diremos o que os nof- 
fos , ante de D. Duarte mandar a illb , ti- 
nham per íi fabido , e o mais que per elle , 
e Nuno da Cunha fe foube , e de fi dire- 
mos o que os deíla Chriftandade contam 
de algumas coufas do Apoftolo. A primei- 
ra noticia que os noílbs tiveram de lua fe- 
pultura , foi o anno de quinhentos e deze- 
icte per Diogo Fernandes , e Baftião Fer- 
nandes , com outros Portuguezes que vi- 
nham de Malaca , e com elles hum Armé- 
nio per nome Coje Eícander , e outros feus 
companheiros também Arménios. O qual 
Arménio como já eftava m. Cidade de Pa- 

lea- 



224 ÁSIA £>e JoÂo de Barros 

feacate, que he na Província Choromandeí 
do Reyno Bifnagá na volta do Cabo Co- 
morij , indo pêra Bengala , e tinha noticia 
do lugar onde diziam eítar o Corpo de São 
Thomé , chegando ao porto Paleacate com 
tempo contrario a fua viagem , e íâhidos 
em terra , diííe efte Arménio aos noíTos , fe 
queriam ir ao lugar , onde diziam jazer o 
corpo de S. Thomé , que os levaria lá , 
com que elles muito folgaram. Chegados 
ao lugar onde os levou o Arménio , acha- 
ram hum grande íitio , que occupava mui- 
to efpaço de terra , tudo edifícios , a maior 
parte delles arruinados , e entre elles alguns 
pyrames , torres , columnas, e outras peças 
também lavradas de folhagem , figuras hu- 
manas , alimárias , e aves j tudo tão fabril , 
e perfeito , que de prata não fe podia fazer 
melhor obra , fendo a maior parte de pedra 
negra, e mui rija pêra lavrar, e outra bran- 
ca, parda, e de outras cores, em que mos- 
trava a fumptuoíidade da povoação que alli 
fora. Em meio das quaes antigualhas efta- 
va hum templo também mui mal tratado, 
fomente tinha huma pequena capei la "em pé , 
que era de aboboda de pedra , e cal , e ti- 
jolo , o qual tinha a feição das noíías na 
íituação , com efta capella pêra o Oriente , 
e fobre ella hum corucheo. Eaífi per elle, 
como per muitas partes per dentro , e per. 

fó- 



Década III. Liv.VIL Caí. XI. mç 

fora do templo , tudo eram cruzes , da fei- 
ção que são as dos Commendadores da Or- 
dem de Avis em Portugal. E alli acharam 
hum Mouro homem de feflenta annos , que 
havia poucos dias que cegara; , e ( fegundo 
contou) viera alli encommendar-fe ao Apof- 
tolo , e cobrara a vifta que tinha perdida ; 
e que feu pai , e feu avô , fendo Gentios , ti- 
nham cuidado de alumiar aquella cafa , e 
elle havia dez annos que fe fizera Mouro , 
dando a entender que vinha da linhagem 
dos Chriftãòs , que em outro tempo alli hou- 
vera, E perguntando-lhe os noííòs que no- 
ticia tinha do Santo, edaquella cafa, diíTe, 
que a cafa diziam fer feita per aquelle San- 
to homem , que alli pregara a Fé dos Chri- 
ftãòs , e fua fepultura era fama eftar alli 
naquella que fempre eftivera em pé por re- 
verencia fua. E o mais do corpo da Igreja 
fora deílruido , e também diziam efiarem alli 
fepultados dous difcipulos do Santo , e ò 
Rey que elle convertera á Fé de Chrifto y 
e diílo não fabia mais. Partidos eíles noífos 
pêra a índia , paífados dous annos , vieram 
alli ter António Lobo Falcão , João Falcão , 
e João Moreno, que também andaram ven- 
do aquella Igreja , e fouberam , que havia 
pouco tempo que fora alli enterrado hum 
homem Fidalgo de nação Ungaro chama- 
do Jorge, que partira de fua terra com de~ 
Tom. III. P.iL P fe- 



iz6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

fejo de vir a efta cafa do Apoítolo. E no 
anno de quinhentos e vinte e dous Dom 
Duarte de Menezes per eílas noticias pre- 
cedentes , e pelo mandado d'E!Rey , que lho 
encommendava , mandou Manuel de Frias 
por Capitão daqueila cofta de Choroman- 
del 3 e com elle hum Clérigo per nome Ál- 
varo Penteado pêra concertarem efta cafa , 
e a ordenar pêra nella celebrar o Culto Di- 
vino. E como o demónio nas coufas do 
louvor de Deos fempre dá defvios pêra fe 
não porem em obra , fobre o fazer delia fe 
vieram a defconcertar , que Álvaro Pentea- 
do fe veio pêra efte Reyno , e todavia da- 
queila vez Manuel de Frias leixou na cafa 
lium Pêro Fernandes Clérigo homem de ida- 
de , e boa vida peia Capellão da cafa , 
té que D. Duarte proveífe. O qual no an- 
no feguinte tornoru a mandar o mefmo Ma- 
nuel de Frias , e com elle hum Sacerdote 
chamado António Gil pêra provedor da 
obra , e Vicente Fernandes pedreiro , e di- 
nheiro neceífario pêra reformar o que efta- 
va cahido da Capella. E de íi fariam o mais 
como foííe favorecida da gente da terra , 
porque fegundo o Gentio he ciofo , vendo 
começar maior obra , parecer-lhe-hia que 
faziam alguma fortaleza. E começando a 
cavar em hum cunhal da Capella, onde o 
corucheo fe afíírmava pêra fazer hum alicer- 
ce, 



Década III. Liv. VIL Cap. XI. 227 

ce, e reformar huma parede delle, por e£» 
tar mui perigofa pêra cahir, aos cinco pal- 
mos foram dar com huma fepultura , e na 
pedra que era cuberta delia , na face de bai- 
xo, acharam humas letras na lingua Bade- 
gá , que he a da terra. As quaes diziam, 
que no tempo que o Apoftolo fundara aquel- 
la igreja , o Rey da Cidade Meíiapor lhe 
dera os direitos das mercadorias que a ella 
vieíTem por mar , que era de dez hum , en- 
commendando a feus fucceffbres que lhos 
não tiraííem. E indo mais abaixo , deram 
com a oííada de hum homem , e per a fa- 
ma que havia na gente da terra , aquelle 
era o corpo do Rey, que oApoftolo con- 
verteo á Fé de Chrifto. Manuel de Frias , 
porque lhe convinha tornar-fe ao porto de 
Paleacate , que era dalli fete léguas , foi-fe , 
e ficou o Padre António Gil com o outro 
Pêro Fernandes , que era Capellao , fazendo 
na obra. E porque convinha ir mais adian- 
te com o alicerce , foram dar com outra Ca- 
pellinha , onde era fama entre a gente da 
terra que eftava o Corpo do Apoftolo , pê- 
ra abrir a qual cova , por não fer per mão 
de Gentios, que traziam a jjpvar, chamou 
António Gil a Diogo Fernandes , que foi 
o primeiro que alli veio , e aííi hum Braz 
Dias , os quaes fe fizeram alli moradores, 
iMas elles não quizeram poer mão na obra , 
P ii di- 



228 ÁSIA de João de Barros 

dizendo 9 que não fe achavam dignos té fe 
confefTarem , e tomarem a Communhão , 
como fizeram. E depois com muita devoção 
foram cavando em huma cova de quatro 
paredes de tijolo , e cal mui bem guarneci- 
das , que teria de altura té quinze palmos , 
e lua té baixo em laftros de três em três 
palmos huma de terra folta , e outra de ti- 
jolo , e o derradeiro foi de argamaffa , que 
á força de picão não podiam romper. De* 
baixo da qual deram em duas pedras gran- 
des , queeítavam fobre outras á maneira de 
tumba , tudo cheio de arêa , e cal , e oíía- 
da de corpo de homem , e o ferro de hu- 
ma lança , e hum pequeno de páo mettido 
110 alvado delle , e mais hum pedaço de páo 
com hum conto de ferro , que parecia fer- 
vir de bordão. E aos pés deite corpo eíla- 
va hum vafo de barro, que levaria hum ak 
queire , todo cheio de terra fem mais outra 
coufa. E per opinião commum da gente , 
e ferro da lança, pareceo fer aquelle Cor- 
po do Apoílolo j porque além defta oíTada 
ler alva , o que não era a do Rey , e ou- 
tra que depois acharam de hum difcipulo 
feu , que tinham cor de terra, pelo que a 
gente contava tle como elle fora morto cora 
liuma lança , creram fer aquelle o Corpo de 
S. Thomé. António Gil achado o que tan- 
to defejava, mandou logo chamar Manuel 

de 



Década III. Liv. VIL Cap. XI. 229 

de Frias , notifícando-lhe que não haviam 
de bolir mais com aquella oflada té elle não 
vir, pedindo-lhe que trouxefle algum cofre 
onde a recolheíTe , o que elle fez com mui- 
ta diligencia , trazendo dous cofres , hum 
da China guarnecido de prata /em que foi 
mettida a oflada do Apoftolo , e no outro 
as duas do feu difcipulo , e a do Rey. E 
feita huma folemne Procifsao de todolos 
zoilos , que alli vieram com Manuel de 
Frias , foram poftos no Altar té fe ordenar 
algum lugar onde os encerraífem , e a cha- 
ve dos cofres levou Manuel de Frias , que 
fe partio pêra a índia com efta nova a Dom 
Duarte 5 a quem as entregou. Paliados dous 
annos , foi defte Reyno o Padre Álvaro 
Penteado com provisão pêra ter cargo da- 
quella cafa , o qual metteo efta oflada em 
hum caixão de páo , e depois encerrou den- 
tro no Altar em parte que ninguém fabia 
parte delies , fenão elle , e hum Rodrigo 
Alvares , que depois em tempo de Nuno 
da Cunha , quando mandou tirar inquirição 
per Miguel Ferreira , (como diffemos , ) deo 
teftemunho do que difto fabia , fendo já cá 
no Reyno Álvaro Penteado. No qual tem- 
po alli eftava hum Francez , e alguns Chri- 
ftãos da terra , e per elles , e per Gentios , 
e Mouros antigos vieram a teílemunhar o 
que tinham ouvido a homens mui antigos 

das 



230 ÁSIA de João de Barros 

das coufas de S. Thomé , dizendo , que ha- 
veria mais de mii e quinhentos annos que 
alli viera ter aquelle Santo , eflando aquel- 
la Cidade arruinada em pé em tanta pros- 
peridade , que por fua formofura lhe cha- 
mavam Meliapor y que he nome que tem 
os pavões , por fer a mais formofa das aves. 
Porque além da fua Comarca fer mui fértil , 
c abaftada de todas as couías , por razão 
do commercio concorriam alli todas na- 
ções aíli do Oriente , como do Ponente, 
cada huma das quacs nações por fer mui 
frequentada delles tinham muitos templos 
de fua adoração. E dizem haver nella três 
mil e trezentos Templos , de que ainda fe 
moftravam fuás ruinas lavradas , como fe 
viam , de obra tão fubtil , que de prata fe 
não podia mais fazer. A qual Cidade na- 
quelle tempo eftava do mar leis gráos me- 
dida de caminho naquellas partes , que fa- 
rão doze léguas das noíTas , e o mar per 
tanto tempo comeo té eftar daquella caía 
Jium tiro de pedra. E que efte Santo diífe- 
ra , que quando o mar chegaífe a. faa cafa , 
gentes da parte do Ponente , que profeíía- 
ria a Fé do Deos que elle pregava , viriam 
alli honrar o mefmo Deos em feus Sacrifí- 
cios. O qual Santo convertera o Rey da- 
quella Cidade a honrar eíle feu Deos , e fe 
fizera Chriítão com toda fua família y e iíto 

fo- 



Década III. Liv. VIL Cap. XI. 231 

fora por duas grandes coufas , que fez de 
muita admiração. A primeira foi , que acer- 
tou de vir á cofta do mar hum grandiffimò 
páo ; e defejando EIRey de o tirar em ter- 
ra pêra delle fazer huma pouca de obra 
em huns feus paços, ajuntou, muita gente, 
té vir grande número de Elefantes , e nun- 
ca o pode mover do lugar onde eftava. E 
vendo o Santo o que era paliado , pedio 
aoRey que lho deflè, e permittiffe que no 
lugar onde o elle levaíTe , fizeíTe com elle 
hum Templo pêra o Deos que elle prega- 
va , o que lhe EIRey concedeo em modo 
de zombaria , por haver ifto por impoííi- 
vel ; mas o Santo defatado hum cordão , 
com que fe cingia, o atou em hum efgalho 
do páo , e fazendo o fignal da Cruz , o le- 
vou a rojões té aquelle lugar , onde fez a 
cafa. Eafegunda coufa , que confirmou de 
todo lua Santidade , foi , que hum Bramma- 
ne , que era Sacerdote maior d'E!Rey , de 
inveja das obras que o Santo fazia, matou 
hum próprio filho feu , e foi fazer queixu- 
me a EIRey , que Thomé lho matara , por 
lhe querer grande mal , e per eíle modo 
lhe ordenaria que o mataíTem. Chamado o 
Santo diante d'ElRey , e indignando-íè con- 
tra elle , como fe fora culpado niílb , veio 
o cafo a tanto , que diíle o Apoítolo , que 
trouxeíTem o moço morto , e que elle diria 

quem 



i^z ÁSIA de João de Barros 

quem o matara , e aíli fe fez. O qual per* 
guntado , que da parte de Deos , que elle 
pregava . diífeífe quem o matara , refpondeo , 
que feu pai com ódio que tinha a elle Apof- 
tolo de Chrifto Deos verdadeiro. A qual 
coufa fez tão grande admiração , que El- 
Rey fe converteo , e com elle fe baptizou 
ipuita gente ; e o Brarnmane que iílo fez , 
foi per EIRey dajli degredado. Nefta in- 
quirição , que Nuno da Cunha mandou ti- 
rar particularmente , também teftemunhou 
hum Bifpo Arménio , o qual jurou per fuás 
Ordens ? que havia vinte annos que era vin* 
do áquella terra , e que andava viíitando 
per dentro da terra firme alguma gente da 
Chriftã do Apoftolo , a qual habitava nas 
terras abaixo de Coulam. Ê o que fabia do 
Santo Apoftolo , fegundo p tinham per ek 
critura 3 era , que quando os Apoftolos fe 
partiram pelo Mundo a pregar o Evange- 
lho , juntamente partiram três , S. Thomé , 
S. Bartholomeu , e S. Judas Thaddeo , os 
quaes vieram ter a Babylonia , e alli fe apaiv 
taram : S. Judas pêra huma terra contra o 
Norte , que fe chamava Cabeçada defpone , 
onde converteo muita gente , e fez Igrejas , 
que tudo era em poder de Mouros ; e São 
Bartholomeu fora contra a Períia , onde tamJ 
bem fizera outro tanto , e jazia fepultado 
gm hum lugar chamado Taron , em hum 

Mof- 






Década III. Liv.VIT. Cáp.XI. 233 

Moíleiro de Frades Arménios , que he a 
través da Cidade Tabris ; e que o Apoílo- 
lo S.Thomé embarcara na Cidade Barçora 
íittiada junto do rio Eufrates , e navegara 
pelo mar Parfeo , fora a Ilha Çocotorá , on^- 
de pregara o Evangelho ; e feitos muitos 
Chriftãos , dahi foi á índia áquella Cidade 
Meliapor, quenaquelle tempo era das mais 
notáveis da índia. E feita alli muita ÇhrijP? 
tandade , embarcara pêra a China em na- 
vios de Chijs 5 e foi a huma Cidade per no- 
me Cambalia , onde convertera muita gen- 
te , e fez templos pêra honrar a Chriíto , e 
fe tornou a efta mefma Cidade Meliapor , 
onde fizera aquelles dous celebrados mila- 
gres , que a gente da terra muito celebrava 
do páo , e vida que dera ao filho do Bram- 
mane , e per derradeiro padeceo martyrio 
per eíla madeira. Eftando hum dia pregan- 
do ao povo junto de hum tanque ? que ain- 
da ailieítava, era tão avorrecido dosBram- 
rnanes da terra pelo credito que perdiam 
em feus errores , que ordenaram hum arroi- 
do per alguns de fua opinião , na revolta 
do qual o Santo foi apedrejado. E jazendo 
no chão quaíi morto de pedradas , per der- 
radeiro veio hum daquelles Brammanes , e 
com huma lança o atraveíTou , com que o 
Apofíolo ficou morto de todo , e foi logo 
enterrado per feus difcipulos naquella caía. 

Po£ 



^34 ÁSIA de João de Barros 

Poílo que toda a Chriftandade da índia ti- 
nha que o Ápoftolo morreo aqui , e que 
elie fez efta cafa , ao tempo que nós entrá- 
mos na índia , mais gente deita Chriftã vi- 
via no Malabar na terra de Cranganor, e 
onde chamam Diamper vizinhas a Cochij , 
que em Paleacate , ainda queláeftava o Cor- 
po de S. Thomé. E a caufa era por ferem 
os Chriftaos de lá lançados per guerra ao 
tempo que a Cidade Meliapor fe deftruio ; 
e neftas terras de Cranganor , e Diamper 
eram mais favorecidos por os muitos Chri- 
ftaos que nellas havia , ante de ferem de lá 
degredados , donde , quaíi como dito com- 
raum , chamam a efte Senhor de Diamper 
Rey dos Chriftaos , e a EIRey de Cochij 
dos Judeos , e ao de Calecut dos Mouros, 
por a muita gente deitas três nações , que 
ha em cada hum deites Reynos. E a caufa 
de haver muita Chriftandade ém Cranganor, 
e Diamper , e per todas aquellas terras do 
Malabar vizinhas a Coulam , he por nellas 
haver Igrejas feitas no tempo do Ápoftolo 
per efta maneira, A efte Reyno veio hum 
deites Chriftaos aprender Latim , ao qual Ei- 
Rey D. João mandou enfinar as Letras Sa- 
gradas pêra poder doutrinar a gente per 
meio da lingua Malabar que tinha. E pra- 
ticando muitas vezes com elle pêra nos in- 
formar das coufas do Santo Ápoftolo pêra efte 

fim 



Década III. Li v. VIL Ca?. XI. 23$ 

fim de efcrever , elle nos diíle , que em Cran- 
ganor, qiíe fera de Cochij efpaço de cinco 
léguas , eftava huma cafa feira , e outra em 
Coulam , onde eftá a nolía Feitoria , feitas 
per dous difcipulos do Apoftolo , as quaes 
entre elles eram tidas^ em mais veneração, 
que as outras que eftam per dentro do fer- 
tão , as quaes fizeram os Chriftaos da pró- 
pria terra , depois que multiplicaram em gran- 
de número. Os quaes difcipulos o Apoílolo 
leixou alli pêra efte eífeito , indo de paífa- 
gem pêra Choromandel , e ambos jazem nel- 
las enterrados , o de Cranganor debaixo de 
huma torre , que os noífos fizeram na for- 
taleza que ora alli eftá. E porque o Patriar- 
ca de Arménia de tempo antigo fempre 
mandava vifitar efta Chriftanda.de do Mala- 
bar, por o número grande que aqui havia 
delia , tinha mais noticia das coufas de 
Chrifto , que os outros. E porém havia tan- 
ta avaricia neftes Bifpos Arménios , que vi- 
nham a efta viíitaçao mais por cubica , que 
por fervir a Deos : cá té por fazer a gente 
Chriftã levavam dinheiro. E por a gente 
fer pobre , poucos tinham agua de Baptif- 
mo , enão queriam ordenar algum pêra Sa- 
cerdote fem grande copia dellc , e ainda mui 
poucos habilitavam pêra 'rezar as Horas na 
Igreja , o qual rezar era na lingua Chaldea. 
E ante que nós entraflemos na índia pou^ 

cos 



z$6 ÁSIA de JoXo de Barros 

cos annos , o Patriarca Arménio mandara 
quatro Biípos pêra ie repartirem pela ter- 
ra por a Chriftandade íer muita , de que lo- 
go pm chegando faleceram dous , os quaes 
repartiram a terra em duas Comarcas , ao 
mais moço coube de Coulam pêra baixo 
contra o Cabo Comorij , e o mais velho 
reíidia em Cranganor. E efte por fer homem 
virtuofo tirou aquella tyrannia fazer Chri- 
ftãos por dinheiro. E Nuno da Cunha fendo 
Governador o favoreceo fempre por a vir- 
tude que achava nelle , porque também era 
eile mui inclinado acerca da ordem dofacer- 
docio , e ceremonias da Igreja do noífo cof- 
tume Romano. Contou-nos mais efte Chri- 
ftao , que na cafa de Coulam , que fora fei- 
ta per outro difcipulo do Apoftolo S. Tho- 
mé , eílava huma fepultura da Sibylla que 
chamavam Indica , e que efta Igreja fora 
hum feu oratório. E que por amoeftação 
fua denunciando o Nafcimento de Chrifto 
Jefus , hum Rey da Ilha Ceilam , chamado 
Pirimal , fora em huma náo á cofta de Maf- 
cate a íb ajuntar com dous Reys , que fo- 
ram adorar o Senhor aBethleem, eelle fo- 
ra o terceiro ; o qual a rogo delia Sibylla 
lhe trouxera a Imagem de N. Senhora pin- 
tada em hum retavolo , que eílava mettido 
em fua própria fepultura. Da viagem dos 
quaes Reys > e onde habitavam os dous, 



Década IIL Liv. VIL Cap, XI. 237 

em cuja companhia elle foi , eícre vemos em 
nofía Geografia , quando tratamos das Cida- 
des Nazua , e Baila , que eíiam detrás das 
coftas da ferrania , que correm per a cofia 
de Mafcatc , á qual Província os Mouros 
chamam Yman. Ifto baile quanto á noticia 
das coufas do Bemaventurado Apoftolo São 
Thomé Patrão noíTo nas partes da índia ; 
mas quanto á Chriítandade da terra , he 
gente a maior onzeneira , e de rnais falíida- 
des em pezos , e medidas , e em todo en- 
gano de comprar , e vender de todo o Ma- 
labar, e nifíb não dam a vantagem aos ín- 
dios delle. Parece que o demónio na terra 
mais fraca de feu património , neftas traba- 
lha por eftercar com fuás maldades, e ma- 
lícias , pêra que quando produzirem fruilo > 
lhe refpondam a mil por hum. Depois pe- 
lo tempo todas eftas cafas de S. Thomé > 
principalmente no que Nuno da Cunha go- 
vernou 5 foram crefcendo em mais policia 
Chriftã , e (como já diíTemos em outra par- 
te , ) os moradores Portuguezes , que foram 
viver a Paleacate , por memoria defte Bem- 
aventurado Apoftolo fizeram huma grande 
povoação com cafas de pedra , e cal , ao 
modo da Hefpanha , a que chamaram São 
Thomé , com aue fica huma nobre Cida- 
de, Colónia, e habitação de muitos Portu- 
guezes. Quizemos eferever todas eítas cou- 
fas, 



1$% ÁSIA de JoXo de Barros 

fas, pofto que muitas fe fizeram depois do 
tempo do Governador Q> Duarte de Me- 
nezes , porque como elle foi o primeiro au- 
thor que abrio os fundamentos defte fanto 
Templo doApoftolo, foicoufa jufta nofeu 
tempo recontarmos o que delle , e de fuás 
obras temos fabido , fegundo anda na me- 
moria daquelia barbara gente. 



DE~ 



DÉCADA TERCEIRA. 
LIVRO VIII. 

Dos Feitos, que os Portugtiezes fizeram 
no defcubrimento , e ccnquifta dos ma- 
res j e terras do Oriente : em que fe 
contém parte das coufas , que fe 
fizeram em quanto governou 
D. Duarte de Menezes. 

CAPITULO I. 

Em que fe defcreve parte da Ilha Cama- 
tra , e os Reynos que tinha por vizinhos 
no fja fortaleza Pacem, onde D. André 
Henriques efiava por Capitão : e as 
ãijferenças que entre osReys bár- 
baros delles houve , donde 
procedeo leixar D. An- 
dré a fortaleza. 

Defcubrimento , conquiíla , e com-* 
'mercio deite Oriente , de que efcre- 

vemos , a que chamamos Afia, aílí 
eílam eílas três coufas travadas entre fi , e 
nos havemos na obra , e ufo delias , que 
quaíí as fizemos correlativas , e refponden- 
íes humas das outras de maneira , que per 
cite modo ha feifeata annos que as confer-, 




240 ÁSIA de JoÂo de Barros 

vamos , fendo tao remotas em lugar , como 
sao as fortalezas que naquelle Oriente te- 
mos. Porque começando da fortaleza de 
Soiala , que he a primeira quanto a nós , 
e mais occidental , e acabanao na de Ma- 
luco , que eftá ao Oriente , (de doze que 
remos riaquellas partes ao tempo que com- 
punha efta efcritura , ) haverá nefta diítan- 
cia , fegundo a navegação dos marcantes y 
pouco mais , ou menos mil e quatrocentas 
léguas , a fora outras fortalezas que entre ef- 
tes dous extremos leixamos , como a hiíío- 
ria o relata , por cafos ? e coufas , como 
veremos neíla de Pacem, de que queremos 
efcrever. E porque tamanha diftancia de 
mares que navegamos 5 e fortalezas que poí- 
fuinhos , e furtemos , fe em hum mefmo 
tempo que os cafos nelles aquecidos quizef* 
lemos ajuntar em curfo de hiftoria , feria 
cfle curfo de diverfos remendos , (por fe 
não enxergar efte defeito , ) faremos dous 
curiós de hiíloria , porque afli fera melhor 
retida da memoria dos lentes. Da fortale- 
za de Sofala té a enfeada de Bengala fera 
hum curfo , enfiando todolos feitos deita 
diílancia nelle ; e da Ilha Çamatra té forta- 
leza de Maluco faremos em outro , ajun- 
tando efte oriental ao da índia , por cauía 
do Governador daquellas partes íempre nel- 
la aífíftir ? donde todolos feitos dependem > 

co- 



Década III. Liv. VIII. Cap. I. 241 

como de fua cabeça. E como a fortaleza 
de Pacem limada na Ilha Çamatra neíle an- 
no de quinhentos e vinte e dous eítava em 
pé , e nefta repartição de curfo de hiftorià 
he o princípio da parte Oriental , começa- 
mos eíle oitavo Livro nella, cfcrevendo o 
que os nolTos pairaram depois de Jorge d' Al- 
boquerque a leixar entregue a António de 
Miranda d'Azevedo, (como atrás efcreve- 
mos 5 ) e de íi iremos adiante té o fim do 
outro extremo. Porém , porque efta fortale- 
za de Pacem foi a primeira que té hoje te- 
mos leixada contra noífa vontade , por os 
combates que os da terra nos deram , fera 
neceíTario primeiro mais particularmente do 
que temos feito , tratar dos Reys , e Senho- 
res , que tinha por vizinhos , e affi as diíFe- 
renças que entre elles houve, por cujo ref* 
peito a nós leixámos , e amizade que tínha- 
mos com todos, fe converteo em ódio de 
hum fó. O qual ao prefente he feito Senhor 
de todos aquelles eftados , e tão podero íó 
com noífo damno , que com noíTas Arma- 
das commette a noffa Cidade Malaca , co- 
mo veremos em feu lugar: tanta mudança 
tem os eftados , que de hum lervo efcrava 
fe faz hum Rey poderofo , como fe efte fez 
á noffa cufta. Na parte mais Occidental 9 e 
marítima da Ilha Çamatra eílam eftes Rey* 
vos , Daya , Achem > Lambrij , Biar y Piri- 
Tm. III. P.il. Q, da, 



-24^ ÁSIA de Joa-0 de Barros 

da , Lide , Prida , Pacem , Bata , e Darum y 
.na coita das quaes poderá haver pouco mais y 
ou menos cem léguas. E per dentro do fer- 
rão vam vizinhar com o Gentio da terra , 
que não fomente he bruto, e lai vage , mas 
cruel , e guerreiro ; algum do qual aííl co- 
mo Alifares , e Bates comem carne huma- 
na , e eftoutro povo que habita o maríti- 
mo fegue a fedia de Mahamed. Os prin- 
cipaes da qual gente marítima eram Par- 
feos , Arábios , e de Mouros do Reyno Gu- 
zarate , da índia , e Bengala , que por cau- 
fa do commercio vieram áqueiles portos. 
E viíla a difpoííção da terra , e fua grof- 
fura , e o Gentio fem lei , e inclinado a re- 
ceber fua feita , com efta inclinação , e ava- 
ricia dascoufas que lhe os Mouros davam, 
e cafamentos com as da terra , que he hum 
vinculo -com que elles atam o animo dos 
íiaturàes , honrando-lhes as filhas em feu mo- 
do de eftado , converteram muito Gentio y 
e mais fizeram-fe fenhores da terra , intitu- 
lando-fe pelo tempo em diante defte nome 
Rey. Porém ao tempo que nós entrámos 
na índia, fomente o de Pacem , e o de Pe- 
dir fe intitulavam per efte nome Soltão, 
que acerca dos Arábios quer dizer Rey, es 
quaes quando Diogo Lopes de Sequeira def- 
cubrio Malaca , e depois quando Affonfo 
4'Àlboquerque . a foi tomar , ambos acha- 
ram 



Década III. Liv. VIII. Câp. L 243 

ram neílcs Reys o agazalhado, e oírertas y 
que de fuás peíTòas , e efíado fizeram , co- 
íno atrás efcrevemos. A mais commum opi- 
nião daquellas partes , fegundo a relação 
geral que já fizemos daquella Ilha Cama- 
tra , o Ileyno Pedir foi o maior, e mais 
celebrado de todos em tanto , que alguns 
deftes , que acima nomeámos , eram léus vaf- 
fallos , e depois per vários eaíòs , que o tem- 
po traz , fe fizeram livres delle. E quando 
nós tomámos a Cidade Malaca , ainda a 
fenhor de Daya , e Achem eram efcravos 
deííe Rey de Pedir ? e regiam por elle , fen- 
do porém já cafados com duas fobrinhas 
fuás. E porque não feja eítranho nas ore- 
lhas de ai suem efcravos virem a eíte eíla- 
do 3 queremos dar razão do ufo daquellas 
partes , poílo que tenhamos grande exemplo 
nas Leis dos Romanos , que permittiam que 
hum homem livre , paífando de idade de 
vinte annos , fe podia vender, pêra parti- 
cipar do preço per que fe vendia. E não 
fomente os que fe faziam fervos per efte 
modo, mas os ganhados per titulo de guer- 
ra , ou havidos per qualquer outra lei ci- 
vil , muitas vezes eram adoptados per filhos y 
e livres per teílamento , e per outro moda 
de liberdade , com que depois vieram a 
grandes dignidades. Aífi naquellas partes da 
índia geralmente pai , e mai vendem os 



244 ÁSIA de João de Barros 

filhos, e ás vezes he per tão pouco preço, 
como he huma tanga, que vai da noffa moe- 
da três vintaes , hum dos quaes comprados 
per eíte preço de nação Guzarate , eu já ti- 
ve em minha caía vendido períuamãi. Ou- 
tros já em idade de homem , por partici- 
par do preço fe vendem , muitos dos quaes 
em feju modo são dcs nobres da terra ; e 
são os fenhores tão gloriofos de ter eícra- 
vos nobres , que dam per elJes muito pre- 
ço. O qual preço he ás vezes tanto , que 
tem elle que gaitar hum anno , tratando-íe 
tão honradamente , que depois de gaitado 
o preço , o mefmo fenhor os trata da ma- 
ncira que o elles faziam , e ainda os cafam 
com parentas , e filhas fuás quando elles 
tem qualidades pêra iífo , principalmente de 
fieldade , e cavalleria. As quaes qualidades 
achando EIRey de Pedir neftes dous feus 
efcravos , que diíTemos , cafou com duas fò- 
brinhas filhas de feu irmão , e a hum deo 
as terras de Daya , e a outro as de Achem. 
Porém tinha eíte modo com elles : quando 
havia neceífidade de feu fervico, vinham a 
elle , e tornados a fua cala leixavam-Ihes 
feus filhos de maneira , que vinham eítes 
herdar o que feus pais tinham per próprios 
ler viços de fua peífoa , aífi na paz , como 
na guerra. E aconteceo que andando em ca- 
fa d'E!Rey dous filhos do Senhor de Achem , 

o ma- 



Década III. Liv. VIII. Cap. I. 24? 

o maior dos quaes havia nome Raja Abrae- 
mo , e o fegundo Raja Lila , os quaes ti- 
nham bem merecido per ferviço o que feu 
pai tinha ; a requerimento delle , por fer já 
mui velho , EIRey houve por bem dar 
aqueíle eftado de Achem ao maior. Pofto 
ell-e Raja Abraemo em pofle delle , quiz 
executar o que trazia no peito havia tem-* 
po , que era vingar-fe do Senhor de Baya , 
por razão de humas differenças fobre poi> 
tos de honra , que tiveram , andando ambos 
em caía <PEÍRey de Pedir. E como EI- 
Rey favoreceo mais ao outro , que a elle 
Raja Abraemo , ficou-lhe daqui não fomen- 
te defejo de vingar-fe delle , mas ainda ódio 
contra EIRey , a qual vingança começou 
tomar, entrando-lhe pela terra, por ferem 
vizinhos. E peró EIRey mandou amoeftai? 
diflb a elle Raja Abraem , e mandou algu- 
mas ajudas ao outro de Daya , teve elle 
pouca conta com tudo. A eíle efcandalo 
que EIRey lhe teve, fuecedêram outros ha^ 
vidos por noífa caufa , que elle mais fen- 
tio , donde Abraem defeubertamente lhe le-r 
vantou a obediência. E ainda porque feu 
pai já mui velho o quiz reprender , trazen- 
do-lhe á memoria fer eferavo d ? EiRey , do 
qual tinha recebido tanta honra como ellô 
fabia , e a mais fer feu tio , contra o qual 
não devia de levantar olhos , elle Raja 

Abraem 



2^6 ÁSIA de JoAo de Barros 

Abraem o mandou prender em ferros era 
huma gaiola , onde morreo ; e o efcandalo 
que EIRey por noífa caufa teve delle , foi 
eíle. Atrás contámos como naquella parte 
de Achem fe perdeo Gafpar d ? Acofta irmão 
de Aífonfo Lopes d'Acofta Capitão de Ma- 
laca , e os que efcapáram foram cativos pe- 
ias lancharas deite Senhor de Achem , os 
quaes foram refgatados a requerimento d'EI- 
Rey de Pacem per meio de Nina Cuna- 
pam Xabandar do mefmo Rey de Pacem. 
Eíles cativos quando foram tomados , já 
Raja Abraem tinha paffado com EIRey de 
Pedir o que acima diflemos; e por elleRey\ 
fer muito noíTo amigo 5 e defejar per mé- 
ritos de boas obras ter-nos obrigados pêra 
algum tempo de íua neceflidade , mandou 
pedir eíles cativos a Raja Abraemo , como 
a hum feu efcravo , com fundamento de os 
mandar de prefente ao Capitão de Mala- 
ca ; mas elle-não lhos quiz dar, e os deo 
a EíRey de Pacem , como diííemos. 'A 
qual coufa EIRey fentio em tanta manei- 
ra , que ajuntando a iílo a defobediencia 
de fazer guerra a EIRey de Daya , e a 
prender feu pai por as amoeílaçoes que lhe 
fazia, lhe mandara per mar, e terra fazer 
a guerra. Neíte meio tempo fuccedeo ir lá 
ter huma náo nofía com mercadoria , a 
qual andando em calmaria , mandou efe 

Abrae- 



Década III. Liv. VIII. Cap. I. 147 

Abraemo fuás lancharas a ella, e a toma- 
ram matando féis Portuguezes , que nella 
hiam. Depois foi ter Jorge de Brito áquel- 
le porto deite Senhor de Achem * onde o 
mataram pola maneira que atrás efcrevemos. 
Com a qual vitoria elle Raja Abraemo fi- 
cou tão íbberbo , e abaílado de artilheria , 
e munições de guerra, que não fomente fe 
defendia d'ElRey feu Senhor , mas ainda 
lhe fazia quanto damno podia. Finalmente 
tanto o favorecco a fortuna nefla empreza, 
que tomou de fe querer fazer Rey de to- 
dos aquelles eftados , que em menos de três 
annos , per artes de guerra , e traições , que 
os próprios naturaes commettêram contra 
feus fenhores , os houve a feu poder , té 
fazer fugir EIRey de Pedir feu Senhor pe^ 
ra a noíla fortaleza de Pacem , eítando já 
nella D. André Henriques , de que fe cau- 
fou a perdição delia , como veremos neílé 
feguinte Capitulo. 



CA- 



34S ÁSIA de João de Barros 
CAPITULO II. 

Como D. André Henriques , por ajudar 
a EIRey de Pedir nojjb amigo , que fe re- 
colheo á nofjã fortaleza ^ em que elle efla- 
va , mandou com elle feu irmão Z). Ma- 
nuel Henriques , que morreo naquella ida 
per kuma traição que os Mouros tinham 
ordenado , e o mefmo Rey efcapou : e do que 
pajfou Domingos de Seixas com huns ale- 
cantados Portugueses > onde foi prezo , e 
cativo. 

DOm André Henriques filho de D. Hen- 
rique Henriques fenhor da villa das 
Alcáçovas , foi na Armada de D, Duarte 
de Menezes provido por EIRey D. Ma- 
nuel deita fortaleza de Pacem , ao qual Dom 
André, tanto que D. Duarte chegou a ín- 
dia , enviou a tomar poíTe delia. A qual 
António de Miranda d 5 Azevedo lhe entre- 
gou a vinte e três de Maio do anno de 
quinhentos e vinte e dous , e fe foi pêra 
Malaca , té vir o tempo da monção pêra 
fe vir á índia. Tendo já nefte tempo que 
a entregou recebido muitas opprefsões deite 
Raja Abraemo , aílí per terra , como com 
fuás lancharas per mar, de que fempre os 
noíTos houveram vitoria de maneira , que 
cojneçando eíte Abraemo a guerra comnof- 



Década HL Liv. VIII. Cap. II. 249 

eo por refpeito do ódio que lhe nós tínha- 
mos por caufa do damno que os noflbs 
receberam em feu porto, (como atrás ef- 
crevemos , ) depois que os da nofla forta- 
leza feriram , e mataram muitos da fua gen- 
te , que queriam fazer entradas em nofío 
damno , eonverteo a guerra em caufa de 
vingança. Porto que tudo iílo elle foffrêra, 
fenão fora EIRey de Pedir feu Senhor, o 
qual era tanto noífo amigo, que fepoz em 
não querer cafar com huma filha do Rey 
palfado de Pacem , importando-lhe eíle ca- 
íàmento muito , fenão com condição que 
havia de fer noífo amigo. E pêra iífo afli 
fèr , mandou hum feu Embaixador a Ma- 
laca , eílando nella por Capitão Jorge de 
Brito com outro Embaixador do mefmo 
Rey de Pacem , a fazer eftes concertos de 
pazes , por eftar eíle Rçy então em ódio 
comnofco , como atrás efcrevemos. E quan- 
do Abraemo vio que fe acolhia elle a nós , 
e que havia muito tempo que era noífo 
amigo , e nos tinha obrigado com boas 
obras, pareceo-lhe quecomnoífa ajuda vin- 
do outra Armada , como a de Jorge d'Al- 
boquerque , o poderia reftituir no feu Rey- 
no , e elle Raja Abraemo corria rifco de 
perder o eítado , e vida ,• como tinha por 
exemplo no cafo de Soltao Geinal Rey de 
Pacem , quç Jorge cPAlboquerque matou. 



2^0 ÁSIA de João de Barros 

Pêra evitar eíle cafo , como era homem 
manhofo , e de grandes artifícios, e que as 
mais das vitorias que tinha havido foram 
per aftucias de traições , e por corromper 
com dinheiro affi aos principaes Capitães 
de Daya , como d'E!Rey de Pedir feu Se- 
nhor ; ordenou com eíles mefmos Capitães , 
e principaes da Cidade Pedir , onde eJie ef- 
tava , que eícreveíTem a EIRey , que eftava 
em a Cidade Pacem acolhido á noíTa fom- 
bra. A fórma da qual carta foi defculpa- 
rem-fe de acolherem Raja Abraemo dentro 
na Cidade , dando algumas fracas razoes , 
pedindo-lhe que com ajuda dos Portugue- 
zes fe vieíTe logo a Pedir , por quanto ei- 
les lhe entregariam a Cidade. Pêra eífeito 
do qual cafo elles o tinham já lançado del- 
ia , e nenhuma outra coufa efperavam fe- 
nao fua ajuda , por tanto que fe apreflafle 
ante que recebeíTem mais damno , por quan- 
to os tinha cercados. O qual lançamento el- 
Jes ante deita carta , três , ou quatro dias ti- 
nham feito , íimulado efte levantamento , 
havendo que tinham feito grande erro con- 
tra feu Rey , e foffriam hum feu efcravo , 
que os tyrannizava. EIRey dePçdir ao tem- 
po que fe acolheo pêra Pacem por fe abri- 
gar a nós , levou comfigo o fobrinho Se- 
nhor de Daya , que também era per eíle 
tyranno defpojado do feu, e teriam comíi- 



Década III. Liv. VIII. Cap. IL 25T 

go té duzentos homens , que os quizeram 
lèguir. E vendo EiRey a carta dos feus , 
€ íabendo como A.braemo era lançado da 
Cidade , faílou a D. André , pedindo-] he 
que por não perder tão boa conjunção , o 
quizeííe ajudar per mar com alguma gente , 
e elle iria com a íua 5 e outra que lhe tam- 
bém dava de ajuda EIRey de Pacem. Dom 
André movido dos rogos deite Rey , per 
as coufas precedentes de nofla amizade , e 
que noíTo coílume era favorecer , e ajudar 
noíTos amigos , e que aquella fortaleza de 
Pacem por caufa de ajudar hum moço ór- 
fão contra hum tyranno fe fizera x pare- 
ceo-lhe couía jufta , e conveniente dar-lhé 
efta ajuda que pedia. Quanto mais que já 
convinha tanto a nós 5 como a EIRey de 
Pedir atalhar ao poder daquelle tyranno , o 
qual com damno , e morte dos noíTos íe 
tinha feito poderofo., eque aquella conjun- 
ção era a melhor que podia íer pera total- 
mente o deílruir. Finalmente elle D. André 
mandou per mar em ajuda d'E!Rey de Pe- 
dir feu irmão D. Manuel' em hunia fuíla , 
e algumas lancharas da terra com té oi- 
tenta Portuguezes , e duzentos Mouros en- 
tre gente de armas , e remadores. E a or- 
denança que EIRey deo foi , que D. Ma- 
nuel foííe per mar de vagar tomando todo- 
Jos portos pordalii té Pedir ; que fera obr# 

de 



fcyx ÁSIA de João de Bakkos 

de dez léguas , e elle iria fempre ao longo 
da cofia , donde dariam viíla hum ao ou- 
tro nos portos do mar. Seguindo EIRey 
eíia ordem <pm té mil homens de pé , e 
quinze elefantes de peleja , porque lá não 
ha cavallos , acertou de vir hum tempo , 
que os tirou defta ordenança , com que a 
fufta foi ter a huma parte , e as lancharas 
de fua. companhia foram ter ao porto de 
Pedir , havendo dous dias que era chegado. 
Porém depois que todos foram juntos , e 
EIRey recebido dos feus com grande fei- 
ra , adernaram em conlelho 3 que ao feguin- 
te dia ante manhã , aíli os feus , como os 
noíTos que eftavam no mar, fahiftem a dar 
no arraial de Abraemo. Parece que entre 
tantos máos houve algum bom , e fiel, 
que aquella ante manhã fe foi a EIRey , e 
lhe diíTe : Senhor , ponde-vos emfalvo , por- 
que nefta fabula vos hao âe prender , e en- 
tregar a efte vojfo efcravo : cá tem ajjen- 
taão âe o fazer quem vos mandou chamar , 
e o cafo paffa defta maneira , contando-lhe 
tudo miudamente. E que lhe fazia faber que 
logo a noite que chegou te o não tinham 
feito , fora porque queriam acolher em ter- 
ra os Portuguezes , onde efperavam de os 
tomar todos á mão ; e pêra tomar fuás em* 
barcaçóes , per o rio acima eftavam efcon*- 
didas muitas lancharas do trédor , que ha- 
viam 



Década III. Liv-VIIL Cap, II. 25^ 

riam devir fobre ellas , tanto que lhe foílè 
dado íignal. Quando fe EIRey vio 110 pe- 
rigo em que eítava , o mais manhofa , edifc 
fiinuladamente que pode , cm dous elefan- 
tes pêra íi , e feus fobrinbos fe fahio da Ci- 
dade , e poz em falvo com té duzentos ho- 
mens ,. que o feguíram. Os noííos pelo avi- 
io que lhe EIRey mandou , querendo fahir 
do rio , a maré que era vazia , os decepou 
lèm o poderem fazer, e em quanto ella não 
veio 3 eftiveram por barreira das frechas, 
e zargunchos , e outras armas de arremef- 
fo 3 que os imigos de hum a parte , eda 
outra margem do rio lhes tiravam 3 por fer 
mui eítrcito ? e amparado de barreiras , que 
os defendia da artilheria das lancharas. E 
quando veio, por as fuás ferem mais leves, 
e bem rebocadas , dcfcêram de cima 5 e aííl 
fe vingaram dos noííos , que ficou alli Dom 
Manuel morto com té trinta e cinco Portu- 
guezes 5 porque os mais fe íalvaram. Com 
a qual perda D. André fe houve logo por 
perdido naquclla fortaleza , aíli por lhe fi- 
carem té oitenta homens , e ella fer de ma- 
deira já podre das chuivas , e reícaldo da 
Sol 3 por fer vizinha á Equinocial com 
cinco gráos pouco mais , ou menos , em 
que eftá da parte do Norte. E o que elle 
mais fentia que tudo , era a neceílidade dos 
mantimentos , que já ante deite defaílre da 

mor- 



2^4 ÁSIA de João de Barbos 

morte de feu irmão os da terra lhe come- 
çavam a negar , fem os da Cidade confen- 
tirem que a gente miúda da terra os troti- 
xeflem , fendo coílumada três vezes na fe- 
mana vir com elles a huma feira que fa- 
ziam 3 com que a fortaleza fe provia do necef- 
farío. E temendo-fe que eíla neceffidade dcl- 
les os puzeíTe em maior affronta , que pele- 
jar com os imigos , em huma náo que alli 
eílava de Bengala , que veio carregar áquel- 
le porto de Pacem , mandou hum Portu- 
guez por nome Jeronymo de Sorande com 
cartas a Rafael Pereílrello , que eílava em 
Chatigam principal porto de Bengala , 
pedindo-lhe hum junco carregado de man- 
timentos pola neceffidade que tinha. Rafael 
Pereftrello como ainda alli eílava do tempo 
que fe efpedio de Jorge d'Alboquerque , 
(de que atrás fizemos menção , ) mandou a 
eíle negocio dos mantimentos Domingos de 
Seixas Efcrivão da fua náo em hum na- 
vio de hum Gafpar Ferraz da Cidade do 
Porto de Portugal , o qual viera alli fazer 
fua fazenda , e havia de paliar per o porto 
da Cidade Tenaçarij , que he na coíla de 
Malaca , onde havia muitos mantimentos y 
e alli fretaíTe. hum par de navios da terra y 
e os levaffe carregados a Pacem. Poílo elle 
Domingos de Seixas em Tenaçarij , e ten- 
do comprados mantimentos > com que po- 
dia 



Década III. Liv.VIII. Cap. II. 257 

dia carregar dous navios que tinha fretado , 
acontecco que andava peraqueila coíla hum 
navio dos noíTos ás prezas , (como eiles di- 
zem,) que he ferem coíTniros alevantados 
da obediência do Governador , a roubar os 
Mouros que navegavam. Os quaes alevan- 
tados feriam té cincoenta homens , de que 
era Capitão hum Diogo Gago , filho baííar- 
do de Foão Gago , e de huma Mourifca ; 
e dos outros eram Balthazar Velofo , João 
Barbudo , Simão de Brito filho baftardo de 
João Patalim , João Carregueira , João Bo- 
teliio , Antão da Fraga , $ outros que fe 
contentavam de andar nefte fadairo , fendo 
os mais delles de bom langue. Os quaes íè 
armaram em Choromandel , e vinham já de 
Chatigam , onde eftava Rafael Perçftreílo ,. 
que trabalhou por os recolher a li , e tirar 
daquelle máo officio. E ante que chegaílem 
a Tenaçarij , fobre paixões que Balthazar 
Velofo houve com o Capitão Diogo Ga- 
go , jazendo elle dormindo no regaço de 
huma fua cfcrava , o matou ás punhaladas 
com favor de João Barbudo : feito eíte ca- 
fo digno dos que andam naquelle officio, 
per concerto de paz , elegeram por Capitão 
Simão de Brito. A vinda dos quaes deter- 
minadamente áquelle porto de Tenaçarij y 
era terem fabido que eftavam alli quatro 
náos de Mouros Guzarates do Reyno de 

Cam- 



IÇO ÁSIA DE JOÃO Í)E Barros 

Cambaya , e vinham a fazer preza delias J 
mas ellas fe acolheram ante que elles eíFci- 
tuaííem feu propofito, E commettêram ou-* 
tro peior feito , pois caufou tanto mal a Do- 
mingos de Seixas , e dezefete Portuguezes 
que alli eftavam com elle ; e o cafo foi efte. 
Hum Mouro per nome Rete Cam fervia 
a EIRey de Bengala nove annos de Go- 
vernador de duas Cidades, cada huma per 
íi , Naomaluco , e Chatigam , no qual tem- 
po roubou o que pode na terra , e a EI- 
Rey, e com fete náos carregadas de muita 
roupa , e groíTa fazenda , paftio de Chati- 
gam pêra Malaca , com fundamento de vi- 
ver nãquella Cidade amparado do noffo fa- 
vor. O qual ante de chegar a Tenaçarij 
teve tão grande temporal , que quatro das 
náos tornaram arribar a Chatigam , donde 
partiram , e com as três chegou a Tenaça- 
rij, fazendo fundamento de negociar dalli 
as náos arribadas , e de fí fazer lua ida a 
Malaca ; e porque temeo que em quanto 
alli eftiveíTe , a gente da terra o podia rou- 
bar , pedio ao Governador de Tenaçarij lhe 
déJTe hum pedaço de cotovelo, que a terra 
fazia em a volta do rio , pêra fe fortalecer 
alli. Dada a terra , e cortada de maneira , 
que ficava em Ilha lavada da agua , e fei- 
ta huma fortaleza de madeira , em que fe 
queria recolher com duzentos homens f ou 

que 



Década III. Li v. VIII. Cap. II. 257 

que foi per artificio do mefmo Governador 
da Cidade Tenaçarij , que era d'ElRey de 
Sião , ou que o povo o moveo com voz , 
que cfte Rate Cam fe queria alli fazer for- 
te , como tyranno da terra com favor dos 
noíTos , e de outra gente eftrangeira , que 
alli eftava fazendo commercio , faltaram com 
elle , e os roubaram huma ante manha. E 
levando os miniftros daquelle negocio hu- 
ma champana grande carregada da melhor 
fazenda que elle tinha , a qual diziam fer 
do Governador da Cidade ; Simão de Brito 
Capitão dos alevantados que diíTemos, to- 
maram a champana , e acolhêram-fe com 
ella , fem lhes lembrar que Domingo? de Sei- 
xas com a outra noífa gente eftava em ter- 
ra. Sabida a qual tomadia , o Governador 
lançou mão de quantos mantimentos Do- 
mingos de Seixas tinha comprado , e mais 
da íua fazenda , e dos noíTos que com elle 
eftavam era terra 3 que (como diílemos) eram 
dezefete homens , que cativos per terra fo- 
ram levados a EIRey de Sião. Com a qual 
obra D. André não foi provido de manti- 
mentos , e os noíTos levantados do roubo 
não houveram bom fim. Do qual Domin- 
gos de Seixas , que naquelle Reyno de Sião 
efteve cativo vinte e cinco annos , foube- 
irios a maior parte das coufas delle , e ifto 
não tão cegamente > como hum cativo pó- 
Tom. HL P.il. ' R de 



25^ ÁSIA de JoÁo de Barros 

de faber de hum Reyno , onde çftá fujeito 
ás leis do cativeiro de quem o tem ; mas 
como de hum Capitão de gente de armas, 
que elle foi do meíhio Pvey. Porque depois 
que alguns annos eíleve prezo , e tratado 
como cativo com os outros , que foram 
prezos com elle , a maior parte dos quaes 
faleceram lá , nas guerras que EIRey teve 
com feus vizinhos , pola amoftra que elle 
deo de fua peííba , lhe deo liberdade , e o 
fez Capitão da gente , e com eíle mando 
teve informação mui particular daquelle Rey- 
no. E em verdade que foi hum dos homens 
de mais particular memoria com que falía- 
mos , principalmente em as coufas da Geo- 
grafia , que nos deo grão lume ao que e£ 
crevemos daquelle Reyno. Porque como 
EIRcy quaíl com todolos vizinhos teve guer- 
ra , e elle atraveflbu com os exércitos d'El- 
Rey muitas terras, viemos per elle verificar 
outras informações , que daquella Província 
tínhamos. Fizemos aqui cila lembrança de 
Domingos de Seixas, porque pois lhe não 
aproveitou o ferviço que naquelías partes 
fez , nem o cativeiro que pafíòu pêra lhe 
darem de comer, fendo homem de boa li- 
nhagem,' não vir a morrer no Hofpital de 
Lisboa , onde morreo , ao menos neíie nof- 
fo trabalho terá memoria do que paíTou 
naquelle Oriente , pois eíie he o regifto dãn 

quel- 



Dec. III. Liv.VIII. Cap. II. e III. 25*9 

quelles , que nelle algum bem tem recebido. 
E verdadeiramente que maior deleitação te- 
mos na relação dos mentos dos homens y 
a que o Mundo defamparou em feu galar- 
dão , que naquelles que foram bem pagos 
delle. Porque como o Mundo não tem mais 
que temporalidades , quem fica bem herda- 
do nellas , já em alguma maneira he íatis- 
feito ; mas aquém elle as nega, parece que 
lhe devemos efta lembrança, pois não tem 
outro galardão. 

CAPITULO III. 

Como por algumas diff crenças que Dom 
André teve com Lopo iP Azevedo , que o 
Governador mandava pêra Capitão daqueU 
la fortaleza de Pacem a requerimento del- 
le D. André , Lopo d 3 Azevedo fe foi pêra 
Malaca : e do mais que paffou té D. An- 
dré entregar a fortaleza a feu cunhado 
Aires Coelho , e fe ir pêra a índia. 

T Ornando a D. André , que eílava bem 
neceíTitado de tudo o que ha ria miftar 
pêra íuftentar aquella fortaleza , e principal- 
mente faude , por a terra fer mui doentia 
-aos noílbs , duas coufas fez : a primeira en- 
viar á índia recado per hum navio ao Go- 
vernador D. Duarte de Menezes , fazendo- 
Jhe faber o eílado em que ficava a fortale- 
R ii za. 



26o ÁSIA de JoÃo de Barros 

za , e elle tão doente que fe não achava em 
difpofiçao pêra a poder defender , pedindo- 
lhe , que o mais em breve que pudefie fer , 
mandafle algum Capitão a ella com as 
coufasneceffarias pêra fegu rança delia, dan- 
do-lhe particularmente conta do eftado em 
que eftavam as coufas daquelles Reynos , 
por as guerras daquelles tyrannos , que eram 
levantados contra feu Rey. E a outra cou- 
fa que atrás eíla fez , foi efcrever a EIRey 
de Am , que era nolíb amigo , pela amiza- 
de que com elle aífentou Jorge cPAIboquer- 
que na tomada de Pacem. O qual além def- 
ta obra de nos ajudar, (como atrás efcre- 
vemos,) rodo navio noífo, ora per fortu- 
na , ora por razão de commercio que hia 
ter á coita do feu Reyno , recebia com gaza- 
lliado , e bom tratamento ; e naquelle tempo 
em grandeza da terra , e número de gente 
era o mais poderofo daquelía Ilha. Somen- 
te era pobre de dinheiro , por o feu Rey- 
no não ter tanta cópia de mercadorias , co- 
mo o de Pacem , de que era vizinho ; por- 
que a mais principal coufa que faz hum 
Reyno rico , e politico , he o adio do com- 
mercio , ora fcja per mercadorias naturaes 
que a terra produz , ora per artificio de me- 
cânica , o que efte não tinha , como os ou- 
tros que ficam atrás delle contra o Ponente , 
c Sul. O qual Rey não fomente pela ami- 

za- 



Década III. Liv.VIII. Cap. III. 261 

zade que comnofco tinha , mas ainda por 
eftar mui indignado contra Raja Abraemo , 
por a guerra que fazia a feu fenhor , quan- 
do D. André mandou efte recado , porque 
o apercebia que o vieífe ajudar a defender 
aquelle Reyno de Pacem , quando quer que 
Raja Abraemo quizeíTe entrar nelle ; man- 
dou-lhe dizer que elle fe faria preftes pêra 
o tempo que foíle neceífario fer prefente, 
e iílo com muitas palavras do contentamen- 
to que tinha poder elle fazer alguma cou- 
fa, de que EÍRey de Portugal fofle fervi- 
vido. D. Duarte de Menezes tanto que te- 
ve o recado de D. André , mandou logo 
Lopo d'Azevedo em hum navio com algu- 
mas coufas neceífarias pêra provimento da 
fortaleza , e provisões pêra elle D. André a 
entregar a Lopo d 5 Azevedo 3 o qual chegou 
a Pacem em Junho de quinhentos e vinte e 
três. D. André quando vio Lopo d 5 Azeve- 
do 5 peró que elle muito defejava de fe vir 
pêra a índia , por a monção , e tempo > com 
que havia de partir fer daJii a dous me- 
xes , não quiz entregar a fortaleza , dizen- 
do a Lopo d' Azevedo 5 que em quanto elle 
eíKveUe efperando pelo tempo , não lha ha- 
via de entregar , fenao o dia que fe embar- 
caííe , o que elle concedeo por lhe aífi pa- 
recer bem. E porque D. André , como ho- 
mem que íè havia de partir y não provia as 

cou- 



n6z ÁSIA de João de Barros 

coufas á vontade de Lopo d^Azevedo ; e 
éHe pelo que lhe cumpria era neceflario 
acudir a iíío , apercebeo-fe de mantimentos. 
E vendo que o Xabandar d'E!Rey de Pa- 
cem abria grandes alicerces , e cavas , e ajun- 
tava madeira pêra fazer huma força junto 
da noíTa fortaleza , e fazia outras coufas , co- 
mo homem favorecido de D. André , as 
quaes obras eram mui prejudiciaes á mefma 
fortaleza, diífe a D. André, que toda aquel- 
la obra do Xabandar elle a havia por mui 
fufpeitofa , e contra o bem , e fcgurança da 
fortaleza ; que fe elle , por ler amigo do 
Xabandar , tivcíTe pejo de lhe ir á mão , 
que elle o faria , e mais que havia de to- 
mar quanta madeira elle alii tinha junta, e 
com ella havia de repairar a fortaleza ; e 
que pêra recolhimento do Xabandar elle 
lhe daria outro mais feguro a ília peííoa , 
e menos prejudicial. D. André era cavallei- 
í o , e alí o tinha moftrado todo o tempo 
que viveo em Tanger , onde era cafado ; 
e quanto tinha de animo pêra eíla guerra 
de Africa , tanto lhe falecia na peíTòa , por 
fer mui pequeno de corpo y e taú efmaga- 
do como homem aleijado, e por eíla caufa 
era mui defconfiado , e por outra parte pou- 
co cautelofo nas coufas da honra , por fer 
fujeito aos proveitos que aquella terra da- 
$fj ç fobre iífo cria a homens que tinham 

pou- 



Década IIL Liv.VIII. Cap. III. 265 

pouca conta com a ília. E tanto que lhe 
Lopo cTÁzevedo tocou em mandar, lá fe 
traftornou de maneira , que lhe mandou lo- 
go dizer que fe foííe embora caminho de 
Malaca , por quanto lhe não havia de en- 
tregar a fortaleza. Sobre o qual calo hou- 
ve tantos eftromentos de parte aparte, mos- 
trando cada hum os poderes que tinha 5 que 
ceííando elles 3 houvera de vir o cafo a for-* 
ça , fe Lopo d 5 Azevedo fe não embarcara , 
e fora pêra Malaca , onde chegou. Alguns 
quizeram dizer que a ida de D. André pê- 
ra a índia , e leixar a fortaleza não pro- 
cedia tanto de fua enfermidade , quanto por- 
que não queria experimentar a fortuna do 
lucceíTo da guerra , que efpcravam daquel- 
le tyranno , e queria ir lograr alguns vinte 
mil pardáos , que poderia haver da náo que 
tomou de preza, indo da índia pêra aquel- 
la fortaleza. A qual náo era de Mouros , 
e elíe os mandou todos paliar em huma 
champana , por não ficar nella Cooía viva. 
Outros dizem que os mefmos Mouros a 
defamparáram com temor , fendo obra de 
cento e noventa homens todos mercadores, 
e não gente de guerra. Os quaes na cham- 
pana foram ter á Cidade Tenaçarij a tem- 
po que eftava em terra Diogo Pereira com 
muita gente Portugueza que alli ficara da 
companhia de António de Brito, que fora 

a Ben* 



a64 ÁSIA de João de Babros 

a Bengala com huma Armada, E vendo a 
gente de Tenaçarij eftes mercadores , por 
ièrem na terra conhecidos , indo, e vindo 
áquelle porto com mercadorias , fabendo 
ferem poftos naquelle eftado per os noílbs , 
correo Diogo Pereira, e os da fua compa- 
nhia grande rifco de os matarem ; mas a 
poder de peitas que deram ao Regedor, e 
Officiaes , abrandaram tudo , partindo-fe lo- 
go caminho da índia. E tornando a eíla 
náo que D, André tomou, foi vendida em 
Pacem , e fendo mui rica na conta das pre- 
zas das partes , houveram mui pequena par- 
te , e EIRey muito menos , e quafí tudo 
ficou na fua mão , e dos Ofiiciaes miniílros da 
venda, E o não querer entregar a fortaleza 
a Lopo d 5 Azevedo foi temor do. Xaban- 
dar , fe elle houveífe de ficar na fortaleza , 
vendo que lhe hia á mão aquella obra que 
elle quiz fazer , o qual além de corromper 
a muitos, que eram acceitos a elle D. An- 
dré , com dadivas , e grandes efperanças ; 
também elle D. André fe contentou com 
elleXabandar lhe prometter de o fazer mui 
rico , não fe indo pêra a índia. E confir- 
mou acceitar D. André eftas efperanças , ou 
<que quer que foíTe ; porque partido Lopo 
d'Azevedo pêra Malaca , tornou elle Xa- 
bandar á fua obra. A qual tanto que foi 
gçabada , dahi a trinta dias partio Raja 

Abrae- 






Década III. Liv.VIII. Cap. III. 26? 

Abraemo com todo feu exercito , e muitos 
elefantes a nos vir cercar , fendo fabedor 
per meio do Xabandar dos movimentos de 
D. André , e differenças que houve entre 
elle , e Lopo d 5 Azevedo. Verdade he que 
o Xabandar não fe determinou a eíía lua 
traição , fenão depois que vio o Reyno de 
Pacem tomado , fem ficar mais que a Ci- 
dade vizinha á noíía fortaleza. Porque Ra- 
ja Abraemo como tomou a Cidade Pedir, 
e ficou abfoluto fenhor delia, mandou feu 
irmão Raja Lalyla com grande exercito, 
que tomaífe todalas povoações , notáveis 
lugares de Pacem , e per derradeiro fe vief- 
fe lançar fobre a Cidade Pacem , e elle lei- 
xou-fe ficar em Pedir por fegurar as cou- 
fas daquelle Reyno. Raja Lalyla conquifta- 
do todo o Reyno de Pacem por efpaço de 
três mezes , veio aífentar feu arraial meia 
légua da Cidade Pacem, e mandou avifo a 
feu irmão como já eftava alli. E entre mui- 
tas coufas que efte Mouro teve de em tão 
breve tempo fe fazer fenhor daquelle Rey- 
no , foi fer morta a maior parte da gente 
nobre delle com Soltao Geinal , que Jor- 
ge d'Alboquerque matou , como atrás ef- 
xrevemos. E também foi tão apreífado em 
combater a Cidade, fabendo que efperava- 
mos ajuda d 5 ElRey de Arú , que quando 
elle veio ; já era (como dizem) ao atar da$ 

fe- 



166 ÁSIA de JoÃo de Barros 

fL-ridas, e aííí ter por olheiro de quanto en- * 
tre nós fe fazia o Xabandar. O qual quan- 
do vio que todo o Reyno era conquiftado , 
e noífas neceffidades , e diíferenças 5 limu- 
lando que por temor de Raja Lalyla lhe 
convinha fortalecer-fe , commetteo D. An- 
dré que lhe prometteííe fazer aqueíla for- 
ça , a qual elle já fazia com alguma inteí- 
ligencia que tinha com Raja Lalyla. Che- 
gado Raja Abraemo onde eflava feu irmão > 
a primeira cotifa que fez , foi mandar lan- 
çar hum pregão per todo feu arraial perã 
fer notório na Cidade , que quem fe qui- 
zefle vir a fua obediência , elle o fegurava 
com toda fua família , e fazenda ; e efta pa- 
lavra manteria da notificação delia a féis 
dias, paliado o qual termo não haveria mi- 
fericordia , ainda que a pediífem. A gente 
da Cidade atemorizada defta notificação , e 
affi das cruezas que elle , e feu irmão ti- 
nham feito naquelles , que fe defendiam em 
tudo o que tinham conquiftado , e também 
por fer gente , que como lhe hum Rey en- 
fadava , faziam logo outro com morte dei- 
te avorrecido , (como já contámos,) come- 
çou cada hum de noite , e de dia como 
tinha lugar de fe ir pêra o arraial do imi- 
go. Finalmente nos primeiros três comba- 
tes elle tomou a Cidade per força de ar- 
mas"., e já com elle entrou mais gente da 

que 



Década III. Liv.VIII. Cap.III. 267 

que era fahida delia , da que eftava dentro 
de maneira , que cada hum tornou povoar 
ília própria caía que tinha leixado ; e al- 
guns que eícapáram daquella primeira fa- 
ria na entrada da Cidade , acolhêram-fe á 
ferra do fertao , e matos mui efpeíTos , que 
tem por vizinhos. Em quanto efte Raja 
Abraemo efteve em cerco fobre a Cidade, 
que foram poucos dias , mandou alguns re- 
cados a D. André 5 em que lhe fazia íaber, 
que elle tinha tomado todo aquelle Reyno 
de Pacem , e fomente lhe ficava por tomar 
poífe daquella Cidade , metropoli , e cabe- 
ça dellc i que lhe aconfelhava que entretan- 
to fe foíTe embora , e levaíTe tudo o que 
tinha na fortaleza , porque elle não vinha 
a pelejar com elle por ódio que tive/Te aos 
Portuguezes > nem o havia de fazer em 
quanto foíle fenhor da Cidade. Porém to- 
mada ella , duas acções lhe ficavam pêra o 
ir lançar daquella fortaleza: a primeira , ef- 
tar em terra fua , pois ficava fenhor doRey- 
no, como o foffe da Cidade, e não havia 
de coníèntir que alguém metteíTe nelía hu- 
ma eílaea, quanto mais ter huma força ; e 
a fegundá , tinha comfigo dous mortaes feus 
imigos , o Senhor que fora de Daya , e o 
de Pedir 3 e que ambos havia de perfeguir 
onde quer que os achaíle. D. André não 
lhe faleceo a efte recado reípofta; peró de- 
pois 



2Ó8 ÁSIA de Joio de Barros 

pois que vio três combates na fortaleza > 
como era homem doente , e hum pouco 
vário em feus propoíitos , teve mais conta 
com a vida , e fazenda que alli tinha acqui- 
rido ? que com outros primores de caval- 
leria , e parecia-lhe que bailava o que ti- 
nha feito em Tanger na guerra dos Mou- 
ros , e por iííò entregou a fortaleza a Ai- 
res Coelho feu cunhado irmão de lua mu- 
lher , que fervia de Alcaide mor. O qual 
Aires Coelho como filho de Gonçalo Coe- 
lho Alcaide mor de Tanger , era nafcido , 
e criado na guerra de Africa , e mais era 
cavalleiro de fua peflòa, não receou tomar 
a leu cargo a defensão daquella fortaleza 
em tal eílado. 

CAPITULO IV. 

Como Baftião de Soufa , e Martim Cor- 
rêa chegaram a Parem , depois que par- 
tiram da índia , e Baftião de Souja ter 
pajjado muito trabalho na Ilha de S. Lou- 
renço : e como D. André tornou arribar a 

s 

Pacem , e não podendo defender a fortale- 
za , a leixáram , e fe foram pêra Malaca. 

Artido D. André caminho da índia , 
fendo na paragem da coita do Reyno 
Pedir , encontrou duas náos , de que eram 
Capitães Baftião de Soufa , e Martim Cor- 
rêa , 



Década III. Li v. VIII. Cap.IV. 269 

rea 3 que hiam pêra a Ilha Banda carregar 
de noz ,' e maça. E porque atrás delleBaf- 
tião de Soufa fazemos menção como o an- 
no de vinte e hum partio defte Reyno a 
fazer huma fortaleza em a Ilha S. Louren- 
ço , e ora o achamos aqui em fim de Se- 
tembro do anno de vinte e três , junto de 
outra Ilha que he Çamatra , tão grande co- 
mo a de S. Lourenço 3 mas mui oriental 
em fitio , ante que vamos mais adiante , que- 
remos dar razão do que fez té aqui , pois 
havemos de continuar com elle os traba- 
lhos da fortaleza de Pacem , a que D. An- 
dré também foi prefente. Baftião de Soufa 
partido defte Reyno pêra fazer a fortaleza 
em o porto Matatana , porque a outra náo 
da fua companhia , em que hia por Capi- 
tão João de Faria , fe apartou delle com 
hum temporal , quando chegou ao porto , 
onde efperava que podia ir ter y não o 
achou , de que ficou mui defcontente , por- 
que naquella náo levava todalas coufas , e 
OíEciaes que haviam de fazer a fortaleza , 
e fem ella fua chegada não fervia pêra ef- 
feito que lhe EiRey mandava : depois que 
alli efteve alguns dias efperando por ella , 
partio-íè pêra Moçambique , parecendo-lhe 
que podia a náo fer lá. E como a não 
achou , e o tempo por razão do inverno 
lhe não daya mais lugar P invernou em Mo- 

çam- 



ZJO ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

çambique ; e como veio a monção já no 
anno de vinte e dous , fez-fe á vela caminho 
da índia com fundamento que o Gover- 
nador D. Duarte de Menezes o proveria 
pêra tornar fazer a fortaleza. E fendo já 
mui perto da coita da índia , topou a pró- 
pria náo que bufeava , a qual também an- 
dava em lua bufea , por chegar depois que 
fe eile partio do porto de Matatana dez 
dias ; e quando foube que fe fora , também 
por razão do inverno , invernou na Ilha , 
e vindo o tempo hia-fe pêra a índia dar ra- 
zão de íi ao Governador. Chegado Baíliáo 
de Soufa a Goa a vinte d'Agofto , dahi a 
dez , ou doze dias chegaram também as 
náoe , que deite Reyno partiram o anno de 
vinte edous, de que atrás eferevemos , co- 
mo levaram nova EIRey D. Manuel fer 
falecido 9 e era levantado por Rey o Prín- 
cipe D. João feu filho. O qual por aíli o 
haver por mais feu ferviço , efereveo ao 
Governador D. Duarte , que as fortalezas , 
que EiRey feu pai novamente mandou fa- 
zer naquellas partes , que fe .não fizeíTem , 
e fe alguma era feira , que fe fuftentaíTe té 
lhe mandar recado , e eile prover como lhe 
■pareceffe bem. Com o qual mandado Baf- 
tiao de Soufa ficou íuípeníò do feu nego- 
cio ; mas D. Duarte , por eile fer hurij Fi- 
dalgo honrado , e de ferviço > aíli naquel- 
las 



Década III. Liv. VIII. Cap.IV. 271 

Ias partes , como cá no Reyno , lhe deo 
aquella viagem que hia fazer a Banda , e 
com eile Martim Corrêa por Capitão de 
outra náo , os quaes partiram de Cochij a 
vinte de Setembro do anno de vinte e três , 
e vieram-íe aJii encontrar com D. André , 
o qual efteve em prática com Baíiiao de 
Souia , dando-lhe conta como hia, e o ef- 
tado em que leixava a fortaleza. E o efpa- 
ço que fe com elíe deteve , fe adiantou 
Martim Corrêa , e foi tomar primeiro o 
poufo do porto de Pacem obra de huma 
légua a la mar, por alli haver muito par- 
cel , e Baíliao de Soufa três léguas delle, 
por lhe acalmar o vento. Quando veio a 
noite , Martim Corrêa ouvio muitos tiros 
de arulheria , não que fizeficm fignal , mas 
como que havia algum combate na fortale- 
za ; e no quarto da Alva fentio derredor 
da fua náo dez , 011 doze lancharas dos 
Mouros, que a rodeavam. Ecomo os man- 
dou lalvar com hum par de berços , ven- 
do que eram fentidos , e também magoa- 
dos dos pelouros , com huma grande grita 
apertaram o remo acolhcndo-fe. Vindo o 
dia , chegou á náo de Martim Corrêa hu- 
ma almadia com recado dosnoíTos, em que 
lhe faziam faber que aquella noite vendo 
os Mouros a elle , e a outra náo , conhe- 
cendo que vinha da índia , e que podiam 

vir 



tyt ÁSIA de JoÃo de Barros 

vir a feu íòccorro , os apertaram aquella 
noite com hum forte combate de maneira , 
que lhe tomaram hum baluarte com quanta 
ártilheria nelle eílava. Que lhe pedia o Ca- 
pitão Aires Coelho , e todolos moradores , 
que em toda maneira defembarcaíTem aos 
ajudar a defender aquella fortaleza , e aíli 
Jho requeriam da parte d'ElRey feu Se- 
nhor ; porque não o fazendo aquelle dia , 
fegundo a fortaleza eftava desbaratada * e 
os homens maltratados , e doentes , não 
feria muito , dando-lhe a noite feguinte ou- 
tro tal combate , ferem entrados. Martim 
Corrêa com efperança de fua ajuda os man- 
dou a Baíliao de Soufa 5 o qual mandou 
dizer a Martim Corrêa por os da almadia , 
que fe apercebeíTe , que elle fe vinha logo 
pêra ambos fahirem em terra. Entrados na 
fortaleza em feus bateis com a mais gente 
que puderam levar , leixando boa guarda 
em as náos , que já ficavam juntas , foram 
recebidos como remidores de fua vida, fe- 
gundo o mal que efperavam , e damno que 
havia na fortaleza. E logo por moílràrem 
aos Mouros que tinham animo pola ajuda 
que lhes viera de os ir commetter ás luas 
eftancias , onde citavam alojados ao longo 
do rio , efpaço que podiam receber damno , 
Martim Corrêa , que vinha de frefco , e ou- 
tros da fortaleza nos bateis com alguns ber- 
ços, 



Década III. Liv.VIIL Cap.IV. 273 

ços , e gente de efpingarclas lhe foram dar 
hum varejo , que com morte de muitps os 
fizeram affaítar do rio. E dos noííos vieram 
feridos dous , ou três de fetas de herva , 
que eJles muito ufam ; mas não perigaram , 
por já terem fua mezinha contra ella. Ha- 
vendo oito dias que os noílbs andavam nef- 
te trabalho de tapar humas minas , que os 
Mouros tinham feito pêra entrar na for- 
taleza , e repairar muita parte do damno 
que tinham feito nella , e algumas vezes 
fahindo fora , dando moftra que queriam 
pelejar com elles ; chegou D. André, que 
não pode fazer feu caminho com tempo con- 
trario por já fer paífada a monção. Os 
Mouros corn efta chegada delle affaftáram- 
fe tanto da fortaleza, que não pudelTem fer 
vifios delia , moílrando que temiam a vinda 
daquelia náo , em que defefperavam de a 
poder tomar com tanto foccorro. Peita ef- 
ta mudança em prática entre os noííos , hu- 
ma das peífoas , que fcntio fer iíto mais ar- 
dil que temor , foi Martim Corrêa ; por- 
que vendo que os Mouros, fegundo aefti- 
mação de todos , feriam quinze mil, e os 
noííos té trezentos e cincoenta homens , a 
maior parte doentes , e feridos , e bem can- 
fados do trabalho , e continuada vigia , da 
qual coufa os Mouros eram fabedores per 
avifo que tinham 3 fez que aqueila noite e£- 
Tom. III. P.iL S 4- 



174 ÁSIA de JoÃo de Barros 

liveiTem mais á Jerta , e apercebidos pêra 
combate, como de feito affi foi. Vindo duas 
horas ante manhã tão calados , como fe fo- 
ram dez homens , fendo mais de oito mil , 
e cercada roda a fortaleza em torno , co- 
meçaram de arrimar mais de fetecentas ef- 
cadas de cana , que a íèu modo são mui 
leves , e prcftes pêra fubir per ellas ; e tan- 
to que fentíram ferem fentidos , acudiram 
com huma grita per todalas partes , que pa- 
recia vir o Ceo abaixo , com que mettêram 
os noílbs em grande confusão , pofto que 
já eítavam efperando aquella hora. Mas na- 
quclles taes cafos muito vai de efperar a 
experimentar. Porque a gente deita Ilha ? prin- 
cipalmente a nós , por caufa de temerem a 
artilharia , e armas de arremedo , por não 
fazerem ponteria de dia , fempre commet- 
tem de noite. E quanto ella he mais efcu- 
ra, então mais oufados; efe chove, muito 
mais , porque fabem que neííe tempo não 
lavra a pólvora , que elles muito temem. 
Nos quatro lanços do muro eítavam repar- 
tidos em quatro capitanias , huma tinha Ai- 
res Coelho , outra Balliao de Soufa , ou- 
tra Martim Corrêa, e a quarta de Manuel 
Mendes de Vafconcelíos Capitão mor do 
mar , com muitas eítancias repartidas per as 
principaes peílbas da fortaleza. E no pri- 
meiro Ímpeto dos Mouros houve tanta prefv 

fa 



Década ITT. Liv. VIII. Cap. IV. 275 

ia em todalas partes, que ninguém leixava 
a fua , porque áquella hora todalas efcadas 
que traziam foram arvoradas ,fem algum 
temor ; e de muito oufados fem faber o que 
faziam , por razão do efcuro , os pés vi- 
nham a metter per as bocas das bombar- 
das , querendo trepar per ellas. Havendo já 
huma grande hora que de ambalas partes 
fe contendia animoíamente , os noílòs por 
os lançar a baixo , e os Mouros por fubir , 
vieram fete elefantes ao lanço que tinha Ai- 
res Coelho, e com as teftas fem temor das 
lanças que os feriram , a hum tempo , como 
fe foram homens do mar , que çalameam pê- 
ra a hum tempo porem toda a força , aíli 
a puzeram elles em o lanço da eícada de 
maneira , com que a inclinaram pêra den- 
tro , como fe fora huma febe, e cahíram 
todolos homens, que eftavam em cima. E 
porque a revolta foi alli grande , acudio 
Baílião de Soufa , e Martim Corrêa , e acha- 
ram Aires Coelho com huma chuça na mão , 
e outros com lanças a dar nas trombas dos 
elefantes , de que faziam pouca conta , an- 
te por ferem afalados de quem os manda-» 
va , hiam por diante. Ao qual trabalho acu- 
diram eftes dous Capitães com gente, e pa- 
nei las de pólvora , de que os elefantes aífi 
foram efcaldados , e aííbmbrados , que fa- 
zendo volta atrás , foram trilhando , e e£ 

S ii xnat 



ij6 ÁSIA de João de Barros 

magando té lançarem a vida a muita gente 
do arraial , e não pararam dahi a duas lé- 
guas , fem *io outro dia os poderem trazer 
ao arraial. DeíapreíTados os noíTos hum 
pouco com muito damno , que os Mouros 
recebiam em toda a parte , como gente que 
fe queria vingar , foram-fe a huns tanques 
de madeira do tamanho de cubas de ter vi- 
nho , que naquellas partes fervem em as 
náos em lugar de pipas de trazer agua , aos 
quaes puzeram fogo , e aíli a huns navios , 
que eftavam poftos em eftaleiro. O qual fo- 
go foi a elles caufa de maior deftruição. 
com a muita claridade , porque começou 
Martim Corrêa com hum camelo a fazer 
alguns tiros , e rnatou-lhes dous elefantes, 
e nos Mouros fez roítolhada de corpos mor- 
tos. Finalmente a noite ainda que pêra os 
nolfos foi de muito trabalho , fomente hu- 
ma mulher prenhe , de huma íeta de herva , 
que a foi caçar onde eílava , morreo , e 
muita gente foi ferida , e a principal peífoa 
era Manuel Mendes , que tinha huma das 
quadras , com huma lançada que houve pe- 
lo pefcoço. Porém a eiles a noite lhes cuí- 
tou mui caro por ficarem eílendidos per 
derredor da fortaleza bem dous mil corpos 
mortos , e mais de trezentas efcadas das 
que traziam , que fervíram pêra o fogo da 
fortaleza, E aífi achárarç os noííbs grande. 



Década IILLiv. VIIL Cap. IV. 277 

número de feixes de lenha untados com 
hum óleo da terra , a que os Médicos cha- 
mam Napta, o qual fe dá em huma fonte, 
que eílá naquelle Reyno de Pedir , coufa 
muito pêra temer o fogo delia por arder 
debaixo da agua , os quaes feixes foram lo- 
go queimados , por fer coufa de muito pe- 
rigo eftarem alli. A noite deite trabalho 
D. André eílava ainda em a náo , e ao ou- 
tro dia leíxando nella António Coelho de 
Soufa , que era o Capitão 3 e dante fervia 
de Capitão mor do mar , e também per 
doente hia com D. André a fe curar , em 
elle chegando á fortaleza , Aires Coelho 
feu cunhado lhe entregou a capitania. E 
paliados os primeiros dias de fua chegada , 
em que fe concertou o damno que os ele- 
fantes tinham feito , e repairáram outras 
coufas pêra fua defensão , porque já mais 
entendiam em fe defender > que offender, 
ajuntáram-fe eftas pelicas , que eram as prin- 
cipaes : D. André , Aires Coelho Alcaide 
mor , Baftiao de Soufa , Francifco de Sou- 
fa 5 e João de Soufa feus fobrinhcs , Mar- 
tim Corrêa , Manuel Mendes de Vafconcel- 
los , António Coelho de Soufa , Simão Tof- 
cano , Manuel de Faria , Manuel Lobato , 
Francifco Velho , todos peíToas nobres , e 
Officiaes daquella fortaleza , e confultáram 
fe era coufa que podia fer fuílentar aquec- 
ia 



ij% ÁSIA de João de Barros 

la fortaleza, E poítos todolos inconvenien- 
tes aífi de não poderem efperar foccorro a 
menos tempo que a féis mezes , o qual ha- 
via de vir da índia , que por razão da mon- 
ção não podia ler mais cedo , com a má 
difpoíição da gente que cada dia adoecia, 
e também falta de mantimentos , era certa 
coufa correrem grande rifco. Finalmente 
praticado efte negocio entre aspeíToas prin- 
cipaes , veio a que foíTe a mais da gente 
neíle confelho , do qual fahio que leixaíTem 
a fortaleza. E porque os -Mouros não kn~ 
tiíTem que fe embarcavam a eíle fim , orde- 
naram que a artilheria miúda fe enfardelai 
fe 5 e como coufa de mercadoria a metef- 
fem nos bateis ; e quanto a groífa , que a 
carregaífem tanto , que quando lhe puzef- 
fem fogo , arrebentaíTe. Porque como os 
Mouros eftavam dalém do rio , e elle era 
cílreito , não podiam embarcar peças tão 
groíTas 3 fenão á vida fua. E pêra eífeito 
deite recolhimento ordenaram que Mar-? 
tim Corrêa ficaífe na trazeira com doze ho-? 
mens 5 e os bombardeiros, e depois de to^ 
da a gente recolhida , puzeíTe fogo á for- 
taleza , e artilheria. O qual fe foi á Igreja , 
e tirados os retavolos , e poílos no chão, 
foram cubertos de pólvora , e pofta ella per 
caminhos , e partes que correífè o fogo per 
todo > té ir dar na artilheria groífa > veio-fe 

re- 



i 



Década III. Liv.VIII. Cap.IV. 279 

recolhendo , e hum bombardeiro de trás 
com hum murrão na mão , com que poz 
o fogo eftando já na praia. A pólvora tan- 
to que lhe tocou o fogo , fez obra de tan- 
to terror, que té os mefmos authores fica- 
ram aííòmbrados ; mas não que os Mouros 
leixaíTem de acudir , aíli a impedir os que 
fe embarcavam , como á fortaleza. E de- 
ram tanto trabalho aos que fe embarcavam , 
que foi dando-lhes a agua pelo peícoço , lei— 
xando muita fazenda na praia , de que lo- 
go foram fenhores , e aíli da que ficou na 
fortaleza , vindo ' dar moítra a feus donos 
como não era queimada. Porque paíFada a 
trovoada primeira , acudiram mui preftes 
apagar o fogo , que fe começava atear na 
folhada das cafas , e madeira ; e o que peior 
foi , não chegou a muitas peças da artilhe- 
ria , com que agora nos fazem bem de guer- 
ra. E com ella , e outra , que ante , e de- 
pois , (como fe adiante verá , ) efte Mouro 
houve de nós com damno noííb , he feito 
o mais poderofo tyranno que ha naqucllas 
partes, fem té hoje lhe termos dado caftigo 
notável. E verdadeiramente o modo que íè 
teve nefte recolhimento foi tão defordena- 
do , que quanta honra os noííòs tinham ga- 
nhado na defensão deita fortaleza , tanta 
perderam no modo de a leixar : tanto vai 
de defender a vida a defamparar fazenda 

alheia a 



2,8o ÁSIA de JoXo de Barros 

alheia , porque eíla foi a primeira coufa, 
que os nofíbs leixáram naquellas partes com 
o temor no rofto , e vergonha nas coftas. 
E o que fez efte cafo mais defaftrado foi, 
que fahindo da barra daquelle rio os nof- 
fos em três navios , e huma náo, em que 
Liam aquelles principaes defpofíados do feu , 
acharam trinta lancharas carregadas de man- 
timento com muita gente , que mandava 
EIRey de Arú em foccorro a D. André , 
que lhe elle mandara havia dias pedir, (co- 
mo efcrevemos , ) e elle vinha per terra com 
mais de quatro mil homens. E quando as 
lancharas viram o desbarate dos noílbs , 
tornáram-fe recolher , e elles feguíram feu 
caminho té chegarem a Malaca , onde tam- 
bém acharam embarcados com gente , e mu- 
nições António de Miranda , e Lopo d'A- 
zevedo , que hiam foccorrer aqueíla forta- 
leza , não lho merecendo D. André , o qual 
fe veio pêra a índia , e Baíliao de Soufa 
feguio fua viagem de Banda. E o remédio 
que houveram aquelles principaes , que fo- 
ram bufcar o amparo de noíTa fortaleza 
em huma náo de mercadores , que eftava 
vo porto de Pacem , fe embarcaram , e fo- 
ram em companhia dos noíTos té Malaca. 
EIRey de Pacem ficou com fua rnai em 
Malaca : EIRey de Pedir , e o de Daya íe 
foram pêra EIRey de Arú , e huma irmã 

def- 



Dec. III. Liv.VIIL Cap. IV- e V. 2-81 

deííe de Daya , que foi mulher deite tyran- 
no que os roubou , e deíterrou , pelo ódio 
que lhe tinha , por caula do irmão , ella o 
matou com peçonha no anno de quinhen- 
tos e vinte e oito , como veremos em feu 
lugar. 

CAPITULO V. 

Como Martim Affonfo de Mello Coutinho 
foi á China pêra fazer huma fortale- 
za , e affentar paz : e como a Arma- 
da dos Chijs pelejou com elle , com 
que lhe conveio t ornar fe. 

POis eftamos nefta. parte da índia além 
do Gange , por feguir a ordem da his- 
toria , que no principio defte oitavo Livro 
diííemos , convém tratar do que fe fez , de- 
pois que D. Duarte começou governar , té 
que entregou a governanta da índia ao 
Conde Almirante , que o fuccedeo , como 
veremos. E a primeira coufa lerá o que fez 
Martim Affonfo de Mello Coutinho na via- 
gem que fez pêra a China ? que elle Go- 
vernador defpachou , depois que D. André 
Henriques era partido peraeíla fortaleza de 
Pacem ? onde elle Martim Affonfo veio ter ; 
e aqui com as mercadorias que fez em 
Chaul j como efcre vemos , e outras de que 
fe provêo em Cochij , fez fua carga de pi- 
menta. Feita a qual ^ fe partio pêra Mala- 
ca, 



^82 ÁSIA de JoÁo de Barros 

ca , onde chegou com quatro velas , de que 
elle era Capitão mor , e das outras Vafco Fer- 
nandes Coutinho, Diogo de Mello ambos 
íeus irmãos , e Pedro Homem filho de Pe- 
dro Homem Eílribeiro mor que fora d 5 El- 
Rey D. Manuel. E o regimento que leva- 
va d'ElRey D. Manuel , era ir affentar ami- 
zade com o Rey da China , parecendo-lhe 
que a tinha a terra comnofeo por razão da 
ida de Thomé Pires , que Fernão Peres 
d^ndrade lá enviara com nome de Embai- 
xador , (como atrás eícrevemos , ) íem fa- 
ber em que eílado viera ter efta lua ida. E 
que trabalhafle muito no porto de Tamou , 
ou onde foííe mais proveitofo , e feguro 
pêra noffas coufas , fazer huma fortaleza , 
onde elie fícaíle por Capitão com os Offi- 
ciaes , e gente que levava , e ordenaíTe tu- 
do como as coufas do commercio ficafTem 
em negocio corrente ; elia era a fubftancia 
da fua ida. E porque Duarte Coelho , que 
a efte tempo eítava em Malaca, por as ve- 
zes que fora á China ? fabia bem do nego- 
cio daquellas partes ? e aíli Ambroíio do 
Rego , que o anno paíTado viera de lá a 
requerimento delle Martim Aífonfo , e de 
Jorge d'Alboquerque Capitão de Malaca, 
foram ambos com elle , mais por compra- 
zer a elles , que por fua vontade , porque 
íabiam que a terra não eítava tão alternada 

co- 



Década III. Liv. VIII. Cav. V. 283 

como eUes cuidavam , polo que com elles 
tinha paflado , e aíli fuccedeo. Porque par- 
tindo de Malaca com féis velas 3 as quatro 
que elle Martim AfFonfo levava da índia, 
e as de Duarte Coelho , e Ambroíio do 
Rego, a dez de Julho de quinhentos e vin- 
te e dous chegaram ao porto de Tamou 
em Agofto do mefmo anno , a tempo que 
os OíHciaes d'ElRey eftavam encarniçados 
na preá , e roubo , que fizeram na fazenda 
dos noíTos , principalmente de Thomé Pi- 
res , como atrás eícrevemos. Duarte Coe- 
lho como homem que tinha offendido aquel- 
la gente , ou que foífe de cautela , ou que 
ofeu navio por fer junco não era tão com- 
panheiro como os outros, não entrou com 
Martim AfFonfo dentro no porto , e ficou 
fora obra de fete léguas. Nefte tempo, por- 
que era o da monção , que os navios de 
Malaca , do Patane , e Sião vam demandar 
aquelle porto pêra fazerem feus commer- 
cios , andava o Capitão mor da Armada 
d'ElRey da China per aquella coda , e en- 
trada da Cidade Cantam. E como vio que 
os noíTos navios foram tomar porto , como 
gente confiada , e que tinha pouca conta 
com o que tinham feito, leixou-fe eftar, e 
o fez logo faber aos Officiaes de Can- 
tam , os quaes temendo que com fua vinda 
JiouveíTe alguma concórdia de paz , e elles 

tor^ 



284 ÁSIA de João de Barros 

tornaílem o que tinham tomado , manda- 
ram-lhe dizer ? que em nenhum modo os 
confentiíTc , por ferem havidos por ladrões 
eípreitadores das terras , e que EIRey afli 
o mandava ; mas que tiveíTe modo de rom- 
per com elles , pofto que pediffem paz, 
parque tudo era fingido. O qual recado 
mandaram fecretamente fem o faber o Ceu- 
Jiij , que então chegara , e não fabia parte 
do que elles tinham feito; e por fer Offi- 
ciaí fuperior delles , temiam que commet- 
tendo os noífos paz 5 e elle lha concedef- 
fe, poderia fazer juftiça delles. Finalmente 
afli como o ordenaram , aconteceo ; porque 
Martim Affonfo fem fazer algum mal , nem 
damno , pofto que foíle provocado a pele- 
jar , tirando-lhe artilheria , com que enten- 
deo que o não queriam receber na terra , 
determinou de haver lingua delia , toman- 
do duas línguas de hum barco , a que veí- 
tio, edeo dadivas, e per elles mandou re- 
cado ao Capitão mor da Armada. Mas ef- 
tes não tornaram , nem menos outros que 
foram os fegundos , ante eíles lhe difleram 
como a terra toda eftava contra elles po- 
ios damnos , e males que os outros Capi- 
tães tinham feito naquelle porto ; e que EI- 
Rey mandava que não os confentiffem alli , 
e per ventura efta era a caufa porque o Ca- 
pitão mor queria guerra com elles. Nefte 

tem- 



Década III. Liv. VIII. Cap. V. 28? 

tempo mandou elle Martim AíFonfo dous 
bateis nófíos fazer aguada a terra , os quaes 
foram commcttidòs dos Chijs de maneira , 
que vieram com fangue , e ièm agua , e 
ainda houveram que lhes fizera Deos mercê 
tornarem-íè a recolher com a vida ás náos* 
Duarte Coelho como fabia que efta Arma- 
da tinha tomada a entrada per onde fe elie 
havia de ir ajuntar com Martim Affonfo , 
não oufando de romper tão groffa coufa, 
mandou de noite huma manchua bem ef- 
quipada de remos faber o que fazia Mar- 
tim AíFonfo , e dizer- lhe , que íèu voto era 
que fe deviam todos ajuntar. Mas a man- 
chua , ou que não pode , ou como quer 
que foífe , tornou dahi a dous dias , e o re- 
cado que trouxe , foi dizer que fomente 
houvera vifta dos noflbs , e que os via ef- 
tar como gente mais fegura , do que o tem- 
po requeria , e que com os muitos navios 
pequenos da Armada dos Chijs não fe atre- 
vera chegar a elle. Martim Affonfo polo 
que tinha fabido dos da terra , e por ter 
peior íignal não haver refpofta do Capitão 
dos Chijs , que vir a pelejar com elle , quiz- 
fe fazer á vela , e tirar daquelle lugar ao 
mar largo , porque melhor lhe vinha achar- 
fe no largo , que mettido naquelle eftreito. 
E ante que defcubriífe huma ponta ? onde 
fe eiies haviam de determinar, indo diante 

feu 



z26 ÁSIA de João de Barros 

feu irmão Diogo de Mello , e Pêro Ho- 
mem , por trazerçm os navios mais peque- 
nos , quaíi como defcubridores ; como os 
Chijs eftavam em olho doqueelles faziam, 
vieram demandar os dous navios , e come- 
çaram de os esbombardear , ao que elles 
também refpondiam. Mas como aquella ho- 
ra não era dos noííbs , o primeiro fignal que 
deram de vitoria aos imigos foi accender- 
fe fogo na pólvora , que trazia Diogo de 
Mello , com que as cubertas do navio fo- 
ram poftas no ar ? e elle , e o cafco fe foi 
ao fundo. Pedro Homem poílo que tinha 
bem que fazer em li , todavia mandou al- 
guns marinheiros , que com o batel reco- 
IhelTem alguns dos noíTòs , que andavam na- 
dando , parecendo-lhe que algum poderia 
ler Diogo de Mello ; e ido foi azo de mais 
preftes os Chijs lhe entrarem o navio po- 
lo achar com aquella gente menos. Pofto 
que lhe cuftou a entrada mui caro , porque 
Peio Homem aífí como era no corpo hum 
dos maiores homens de Portugal , aíli a va- 
lentia de feu animo , e forças corporaes 
eram diíferentes do commum dos outros , 
o que poucas vezes fe acha nos de fua ef- 
tatura. E foi o feu pelejar de maneira , que 
fenao foram os tiros da artilheria , nunca 
morrera : tamanho temor tinham os Chijs 
de chegar a elle. Mas como eíta não per- 
doa 



Década III. Liv.VIIL Cap. V- 287 

doa a peííba alguina , quando anda entre 
ella , ella' o matou, e muitos que o ajuda- 
vam. E porque os Chijs quaíí todos acudi- 
ram á entrada deite navio , teve Martim 
Affonfo lugar de efcapulir daquella multi- 
dão , e veio-fe depois achar com Duarte 
Coelho na cofta de Choampa. O qual tam- 
bém teve que contar de como eícapou de 
duas Armadas dos Chijs ; mas parece que 
tinha melhor fortuna fó com elles , que 
acompanhado. Os Chijs , (como já atrás 
contámos , ) não quizeram mais pêra abo- 
nar fuás razões , que efte defaílre , e leva- 
ram muita da noíTa gente preza y tudo por 
moftrarem ao Ceuhij que nós éramos 09 
culpados , e tão foberbcs , que commettê- 
ramos a Armada d 5 E]Rey. Com o qual fei- 
to acabaram de matar Thomé Pires , e aííi 
os que com elle foram prezos , e ficou to- 
tal guerra entre nós, e elles. E fegundo al- 
guns dos noííos depois efcrevêram , mais 
morreram na cadeia de fome , e máo trata- 
mento , que lhe nella davam , que per jus- 
tiça. Porque efta de morte , como ha defer 
confirmada per EIRey , e com pregão , não 
le fez a execução nelles , fenão depois de 
vir recado d y E!Rey , que foi em Setembro 
do anno de vinte e três. E fegundo feu mo- 
do , vinte e três peífoas foram feitas em pe- 
daços, cortador lhes pés, e mãos y cabeça y 

e a 



288 ÁSIA de João de Barros 

e a fora a outra parte com pregão de la- 
droes, roubadores ,das terras, e outros fo- 
ram mortoá á béíia , celebrando muito, efta 
, juftiça por tirarem a opinião que o povo 
tinha concebido de nós , aíli em valentia , 
como em proveitofos no commercio ás ter- 
ras , onde o fizemos. Martim AfFonfô como 
não fe deteve na China mais que quatorze 
dias , em que paliou eftc trabalho , chegou 
a Malaca meado de Outubro de quinhentos 
e vinte e dous , e na monção de. Janeiro 
de vinte e três íe veio pêra a índia , e da- 
hi pêra efte Rcyno o anno de quinhentos 
e vinte e cinco , aonde chegou a falvamento* 

CAPITULO VI. 

Como com o favor do ãamno que Jorge 
$ Albuquerque recebeo em Bintam 7 o Rey 
ãejia Ilha mandou hum Capitão com gran- 
de frota fobre Malaca : e mandando Jor- 
ge d^Alboquerque fobre elle ao rio de Muar , 
feu cunhado D. Sancho Henriques , por fa- 
ber que eftava elle dentro , por huma tro- 
voada que veio , fe veio desbaratado pêra 
Malaca com perda de muita gente y que 
lhe os Mouros mataram , e fe afogou. 

A Trás ? tratando dos feitos , que fe fize- 
ram em Malaca , efcre vemos o que 
aconteceo a Jorge d'Aboquerque Capitão 

dei- 



Década III. Liv.VIII. Cap.VL 289 

delia na ida que fez a Bintam , e por lhe 
íucceder de maneira , que foi mais em fa- 
vor dos Mouros , que noílb , cobrou El- 
Rey de Bintam tanto animo , que logo nas 
coitas de Jorge d'Alboquerque mandou o 
feu Capitão mór do mar com algumas lan- 
charas ladrando trás elle a ver fe lhe po- 
dia derramar algum n-^vio manco. Mas co- 
mo defta fua vinda não levou muita gloria, 
viremos a enfiar as coufas que elle mais fez 
no tempo de Jorge d'Alboquerque té hum 
grande curfo , em que fe paliaram muitas 
naqueíla Cidade. E a primeira que eíle Mou- 
ro commetteo a feu falvo paliada efta de 
Bintam , fabendo que António de Brito era 
partido pêra Maluco , e levava muita gen- 
te , e na Cidade havia pouca , e mais del- 
ia enferma , e a outra fora morta naqueíla 
ida , veio com fuás lancharas , que são huns 
navios de remo mui ligeiros , de que elles 
ufam pêra a guerra do mar. E em fe Jor- 
ge d 5 Alboquerque recolhendo á Cidade , nas 
coitas delle chegou a Malaca , e queimou 
dous juncos , que eftavam furtos no porto , 
que eram de mercadores , e eftavam por 
defcarregar de muita mercadoria. Ao qual 
atrevimento querendo acudir Gil Simões Ca- 
pitão de hum bargantim , foi morto com 
quantos levava. Porque como andava maf- 
cabado na honra de hum feito , em que elle 
T0m.IIlP.1L T mof- 



iço ÁSIA de Joío de Barros 

moftrou fraqueza , quiz-fe neíte moftrar tão 
cavalleiro , que fe foi inetter no meio das 
lancharas. E por não poderem remar tanto 
como elle as outras que levava em fua com- 
panhia , vendo que era tomado , e as velas 
de Lacfamana muitas , não o quizeram fe- 
guir , com o qual bocado elle fe foi em 
íàlvo. Depois defte defaftre aconteceram ou- 
tros , que favoreceram a EIRey de Bhitam 
pêra mais oufadamente mandar fazer guer- 
ra a Malaca ; porque como elle vio que a 
Cidade efiava desfalecida de gente , eften- 
deo-fe com fuás lancharas a mais que an- 
darem derredor deBintam, mandando hum 
feu Capitão per nome Perduca Raja com 
quarenta lancharas todas a ponto pêra com- 
metter qualquer feito. O qual trazia por ar- 
dil vir dar huma viila a Malaca de noite y 
ou ante manhã , e tornar logo ao outro 
dia , recolhendo-fe ao rio de Muar , que 
são fete léguas de Malaca , e com eíles fal- 
tos a miúdo nos canfar , e também faria 
preá em os navios , que a elle vinham com 
fuás mercadorias. Vindo eíle Perduca Raja 
no fim de Abril de quinhentos e vinte e 
três com eftas quarenta lancharas , em fe re- 
colhendo pêra dentro do rio de Muar quaíl 
fobre a noite , houve vifta delles Duarte 
Coelho, o qual hia ení hum navio feu def- 
cubrir a enfeada de Gochinchina per man- 

• da- 



Década III. Liv.VIII. Cap.VI. 291 

dado d'ElRey D. Manuel , por ter fabido 
ler aquella enleada coufa de que fahiam mer- 
cadorias ricas. A qual terra os Chijs cha- 
mam Reyno de Cacho , e os Siamês , e 
Malayos Cochinchina , á differença do Co- 
chij do Malabar. Mas deita feita o não fez 
pelo que topou no caminho , como logo 
veremos , e depois defeubrio efta enfeada 
fem aíTentar pazes com o Rey por fer mor- 
to , e dous filhos contendiam fobre a heran- 
ça , com a qual differença Duarte Coelho 
eícapou da fúria da guerra , que então an- 
dava entre elles , e o mais que fez foi 
metter os padrões de feu defeubrimento. E 
o que topou no caminho que per eíla vez 
o tornou a Malaca foi a ver vifta das lan- 
charas de Perduca Raja , e fufpeitando ao 
que vinham , veio dar nova a Jorge d'Al- 
boquerque. E primeiro que dalli fahiflem 3 
ordenou de dar fobre elles , mandando Dom 
Sancho Henriques feu cunhado a grão pref- 
fa com dez velas , elle em hum galeão por 
Capitão mor , Duarte Coelho em fua na- 
veta , Henrique Leme em huma galeota y 
Manuel de Berredo em outra , e Diogo Lou- 
renço , Francilco Fogaça , João de Soria , 
Affonfo Luiz , e Fernando Alvares , cada 
hum em fua lanchara , nos quaes navios 
iriam té duzentos homens. E porque foífern 
mais diífimulados y mandou D. Sancho a 
T ii Hen- 



292 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

Henrique Leme , que elle com as lancharas 
fe foíTe cozendo com a terra pêra toma- 
rem a boca do rio, e elle com Duarte Coe- 
lho , e Manuel de Berredo iriam largos ao 
mar ; porque tendo os imigos vifta delles , 
parecer-lhes-hia que eram navios de merca- 
dores , e perderiam o tento da terra , com 
que os poderiam commetter mais a feu lai- 
vo. E também fe elíes quizeffem vir dar 
em Malaca, havia de fer cozendo- fe com 
a terra , e encontrallos-hiam 5 e como os 
acolheífem em mar largo 5 feriam mais fe- 
nhores delles. Henrique Leme chegado á 
boca do rio Muar, defejofo de ganhar fó 
aquella honra , mandou huma manchua , 
que he hum pequeno barco , que entraíTe 
dentro no rio , e lhe folie defcubrir o que 
faziam as lancharas dos imigos. A qual 
manchua deo com outra efpia delles , que 
também vinha defcubrir a boca do rio ; e 
com a mefma cubica de Henrique Leme de 
ganhar honra , o da noífa manchua deo na 
outra , e. a tomou, em que houve tirarem 
de ambas as partes efpinga.rdas. Henrique 
Leme quando ouvio os tiros , parecendo- 
lhe que a fua manchua era tomada das lan- 
charas dos imigos , entrou dentro no rio 
com aquelle impeto , íèm efperar por feu 
Capitão , no qual inftante huma trovoada 
que eítava prenhe de vento , em elle entran- 
do 



1 



Década III. Liv.VIII. Cap. VI. 293 

do rompeo tão fortemente , que ante de ver 
as lancharas dos imigos , foçobráram logo 
algumas noíTas , e outras ; e a galeota de 
Henrique Leme , com a fúria do vento , fo- 
ram dar entre a Armada dos Mouros , que os 
cercaram logo , e no meio do grande mura- 
lho do mar foram a maior parte mortos , 
e alguns efcapáram em huma lanchara de 
Francifco Fogaça , que veio de noite ; e o 
mais que pode razer com feus companhei- 
ros , foi defalagar a galeota da agua , e fal- 
var alguns. Vinda a manha , quatro lancha- 
ras das dos imigos os vieram demandar, e 
como gente vitoriofa pelejando foram ter 
ao galeão de D. Sancho pêra mal de ou- 
tros , que eftavam em falvo. Porque D. San- 
cho com defejo de vingança mandou Ma- 
nuel de Berredo em a fua galeota 3 e Fran- 
cifco Fogaça com a fua lanchara por ter 
gente frefca , que a outra que efcapou não 
eftava pêra iíTo , cuidando que podiam en- 
treter os imigos a não fahirem do rio , e 
foram a morrer a poder delles por ferem 
já muitos. E a elle D. Sancho , e Duarte 
Coelho , que eítavam largos ao mar, fez- 
lhes Deos mercê em virem em falvo pêra 
Malaca ; porque com a occupação de peleja 
deftes dous não os viram , nem fe vieram 
a elles , leixando lá feífenta e tantos homens 
afogados, e mortos a ferro. 

CA- 



294 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VIL 

Como ejlando D. Sancho Henriques no Rey~ 

no de Pacem a bufcar mantimentos , 

foi morto das lancharas de Bintam \ 

e de outros defajires , que os nojjbs 

tiveram com efia guerra , que 

elles faziam a Malaca. 

Odo o damno que os noflbs recebiam 
neíta guerra era favor a EIRey de Bin- 
tam , e dava-lhe tanto credito , e eítinia , 
que começou a cobrar entre os Mouros vi- 
zinhos a authoridade que tinha perdida de 
maneira , que fendo os mais deites noílbs 
amigos , e contrários delle , mudou-fe-lhe 
efta vontade com a mudança de fua fortu- 
na , fazendo que EIRey de Pam da coita 
de Malaca , fendo noflb amigo , vieífe a ca- 
far com huma filha fua em ódio noífo , e 
tiveram eíte cafamento encuberto té EIRey 
de Bintam fazer alguma boa preza , como 
fez. Porque como eítas lancharas d'E!Rey 
de Bintam não leixavam vir mantimentos a 
Malaca , ordenou Jorge d^Alboquerque de 
os mandar bufcar per todalas partes. E por 
chegar então da índia André de Brito , a 
quem o Governador D. Duarte de Mene- 
zes dera licença que foífe áquellas partes fa- 
zer feu proveito ; e elle trazia pêra iífo hu- 
ma 



Dec. III. Liv. VIII. Cap. VII. 29? 

ma náo fua bem concertada , mandou Jorge 
cPAlboquerque em fua companhia dous jun- 
cos , que foiTem todos três a Sião , por fer 
hum Reyno mui abaftado de arroz , e de 
todo mantimento. Tanto que eftas três ve- 
las foram partidas , com a mefma neceílí- 
dade mandou D. Sancho no galeão em que 
andava , e outros dous navios em fua com- 
panhia , de que eram Capitães Ambrolío 
do Rego , e António de Pina , ao porto do 
Reyno de Pam , que he na mefma coita de 
Malaca caminho de Sião, por ferRey nof- 
fo amigo , e que té então nos vinha do 
feu Reyno tudo o que neile havia , fem fa- 
ber como elle eftava aparentado em noífo 
damno com EIRey de Bintam. D. Sancho 
pola neceílidade em que leixava Malaca , e 
lè aviar mais preíles , tanto que carregou o 
navio de Ambrofio do Rego , mandou que 
fe fahiffe do rio de Pam, e o foíTe efperar 
a huma Ilha , a que chamam a Pedra bran- 
ca ; e como o navio de António de Pina 
foi também carregado , mandou-lhe que lè 
fahiífe do rio , e o efperaíTe na barra. E 
parece que afli havia de fer , que efpediíTe 
de íl as ajudas de fua vida , porque ainda 
eíle navio não era pofto na barra , quando 
fahíram trinta e cinco lancharas d 5 E!Rey 
de Bintam , que eftavam pelo rio dentro 
poíhs em cilada. E afli fe houveram com 

a 



296 ÁSIA de Joio de Barkos 

D. Sancho , que matarem a elle , e a feu 
irmão D. António , ambos filhos de D. Af- 
fonfo Henriques Senhor de Barbacena , e 
com eiles trinta Portuguezes , fomente dous 
grumetes que levaram por fignal de vitoria 
a Bintam a quinze de Novembro de qui- 
nhentos e vinte e três. E querendo vir fa- 
zer outro tanto a António de Pina, que era 
já em mar largo , porto que o leu navio 
era zorreiro , por fer junco , elle a poder 
de vela lhe efcapou com grande perigo : 
cá vendo que as lancharas lhe hiam tomar 
a boca do eítreito, per onde havia de en- 
trar 3 que he de trayeíTa pouco mais de 
hum tiro.de béíta , navegou per cima das 
Ilhas de Òuria Raja , mais por efcapar ás 
lancharas , que por ter a navegação fegura. 
E foi dar cornfigo najaua no porto da Ci- 
dade Agaçum , com que tínhamos commer- 
cio , de que adiante veremos o fim de fua 
fortuna , por contar outro tal defaítre , que 
aconteceo a André de Brito. O qual citan- 
do no porto do rio Siáo carregado de man- 
timentos , e aííi os dous juncos , que diííe- 
mos , que foram em fua companhia , foi 
ter com elles Duarte Coelho , que hia da 
enfeada de Cochinchina , quando foi defcu- 
brir correndo a coita do Reyno Choampa. 
E como era peífoa conhecida nó Reyno 
Sião, polas vezes que lá fora 3 (fegundo já 

ef- 






Dec. III. Liv. VIII. Cap. VIL 297 

efcrevemos , ) achando André de Brito , c 
os juncos quaíi retidos pelos Offieiaes d'El- 
Rey , per maldades , e coufas que Mouros 
noííbs iinigos tinham ordenado , elle os deí- 
impedio , e fe veio com elles pêra Mala- 
ca. E por o feu navio fer veleiro , veio ef- 
perallos á Ilha a que chamam Pulo Timam , 
onde lhes tinha dito que os havia de efpe- 
rar. Peró como elles tardavam ? e elle fou- 
be alli da morte de D. Sancho , e a necef- 
íidade em que Malaca eftava , por lhe acu- 
dir , partio-fe pêra lá , onde chegou a fal- 
vatnento. Os juncos apartados da náo de 
André de Brito , chegando donde Duarte 
Coelho fe partira com a nova que lhe de- 
ram da morte de D. Sancho , e também 
que as meímas lancharas tinham tomado a 
André de Brito em Abril de quinhentos e 
vinte e quatro , e mortos todos a cfpada y 
como era verdade, por feir alli metter em 
Pam com defejo de fazer algum proveito , 
não oufáram de ir caminho de Malaca , 
e tornaram- fe a Sião , aonde depois o mef- 
mo Duarte Coelho per mandado de Jorge 
cPÁlboquerque os foi bufcar , leixando já 
outro defaftre feito em Malaca , que foi vi- 
rem as lancharas com o favor deitas vito- 
rias hiima noite , e matarem a Simão d 5 A- 
breu parente de António de Brito , que ef- 
tava por Capitão em Maluco, o qual com 

as 



298 ÁSIA de João de Barros 

as neceífídades que tinha o mandou em 
hum navio. E paliando muitos trabalhos , I 
e perigos naquella viagem que fez , por não 
vir per o caminho ordinário , mas per hum 
novo que elle defcubrio per via da Ilha de 
Borneo , que he ora mui navegado pelos 
noííbs , vieram as lancharas huma noite ter 
com elle á ilheta das náos , que he defron- 
te da Cidade de Malaca obra de mil e qui- 
nhentos paííos. E poílo que elle com treze 
homens que tinha em o navio íe defendeo 
á força de ferro , não fe pode defender ao 
fogo , que os Mouros puzeram a hum jun- 
co , que eílava defpejado, que foram tra- 
zer do porto da Cidade , por fer alterofo. 
E tanto que o ajuntaram ao coftado do 'na- 
vio , puzeram-] he o fogo , e o entretiveram 
té que ambos foram queimados, fem haver 
na fortaleza quem lhe pudeffe valer. Por- 
que naquelle tempo não havia navio noflb, 
que lhe pudeffe acudir , por todos ferem fo- 
ra a bufcar mantimentos pela cofta por a 
grande fome que havia na Cidade. EDom 
Garcia Henriques neíte tempo também era 
ido a Bintam a tolher os mantimentos , e 
fazer a guerra que pudeffe ; e elle veio de 
lá com dous navios perdidos, e a gente del- 
lcs morta per hum ardil que teve Lacfa- 
mana Capitão mor do mar d'EIRey de Ma- 
laca j efoi per eíla maneira. Havendo pou- 
co 






Dec. III. Liv. VIII. Cap. VIL 299 

co tempo que D. Garcia Henriques cunha- 
do de Jorge d'Alboquerque era chegado 
de Maluco , da viagem do qual áquelias 
partes adiante daremos conta , pola muita 
guerra que EIRey de Bintam mandava fa- 
zer a Malaca , e não lhe leixar vir manti- 
mentos , que era a maior guerra que lhe 
podia fazer , quiz elle Jorge d'Alboquerque 
per o mefmo modo fazer-lhe a guerra. E 
mandou D. Garcia a Bintam com fete ve- 
las , três navios de gávea , dous caravelões ,, 
huma lanchara , e hum calaluz , de que eram 
Capitães elle D. Garcia , Roque Coelho de 
Tanger , Garcia Queimado , João Montei- 
ro , Lucas Rodrigues , João Efteves , e Vaf- 
co Lourenço , em que iriam té duzentos ho- 
mens , em que entravam muitas peílbas no- 
bres. Chegado D. Garcia á boca do rio de 
Bintam , leixou-fe eftar efperando que fahif- 
feLacfamana Capitão d^ElRey pêra pelejar 
com elle de fora , como lhe mandava Jor- 
ge d'Alboquerque , porque dentro no rio 
era coufa impoífivel pola experiência que 
tinha das eftacas , com que eftava tapado, 
e retrocido , lem navio de quilha poder en- 
trar. E quando Lacfamana não fahifle , que 
fe leixaíTe eftar no porto , como dh fazia 
no eftreito de Cingapura, e lhe tolheífe os 
mantimentos , e tomaífem os que vieíTem 
demandar o porto. Laçfamaiia era afadiga- 

do 



goo ÁSIA de João de Barros 

do d'ElRey , que vielfe pelejar com Dom 
Garcia j ao que elle rcfpondeo : Senhor , 
com Portugueses ? e navios de alto bordo 
não fe pode pelejar com as lancharas ra- 
fas como eu trago , leixe-me , qt!e eu conhe- 
ço efta gente , por me ter cujlado fangue , 
a boa fortuna anda ora comtigo , eu te vin- 
garei delles , e aíli o fez. Porque logo na 
entrada do rio em hum cotovelo que o en- 
cubria , mandou ajuntar as fuás lancharas , 
e cubrio-as tanto de rama , que pareciam 
arvores do mato , a quem as viííe de longe ; 
e feita efta encuberta , mandou duas man- 
chuas , que vieífem esbombardear osnoílos.' 
D. Garcia quando as vio tão atrevidas , man- 
dou os dous caravelóes trás ellas , as quaes 
fingindo temor , fe foram recolhendo pêra 
dentro , e os caravelóes com açodamento 
de as tomar não ouviam os fignaes dos 
tiros , que lhe D. Garcia mandou tirar por 
iignal que fe recolheífem. Mas parece que 
aquelle era o feu derradeiro dia , porque 
fahio Lacfamana tão preftes , e vivo no re- 
mo , que primeiro que ellas fizeflem volta , 
as tomou. D. Garcia quando as vio trafpôr 
da vifta pelo rio dentro , mandou a Roque 
Coelho , e a Garcia Queimado que foííem 
trás elles ; mas não fizeram tão pouco em 
efcaparem , porque como o rio todo eftava 
cheio de tranquia ? e impedimento pêra na- 
vios 



Dec. III. Liv. VIII. Cap. VIL e VIII. 301 

vios grandes não entrarem , foram dar em 
fecco , e houveram de ficar alii , fe a maré 
não viera tão açodada , que os ialvou. Ven- 
do D. Garcia efte máo princípio , e que não 
era eíla a fua hora , tornou-íè pêra Malaca* 

CAPITULO VIII. 

De algumas coufas \ que os nojjòs pafi- 
fàram na Ilha da Jau a , em que alguns 
pereceram per traições de Mouros : e da 
que Simão de Soufa , e Martint Corrêa fi- 
zeram na Ilha de Banda , onde acharam 
Martim Affonfo de Mello Jufarte em guer- 
ra coyn os naturaes : e como depois cada 
hum fe par tio a fazer fuás viagens por 
razão de feu proveito. 

■Rimeiro que entremos nas coufas de 
Maluco , de caminho iremos contando 
algumas que pa fiaram os noíTos ,. que lá 
eram , e affi em Banda a fazer commercio 
da maça, e noz, que ella tem, e começa- 
remos no que aqueceo a António de Pina , 
que ainda he parte dos defaííres de Mala- 
ca. O qual efeapando das lancharas de Lac- 
famana , e atraveífando per cima das Ilhas 
de Çuria Raja , (como atrás eferevemos , ) 
veio dar comiigo na Jaua no porto* da Ci- 
dade Agacim , quehe das mais célebres que 
pila tem ; onde com elle veio ter Simão 'de 

S04- 



302 ÁSIA de João de Barros 

Soufa , e Martim Corrêa , que hiam cami- 
nho de Banda , per o qual fouberam a mor- 
te de D. Sancho , e os trabalhos que elle 
paliou. Havendo fete , ou oito dias que An- 
tónio de Pina chegara , e como os Jáos he 
gente atreiçoada , quizeram fazer outro tan- 
to á náo de Martim Corrêa , vindo ante 
manhã féis lancharas , três de huma parte , 
e três da outra , e commettêram entrar nel- 
la. Mas quando acudio Martim Corrêa , 
que ás lançadas os fez apartar , lançaram o 
feito a zombaria , dizendo que mal rece- 
biam a gente, que lhe trazia mantimentos. 
O que Martim Corrêa diíTimulou , e difle , 
que comprar , e vender náo fe fazia ante 
manhã , que fe alevantaria mais o Sol , en- 
tão o faria , e aíli o fez , não confentindo 
que entraílem dentro , fomente a bordo. 
Partidos elles , chegou hum homem Portu- 
guez em hum paráo com huma carta a ello 
Martim Corrêa , de Manuel Botelho Efcri- 
vao de hum navio , que citava mais abaixo 
em outra Cidade per nome Surubaya. O 
qual navio era de duas peílbas , de Jorge 
Soares de Brito ; e de Chriítovão Soares 
vindos de Malaca ftzer alli feu proveito. 
Na qual carta elle Manuel Botelho lhe di- 
zia como per huma eícrava fua foubera 
que fe armavam certas "lancha rss pêra ir dar 
íobre elles, -por iíío que tiveíTem tento em 



Dec. III. Liv. VIII. Cap. VIII. 303 

íi , ou íe partifíem , fe já eftavam preítes. 
Com o qual recado Martim Corrêa fe foi 
logo a Simão de Soufa , e por já eftarem 
apercebidos , e não fe porem em rifco do 
que podia fucceder , fe partiram ao outro 
dia pêra Banda , aonde era fua viagem. Ao 
ieguinte dia , ou feriam eílas do avifo , ou 
outras , tanto que viram partidos os noíTos 
navios, como gente magoada, que perdera 
aquella preza , faltaram com António de 
Pina , que citava apoufentado em terra, e 
o mataram , com dez , ou doze Portugue- 
zes , e depois vieram tomar o fçu navio 
com quanto tinha , aíTi que fugindo de tan- 
tos perigos, não pode fugir áquelle da mor- 
te, que lhe eftava limitada na Jaiia. E Ma- 
nuel Botelho dando avifo aos outros , não 
o teve comílgo , ou ao menos os fenhorios 
delle , que andavam em terra muito defcan- 
çados em Surubaya , onde também foram 
mortos , e em lua companhia hum Fidalgo 
per nome Fernão da Silva , com outros féis , 
ou fete P01 tuguezes. E querendo alguns pa- 
ráos nefta revolta vir ao navio polo toma- 
rem , os que ficaram nelle fe defenderam 
mui bem , e fazendo-fe á vela pêra Mala- 
ca , chegaram a falvamento. Tornando á 
viagem de Simão de Soufa , e Martim Cor- 
rêa , que partiram de Agacim , temendo eí- 
tas traições ? chegaram á Ilha Banda a tem- 
po 



304 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

po que deram a vida a Martim Affbníò de 
Mello Jufarte. O qual eftava de fogo , e 
fangue com os moradores do lugar Lan- 
tor , que he da Ilha Banda , onde fe faz 
commercio da maça , e noz. Porque íobre 
difíerenças que tiveram , tinham queimado 
( hum junco que alli fora ter , e elle eftava 
jacolheito em huma tranqueira em terra, que 
fizera de palmeiras que cortara , com as 
quaes accrefcentou maior ódio , por cilas 
ferem arvores de leu mantimento. E fobre 
iíTo fez também hum junco da madeira de 
arvores que davam noz , e de outras dos 
íeus pomares de fruito , o qual mandou a 
Maluco carregar de cravo. E além diííò 
veio a fua gente a tanta foltura , que toma- 
vam o mantimento na praça , fem os que- 
rer caítigar , neceílitados de os não quererem 
vender. Com o que eftava em tanto rompi- 
mento , que fe recolheo áquella tranqueira 
fomente com fete Portuguezes , que tinha 
comíigo, e fetenta Mouros Malayos, que 
vieram pêra amarinhar o junco que lhe 
queimaram \ os quaes Mouros eftavam já 
confederados com os da terra pêra os ma- 
tarem, pofto que eram cafados em Malaca- 
E quem alli levou Martim AíFonfo , foi par- 
tir elle diante de Pêro Lourenço de Mello , 
e o foi efperar em Pedir a fazer carga de 
pimenta > pêra ambos dahi irem á China 

e Pe- 






Dec. III. Liv. VIII. Cap. VIII. 30? 

e Pcro Lourenço fbi-fe perder nas Ilhas , 
que já atrás diífemos. E vendo Marrim Af- 
fonfo que o tempo da monção pêra a Chi- 
na fe paliava , pareceo-lhe que Pêro Lou- 
renço eícorrêra , e íería em Malaca ,, onde 
o elle não achou , efteve alli perto de hum 
anno. No qual tempo Jorge d'Alboquerque 
mandou a D. Rodrigo da Silva filho de 
D. Henrique Henriques com hum navio 
pêra ir a Banda i e a Maluco ; e Garcia Cai- 
nho , que era Feitor de Malaca , armou 
hum junco , e fez huma armação com elle 
Martirn AfFonfo pêra ir carregar de ma- 
ça , e noz. Chegados elles a Banda , veio 
alli ter D.Garcia Henriques , que vinha de 
Maluco , e por a neceífidade com que fica- 
va António de Brito , D. Rodrigo fe par- 
tio pêra Maluco , aonde foi morrer de fe- 
bres. EMartim Aííbnfo ficou alli pofto em 
ódio com a gente , e havia mais de oito 
mezes que ifto era paliado , quando Simão 
de Souiá , e Martim Corrêa chegaram. Os 
Mouros da terra , que o tinham pofto em 
cerco , vendo os dous navios de Simão de 
Soufa , temendo que os havia de caftigar 
polo que fizeram , primeiro que elle tomaf- 
íe o poufo da ancoragem , vieram-fe a el- 
le, e fizeram-ihe queixume de Martim Af- 
fonfo dos males que tinham recebido ; e 
elle também depois deo fuás razões > por o 
Tom. III. P.iL V não 



306 ASIAde João de Barros 

não terem por author daquellas difFerenças; 
Porem como cada hum queria íeguir feu 
parecer , depois as tiveram ambos por duas 
caufas; a primeira por elle Martim AíFonfo 
querer que Simão de Soufa com a fua gen- 
te tomaíTe emenda dos males 5 que os 
Mouros lhe tinham feito , o que elle não 
eoncedeo \ porque vinha a fazer commer- 
cio . e não guerra. E por efta caufa depois 
de elle Simão de Soufa eítar alli , per deí- 
ordens de alguns de fua companhia os 
Mouros lhe mataram fete Portuguezes em Lu- 
tatam , onde elle citava , em que entravam 
cilas peífoas nobres : Martim de Lemos mui 
efpecial cavalleiro , Francifco Velofo , João 
Vaz , e Thomé Dias Efcrivães dos juncos 
dos armadores , e Martim Corrêa , o que 
elle diífimulou , por faber que a foberba 
dos noífos o merecia , e cumpria-lhe ter a 
terra em paz , e não de guerra. E a outra 
caufa da defavença entre elles , e Martim 
AíFonfo foi , que António de Brito , que 
eftava por Capitão em Maluco 5 por a mui- 
ta neceílidade em que eílava , mandou Gaf- 
par Gálio em hum navio , que fora de 
D. Rodrigo da Silva já falecido , como dif- 
femos: pedindo a elle Martim AíFonfo , que 
lhe mandaíTe todolos mantimentos , que pu- 
deífe haver de quaefquer navios, e juncos y 
que alli èftiveffem de mercadores de Mala-' 

ca , 



Dec. IIL Liv. VIII. Cap. VIII. 307 

ca , e iílo pola muita ncceílidade em que 
eíhva , mandando-lhe aprcfentar os poderes 
que tinha d'Eliley de Capitão daquella Ilha 
Banda. O qual Gafpar Gálio faleceo de fe- 
bres em chegando, com que o navio ficou 
vago fem Capitão ; Martim Affoníb lançou 
mão delle , dizendo , que vinha a elle diri- 
gido. Simão de Soufa como também trazia 
provisões do Governador D. Duarte de Me- 
nezes , porque mandava que elle foífe Ca- 
pitão mor de todolos juncos , náos , navios, 
que foííem ter a Banda , em quanto elle 
■nella eftiveíTe , e aos Capitães delles que lhe 
obedeceiTem j quizera tomar eíle navio pêra 
o dar a feu fobrinho Francifco de Soufa , 
dizendo , que elle Martim Aífonfo podia 
ir a Maluco em hum junco , que com a 
vinda delle começou a fazer. Finalmente 
Martim Aífonfo de Mello como o navio 
vinha dirigido a elle , por António de Bri- 
to faber que eíhva elle alli havia tempo, 
ficou o navio com elle , e feita cada hum 
fua fazenda , Baílião de Soufa fe veio pêra 
Malaca. Em companhia do qual fe vieram 
^eftes juncos , que lá foram ter , , bum de 
Martim Corrêa , que elle em Banda com- 
prou por vir nelle , e a fua náo por def- 
goftos^ que teve a vendeo a Tr.oilo de 
Soufa fobrinho de Simão de Soufa , e ou- 
tro junco era de Martim Aífonfo de^Mek 
Vii lo, 



308 ÁSIA de João de Barros 

lo , que clle alli fez em lugar do que lhe 
queimaram, E mandou nelle António Pef- 
foa , que era Feitor da armação que elle ti- 
nha feito com Garcia Cainho 5 e nos outros 
dous vieram Martim Pegado de Elvas , e 
Baftião Pegado. E Martim AíFonfo de Mel- 
lo polo que lhe efereveo António de Bri- 
to da neceffidade em que eftava , e provei- 
to que fe lá poderia fazer , por a grande 
novidade que havia de cravo , fe foi pêra 
elle em o navio em que veio Gafpar Gál- 
io ; e eftoutros fe tiveram paixões na carga , 
muito mores trabalhos foram os do cami- 
nho. Porque o junco de Martim Pegado, 
por fer pequeno , e muito carregado , com 
o primeiro tempo fe alagou , e fomente ef- 
capáram nachampana, que levavam per po- 
pa trçs , ou quatro Portuguezes , que nella 
foram ter á Ilha Bacham , os quaes EIRey 
mandou a António de Brito Capitão de Ma- 
luco. E o junco em que hia António Pef- 
foa chegou primeiro que os outros á Ci- 
dade de Agacim ; e como os Jáos eftavam 
levantados pola morte de António de Pina , 
que contámos , por emendar efte mal , fi- 
zeram outro tanto a elle , e tomaram o jun- 
co affi como hia carregado , e outro tanto 
quizeram fazer ao de Baftião Pegado , quan- 
do alli chegou em companhia de Simão de 
Souía > e vaieo-lhe cortar as amarras. Aílí 

que 



Dec. III. Liv. VIII. Cap. VIII. 309 

que dos navios que partiram em fua com- 
panhia, o feu, e eíle com outro foram ter 
a Malaca, e o de Martim Corrêa deo-lhe 
hum temporal no dia da partida , e foi ter 
a três Ilhas de Banda , onde houvera de 
fer morto pola gente da terra \ e por evi- 
tar efte perigo fe diípoz a navegar bem 
mal concertado , e foi ter á Ilha Amboino , 
onde achou Martim AfFonfo. E como os 
Mouros , que elle levava , entenderam que 
não hiam pêra Malaca , os mais delles lhe 
fugiram , e os outros que íicáram , arrom- 
baram o junco \ mas Martim Corrêa lhe 
acudio. E partidos dalli, chegaram a Ma- 
luco a doze do mez de Setembro do anno 
de quinhentos e vinte e quatro, onde logo 
foram juíliçados os Mouros , que arromba- 
ram o junco, e outros ficaram cativos. Con- 
tamos cila revolta, que foi a primeira que 
os nofíbs tiveram naquella Ilha de Banda , 
por moflxa de outras peiores coufas que en- 
tre os nofíbs paffáram , mais cauíadas da cu- 
bica do fruito que eila dá , que todos per- 
tendem trazer , que da defordem dos tem- 
poraes. E ás vezes permitte Deos que da 
femente da cubica fe colhem os defaílres 
do perdimento dos juncos , e da fazenda 
que nelles vai , e o dono em cima. 

CA- 



ftp ÁSIA de JoÁo de Barros 

CAPITULO IX. 

Como Ca chi l Mamolle irmão b afiar do 
de Cachil Daroez , que andava degredado 
em vida d^ElRey feu pai , porque feu ir~ 
mão o não confentia na terra , determinou 
de o matar , e elle cahio no laço : e do ódio 
que EIRey Almançor teve a Cachil Da- 
roez polo favor que tinha nojfo. 

PEra enfiarmos as coufas de Maluco , em 
quanto D. Duarte governou a índia , 
fera neceflario tornar ao eítado em que lei- 
xámos António de Brito Capitão da forta- 
leza de S* João de Ternate , e quando a 
elle começou a fazer ? que foi o anno de 
quinhentos e vinte e hum , (como fica atrás 
no fim do fetimo Capitulo do quinto Livro 
deita Década.) A qual foi fundada com tai*i 
to prazer 3 como depois profeguindo a obra , 
deo de trabalho aos noflbs , por fer ofiicio 
do demónio urdir , e receber coufas pêra 
fe não effeituar alguma obra em ferviço de 
Deos ; e a primeira foi efta. Em vida d'El* 
Rey Boleife defunto , pai do Rey Ayal-lo 
menino , que então vivia , andava dcíierra* 
do hum Cachil Mamolle feu filho baftardo, 
irmão de Cachil Daroez , por traveífuras , 
e coufas , per que feu pai o lançara fora de 
£ , e a eíle tempo eílava na Ilha Geiíolo. 

O 



Dec. IIL Liv. VIII. Cap. IX. 311 

D qual vendo que leu irmão Cachil Daroez 
o não queria recolher , e que por razão do 
governo que lhe a Rainha entregara , (co- 
mo atrás eícrevemos, ) e muito favor que 
tinha de António de Brito , eftava tão izen- 
to , que fazia pouca conta delle , e de outros 
homens principaes , começou ordenar com 
elles , e com a Rainha , per meios que pê- 
ra iíTo teve , que não deviam confentir que 
mais governaífe, porque hia tomando tanta 
pofíe do governo , que fe levantaria com 
o Reyno. E iíto também teceo com EIRey 
de Tidore pai da Rainha , que nenhuma 
outra coufa defejava íenão deílruir Cachil 
Daroez , quanto mais via crefcer a obra da 
noífa fortaleza. E feita a torre da menage 
com muros , e baluartes de pedra , e cal, 
e defensões que elle não era coílumado ver , 
via nelles a mefma morte. A Rainha tam- 
bém aconfelhada por feu pai , e arrependi- 
da do poder que tinha dado a Cachil Da- 
roez , pareceo-lhe que efte feu poder havia 
de matar feu filho , e deftruir a ella. Final- 
mente foi o demónio tecendo huns ódios , 
e fufpeitas deite Cachil Daroez ? que o ir- 
mão Cachil Mamolle determinou de o ma- 
tar , e não lem favor , e confelho deftas 
principaes pefToas , que lhe queriam mal. 
Mas porque elle ifto não podia fazer á fa- 
ce defeuberta P veio a Ternate de noite mui- 
tas 



31Z ÁSIA de João de Barros 

tas vezes , huma das quaes elle mefmo foi 
morto mui perto da noífa fortaleza. A fa- 
ma da fua morte teve duas culpas na opi- 
nião da gente : os que queriam mal a Ca- 
chil Daroez , a davam a elle , dizendo que 
foubera vir elle áquella Ilha de noite > que 
o mandara fazer ; outros diziam que as guar- 
das que vigiavam , cuidando fer alguma ef- 
cuita 3 o fizeram , fem faber quem era. A 
morte do qual caufou maior indignação 
contra Cachil Daroez. E como elles fabiam 
que todo feu poder , e valia procedia de 
António de Brito , determinaram de o ma- 
tar a ferro , ou com peçonha , como me- 
lhor pudeílem. E pêra iíTo EIRey de Ti- 
dore ordenou hum banquete , o qual queria 
dar por honra de leu neto em Ternate em 
fuás cafas , que eram perto da noíTa forta- 
leza , onde António de Brito havia de fer 
convidado , da qual coufa elle foi avifado 
per Cachil Daroez. Vindo o dia do ban- 
quete , pêra o qual era chamado , EIRey 
de Geilolo , e todolos principaes deitas Ilhas , 
em que fe, ajuntou grande número de gen- 
te, quando vieram chamar António de Bri- 
to , eftava elle lançado na cama com mof- 
tra de hum accidente que lhe dera. E per 
os menfageiros d'E!Rey , e da Rainha fe 
mandou defculpar, mandando em feu lugar 
o Feitor Ruy Gago pêra receber aquelia 

hon* 



Dec. III. Liv. VIII. Cap. IX. 313 

honra , com que EIRey de Tidore ficou 
em vão de feu propoílto. PaíTado o dia da 
fefta 5 em que a mais da gente fe foi pêra 
fuás cafas , leixou-fe ficar EIRey de Tido- 
re , dizendo que queria folgar alguns dias 
com fua filha , e feu neto , e ás vezes o faia 
vifitar António de Brito com moftras de 
amizade. No qual tempo elle tinha boa 
guarda na fortaleza , etudo eítava a recado, 
diííimulando com oRey, té que fe foi bem 
triíle por ver que a obra crefcia em mais 
fortaleza. Porém efte trabalho cuftou a vida 
a muitos , adoecendo a gente com elle, e 
com a variedade dos mantimentos , e mais 
eftando debaixo da linha Equinocial. Entre 
as peíTòas que daquella enfermidade mor- 
reram , as principaes foram Ruy Gago o 
Feitor , e ficou no feu officio Duarte de Re- 
sende , que era Efcrivao da Feitoria. Eftan- 
do as coufas neíle eftado entre António de 
Brito , e EIRey Almançor de Tidore , crei- 
cia o ódio cada vez mais , e o credito de 
Cachil Daroez , porque elle era o que fuf- 
tentava noílas coufas , com que recebia mui- 
ta honra deiie António de Brito , que pêra 
todos feus imigos era huma dor fem paciên- 
cia v a qual fe convertia em damnarern a 
nós no que podiam de maneira , que come- 
çaram de lhe fazer guerra a mais diffimu- 
Jada que puderam , com mandar que a gen- 
te 



314 ÁSIA de João de Barros 

te coftumada trazer mantimentos a praça, 
mo os trouxcíTem. Além difto aconteceo 
neíie tempo virem alguns juncos da Ilha 
Banda á Ilha Tidore a buícar cravo , cou- 
fa que não podiam fazer. Porque como eíla 
Ilha Banda eftava debaixo dofenhorio d'El- 
Rey de Ternate , eram elles obrigados a 
vir a ella , e não a outra parte; e affi efta- 
va affentado com EIRey Almançor que os 
não havia de receber na fua Ilha , e elle , 
e elles em ódio da noíía fortaleza hiam lá 
vender , e comprar. António de Brito man- 
dou- fe per vezes queixar a EIRey Alman- 
çor ; mas eile deo tão pouco por iífo , que 
ordenou António de Brito de mandar lá ím- 
ma fuila pêra dar cata a alguns juncos que 
alli eftavam , e que achando-ihes cravo , que 
o tomafle ; ao qual feito foi António Ta- 
vares , e por lingua António Cabral. Na 
qual falia parece que fe deímandou muito , 
com que EIRey ficou efeandalizado 3 e mui- 
to mais por irem dar cata a hum junco y 
que tinha tomado hum pouco de cravo em 
tempo que a gente delle era em terra. E 
aconteceo que com hum tempo que veio 
fubito , a fuíla foi ter á cofta , e os Mou- 
ros como viram os noíTos em terra í mata- 
ram todos 5 e affi alguns eferavos que re- 
mavam , o qual feito difleram a António 
de Brito que fora per mandado d'ElRey. 

E 






Dec. III. Liv. VIII. Cap. IX. 315 

E mandpu-fe queixar a elle da morte da- 
quelles homens , e que devia mandar cafti- 
gar os que tal obra fizeram ; ao que EIRey 
refpondeo com palavras , moílrando ter dií- 
fo muito pezar , e que quanto aos authorcs 
de tal obra , que ahi os mandava pêra del- 
les tomar emenda. O que António de Bri- 
to houve per hum grande defprezo , por fe- 
rem eftes homens que mandava muitos ei- 
ves , e que elle por outros delidtos tinha con- 
demnados á morte. Finalmente daqui femo- 
vco que António de Brito aíTentou com Ca- 
chil Daroez , que era melhor fazer defeu- 
bertamente a guerra a EIRey de Tidore , 
porque ella faria que não proíeguiíle em 
taes obras com titulo de amigo , as quaes 
havia de ufar por fer mui manhofo , em 
quanto não foífe caftigado. E pêra íe eíla 
guerra fazer com melhor cor , fez António 
de Brito per. meio de Cachii Daroez ajun- 
tar EIRey , e a Rainha com todolos prin- 
cipaes do Reyno , e lhe propoz eíla injú- 
ria /5 e damno que tinha recebido d'E!Rey 
Almançof , e aííi outras coufas , que todas 
eram íígnaes de imigo. Dadas per dle mui- 
tas razões , e taes que a Rainha ,- e todolos 
feus não tendo querefponder em contrario, 
differani que a guerra fe movia jufta mente y 
pois EIRey Almançor taes coufas confen- 
tia. E porém diífe a Rainha , que ella , e 

leu 



316 ÁSIA de JoÂo de- Barros 

feu filho queriam ir eftar primeiro á práti- 
ca com feu pai , per ventura ceifariam cites 
movimentos de guerra. A qual vifta foi no 
mar, onde Almançor veio, e em lugar de 
paz , coníiikáram como fariam guerra á for- 
taleza , do que Cachil Daroez , como ho- 
mem que trazia efcuitas nas coufas que fe 
moviam contra nós , foi logo fabedor. E 
o que mais affirmou ler iílo verdade , foi 
tolherem totalmente os mantimentos , ' que 
vinham á praça, de que a fortaleza fe man- 
tinha , e não fe podia haver huma gallinha 
pêra hum doente a pezo de ouro. Cachil 
Daroez , a quem António de Brito fazia 
queixumes deitas coufas , refpondeo-lhe , que 
ante que o negocio vieífe a mais mal , leu 
conielho era que iançaíle mão da Rainha, 
e d'ElRey , e os trouxeflc á fortaleza , e os 
tiveííe neiia em modo de reféns , em quan- 
to a não tinha acabada , e eílava tão pobre 
de gente , como havia nella , e iílo foífe 
logo ante que a Rainha fe acolheffe pêra a 
ferra , onde tinha fabido que fe queria ir 
com todolos filhos. António de Brito dan- 
do conta aos principaes da fortaleza , poílo 
que houve muitas dúvidas iobre o cafo , 
alTentáram per derradeiro eíte fer o remédio 
mais feguro por não morrerem todos á fo- 
me. Ordenado o dia que iílo havia de fer, 
cíçolheo António de Brito quarenta ; ou cin- 
co- 



Dec. III. Liv. VIII. Ca^p. IX. 317 

coenta homens , aos quaes mandou rodear 
as cafas • d 5 ElRey , e que lá achariam Ca- 
chil Darocz , que daria ordem como ha- 
viam de trazer a Rainha, e EIRey , e elle 
hia logo trás elles. Chegando es noííbs on- 
de eítava EIRey , fentindo a Rainha a gen- 
te « como mulher culpada , e que receava 
alguma coufa , fe poz em íalvo , leixando 
os filhos , EIRey , e Cachii Dayalo , e Ca- 
chilTabarija , que era o menor. Aos quaes 
Cachii Daroez não confentio tocar algum 
dos noííbs 3 dizendo , que as peílbas Reaes 
haviam de fer levantadas pelos de íua li- 
nhagem ; e chegando a EIRey , com mui- 
ta veneração o tomou nos braços 5 e man- 
dou a dous homens Fidalgos , que torna £• 
fem a léus irmãos , e os levaram todos três 
ao coilo. O rebate foi logo dado na Cida- 
de ; e fahindo com eiles já fora dos Teus 
Paços , chegou António de Brito , e os le- 
vou com aquella mefma honra , e acata- 
mento. Poftos em cima em hum apoufen- 
tamento da torre onde lhe eftava ordenada , 
como a feu modo , e como Rey que era y 
foi tanta gente derredor da fortaleza , que 
foi neceífario a António de Brito chegar a 
huma janella , e per meio de Cachii Da- 
roez lhe fez hum razoamento , todo funda- 
do no ferviço d'ElRey feu Senhor 5 e fe- 
gurança de fua peíToa y e por aíTocegar o 

ani- 



ji8 ÁSIA de JoÁo de Barros 

ânimo de algumas peflbas , que queriam 
nietter aqueíie Rcyno em revolta. E que 
lhe lembrafie quanto EIRey Boleife tinha 
cncommendado a todos a amizade dosPor- 
tnguezes , e quanto procurara aquella for- 
taleza , que ai li viam feita , a qual eftava 
toda offerecida com quantos Portuguezes 
uella houveíTe ao ferviço d^ElRey , pêra 
lhe defender feu Reyno , e eílado de feus 
imigos. E que foubeífem certo que EIRey 
citava tão contente , como nos braços de 
lua mai , e aííi feus irmãos. Per eftc modo 
Cachil Daroez como homem prudente lhe 
diíle taes coufas , com que todos fe torna- 
ram pêra fuás caías contentes do que era 
feito* E por moftra de mais fegurança da 
peífoa d'E!Rey , Cachil Daroez ordenou 
que três , ou quatro peífoas nobres do fer- 
viço d'ElRey fe vieífem pêra o fervirem y 
c que nos feus Paços lhe fizeífem o comer, 
c pêra feus irmãos , c de lá o traziam fei- 
ro pêra as peflbas que o acoftumavam fa- 
zer. Como António de Brito teve efte pe- 
nhor , per confelho de Cachil Daroez , com 
trombetas mandou denunciar guerra contra 
EIRey de Tidore , e prometter a qualquer ho- 
mem que lhe aprefentaífe a cabeça de hum 
dos feus moradores, que lhe daria hum tan- 
to. E como aquella gente he beiicofa , e cubi- 
co fa, foi tamanho o alvoroço nelles de prazer > 

que 



Dec. IILLiv. VIII. Càp. IX. 319 

que os mantimentos pêra os noflbs vieram 
logo á praça , e eram rantos os faltos que 
fe faziam na Iiha por ganhar o premio , 
que em poucos dias mandou pagar Antó- 
nio de Brito mais de feiscemos pannos. E 
além defia guerra , que fazia a gente com- 
nuim em feus pardos , mandou António de 
Brito armar hum navio pêra ir fobre o 
porto da Cidade Tidore , e lhe defender 
todolos mantimentos , e couías que lhe hiam 
de fora , a capitania do qual deo a Jorge 
Pinto da Silva. O qual eftando preíles pê- 
ra partir ; chegaram Martim AfFónfo de 
Mello Jufarte, e Martim Corrêa, que (co- 
mo atrás eferevemos) ambos fe ajuntaram 
em companhia pêra vir áquelia parte. Com 
a qual chegada António de Brito deteve 
Jorge Pinto té ver o que faria , por não ir 
fó , efperaádo que com eftes dous Capi- 
tães , e gente que traziam poderia fazer a 
guerra a Ternate mais poderofamente. Paf- 
iàdos os primeiros dias que eftes novos hos- 
pedes defeançáram , teve António de Brito 
confeiho com elles, e com Cachil Daroez. 
Porque como era homem fiel a nós , e ca- 
valleiro de fua peffoa , e de grão confeiho 
pêra aquelle negocio da guerra , convinha 
fer prefente. E aífentáram que foíTem cha- 
mados todolos principaes 5 e amigos, evaf- 
fàllos d'E!Rey de Ternate de todolas Ilhas 

a el- 



320 ÁSIA dê João de Barros 

a clíe vizinhas, que o vieífem ajudar com 
todo feu poder , os quaes nefte ajuntamen- 
to , por fer muita gente , fe detiveram mez 
e meio. No qual tempo , porque quando 
foliem tomaflem a EIRey Almançor mais 
neceííitado , mandou António de Brito ao 
ineímo António Pinto, que em o navio que 
tinha i armado fe foiTe lançar fobre o porto 
da Cidade Tidore , e com elle foi Lionel 
de Lima hum Fidalgo mancebo em hum 
zambuco , os quaes atormentaram bem a 
Cidade huns dias que alli eííiveram em lhe 
tolher os mantimentos. E como os Mou- 
ros viram que o modo delles era em ap- 
parecendo o navio , ou barco que fe vinha 
pêra a Cidade, logo hiam a elle , ordena- 
ram de os acolher pereíle feu modo, man- 
dando de noite huma coracóra , que sáo 
navios leves de remo , que a outro dia ap- 
pareceííe ao mar , como que vinha com al- 
gum mantimento da Ilha Geilolo , que eítá 
defronte. E tanto que os noíTos navios fof- 
fcm a elle , fe fizefíe em outra volta , co- 
mo que fe acolhia a hum feio, que a mef- 
ma Ilha Tidore fazia , onde eítava huma 
calheta , a de dentro da qual haviam de eí- 
tar certos paráos em cilada. E na entrada 
da calheta eílava hum recife de pedras, que 
a agua lavava de maneira , que fe não viam > 
e per cima podia entrar barco leve, fazen- 
do 



De a III. Liv. VIII. Cap. IX. 321 

do conta que efte recife feria huma rede 3 
em que elles efperavam caçar , c aífi foi. 
Porque tanto que amanheceo , vifta efta co- 
racóra , Jorge Pinto por lhe cahir mais á 
mão , fe foi a clh. E como hia alvoroça- 
do com o remo teíb quafi a proa fobre á 
popa delle , como galgo fobre as ancas da 
lebre , entrando na calheta 3 encalhou , por 
fer navio pezado , e de quilha. Ao qual lo- 
go fahíram os paráos ; e pofto que Jorge 
Pinto pelejou como cavalleiro que era , to- 
davia elle ficou alli morto com féis Portu- 
guezes , e quarenta remeiros que hiam com 
elle. Lionel de Lima quando de longe vio 
a peleja de Jorge Pinto > acudio-lhe ; mas 
não oufou ^e entrar no recife , por não fi- 
car da mefma maneira encalhado , e mais 
era já tão tarde efte feu chegar 5 que não 
aproveitara. Os Mouros dos paráos não fe 
contentaram com efte feito , que lhe fuece- 
deo fegundo cuidaram , mas ainda por mos- 
trar a Teus vizinhos a vitoria , cortaram as 
cabeças aos noftbs , e foram-fe a huma Ilha 
chamada Moutel j meia légua de Tidore, 
{por efta Moutel fer do fenhorio de Ter- 
nate , ) e com grande fefta em feus paráos 
embandeirados do mar moftráram as cabe- 
ças dos noíTos aos da terra , perguntando- 
lhes fe as conheciam • e que levaífem efta 
nova ao Capitão António de Brito. O qual 
Tom.lILP.iL X co- 



322 ÁSIA de JoÃo de Barros 

como ifto íbube per eítes moradores de Mon- 
tei , mandou logo vir Lionei de Lima pê- 
ra prover ao diante nefta guerra 5 que teve 
tão máo princípio. 

CAPITULO X. 

Como ateada a guerra entre os nojjòs , 
e EIRey Âlmançor cie Tiãore , ainda que 
no principio delia aconteceram dejajlres 
com morte , e feridas de alguns dos nojjòs , 
por fim de alguns grandes damnos que EI- 
Rey recebeo , veio pedir paz a António de 
Brito 3 que lhe elle não concedeo. 

AO tempo que aconteceo eíle defaftre 
eram perto de mil e quinhentos ho- 
mens juntos na Cidade, de Ternate , todos 
convocados pêra efta guerra contra EIRey 
Âlmançor. E tendo António de Brito con- 
felho fobre eíle cafo aquecido , e profegui- 
mento da guerra com os Capitães , que vie- 
xam de Banda , Cachil Daroez , e outros 
xnandarijs principaes , propoílas muitas cou- 
fas de huma , e de outra parte , aíTentou-fe 
<]ue era mui bem profeguir na guerra ; por- 
que era a melhor conjunção que podia íer , 
por fer junta tanta gente pêra fervirem EI- 
Rey , com animo de morrerem por elle , 
e mais por não parecer fraqueza noíTa , que 
com o primeiro damno perdíamos o fervor 

da- 



Dec. III. Liv. VIIL Cap. IX. 325 

daquella guerra. E ordenou-fe aíll , que 
Martim AíFonfo de Mello como principal 
peflba fe partiíTe logo em hum navio , e 
com elle Lionel de Lima , e Martim Cor- 
rêa em outros , e fe foíFe lançar íbbre a 
calheta ? onde mataram António Pinto , e 
alli efperaíTem Cachil Daroez , o qual ha- 
via de partir com huma frota de cem pa- 
ráos , com toda a gente da terra que era 
junta , e aífí fe fez. Chegado Martim Af- 
fonfo ao lugar ordenado , porque eílava 
jociofo efperando Cachil Daroez , e hum 
Cafpar d'Almeida , que hia em fua com- 
panhia faber huma Aldeã junto da agua hu- 
ma légua donde eítavam , diffe> que lhe pa- 
recia bem que aquella noite a foífem quei- 
mar , o que Martim AíFonfo approvou , e 
apercebeo pêra iífo dous paráos , e dous 
bateis com té quarenta homens. E porque 
determinou dar nella ante manhã , partio-fe 
de noite por não fer viílo da Cidade Ti- 
dore , porque havia de paliar ao longo dei- 
Ja pêra ir á Aldeã que eílava além. E por 
mais que elle Martim AíFonfo fe defpachou , 
por lhe fer contrario o vento > era já alto 
dia quando paíFáram per ante a Cidade. O 
porto da qya! eílava cheio de paráoS de 
guerra ; e quando viram que os noífos não 
-eram mais que quatro yaíilhas tão peque- 
nas ; entenderam que hiam dar iip)ugar 5 

X ii e fo- 



324 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

c fòram-fe trás elles, com propofito , que 
como elles fvltaffem em terra , de lhe to- 
mar a embarcação. E porque Martim Af- 
foníb chegando ao lugar , cahio no ardil 
que elles levavam , fez huma volta fobre 
elles l e com os berços ; e artilheria os cn- 
xutou longe ao, mar , e tornou-fe a huma 
calheta que o lugar tinha. Os moradores 
do qual com o temor da guerra que com 
elles tínhamos , leixáram a povoação de bai- 
xo, que feriam algumas dez , ou doze ca- 
fas , porfer de pefcadores , com huma meí- 
quita , e fubíram-fe em cima de huma ro- 
cha de pedra viva , que eítava em hum te- 
fo pouco aíFaílado da Aldeã. Martim Af- 
fonfo por não ir de balde , determinou de 
fahir em terra ; e chegando ao pé da fra- 
ga da penedia , não acharam outro cami- 
nho fenão huma vareda entalifcada com 03 
penedos de huma parte , e da outra, que 
ijiím' homehi defpejado teria bem que fazer 
em ir per elle acima. E no meio defta fu- 
"bida , onde era mais eflreita , eílava hum 
paráo atra veíTado' como defensão da paíla- 
gem 9 pêra no tempo da neceíFídade , vindo 
os imigos a elles , o lançarem fobre elles , 
e mais acima L outro polo mefmo modo. 
'Martim Corrêa como hia diante , e vió 
coufa tão difficultofa , começou de bradar 
com Gafpar d'Alnieida porque os engana- 
ra, 



Dec, III. Liv. VIII. Ca?.; IX. 32? 

ra. Ao que elle refpondeo : ^ ^t/t/>0 <7#£ 
eu vim a efte lugar , não fabia que tinha 
ejle minhoto o ninho tão alto. Martim Cor- 
rêa em modo de graça diííe : Pois eu hei 
de ver eftes minhotos como ejlam aninha-* 
dos ; e começou de ir adiante té chegar aos 
pardos; e achando ir diante íl hum Gomes 
Botelho Clérigo , perguntou-lhe ondehia? 
refpondeo : Vou lançar aquelle pardo don- 
de eftã , pêra termos lugar de ir , e fubir- 
mos acima. Pois ajji he , diffe Martim 
Corrêa 5 eu vos quero por companheiro , e 
ambos o foram lançar. Vendo iílo Francis 
co Lopes Bulhão , que eftava em baixo com 
Martim ÀíFonfo ; que Martim Corrêa acha- 
ra caminho , , como era cavalleiro , e tinha 
grandes pontos niíTo , foi-fe pela vareda 
acima ajudar a lançar o outro fegundo , e 
aífi o fizeram , que fez tamanho eílrondo , 
vindo pelos penedos abaixo , que acudiram 
os Mouros de cima. E vendo que os no£- 
fos encaminhavam a elles , começaram ás 
pedradas , e com galgas de pedra tão fu- 
riofas a defender irem adiante, queconveio 
a Martim Corrêa , e aos outros metterem-fe 
debaixo de huma lapa , que fazia huns pe- 
nedos , té que Martim Affonfo chegou com 
a gente , e começaram com as efpingardas 
apartar os Mouros de cima por não tira- 
rem mais. Na qual chegada da gente co- 
mo 



326 ÁSIA de J0X0 de Barros 

mo ò lugar era eftreito , e huns queriam 
ir por cima dos outros , acertou hum dos 
iioflbs èfpingardeiros fazer hum tiro , e não 
lhe querendo a pólvora tomar fogo , abai- 
5cou-íe pêra a concertar. E eftando nifto , 
parece que lhe ficou alguma faifca na ef- 
corvá , com que defparou a efpingarda , e 
foi dar pelo hombro direito a Martim Af- 
fonfo , paííahdo-lhe os bocetes da malha , 
té entrar dentro no corpo. Ao qual defaf- 
ire acudio logo Martim Corrêa, e tirados 
òs bocetes , que viram bufar o fangue , por- 
que parecia a ferida mortal pelo lugar on- 
<Je foi , o trouxeram a hum batel , apertan- 
"do-lhe a ferida com huma touca do mef- 
ino Martim Corrêa, que lhe fervia de ca- 
pacete. E foram- fe com eíla empreza tão 
mal acabada , que fe rematou em queima- 
rem a mefma mefquita , e cafas que alli ef- 
fcavam. Tornados todos á calheta onde ef- 
tavam os navios , foi mandado Martim 
Affonfo em hum paráo á fortaleza a fe cu- 
rar, e Martim Corrêa fe leixou ficar com 
os navios na guarda da Cidade té vir Ca- 
chil Daroez com a gente que ficava orde- 
nada. Mas António de Brito fentio tanto 
efte defaftre, que entreteve Cachil Daroez, 
e logo ao outro dia mandou vir Martim 
Corrêa com determinação de totalmente 
Içixar a guerra > temendo que com aquelles 

de- 



Dec. III. Liv. VIII. Cap. IX. 327 

defaítres viefle a perder tanta gente , que 
não tiveíTe quem lhe defendefle a fortaleza, 
porque não tinha per todolos Portuguezes 
.que eram juntos , mais de cento e vinte. 
Peró como Cachil Daroez tinha mettido nef- 
te negocio muito cabedal 5 e junto muita 
gente, e também moftravamos grande fra- 
queza por caufa ' de dous defaítres defiftir 
logo da guerra , concedeo-lhe António de 
Brito ir elle com toda a gente da terra to- 
mar hum lugar chamado Mariaco , fituado 
no meio da Ilha em hum tefo , que pare- 
cia de todalas partes , principalmente da fa- 
ce que citava contra a Ilha Ternate, onde 
tínhamos a fortaleza. E a razão que o mc- 
veo a dar neíte lugar , foi por ler o mais 
nobre , e o melhor da Ilha, onde antiga- 
mente os Reys delia eítavam ; mas depois 
por caufa do commercio dos navios que 
alli hiam bufcar o cravo , fe defceo EIRey 
á fralda do mar , fazendo novamente a Ci- 
dade em que eftava. Na qual viagem logo 
no commettimento do cafo aconteceo outro 
tal defaftre a Francifco de Soufa, que hia 
por Capitão dos Portuguezes , per eíta ma- 
neira. Cachil Daroez como levava muita 
gente , tanto que chegaram ao porto , en- 
caminhou a Francifco de Soufa per hum 
caminho mais breve pêra o lugar Maria- 
co , e diffe-lhe, que com o corpo da fua 

gea- 



328 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

gente havia de rodear per outra parte , pê- 
ra encavalgar aferra onde elle eííava alfen- 
tado , e que viria dar nelle; como déflè, 
que daria huma grita , a que elle Francif- 
co de Soufa acudiíTe. AíTentado eíte modo , 
fazendo Francifco de Souia de vagar feu 
caminho direitamente ao lugar , como os 
Mouros fe vigiavam, efentíram que vinha 
per o caminho ordinário , deícêram ao en- 
contro delle com huma grande grita. Fran- 
cifco de Soufa parecendo-lhe que era Ca- 
chil Daroez 5 que entrava já no lugar y 
aprefladamente foi dar nos contrários. Na 
qual revolta foi elle ferido em huma per- 
na com a efpingarda do mefmo efpingar- 
deiro , que ferio a Marti m AíFonfo , por 
fer hum homem hum pouco embaraçado 
quando vinha ao ufar de feu officio. Pare- 
ce que o temor o tornava no que devia de 
fazer ; e fe Cachil Daroez não acudira , hou- 
vera- fe de fazer mais mal , que ferirem 
quantos feriram dos noíTos. E por falvar 
a peflba delle Francifco de Soufa, tornou- 
fe aos batéis , mandando elle , e os feridos 
a António de Brito , aqueixando-fe delle 
guardar tão mal a ordem que lhe dera: 
que lhe pedia que fe não agaílaíTe , que 
elle fomente com os feus queria profeguir 
naquella coufa 3 e que não fe havia de ir 
dalli té lhe fua mercê mandar Martim Cor- 
rêa, 



Dec. III. Liv. VIII. Cap. IX. 329 

rea , por fer homem mais maduro , e ufa- 
do na guerra que Franciíco de Souía , por 
fer ainda mancebo , e novo nella , e com 
Martim Corrêa vieílem de quinze té vinte 
Portuguezes, e que não queria mais. Antó- 
nio de Brito totalmente com eííe terceiro 
defaftre poz-fe em nao querer mais profe- 
guir na guerra , e aííi o mandou dizer a 
Cachil Daroez , e que efpediííe a gente ; 
mas elle como era homem cavaJíeiro , e 
por nao perder feu credito , e também não 
dar gloria a feus imigos , Jeixou a ília gen- 
te onde eítava encommendada a hum leu 
Capitão ; e tanto pode com fuás razoes , 
que houve António de Brito por bem que 
foiíe com elle Martim Corrêa com té vinte 
homens. E eícreveo a Lionel de Lima , 
que eítava lobre o porto de Tidore pêra 
lhe tolher os mantimentos , que fe foííe pê- 
ra Martim Corrêa com alguns homens , lei- 
xando o navio a bom recado , o que eíie 
fez, levando comfigo quinze homens. Efte 
lugar de Mariaco , como diíTemos > eítava 
em hum alto todo cercado de madeira mui 
groíTa , e baita , com traveíTas de outros 
páos per dentro pregados com pregos groi- 
fos , e fuás guaritas em cima em partes pê- 
ra defender a ílibida , e por caufa do re- 
bate que lhe deram , eílavam com dobrada 
artilheria, e gente. E poíla toda em cima 

aííi 



53o ÁSIA de João de Barros 

afli a de Cachil Daroez , como a noíTa , 
quiz Martim Corrêa dar huma vifta ao af- 
fento do lugar 5 e tomou logo poíTe de duas 
ferventias , onde poz homens. E na que 
hia contra Tidore poz hum berço de me- 
tal , e com elle Lionel de Lima , donde po- 
dia fazer muito damno ao lugar , por lhe 
ficar ao fob pé , e mais defenderia fe algum 
foccorro lhe viefle per 3quella parte. E de- 
pois que andou notando , e per onde era 
mais fácil entrada , primeiro que começaf- 
fe a fazer alguma obra , foi-fe a hum vai- 
]e ahi perto , onde Cachil Daroez eílava 
lançado com fua gente logrando a frefcura 
de huma ribeira , que corria mui graciofa , 
por defencalmar da calma grande que fa- 
zia. E entrando Martim Corrêa per entre 
a gente, que eílava toda bem defcançada, 
como quem queria primeiro ter a féfta , e 
vinha de vagar a cercar o lugar , começou- 
lhe a dizer : Sus , fus , he tempo , vamos 
afazer nofja obra. Ao que eíles refpon- 
dêram : Ainda não nos chegou a vontade ; 
porque elles em quanto lhes não vem aquel- 
le furor de pelejar , ninguém os move. Ca- 
chil Daroez vendo Martim Corrêa como 
vinha apreíTado , diíTe-lhe : Logo me vou 
trás elle , porque ejla gente eu fei como fe 
quer , e não fe move fenão afeu modo. Mar- 
tim Corrêa como vio o feu vagar P tornou- 

fe, 



Dèc. III. Llv. VIII. Gap. IX. 331 

fe , e levando comfígo feíe , ou oito man- 
darijs delles , homens feus amigos , que fe 
prezavam de cavalleiros , e com outros tan- 
tos que o quiseram feguif , foi-fe pôr em 
huma parte da cerca , que tinha os páos 
mais ralos , e não taõ fortes , por ter de 
dentro huma parede de huma cala compri- 
da , que encubria aquella entrada , a qual 
Martim Corrêa tomava por mais fegura , 
porque entrando na cafa, ficava já além da 
cerca dentro na povoação , e defendido com 
as paredes da cafa. E determinando-fe de 
entrar por aquella parte , mandou chamar 
Lioncl de Lima , que eftava em guarda do 
berço , e trouxe comfígo alguma gente ; ao 
qual deo conta de fua determinação , eeíle 
refpondeo que tal não fizeífe , por fer cou- 
fa mui perigofa , e que elíe tinha huma car- 
ta de António de Brito , em que lhe man- 
dava, que commettendo elle Martim Cor- 
rêa coufa de tanto perigo , que lhe reque- 
re& de fua parte que tal não fizeífe. E fo- 
bre iífo tirou huma carta , e começou de a 
ler diante da gente em alta voz que ou- 
viífem todos , amoeílando-lhe que obede- 
ceífem a feu Capitão mor. Ao que Mar- 
tim Corrêa refpondeo : Senhor Lionel de Li- 
ma , António de Brito me dava hum regi- 
mento , quando determinou de eu vir a efie 
negocio , e eu lhe refpondi que não tinha já 

ida^ 



33^ ÁSIA de JoXo de Bakhos 

idade pêra ler regimentos , que o leixajje 
em mim , e não me ataffe o entendimento , 
e as mãos \ vojfa mercê fe vá embora guar- 
dar o beKÇQ com a gente que lã tendes , 
leixai-me effes homens que trazeis , fe co- 
migo quizerem ficar. Peró como elles que- 
riam mais obedecer ás palavras da carta de 
António de Brito , que ás de Martim Cor- 
rêa , íeguíram a Lionel de Lima. Somente 
Joanne Mendes hum cavalleiro , ( como o 
era de ília peflba , ) diííe a Martim Corrêa : 
Eu , fenhor , não tenho mais companhia co- 
migo , que efta chuça , e adarga , que tra- 
go nas rnaos ; fe vos eu contento com <?/- 
las , vamos aonde quizerães , que eu vos 
acompanharei té morte. Martim Corrêa dan- 
do publicamente a Joanne Mendes os agra- 
decimentos de tão honradas palavras , che- 
gou-fe a elle paíTo , e dilTe-lhe o que ha- 
via de fazer. E porque defta banda de fora 
ao longo dos páos , per onde elle efperava 
entrar , eftava huma caniçada , diííe Mar- 
tim Corrêa aos mandarijs que com os feus 
criados a derribaflem" ? e viííem fe tinham 
os Mouros mettidos per alli alguns eftrepes 
de peçonha , coufa entre elles mui ufada. 
Derribada a caniçada , e o lugar leguro da 
fufpeita dos eftrepes , chegou-fe Martim Cor- 
rêa , e per hum canto abalou hum páo da- 
quelles çom tanta força que o moveo per 

hu- 



Dec. III. Liv. VIII. Cap. IX. 333 

huma parte per onde entrou de ilharga, e 
trás eile dous criados feus com efpingardas. 
Joanne Mendes, que também andava buf- 
cando entrada per alguma parte, como vió 
Martim Corrêa entrar , foi-fe trás elle , e 
afíi hum dos mandarijs que o feguiam. Os 
Mouros como fentíram lua entrada ^ aíli 
das guaritas , como de dentro , a pedradas , 
frechadas , e zargunchos offendiam bem ; e 
o primeiro fignal que tiveram de boa ven- 
tura , foi que andando entre elles hum Mou- 
ro honrado parente d ? E!Rey de Tidore , 
muito aflignado, governando os outros , fez 
tão boa ponteria hum dos efpingardeiros , 
com que o derribou. Sobre o qual cafo 
Lionel de Lima , do lugar onde eílava por 
fer alto , vendo o trabalho em que Mar- 
tim Corrêa andava , acudio com fua gen- 
te , e juntos todos em hum corpo , come- 
çaram a ferir os Mouros de maneira , que 
fizeram huma boa praça. A efte tempo foi 
dado nova a Cachil Daroez como o lugar 
era entrado dos noíTos , e com alvoroço, 
bem como huma banda de eftorninhos def- 
ce a huma arvore onde fe quer poufar, 
afii a fua gente foi em hum avoo fobre as 
tranqueiras, e dahi entraram na povoação, 
fazendo maravilhas nos Mouros que cita- 
vam dentro, fendo todos homens de pele* 
ja. Porque as mulheres , e filhos tinham 

pof- 



334 ÁSIA de João de Barros 

poítos em fuás fazendas lá por dentro da 
ferra , receando eíta entrada noífa \ alruns 
dosquaes , que feriam té cento e tantos ho- 
mens , cuidando que podiam fegurar a vi- 
da , fubíram-fe em humas arvores altas de 
fruito da terra , que os moradores tinham 
poftas nas portas pêra fombra. Os contrá- 
rios , que era a gente de Cachil Daroez , 
não faziam fenão derribar nelles ás frecha- 
das , como íè foram aves de caça , fem lhes 
aproveitar ent regarem- fe por cativos. A ef- 
re tempo eftava Martim Corrêa aífentado 
fobre hum aflento a huma porta , que fe 
não podia bem affirmar fobre huma perna , 
que tinha ferida , de hum arremeífo , que 
lhe fizeram á entrada ; e quando foube a 
crueza que os debaixo ufavam com os de 
cima da arvore J chegou lá , e não havia 
remédio com Cachil Daroez que quizeíTe 
dar vida áquella gente, que fe entregava, 
dizendo fer antigo coíhime , e quaíi antre 
clles religião , que não podiam quebrar; 
que quando algum Rey , ou pefiba em feu 
«orne era em guerra , e os imigos ante de 
virem a pelejar fe não entregavam , depois 
mo lhe davam vida. Neíla prática parece 
que hum dos de cima defefperou da vida, 
■c por fe vingar leixa-fe cahir da arvore, 
c tanto que foi no chão, arremetteo a hum 
lios aofffis cpm hum criz , que he arma co- 
mo 



Dec. IIL Liv. VIII. Cap. IX. 33? 

mo as noflas adagas , e metreo-lho pelos 
peitos ; mas elle foi logo feiro em felada , 
íem lhe ficar membro inteiro , a qual cou- 
fa azedou mais Cachil Daroez. Todavia 
Martim Corrêa não podendo ver a carni- 
ceria que os Mouros faziam em defcabe- 
çar , e andar ás rebatinhas a quem levaria 
hum a cabeça deli es 5 como fe fora huma 
fruita muito golofa , que fe lançava da ar* 
vore , moveo a Cachil Daroez com eíta ra- 
zão , dizendo fer aquella guerra feira em 
nome d ? ElRey D.João de Portugal , e não 
d'E!Rey de Ternate, com que elle conce- 
deo recebellos com feguro das vidas. E pê- 
ra iílo foi neceíTario fazer huma certa cem* 
monia 5 fegundo feuufo, quando concedem 
tal coufa , que foi mandar trazer huma pou- 
ca de agua, e lançada pelo punho da efpa- 
da , a bebeo pela ponta. Martim Corrêa 
acabada a fua ceremonia , tcrnou-fe aflentar 
onde eítava , em quanto os Terna tes anda- 
vam a defcabeçar os corpos mortaes dos 
Tidores , por não haver já mais que fazer; 
mas primeiro que fe elle foflè dalli 3 fe vio 
em maior perigo , e trabalho , que em to- 
do aquelle feito ; e o cafo foi eíle. Tem 
o demónio tanto poder, que tem femeada 
per todalas gentes huma opinião de honra 
•de cavalleria ; e quanto elles são mais bár- 
baros , mais barbaramente ufara no venci- 

meu- 



33^ ÁSIA de João de Barros 

mento de íeus imigos. Das quacs opiniões 
vem quenaquellas partes o maior íignal que 
hum homem pode levar de guerra pêra 
ler eftimado de cavalleiro , e receber ac- 
crefeentamento de feu Rey , he levar mui- 
tas cabeças de íèus imigos , e não fe tem 
em conta íe os matou elle , ou não , le- 
ve-as huma vez, queiíto baila pêra fer tido 
por cavalleiro. Com a qual gloria de hon- 
ra vinha hum Mouro dos Ternates com 
duas cabeças atadas huma na outra ao peJP- 
coço , correndo-i he o fangue pelos peitos , 
mais contente, que fe trouxera hum fiorde 
perlas com duas jóias muito ricas. Trás o 
qual Mouro vinha outro , e de quando em 
quando tirava-lhe de huma das cabeças que 
lhe queria tomar, e o que era fenhor dei- 
las , arremettia a elle com grande fúria , de- 
fendia-fe delle com as mãos , e doeílos da 
lingua. Chegados com eíle entremez onde 
eítava Martim Corrêa , começou o velho 
com grande paixão dizer : Senhor , valei- 
me aqui ; dizei a efie homem que me dê 
huma cabeça de fias , porque fou fenhor de 
hum pardo , e não tenho nenhuma pêra le- 
var nelle pêra minha honra , e elle leva 
duas fem ter paráo. Martim Corrêa cui- 
dou que não fazia tanto mal , começou de 
rogar ao das cabeças que déífe áquelíe ho- 
mem honrado huma das que levava ; ao 

que 



Dec. III. Liv. VIII. Cap. IX. 337 

que elle refpondeo , que não dormira elle 
a féfta no valle onde os fora buícar , e 
houvera cabeça ; mas fem fuor , e feu fan- 
gue querer ganhar honra , que não eftava 
em razão , porque a honra era filha do tra- 
balho \ e a preguiça madre da baixeza. O 
outro dava defculpas, e matava-fe, pedin- 
do a Martim Corrêa que em toda maneira 
lhe houveíTe huma daquellas cabeças ; o 
qual querendo lançar mão do fenhor dei- 
las , pêra lhe tomar huma, deo dous puí- 
los pêra trás , bradando como fe fora hum 
homem fó , que o querem roubar ladrões; 
a que logo acudiram alguns tão indigna- 
dos , como que queriam defender aquella 
força de maneira , que os leixou Martim 
Corrêa litigar em fua honra. Acabado de 
íc defembaraçar delies ; em que fe mais de- 
tiveram , que no vencimento , mandou per 
parte poer fogo ao lugar. O qual como era 
de madeira , e bem fecca , começou de la- 
vrar de maneira , e fez tamanha luz , que 
vinda a noite , parecia huma ferra de laba- 
reda , que foi vifta da nofla fortaleza , e 
deo fignal aos noíTos da vitoria que tinha 
havida Martim Corrêa. O qual embarcado 
com toda a gente a requerimento de Ca- 
chil Daroez , paíTou pela Ilha Maquiem , 
a metade da qual era d'ElRey Almançor de 
Tidore 5 e a outra d'ElRey de Ternate. E 
Tom.III. P.iL Y che- 



338 ÁSIA de João de Barros 

chegando a. hum lugar dos deTidore, que 
eítava á borda da agua , mandou Cachil Da- 
roez chamar alguns dos moradores, amof- 
trando-ihe as cabeças que levavam dos Ti- 
dores , dizendo que íefizeíTem vaíTallos d'El- 
Rey de Ternare , e não curaíiem d 5 ElRey 
Almançor , e fenão , que fahiriam logo em 
terra a lhe fazer outro tanto. Finalmente 
eftes com trazerem logo prefentes , e outros 
que também íè deram, e outros que foram 
conquiítados a ferro , fahindo os noffos em 
terra , nao fe foram daquella Ilha fem to- 
da ficar por d^ElRey de Ternate. E nao 
tardou muitos dias depois que Martim Cor- 
rêa chegou a Ternate , onde foi recebido 
com muito prazer , e honra, que per or- 
dem de Cachil Daroez elle Martim Corrêa 
foi á Ilha Batochina , hum lugar chamado o 
Gane, que era d'ElRey de Tidore , feííen- 
ta léguas de Ternate , o qual deftruio , e 
aífi houve muitas vitorias dos Tidores no 
mar , fervindo já neíle tempo de Capitão 
mor do mar, e Alcaide mor da fortaleza , 
que lhe António de Brito, deo pelos fervi* 
ços que alli fez. Com as quaes vitorias El- 
Rey Almançor fe vio tão perdido , e atri- 
bulado , que mandou pedir pazes a Antó- 
nio de Brito , que lhe elle nao concedeo , 
porque o temor deíle aíTombraífe os outros 
vizinhos anão quebrarem a noífa amizade.., 

co- 



Dec. III. Liv. VIII. Cap. IX. 339 

como efte quebrou. E porque eftas coufas 
já foram feitas no fim do anno de quinhen- 
tos e vinte e quatro , e na entrada de vin- 
te e cinco, em que na índia eílava o Con-. 
de dá Vidigueira Almirante dos mares dei- 
la , de que veio por Vifo-Rey pêra a go- 
vernar 5 leixaremos as mais deite Oriente 
pêra feu tempo , por efcrever as que elle 
paliou depois que partio do Reyno de Por- 
tugal, e nellas começaremos o Livro nono 
deita terceira Década. 






y u de- 



DÉCADA TERCEIRA. 
LIVRO IX. 

Dos Feitos , que os Portugueses fize- 
ram no defcubrimento , e conqnifta 
dos mares, e terras do Oriente: em 
que fe contém as coufas , que fe nel- 
la fizeram, em quanto o Almirante 
Conde da Vidigueira foi Vifo-Rey 
naquellas partes: e aífi do tempo que 
D. Henrique de Menezes as governou. 

CAPITULO L 

Em que fe efcreve o modo que fe ter* 
na eleição da pejfoa do Governador da In 
dia : e quando falece , como o fuccede 
pejfoa que la ejlâ : e como o anno de qui- 
nhentos e vinte e quatro EIRey D. João 
mandou o Conde da Vidigueira por Vifo- 
Rey d índia : e do que pajfou no caminho 
té chegar a Goa. 

Uitas coufas leixam de efcrever os 
Efcritores da hiftoria por ferem 
mui fabidas , e notas aos vivos da- 
quelle Reyno , e tempo , em que elles es- 
creveram , donde fe fegue ficarem elles fe- 
pultados no decurfo do tempo , cuja me- 
mo- 




Década III. Liv. IX, Cap. I. 341 

moria he mui fraca , fenão he ajudada da 
efcritura. Porém quando em alguma parti- 
cular achamos coufa do que elles não fize- 
ram menção 3 ora feja de cafo aquecido y 
ora de coílume , e governo da noíTa pró- 
pria pátria , deleitamo-nos muito com eíta 
tal novidade, eás vezes tomamos a mefma 
coufa partada pêra exemplo do prefente go- 
verno. E porque a principal que a índia 
tem he a peífoa do Governador 3 e Capi- 
tão geral delia , diremos aqui o modo de 
como he eleito quando daqui parte , e o 
juramento que lhe dam y e quando acaba 
o feu tempo , o que faz na entrega do pró- 
prio cargo áquelle que deite Reyno vai pro- 
vido em feu lugar , e também per que mo- 
do fuccedeo o que lá eílá , quando algum 
falece. Porque ainda que eítas coufas a nós 
osprefentes fejam commuas , podem fer co- 
nhecimento aos eílranhos de como gover- 
namos aquelles efiados do Oriente , e os 
noíTos que depois vierem , faibam como fe 
confervou per bom confelho ; pois muitas 
das coufas per que fe elle defcubrio , e con- 
quiftou , que foram obras de feus avôs > ei- 
ta noífa efcritura os tem feito herdeiros da 
honra , que vertendo feu fangue elles ga- 
nharam. O Governador que deite Reyno 
he enviado , fempre na eleição delle fe tem 
efta confideração , que íeja homem de lim- 
po 



342 ASIÁ de João de Barros 

po fangiie , natural , e não eftrangeiro , 
prudente , cavalleiro , bem coílumado ., e 
que íe tenha delle experiência em caíòs fe- 
melhantes de mandar gente na guerra. E 
por evitar os artifícios que fempre ha nel- 
tas eleições acerca dos Officiaes , e peflbas 
do cohfelho d'ElRey 3 com osquaes -elle 
corifulta eftas coufas , donde fe pode pre- 
verter efta íua ordem de eleger , além das 
coufas que efte eleito pêra Governador jura 
de guardar*, e cumprir , pondo corporal- 
mente as mãos nos Evangelhos , he quê per 
íi 5 nem per outrem pedio, nem requereo 
o tal cargo. Porque qiiér EIRey que hu- 
ma tão grande cotifa , como he fer Gover- 
nador da índia > não feja havida per reque- 
rimento, fomente per eleição. E as outras 
coufas que jura acerca de fazer ; e guardar 
juftiçà , cumprir os regimentos d'E!Rey que 
lhe forem dados , e não receber ferviços, 
e peitas de todo género de homem , e que 
proveja os cargos } e officios aos criados 
d'EiRcy - e não aos feus , e outras coufas 
quê ha de guardar^ he hum temor ouvillas, 
quanto mais confiar hum homem que as po- 
de inteiramente cumprir. E não dá S. Pau- 
lo tantas partes a hum Sacerdote , que ha 
de acceifar a Dignidade Epifcopal pêra fer 
acceito a Deoâ ; quantas em feu modo hum 
Governador da índia jura primeiro qu€ en- 
tra 



Década III. Liv. IX. Cap. I. 343 

tra nefla religião , que geralmente dura pou- 
co mais de três annos. E prouvefle a Deos 
que no primeiro anuo de feu noviciado 
guardaíTem alguns a meia parte do que os 
obriga o juramento ; porque fe aílí fofle , 
não veriamos em eiles chegando a eíle Rey- 
no os Jibellos , que contra os taes faz o 
Procurador d'E!Rey. Peró como a cubica 
he raiz de todolos males, quando ella en- 
tra em o peito de hum homem , e elle a 
tem abonada per eíle provérbio do Mun- 
do : Dos nefctos leaes fe enchem os Hof 
pitaes ; e per experiência tem vido que 
acerca do -mcfmo Mundo, em melhor eíta- 
do ficam os culpados , que os fem culpa ; 
fazem conta que quem paífou tantas trovoa- 
das dos mares daquelíe Oriente , que aíli 
paffaráo as trovoadas , e relâmpagos fcc- 
cos dos libellos cá na terra do Ponente 3 a 
qual he pátria , e mui piedofa de quem tem ? 
e efquiva a quem fe mal aproveitou \ pois 
não podem aproveitar com a fazenda , que- 
não trouxeram , que da peífoa poucas ve- 
zes tem feus amigos neceffidade delia , pois , 
louvado Deos , vivemos ern terra, em que 
não ha bandos pêra fe haverem mifter ar- 
mas. Quanto á entrega que o Governador 
faz na índia a quem o fuecede , as mais 
vezes coftuma fer feita em alguma Igreja 
das que temos fundadas naquelle Oriente. 

E 



344 ÁSIA de João de Barros 

E alli per virtude das patentes que leva o 
outro que de cá vai , que he aprefentada , 
e lida por o Secretario , fendo prefentes os 
Capitães , e principaes Fidalgos , que fe alli 
acham, e aíli os Officiaes dajuftiça, efazen^ 
da , elle faz a entrega , pedindo logo hum 
inftrumento de como a entregou , nomean- 
do as fortalezas que lá temos 5 e em que 
eftado a entrega. E além defte inftrumento 
pêra mais fua abonação , pede certidões aos 
Officiaes de fazenda década huma das for- 
talezas , de como as leixou providas do ne*- 
eeíTario pêra fua defensão , e de todo q 
mais neceífario j e quando algum Governa^- 
dor lá falece , tem-fe eftoutro modo. Em 
poder do Veador da fazenda da índia , que 
he a fegunda peífoa no governo da fazen^ 
da depois do Governador, eftá hum cofre 
com três , ou quatro Patentes d'ElRey , fe-r 
.chadas , e aflelladas , as quaes chamam fuc- 
cefsôes , e tem per cima efta efcritura : Sue- 
eefsao de foao , eiílo nomeando ao que en-r 
tão governa , que nos outros por íè não fa- 
ber quaes são os que eftam por vir , cha- 
mam ás taes , fegunda , terceira , quarta fuc- 
cefsão, e aqui afiigna EIRey. E na efcri- 
tura que tem dentro declara EIRey haver 
por bem que elle fueceda a foão quando 
falecer , &c. onde EIRey tem aííignado. Ef- 
te he o modo que fe tem no prover dos 

Go- 






Década III. Liv. IX. Cap. I. 345- 

Governadores da índia , e damos efta noti- 
cia por as razões acima ditas ; e também 
porque daqui em diante veremos huns aos 
outros fucceder per óbito , o que té ora 
não vimos , e o perigo em que a índia ef- 
teve por fe não guardar efte modo de abrir 
as fuccefsoes. E porque eíle anno de mil e 
quinhentos e vinte e quatro D. Duarte de 
Menezes acabava de fervir de Governador 
em aquellas partes os três annos ordenados 
a ella , e aos outros officios ; EIRey Dom 
João o Terceiro deite nome , por haver pou- 
co que reinava , não tinha de cá doReyno 
enviado ainda algum , quiz que efte primei- 
ro , que elle elegia , fofle o primeiro que 
deícubrio a meíma índia , o qual era o Con- 
de da Vidigueira D. Vafco da Gama Al- 
mirante do mar Indico. Porque além de nel- 
le concorrerem as qualidades que acima dif- 
femos , haverem de ter os eleitos pêra efte 
officio , como elle no defcubrimento delia 
padecera tantos trabalhos , ter-lhe-hia amor 
pêra a governar , e trazer ao eftado do ju- 
go da fervidão , de que os infiéis delia fe 
qqeriam livrar, epera accreícentamento do 
feu nome lhe deo o titulo de Vifb-Rey. 
Pêra a qual ida, eftandoEJRey na Cidade 
Évora , fe apercebeo em Lisboa huma fro- 
ta de quatorze velas , de que as nove eram 
náos groíTas de carga 7 e as cinco caravelas 

la- 



346 ÁSIA de João de Barros 

latinas , a qual partio de Lisboa a nove de 
Abril do meímo anno vinte e quatro. Os 
Capitães das quaes náos eram , D. Henri- 
que de Menezes filho de D. Fernando de 
Menezes de alcunha Roxo , que havia de 
íervir de Capitão de Ormuz , Pêro Maíca- 
renhas filho de João Mafcarenhas , que ha- 
via de fervir de Capitão de Malaca , Lopo 
Vaz de Sampaio filho de Diogo de Sam- 
paio , que hia por Capitão de Cochij , Fran- 
ciíco de Sá Veador da fazenda do Porto , 
filho de João Rodrigues de Sá Alcaide mor 
da mefrna Cidade , e Senhor de Mato.fi- 
jihos , e das terras de Sever , Baltar , e Pai- 
va , o qual com huma Armada havia de ir 
á Jaiia fazer huma fortaleza onde chamam 
Sunda. D. Simão de Menezes filho de Dom 
Rodrigo de Menezes , provido pêra Capi- 
tão de Cananor , e D. Jorge de Menezes , 
que fez aquelle honrado feito em Chaul , 
quando mataram Diogo Fernandes de Be- 
ja ; e António da Silveira de Menezes filho 
de Nuno Martins da Silveira Senhor de 
Góes , o qual hia provido de Capitão de 
Sofala : e D. Fernando de Monroy , filho 
de D. AfFonfo de Monroy , Craveiro que 
foi de Alcântara émCaítella, que também 
hia provido de Capitão de Goa, e da ulti- 
ma náo era Capitão Francifco de Brito fi- 
lho de Simão de Brito , que líavia de an- 
dar 



Década TIL Liv. IX. Gap. I. 347 

dar por Capitão mor das náos" da carreira 
da índia 'pêra Ormuz. Ê os Capitães das 
caravelias eram Lopo Lobo \ Pêro Velho , 
Chriíiovao Rofado , Ruy Gonçalves , e 
Moíèm Gafpar Malorquim , que na índia 
havia de iervir de Condeííabre mor dos 
bombardeiros. Em a qual Armada iriam te 
rres mil homens , muita parte dos quaes 
eram Fidalgos , Cavalleiros , e moradores 
da cafa d'ElR'ey , e outra gente limpa , e 
de boa creaçaó. E além da gente mareante 
ordenada á navegação, levava outra muita 
fobrefelente , e bombardeiros pêra prover 
as outras velas da índia. Partida efta frota , 
(como 'diflemòs •, ) a nove de Abril , com 
bons tempos que lhe curfáram , chegou a 
Moçambique a quatorze de Agoíto , onde 
fe deteve em quanto fe provêo de agua , 
e repairou de huma verga , que quebrou á 
lua própria náo. E partido dalli, primeiro 
que fe efpediffe daquella coita , que fempre 
he perigofa , porcaufa das muitas Ilhas que 
a ella são adjacentes 3 perdeo-fe a náo , Ca- 
pitão Francifco de Brito , fem delia pare- 
cer coufa alguma , e affi fe perdeo o galeão 
de D. Fraacileo de Monroy em os baixos 
de Melinde, mas íalvou-íè a gente. E das 
caravelias fe perdeo a de Chriíiovao Rofa- 
do; e a gente da de Mofem Gafpar, por 
&r homem eíirangeiro - 9 o mataram fobre 

pai- 



348 ÁSIA de João de Barros 

paixões de mandar, e o fim que os autho- 
res deite feito houveram , adiante fe verá. 
O Almirante feguindo fua viagem com ef- 
tas velas menos , por levar per regimento 
que fizeíTe feu caminho pela coita de Cam- 
baya , por ir dando viíta a toda a coita da 
índia , poz a proa naquella parte , leixando 
a derrota do Malabar. E porque com as 
grandes calmarias não podia tomar eíta cof- 
ta que hia demandar , na paragem da qual 
elle hia fem os Pilotos o íaberem , por não 
ter tão curfada eíta navegação , como a que 
levavam caminho da índia 3 huma quarta 
feira vefpera de N. Senhora de Setembro 
ás oito horas da noite , faltou tamanho tre- 
mor em todalas náos , que cada huma fe 
houve por perdida , parecendo-lhe que ella 
iô padecia eíte tremor , fem entender a cau- 
fa. Tudo era com as bombardas fazerem 
íignaes humas ás outras , cuidando ferem 
aguages fobre alguns baixos , tudo era pof- 
to em revolta , huns acudindo ao lume que 
não podiam ter , outros á bomba , á fonda , 
e muitos a barrijs , e a tavoas , em que ef- 
peravam de fe falvar , não podendo enten- 
der huns aos outros de confufos deite peri- 
go , té que o mefmo Almirante veio em 
conhecimento do que era , dizendo : Ami-* 
gos , prazer , e alegria , o mar treme de 
nçs } nao hajais medo ? que ifto he trçmor da 

ter* 






Década III. Liv. IX. Cap. I. 349 

terra. Finalmente como iílo era aífi na ver- 
dade , todo o temor , e triíteza deífe novo 
cafo ficou no pezar que houveram de hum 
homem que ie lançou ao mar 5 cuidando 
que a náo dava em algum baixo ; e o pra- 
* zer além de ficar em todos , por fe verem 
fora daquelle perigo, particularmente ficou 
em muitos enfermos da náo \ que houve- 
ram faude. Cá o temor daquelle fubito ca- 
fo , que durou hum quarto de hora , aíli deo 
animo a todos £>era fe levantar donde ja- 
ziam com fua febre , bufcando modo de íè 
falvar , que ficou a natureza fobrefaltada. 
E recolhendo-fe a quentura das partes ex- 
teriores per que andava derramada a feu 
próprio centro 5 e vafo , ficaram fem a fe- 
bre accidental que tinham. Pofto que palia- 
do efte temor fobreveio outro cafo de não 
menos admiração 3 c foi 5 que fem vento , e 
outros fignaes precedentes veio huma chu- 
va de agua tão grofla , que parecia algum 
diluvio ; mas como iílo durou pouco , fi- 
cou a gente com algum efpirito daquelles 
dous cafos nunca viftos de quantos homens 
andavam naquella navegação da índia. E 
pêra leixarem a prática delles , fobreveio 
outro todo de feu prazer , que foi haverem 
vifta de huma náo de Mouros , que hia do 
eftreito de Meca pêra Cambaya , fobre a 
qual todos arribaram 5 e por lhe cahir mais 

em 



3^0 ÁSIA de João de Barros 

em lanço , o primeiro que chegou a ella 
com o íeu galeão , foi D. Jorge de Me- 
nezes , que a fez amainar. O Almirante de- 
pois que o Capitão , Meftre , e Piloto vie- 
ram ante elie , e delles foube da viagem , 
e fazenda que levavam , mandou meíter nel-' 
la Ti iftao d'Ataíde leu cunhado , e Fernão 
Martins Evangelho , c levada a Chaul , va- 
leo lá a fazenda, que veio a boa recada- 
çao , mais de feífenta mil cruzados. E por 
o Piloto deíia náo foube o Almirante que 
fe fazia elle per fua conta perto da coita 
de Dio ; e que o tremor que as noíTas náos 
tiveram, também deo na fua, com a qual 
nova elle Almirante mandou feguir outro 
rumo por dar huma viíla á Cidade Dio. 
E como per cfpaço de íeis dias cortaram 
as náos fem darem com terra , dizendo o 
Mouro Piloto ao Almirante que dahi a três 
dias a veria , faltou na gente commum ou- 
tro maior temor, dizendo que aterra com 
aquelle tremor fe alagaria. E a caufa de 
darem algum credito a ifto era huma opi- 
nião que de cá do Reyno levavam autho- 
rizada per muitos Aítrologos da Europa; 
os quaes affirmavam que nefte anno de qui- 
nhentos e vinte e quatro fe fazia huma 
conjunção de todolos planetas na cafa de 
Pifeis., que prognoílicava quafi diluvio ge- 
ral , qijj ao menos de muita parte. da terra y 

prin- 



Década TIL Liv. IX- Cap. I. 35-1 

principalmente da cofia marítima. E che- 
gou efta opinião a tanto , que houve pef- 
foas nobres nefte Reyno , que mandaram fa- 
zer gazalhado em ferras altas , e bifcouto. 
E fegundo Alberto Pighio Campenfe con- 
ta em hum tratado , que doutamente efcrcveo 
contra efta opinião i alguns na fua pátria , 
po!a fé que tinham nella , leixáram de fa- 
zer negócios de grande importância. Porém 
com toda eíla fé não fabemos o que fariam 
eftes que Alberto diz , e fabemos que os 
noííos não leixavam de vingar a feu pra- 
zer , e nos viços que tinham. Parece que 
como eftcs Profetas daAftrologia não eram 
mandados per Deos , como o Profeta Jo- 
nas aos Ninivitas , que fizeram penitencia 
por temerem a Deos , e eftoutros temiam 
mais a morte , que a eile : cá huns veftiam- 
fe de cilicio , orando , jejuando três dias 
toda a alma , pedindo a Deos perdão de 
feus peccados ; c os Ninivitas do noífo tem- 
po tendo baptifmo , apercebiam-fe de bif- 
couto , e de outras provisões pêra fegurar 
a vida, fem preparar fua alma pêra o que 
Deos quizeífe fazer delles. Affi que defta 
geral opinião que a gente da noíla Arma- 
da levava , ou ( por melhor dizer ) fabula 
de ignorantes Aftrologos j pois o anno pec- 
cou mais de fecco 5 que de invernofo ; hiaoi 
tão aíTombrados com os íignaes preceden- 
tes * 



3^2 ÁSIA de JoXo de Barbos 

tes , que conveio ao Almirante tornar ou- 
tra vez perguntar ao Piloto Mouro , por- 
que o enganara no termo que lhe poz que 
veria terra ; aò^ue elle refpondeo , que fe 
lua Senhoria mandara governar pêra onde 
dizia , já tivera viíto a coita de Dio ; mas 
como puzera a proa em Chaul , tinha ef- 
corrido a outra coita ; e que quanto á fua 
conta , por aquelle caminho que fazia ao ou- 
tro dia veriam Chaul. E poíto que não foi 
aíli, viram Baçaim, que he acima de Chaul 
contra o Norte na mefma coita féis léguas; 
e ao outro dia , que eram cinco de Setem- 
bro , foi o Almirante furgir com fua Ar- 
mada no porto de Chaul. Na qual fortale- 
za eítava por Capitão Chriítovao de Soufa 
filho de Diogo Lopes de Soufa , e achou 
alli duas náos que deite Reyno partiram o 
anno paífado , Capitães D. António d' Al- 
meida, e Pêro d 5 Afonfeca, como atrás ef- 
crevemos. Os quaes por não poderem to- 
mar a coita da índia , invernáram alli , e 
aíli achou hum navio ? Capitão Nuno Vaz 
de Caítello-branco , que andava na coita de 
Sofala no refgate do ouro , e viera alli buf- 
car roupa. Ao qual o Almirante leixou pê- 
ra fazer feu negocio , e levou as outras duas 
náos , e aqui tomou o titulo de Vifo-Rey , 
por o levar aíli ordenado per EIRey , que 
o tomaíTe na primeira fortaleza da índia 

que 



Década III. Liv. IX. Cap. I. 353 

que chcgaíle. Imitando niíto o modo que 
ÉlRey D; Manuel feu pai teve , quando 
mandou D. Francifco d'Almeida áquellas 
partes , que não fe intitulou defle nome , 
fenao depois que lá foi , e ora he efta di- 
gnidade mais corrente , e barata na índia. 
A qual não medrou Affonfo d\Alboquerque 
andando nella nove annos , com leixar a 
eíle Reyno três fortalezas feitas , as mais 
importantes diqueílas partes , nem menos 
Nuno da Cunha que fez outras três 3 e go- 
vernou aquelle Oriente dez annos ; e fe o 
mereceram , ou não , eíla noífa hiíloria , e 
quantos nella vam nomeados , são teftemu- 
nha. Tornando ao Vifo-Rey Conde Almi- 
rante , partido de Chaul a doze de Setem- 
bro além de Dabui , achou António Cor- 
rêa morador em Goa por Capitão de três 
navios per mandado de Francifco Pereira 
Peílana Capitão da Cidade , a fazer arribar 
as náos a Goa , que vinham do eílreito de 
Ormuz com cavallos , por andar alli hum 
ladrão de Dabul 5 que as fazia entrar den- 
tro ; e já António Corrêa dalii levara hu- 
ma com cavallos , e tornava á mefma cou- 
ia , e efperar fe vinha alli ter alguma náo 
clefte Reyno , por fer já tempo , temendo 
que deite ladrão pudeíTe receber algum da- 
mno. Ao qual António Corrêa o Vifo-Rey 
leixou a fim de impedir efte ladrão que 
Tom. III. P.jL Z não 



35*4 ÁSIA de João de Barros 

não fizefíe entrar as náos em Dabul 5 com 
limitação do tempo que alli havia de andar, 
e depois que fe íbfTe a Goa. A qual Cida- 
de o Viíb-Rey chegou no fim de Setem- 
bro , onde foi recebido com grande fole- 
mnidade , leixando por Capitão das náos , 
que ficavam na barra , a D. Jorge de Me- 
nezes , porque os mais dos Capitães delias 
foram com elle em navios de remo. 

CAPITULO II. 

Do que o Vifo-Rey fez em Goa , e no ca- 
minho dahi té Cochij , onde chegou : e as 
Armadas que ordenou pêra diverfas 
partes , e fiando doente da enfer- 
midade de que faleceo. 

AO tempo que o Vifo-Rey chegou á 
índia , era D. Duarte de Menezes em 
Ormuz /e D. Luiz feu irmão em Cochij, 
dando ordem á carga das efpeciarias , que 
efte anno haviam de vir pêra cá. E como 
o Vifo-Rey levava per regimento que def- 
fizeíTe as fortalezas de Coulam , de Ceilam , 
de Calecut , e a de Pacem , e fizefíe huma 
em Sunda , e além difto , convinha em bre- 
ve prover muitas coufas ; deo-fe elle Vifo- 
Rey grande prefía logo em Goa a prover 
algumas. E a principal foi entender nas de 
Francifco Pereira Peftana Capitão da Cida- 
de, 



Década III. Liv. IX. Cap. II. 357 

de , do qual o Vifo-Rey teve alguns quei- 
xumes , por fer homem forte de condição ; 
e foram taes , que o tirou da capitania , e 
proveo delia a D. Henrique de Menezes , 
em quanto elle hia a Cochij ordenar as cou- 
fas da carga , por não fer vindo D. Fer- 
nando de Monroy , que fe perdera, (co- 
mo atrás diflemos.) E mandou o Vifo-Rey 
a D. Henrique, que fe alli vieíTe ter Dom 
Duarte de Menezes , que o não confentiíTe 
fahir em terra , e lhe diíTeíTe da fua parte , 
que logo fe partiíTe pêra Cochij , onde o 
eíperava pêra o defpachar , e partir cedo 
pêra o Reyno. Partido o Vifo-Rey com 
lua frota via de Cochij , paífou pêra Cana- 
nor , e metteo de poífe da fortaleza D. Si- 
mão de Menezes cm lugar de D. João da 
Silveira , que acabava íeu tempo. EIRey 
de Cananor por comprazer ao Vifo-Rey, 
logo de boa chegada lhe mandou entregar 
hum Mouro principal da terra chamado 
Ba!á Hácem, o qual era feito coflairo com 
grande damno dos que navegavam per aqucl- 
Ja coita , e aíli pêra as Ilhas de Maldiva, 
intitulando-fe por Capitão móv do mar ; o 
qual o Viib-Rey mandou entregar â: D. Si- 
mão que o tiveífe a bom recado prezo , té 
elle mandar recado de Cochij que fe faria 
delle. Partido o Vifo-Rey daqui ? foi ter a 
Calecut , onde eílava por Capitão D. João 

Zii de 



356 ASIÀ de João de Barros 

de Lima , quaíí em rompimento de guerra 
com os Mouros , e de maneira , que foi 
neceííario Jeixar providas algumas coufas té 
elle de Cochij prover mais. E a caufa prin- 
cipal deite rompimento , ( poíto que entre 
D. João , e os Mouros havia particulares 
efcandalos,) era por o Çamorij Rey de 
Calecut paíTado fer morto , e reinar outro 
mui íujeito á vontade dos Mouros. E no 
tempo que o Viío-Rey aqui chegou , efta- 
va elle mettido pelo ferrão ao pé da ferra 
em guerra com hum Senhor, "que peraqúel- 
la parte lhe fazia algumas entradas no feu 
Reyno ; e por caufa deita aufencia tomou 
o Regedor mais licença pêra damnar a nof- 
fa fortaleza; em tanto, que mandando Dom 
João fazer-lhe queixume de alguns efcanda- 
los que recebia dos Mouros per hum Gon- 
çalp Tavares Feitor da noífa fortaleza , com 
dous homens que o acompanhavam , os 
Mouros os mataram a todos três em hum 
arruido feitiço. Finalmente por eíte cafo , 
e por inconvenientes de a traição quererem 
matar a D. João , e elle que ás vezes não 
fe moítrava muito paciente , azedou o ani- 
mo a todos na rotura em que eítavam y 
quando o Vifo-Rey chegou. E como elle 
tinha grande nome entre os Mouros > e o 
temiam muito polo que alli tinha feito , por 
fer homem que lhe não perdoava os pecca- 

dos 



Década III. Liv. IX. Cap. II. 357 

dos do penfamento , quanto mais os da 
obra; em' elle chegando, foube de D.João 
que diziam os Mouros , que não era ver- 
dade fer elle vindo á índia , e que tudo 
era artificio noíTo por temorizar o Gentio 
ignorante. Por a qual caufa quiz dar aos 
Mouros huma moítra de íi , fahindo em 
terra , e rodeou a fortaleza , dando enten- 
der que da tornada de Cochij havia de pôr 
mãos nella pêra ler mais forte. E também 
mandou notificar ao Çamorij fua chegada , 
e que folgara de o achar alli pêra algumas 
coufas que tinha que praticar com elle , as 
quaes leixava pêra quando tornaíTe invernar 
a Goa. Partido o Vifo-Rey defta fortaleza , 
fendo já á vifta de Cochij , veio D. Luiz 
de Menezes ao receber, e em terra foi re- 
cebido com tanta pompa , e folemnidade 
como a feu titulo requeria, E peró que de 
paliada não diífemos o que lhe neíle cami- 
nho de Goa té Cochij aconteceo , por não 
decepar o curfo da jornada ; aqui o quere- 
mos fazer , que tudo foram aífrontas , que 
pêra fua condição eram tão grandes , que 
lhe deram prefla ao que logo ordenou em 
chegando a Cochij. Elle achou neíle cami- 
nho que fez a Francifco de Mendoça com 
oito velas , que andava guardando aquella 
coíla , do qual os Mouros faziam pouca 
conta 3 porque como elles traziam navios 

mui 



358 ÁSIA de JoXo de Barkos 

mui leves de remo , e os noííbs grandes , 
e pezados , haviam-fe com elles como gi- 
netes com os homens de armas. Por a qual 
razão andavam tão oufados > que per todo 
aqueile caminho , huns aqui , outros alli àp- 
pareciam diante do Viíb-Rcy , moftrando 
que o não tinham cm conta ; e chegou a 
tanto , que mandou elle com feu fiiho Dom 
Eftevão , António da Silva , Triftão d'A- 
íaíde , e outros Fidalgos com batéis aos af- 
fombrar , té que alguns pagaram por ou~ 
íros ; porque abaixo de Cananor correram 
trás oito tão apertadamente 5 que os fize- 
ram varar em terra , onde houve alguns 
mortos , e muitos feridos ; e junto de Pa- 
n3ne houve outra remettida já mais perigo- 
fa de doze paráos. Os quaes vendo-fe mui 
apertados dos noflbs , vararam em terra , e 
por os defender , acudio gente da mefma 
terra , em que morreram muitos delles , e 
dos noíTos foram feridos António da Sil- 
va de Menezes , Manuel da Silva de alcu- 
nha o Gallego , e João de Córdova , ambos 
Capitães de fuftas , e mortos foram dous, 
O Vifo-Rey como hia eícandalizado defte 
defacatamento de o não eílimarem , e pou- 
co temor , chegando a Cochij , a primeira 
coufa em que entendeo , foi mandar duas 
galés , e huma galeota , e huma caravella 
com provisão de pólvora , e outras coufas 

de 



Década III. Liv. IX. Cap. II. 3^9 

de que a fortaleza de Calecut tinha necef- 
íldade , eque as três velas de remo andaf- 
fem per aquella cofia caftigando os paráos 
dos Mouros da foltura que traziam. Das 
quaes eram Capitães Francifco de Mendo- 
ça o velho , António da Silva de Mene- 
zes , e Jeronymo de Soufa, que era Capi- 
tão mor. Entregue á caravella o que leva- 
va , fahíram-fe eftes Capitães do porto; e 
por a galé de António da Silva fer pezada 
no remo , ficou atrás , fobre a qual como 
que a tinham em olho , fahíram a elle cin- 
coenta paráos de Calecut , com que pele- 
jou obra de três horas 3 em que lhe feriram 
muitos homens , e mataram três. E total- 
mente elle fora de todo desbaratado , fe 
lhe não acudiram feus companheiros , que 
fizeram fugir os catures , fazendo varar al- 
guns em terra. Além deftas duas velas , que 
o Vifo-Rey ordenou que por então eftivef- 
fem no porto de Calecut pêra andarem na 
cofia , mandou huma Armada de outras féis 
rodas de remo , a capitania mor das quaes 
deo a Jeronymo de Soufa pêra caftigar os 
Mouros daquelle Malabar , como elle fez , 
defiruindo mais de quarenta paráos ; o Ca- 
pitão dos quaes era hum Mouro chamado 
Cutiálla 5 que fe armou em Coulete per 
mandado do Çamorij pêra tolher os man- 
timentos , que de Caixanor fe levavam á 

nof- 



360 ÁSIA de J0X0 de Barros 

noíTa fortaleza de Calecut. E aífi mandou 
recado a Fernão Gomes de Lemos , que 
eítava por Capitão da fortaleza da Ilha Cei- 
lão , que a derribaíle , por EIRey mandar 
mie fe fizeíTe , e fe viefle em os navios que 
íeu irmão António de Lemos trazia em guar- 
da daquelle porto , de que era Capitão mor 
do mar, o que elle fez. Também' das pri- 
meiras coufas que ordenou , foi mandar Si- 
mão Sodré com quatro velas ás Ilhas de 
Maldiva fobre alguns Mouros que faziam 
guerra aos nofíbs amigos , e impediam mui- 
tas coufas de que fe proviam nojffas Arma- 
das , principalmente cairo , fem o qual el- 
las não podem navegar. E deita ida desba- 
ratou Simão Sodré íeis fuftas , de que era 
Capitão hum Mouro dos principaes de Ca- 
nanor, dasquaes lhe ficaram duas na mão, 
achando-fe com elle Simão Sodré eftes Ca- 
pitães , Paios Nunes Eííaço , Fero Velho , 
e Pedralvares. E porque determinou de per- 
feguir efte Mouro , que efeapou á força de 
remo , té lhe tomar tocaias velas , leixou 
pêra íi huma caravella , e huma fuíla , e as 
outras entregou a Paios Nunes , que as car- 
regaííe de cairo , e fe viefle a Cochij ,. e 
elle invernou lá debalde por não poder en- 
tre tantas Ilhas topar com o Mour,o. Nef- 
te mefmo tempo defpachou a Fernão Mar- 
tins de Soufa com hum navio ; e huma fuf- 

ta 



Década III. Liv. IX. Cap. II. 361 

ta pêra a coita de Melinde , o qual levava 
deite Reyno a capitania mor do mar de 
Malaca em lugar de feu irmão Martim Af- 
foníb de Soufa , que rnorreo das feridas que 
houve no desbarato das furtas de Lacfama- 
na , como adiante veremos ; e por ainda 
não fer falecido , acceitou eíla ida que lhe 
o VifoRey deo pêra lá ir morrer , onde 
fe perdeo junto de Melinde , falvando-íè 
alguma gente. E affi ordenava o Vifo-Rey 
huma groíTa Armada pêra ir ao mar Roxo 
feu filho D. Eftevao \ mas leixou de ir , por- 
que no fervor deftas coufas adoeceo feu pai. 
É porque os navios que Jeronymo de Sou- 
fa trazia eram poucos , e por ferem galés 
pezadas não podiam fazer muito damno aos 
paráos dos Mouros que eram leves , e mui- 
tos , deo-lhe mais duas galeotas pêra andar 
na paragem de Calecut. Com as quaes ve- 
las no rio de Bracelor pelejou com oitenta 
paráos , que hiam carregados de efpeeiaria 
pêra Cambaya , de que tomou doze , afli 
como hiam carregados , e os outros fe fal- 
varam por fer já fobre noite. Na qual pe- 
leja morreram dos noflbs quatro homens y 
e foram muitos feridos , e leixáram-fe alli 
eftar , porque os paráos fe tornaram reco- 
lher ao rio de Bracelor, e tinha-os alli en- 
cerrados por não navegarem a efpeeiaria. 
Neíie tempo como a enfermidade do Vifo- 
Rey 



362 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

Rey Iiia muito em crefcimento , vendo-fe 
já mui quebrado de fuás forças , mandou 
chamar algumas peífoas principaes , erepre- 
ientando-lhe oeftado emqueeftava, emof- 
trando os poderes que tinha ? diífe que elle 
per virtude daquelles poderes havia por fer- 
viço d'EÍRey feu Senhor que Lopo Vaz 
de Sampayo Capitão daquella fortaleza man- 
daíTe o que elle podia mandar ; e levando-o 
Deos, fervifle de Governador da índia, por 
quanto a peíloa , que fuecedia a elle Vifo- 
Rey, podia ferauíente, té vir receber a en- 
trega da índia. E difto mandou fazer hum 
aílento , e deo juramento ao Vedor da fa- 
zenda Affònfo Mexia , e ás outras peffoas , 
que pêra efta notificação eram chamadas , 
que adi o guardaííem , e elle lho mandava 
da parte d'ElRey feu Senhor , e affignáram 
todos no auto. Todas eítas coufas o Vifo- 
Rey ordenou ante que D. Duarte de Me- 
nezes vieífe de Ormuz pêra lhe entregar 
a governança da índia , o que fazia algum 
efcrupulo aos Fidalgos ufar elle deite offi- 
cio , fem receber a entrega , fegundo a or- 
dem que nifto havia de ter. E porque no 
princípio deíle noveno Livro quizemos dar 
noticia da ordem que EIRey tinha na elei- 
ção dos Governadores da índia , e o mo- 
do de fuecederem huns aos outros , porque 
no futuro tempo , e aííi aos eílranhos fe ve- 
ja 






Década III. Liv. IX. Cap. II. 363 

ja a forma da Provisão cPElRey , per que 
hum Governador entrega a índia a outro ; 
queremos aqui trasladar a que levou o Vi- 
fo-Rey pêra receber a entrega de D. Duar- 
te de Menezes , e também dar razão por- 
que ufou deite officio ante da vinda delle 
D. Duarte : D. João por graça de De os 
Rey de Portugal, e dos Algar ves , daquém , 
e dalém mar , em Africa Senhor de Gui- 
né , e da Conquijla , Navega cão , Commercio 
de Ethiopia r Arábia , Per/Ia , e da índia. 
Fazemos faber a vós D. Duarte de Me- 
nezes Capitão y e Governador da nojfa Ci- 
dade de Tanger , e nojjò Capitão mor , ç 
Governador nas partes da índia , que Nos 
vos eferevemos per outra carta , que have- 
mos por bem que vos venhais embora pêra 
ejles Rey fios nefta Armada. Porém vos man- 
damos , que tanto que vos ejia for apre- 
Jintada , entregueis a dita capitania mor , 
e governança a D. Vafco da Gama Conde 
da Vidigueira , e Almirante do mar Indi- 
co , que enviamos por nojfo Vifo-Rey a ef 
fas partes da índia. E não u fareis mais 
da dita capitania mor , e governança , nem 
das co ufas dajujliça, e de nojfa fazenda , 
nem d? outra alguma de qualquer qualida- 
de , e condição que feja , que ao dito car- 
go toque , e pertença , e de que cV antes ufa- 
neis , por virtude do poder > e jur dição , e 

ai- 



364 ÁSIA DE JOÃO DE BABROS 

alçada que tínheis. Por quanto havemos 
por bem , e nojjo fervi ço , como per outra 
carta vos efcrevemos , que o dito Vifo-Rey 
Jeja logo mettido de pojje de tudo , e ufe 
logo do poder , j 'urdi cão , e alçada que leva 
por nojja Carta V atente , fem mais vós en- 
tenderdes em coufa alguma. Porém decla- 
ramos que o tempo que ejliverdes na índia 
tê vos embarcardes , pojjais eflar em Co- 
chij , ou em Cananor y qual vos mais aprou- 
ver : e que acerca de vojjbs criados , e pef- 
Jòas de vofja cafa y e dos criado:? do Con- 
de vojfo pai , que comnofco foram , e dos 
criados de D. Luiz vojfo irmão , e vojfos 
cunhados , e peffòas fuás , que o dito Con- 
de não entenda com elles em maneira al- 
guma , fiem tenha? f obre elles , nem [obre 
cada hum delles mando , nem jur dição , e 
alçada ? que tínheis pela carta de vojjò po- 
der ? e alçada. Refalvando porém , que fe 
vós , ou os taes per algumas pejfoas ajjl 
nojfos naturaes , como dos mercadores da 
terra , e quaefquer outros de qualquer qua- 
lidade , eflado , e condição que fijam , que 
la houverem de ficar , e não houverem de 
vir nefta Armada em que vos haveis de 
vir 5 fordes requeridos , e citados 5 e de- 
mandados , ajji em cafos eiveis , como em 
crimes , vos pojfam a vós , e a elles deman- 
dar per ante o dito Conde > e Ouvidor , que 

com 



Década III. Liv. IX. Cap. II. 365* 

com elle ha de ficar , e não per ante vós 
fera fe fazer cumprimento âe jufliça. E 
fendo cafo que quando o dito Conde chegar 
d índia vos não ache nella , por ferâes fo- 
ra delia a prover algumas coufas de nojjò 
fervi ço , nefle cafo havemos por hem que 
elle dito Conde ufe logo inteiramente de to- 
do poder , jurdição , e alçada , que de nós 
leva , como faria fe vos achaffe , e vos apre- 
fentajfe efla carta pêra lhe entregar a ca- 
pitania mor , e governança , porque ajfi o 
havemos por noffo ferviço. E fendo cafo 
que por impedimento de doença , vós dito 
D. Duarte vos não poffais embarcar , e 
vir nefla Armada 5 e ficaffeis na índia y 
nefte cafo havemos por bem que vos fiqueis ,, 
e vos recolhais com todos voffos criados , 
e peffoas da voffa cafa , e criados dos fo- 
br éditos voffo irmão , e cunhados , que fi- 
carem comvofco em a noffa fortaleza de Ca- 
itanor. E que efteis nella té a voffa parti- 
da da índia \ e ufeis de todo o poder ^ jur- 
dição y e alçada que tendes de Capitão 
mqr 5 e Governador da índia fobre elles , 
e fobre o Capitão , Alcaide mor , Feitor > 
e Efcrivães da feitoria da fortaleza. E de 
todos feus cafos eiveis , e crimes conhece- 
reis , e os julgareis como vos parecer juf 
tiça , fem fobre os ditos y nem fobre coufa 
fua que lhe toque ; que feja dantre partes 

o di- 



366 ÁSIA de João de Barros 

o dito Conde poder ufar do dito officio de 
Vifo-Rey , nem poder , jurdição , e alçada 
que lhe temos dada , porque queremos que 
tudo fique a vós D. Duarte té vojfa par- 
tida da índia. E mandamos ao Capitão , 
e Alcaide mór , Feitor , e Efcrivães da fei- 
toria , e a todas as pejfoas que temos or- 
denadas na dita fortaleza de Cananor , 
que vos obedeçam , e cumpram voffos reque- 
rimentos , e mandados , como a nojjò Capi- 
tão mór , e Governador , fobre as penas que 
lhe puzerdes , ajji nos corpos , como nas 
fazendas. As quaes havemos por bem que 
deis d execução naquelles que nellas con- 
correrem , fegundo forma do poder , jurdi- 
çao 5 e alçada que vos temos dada , e he 
contenda na carta do poder delia. E ajfl 
havemos por bem que fe entenda , e o fa- 
çais no cafo que vos foffeis fora da índia 
por noffo fervi ço , e viejfe a ella depois da 
partida das nãos pêra ejles Reynos dejla 
Armada que leva o Vifo-Rey pêra traze- 
rem as ejpeciarias , na qual vos haveis de 
vir. Refalvanão porém que o dito poder , 
e alçada que vos damos fobre todos os aci- 
ma declarados , fe não entenderão em coufa 
que toque á noffa fazenda , e tratos da ín- 
dia. Ror que no que a eflas coufas tocar , 
não haveis de entender , nem ufar d,a dita 
alçada 7 e poder que vos kixamos nos ca- 

fos 



Década III. Liv. IX. Cap. II. 367 

fos fohr éditos , porque ifto ha de ficar ao 
dito Vifo^Rey , pêra nelles fazer como vir 
que he jujliça , e nqffò fervi ço > e ufar de 
todo feu poder , e alçada. E da entrega 
que ao dito Vifo-Rey fizerdes da dita ca- 
pitania mor 5 e governança , como por efta 
vos mandamos , cobrareis eftromcnto pú- 
blico j em que fe declare as nãos , e na- 
vios que lhe entregafies , e artilheria , e 
armas que andam nelles , e ajji as forta- 
lezas , e armas , e artilheria , e mantimen- 
tos que nellas havia 3 e gente que andava 
neffas partes \ e declarando a forte , e qua- 
lidade delia , e todas as outras coufas que 
ao cargo de Capitão mor , e Governador to- 
carem pêra todo podermos ver. E como ajji 
entregardes a dita capitania mor , e go- 
vernança , e cobrardes o efiromento da di- 
ta entrega no modo que dito he , vos have- 
mos por bem defobrigado de toda a obriga- 
ção em que nos fejais pela dita capitania 
mor , e governança , e vos damos por qui- 
te , e livre de agora pêra em todolos tem- 
pos. E efta carta per nós ajjignada , e fel- 
lada do fello redondo de no ff as Armas , com 
o dito efiromento , tereis pêra vojfa guar- 
da. Dada em a no ff a Cidade de Évora a 
vinte e cinco dias de Fevereiro. Bartholo- 
meu Fernandes a fez , anno do Naf cimen- 
to de N. Senhor Jefus Chrifio de mil e qui~ 

nhen- 



368 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

nhentos e vinte quatro. Per virtude da qual 
carta D. Duarte fez a entrega da governan- 
ça da índia , e delia houve efte Conheci- 
mento publico de como a entregou : Sai- 
bam quantos efte eftromento de Conhecimen- 
to virem , que no anno do Nafcimento de 
N. Senhor Jefus Chrifto de mil e quinhen- 
tos e vinte quatro annos , aos quatro dias 
do mez de Dezembro do dito anno , em a 
Cidade de Santa Cruz de Cochij , em a for- 
taleza (FElRey Nojfo Senhor , eftando ahi 
D. Vafco da Gama Conde da Vidigueira 
Almirante do mar Indico , e Vifo-Rey das 
índias 3 dijje que recebia de Z). Duarte de 
Menezes , Governador que foi nellas ante 
delle Vifo-Rey , a governança das ditas 
índias do tempo que a ellas chegou , e as . 
começou de governar , Jegundo per fuás Pr o- 
visões , e Patentes lhe era mandado por 
EIRey Nojfo Senhor que as recebejje , e go- 
vernajjè. As quaes índias elle recebeo , e 
dijje ter recebidas ajjl 3 e da maneira que 
as achou , e ellas ora eftam , e fe houve 
por obrigado de dar conta delias a Sua Al- 
teza , e houve por defobrigado ao dito Dom 
Duarte da obrigação que tinha de dar con- 
ta delias. E em ieftemunho de verdade lhe 
mandou dello fer feito efte eftromento do re- 
cebimento delias , teftemunhas que eftavam 
pr ef entes ^ Lopo Vaz de Sampayo Capitão 

def- 



Década III. Liv. IX. Ca?. II. 369 

deji a fortaleza , Fernão Martins de Sou- 
fa , D» Pedro de Caftello-branco , Ajfonfo 
Mexia Veador da fazenda da índia , Fe- 
ro Mafcarenhas , e o Licenciado João da 
Souro Ouvidor geral da índia. E eu Jvm 
Nunes Efcrivão público na dita Cidade por 
efpecial mandado do dito Senhor Vifo-Rey , 
que ejle efcrevi , e aqui meu fignal público 
fiz. Per efte eftromento ficou D. Duarte des- 
obrigado da governança das índias \ e quan- 
to ao mais que a Carta d'E!Rey manda, 
da entrega das náos > navios , &c. de fora 
deite eftromento trouxe certidões detodalas 
fortalezas aílignadas pelos Officiaes da fa- 
zenda, e feitorias d'E!Rey , e com ifto íe 
partio pêra efte Reyno , como no fim do 
Livro oitavo efcrevemos. O Vifo-Rey nef- 
te tempo, aífi da força da enfermidade, co- 
mo do trabalho do efpirito que teve íòbre 
algumas coufas do governo , e entrega que 
lhe D. Duarte fez , veio a tal eftado , que 
chegou a fua hora limitada de viver, que 
foi té vefpera da fefta do Nafcimento de 
N. Senhor Jefus Chrifto de mil e quinhen- 
tos e vinte e cinco , em que faleceo. Aíli 
que durou a vida do Conde Almirante na 
índia três mezes e vinte dias , contando de 
cinco de Setembro , que chegou a Chaul > 
té vinte e cinco dias de Dezembro que fa- 
leceo em Cochij y onde foi enterrado no 
Tom. III. P.iL Aa Mof- 



370 ÁSIA de João de Barros 

Morteiro de S. Francifco dos Frades defta 
Ordem. E depois foi trazida fua oííada a 
efte Reyno , e pofta em íeu jazigo na Villa 
da Vidigueira , de que foi intitulado Con- 
de, Efte Conde D. Vafco da Gama Almi- 
rante do mar da índia filho de Eftevao da 
Gama , era homem de meia eftatura^ hum 
pouco envolto em carne , Cavalíeiro de fua 
peíToa , oufado em commetter qualquer fei- 
to , no mandar áfpero , e muito pêra temer 
em fua paixão , foífredor de trabalhos , e 
grande executor no caíligo de qualquer cul- 
pa por bem de juftiça. 

CAPITULO III. 

Como aberta a fuccefsao do Conde Al- 
mirante 9 fe achou que havia de governar 
a Índia Z). Henrique de Menezes , que fi- 
cara por Capitão em Goa : e o que fez nefi- 
te tempo te lhe ir recado da fuccefsao ; e 
partido de Goa pêra Cochij , fez algumas 
coufas 7to caminho. 

SEpultado o Vifo-Rey Conde da Vidi- 
gueira , foi aberta a fua fuccefsao com 
aquella folemnidade que atrás eferevemos y 
na qual fe achou por Governador D- Hen- 
rique de Menezes , que eftava por Capitão 
em Goa. Lopo Vaz , a quem ficou o car- 
go de Governador > mandou logo fazer pref- 

tes 






Década III. Liv. IX. Cap. III. 371 

tes cinco velas , a capitania mor das quaes 
deo a Fr^ncifco de Sá , que foíle a Goa 
pêra I>. Henrique com as Provisões da fua 
fuccefsão de Governador. E paíTou per Ba- 
canor, e deo recado a Jercnymo de Soufa 
de Lopo Vaz , que le foíle pêra D. Hen- 
rique ; mas quando Francifco de Sá che- 
gou , já elle fabia a nova do falecimento 
do Vifò-Pvey per recado de D. Simão de 
Menezes Capitão de Cananor. E havendo 
refpeito ás qualidades de Francifco de Sá , 
em quanto não hia fazer a fortaleza de 
Sunda , que EIRey mandava , o proveo da 
capitania de Goa , e elle embarcou-fe em 
os navioá , que pêra elle levava, e pardo 
a oito dias de Janeiro, e ao caminho o veio 
receber Jeronymo de Soufa com as cinco 
velas que tinha fobre Mangalor. E a razão 
porque elle D.Henrique partio de Goa tão 
defacompanhado de veias 5 foi por não ha- 
ver mais queaquellas que vieram por elle, 
porque não fomente o Viib-Rey , quando 
per alli paíTou , levou comfigo Luiz Ma- 
chado Capitão mor do mar daquella cofta 
de Goa , com quatro navios que trazia , 
mas ainda elle D. Henrique humas qup or- 
denou na partida doVifo-Rey tinha-as man- 
dado fora ao que ora veremos. Partido elle 
Vifo-Rey de Goa pêra Cochij , quando no 
caminho achou aquelle grande número de 
Aa ii pa- 



372 ÁSIA de João de Barros 

paráos que eícrevemos 5 defta fua paífagem , 
e entrada na índia , não faziam os Mou- 
ros fenao o que faz quem vê vir de longe 
nuvem carregada de agua , que a grão pref- 
fa apanha , e recolhe fua roupa , que tem 
eítendida no campo : e o que eíles Mouros 
queriam falvar , era pimenta que da cofta 
do Malabar levavam pêra Cambava. E co- 
mo a entrada do Viíb-Rey na índia pêra 
elles era huma nuvem carregada de muitos 
trabalhos , que efperavam ter polo nome 
que nella tinha , ferviam debaixo pêra ci- 
ma 5 paífando cada dia muitos á vifta de 
Goa , onde D. Henrique eílava ; as novas 
da qual paífagem era pêra elle huma gran- 
de dor , e niífo recebia muita aífronta. E 
querendo atalhar efta paífagem , andou olhan- 
do pela ribeira , onde achou dous paráos , 
que traziam fal pêra a Cidade , que com- 
prou a feus donos , e mandou concertar a 
grão preífa. E a efte feu defejo favoreceo 
Deos com vida de António Corrêa , que 
vinha de Dabul , onde o Vifo-Rey o lei- 
xára 5 como efcrevemos , e trazia três pa- 
ráos , e huma galeota , que foi pêra Dom 
Henrique grande prazer. Os quaes cinco 
paráos repartio per eíles Capitães , António 
Corrêa , Payo Rodrigues d' Araújo , Álvaro 
d 5 Àraujo feu irmão , João Caldeira de Tan- 
ger ? Duarte Diniz de Carvoeiros , e a ga- 

leo- 



Década III. Liv. IX. Ca?. III. 375 

leota deo a feu íobrinho D. Jorge Tello 
filho de D. João Telío de Menezes > e a 
capitania mor de todos ; e com a gente ne- 
ceíTaria o mandou fahir de Goa dia do 
Apoftolo S. Thomé. E como elle he noflb 
Padroeiro naquellas partes , affi guiou Dom 
Jorge , que onde chamam os Ilheos quei- 
mados junto de Goa , lhe deparou trinta e 
oito paráos , que debaixo da cofta Malabar 
pêra Cambaya hiam carregados de efpecia- 
ria , e era Capitão delíes hum Mouro de 
Calecut per nome China Cutialle. Com os 
quaes D. Jorge pelejou , e affi o fez elle , 
e os outros Capitães com fua gente 5 que 
os desbarataram , dando com a maior par- 
te delles á cofta, e tomaram quatro. E os 
que não quizeram fazer experiência do no£ 
fo ferro , fe falváram , e dos mortos fe acha- 
ram depois na praia , que o mar lançou fo- 
ra , mais de feííenta. E as bandeiras com 
que entraram por o rio de Goa deita vito- 
ria dons dias ante Natal , foram corpos de 
Mouros enforcados dos paráos que houve- 
ram á mão , porque os Canarijs de Goa fof- 
fçm teftemunha daquellecafo aos outros das 
terras firmes. E os próprios Canarijs remei- 
ros dos noííbs paráos , por gloria do que 
fizeram , levaram trinta cabeças cortadas , 
e doze Mouros vivos , que fe entregaram 
aos moços de Goa pêra os matarem ás pe* 

dta- 



374 ÁSIA de João de Barkos 

dradas ; e ifto permittio D. Henrique , por- 
que andavam os Mouros tão íòltos , e atre- 
vidos, que convinha moftras de temor pê- 
ra os tornar a encolher. Dahi a três dias 
o tornou D. Henrique a mandar , e deita 
vez achou huma náo de Calecut , que tam- 
bém hia pêra Cambaya , a qual davam guar- 
da nove pardos , de que também houve vi- 
toria , tomando alguns delles , e com a náo 
deo á coita , e tornou- fe a recolher a Goa. 
D. Henrique por ter já recado da gover- 
nança da índia que íuecedêra , e levava 
comfigo D. Jorge Tello , leixou ordenado 
que Chriílovao de Brito Alcaide mor de 
Goa filho de Ruy Mendes de Brito foífe 
com huma Armada pêra andar naquella co£ 
ta de Goa té Dabul por caufa dos Mou- 
ros que alli andavam , e deo o cuidado def- 
ta Armada a Franciíco de Sá Capitão de 
Goa , o qual a fez preíles de fete navios , 
huma galeota , e féis fuílas , e catures , de 
que eram Capitães Payo Rodrigues d'A- 
raujo , Álvaro d'Araujo feu irmão , Duar- 
te Diniz de Carvoeiros , Jurdão Fidalgo , 
Bartholomeu Bifpo , João Caldeira de Tan- 
ger , a qual frota levava cento e tantos ho- 
mens , e com elía foi correndo toda aquel- 
la cofta té o rio Zenguizar , que eflá áquem 
de Dabul cinco léguas , fempre havendo en- 
contros com navios de Mouros, que cafti- 

ga- 



Década III. Liv. IX. Ca p. III. 37? 

gava, O qual havendo dous dias que eíta- 
va dentro no rio , por fer dos formolbs da- 
quella cofta , fazendo-lhe os da terra todo 
ferviço que podiam nos mantimentos que 
lhe davam , parece que per terra foi a no- 
va a Dabul. O Tanadar da qual Cidade , 
por fer noflb imigo , armou logo duas ga- 
leotas , e fete fuítas com mais de trezentos 
homens de gente limpa , e vieram buícar 
os noílbs. Vendo que os tinham tomados , 
por faberem quão pequenas vafilhas tinham , 
e quão pouca gente, e por já a eíte tempo 
Chriftovão de Brito fer fahido dentro do 
rio , pelejaram fora no mar largo, onde no 
primeiro rompimento Chriftovão de Brito 
foi morto de duas fettas, que lhe atraveíTá- 
ram a garganta , falfando-ihe hum gorjaí 
que levava. Os noífos vendo feu Capitão 
morto, aíli fe houveram animofamente com 
os Mouros , pelejando de pela manha té 
ás nove horas, com que a maior parte dos 
Mouros morreram a ferro , e afogados no 
mar , e alguns foram cativos , entre os quaes 
foi o feu Capitão , e dos noflbs morreram 
dezefete , e a maior parte foram feridos , 
porque a peleja foi muito cruel. Finalmen- 
te os noífos partiram com o feu Capitão 
morto; e o dos Mouros, que era Turco, 
chegando a Goa , fe fez Chriftão , e logo 
morreo das feridas que levava, o qual foi 

Gil- 



37Ó ÁSIA de JoÂo de Barros 

enterrado no Mofteiro de S. Francifco jun- 
to com a fepultura de Chriftovão de Brito. 
Francifco de Sá em lugar delle fez Capi- 
tão a Manuel de Magalhães , e o mandou 
com os Mouros cativos aprefentar a Dom 
Henrique , que nefte tempo já eftava em Co- 
chij , da viagem do qual aqui daremos con- 
ta. Elle partio de Goa a dezefete de Janei- 
ro , em companhia do qual hia hum Mou- 
ro per nome Cide Alie, que era vindo de 
Dio per mandado de Melique Aliaz a vi- 
íitar o Vifo-Rey da íua parte , e trazia-lhe 
de prefente humas cubertas de cavallos com 
todos feus comprimentos ao feu modo, E 
quando achou o Vifo-Rey morto , todavia 
fez a villtação a D. Henrique ; mas elle não 
quiz acceitar o prefente , dizendo ferem pe- 
ças que vinham pêra o Vifo-Rey : que quan- 
to á vifitação y e amizade , que Melique 
queria ter com elle , que folgava muito , e 
porque elle eftava embarcado pêra Cochij , 
que foíTe com elle , e lá o defpacharia. Em 
companhia do qual Cide Alie veio Álvaro 
Mendes , que eftava em Dio por Efcrivão 
de Gafpar Paes , que lá fervia de Feitor , 
com o qual D. Henrique em fegredo pra- 
ticou muitas coufas de Dio. E elle lhe deo 
.avifo que no porto de Dio eftavam duas 
náos carregadas de madeira de Baçaim > 
que levavam pêra corregimento das galés 

dos 



Década III. Liv. IX. Cap. III. 377 

dos Rumes , que eftavam em Gidá , ou Ju- 
dá , como lhe nós chamamos. Pêra tomar 
as quaes D. Henrique , ante que paríiííe de 
Goa , mandou duas caravellas com recado 
a Manuel de Macedo 3 que citava em Chaul 
com hum galeão , e huma caravella 5 que 
fe foíTe efperallas na. paíTagem , onde havia 
de ir ter António de Miranda , que partio 
de Cochij com huma Armada pêra o cabo 
Guardafu, e fe ajuntaiTe com elle. Efte Ci-* 
de Alie indo com D. Henrique com féis 
atalaias , com que veio acompanhado , fen-r 
do tanto avante como Baticalá , de noite 
fugio , por levar nova a Melique Aliaz da 
morte do Vifo-Rey. E quando veio pela 
manhã da noite que efte Mouro feacolheo, 
vieram dar com D. Henrique trinta e féis 
paráos , a tempo que vinha quaíi nas coftas 
delles D. Jorge de Menezes de Cochij em 
hum galeão , que foi grande conjunção pê- 
ra mais cedo os desbaratar , tomando dez- 
efete , e alguns deram comíigo á cofta , e 
outros fe fal varam. Chegado D. Henrique 
a Cananor a vinte e féis de Janeiro do an- 
no de quinhentos e vinte e cinco , EIRey 
o mandou logo vifitar ; e porque D. Hen- 
rique fe receou que lhe mandaiTe elle logo 
pedir o Mouro Bala Hacem , que o Vifo- 
Rey alli entregara , e ter fabido fer elle hum 
grande coíTairo com muito damno noífo , o 

fen- 



378 ÁSIA de João de Barros 

fentenceou logo á morte , fem querer trinta 
mil pardáos , que elle dava por íi. E quan- 
do o recado d'ElRey de Cananor chegou 
ibbre a vida defte Mouro , èftava já enfor- 
cado em huma palmeira á vifta dos Mou- 
ros , muitos dos quaes eram feus parentes , 
e os mais honrados da terra , de que fica- 
ram tão injuriados , que muitos em ódio 
d'E!Rey de Cananor , (dizendo ter elle mui- 
ta parte na íua morte , na entrega que del- 
le fez ao Vifo-Rey , ) fe paliaram da ban- 
da dalém do rio , que eftá junto de Cana- 
nor , e foram viver a huma povoação cha- 
mada Tramapatam , onde viviam os mais 
dos coíTairos , que alli lahiam. Sobre a qual 
paíTagem EIRey mandou recado a D. Hen- 
rique , pedindo que lha) mandaíTe defender , 
porque temia que indo clíe , elles iriam po- 
voar as povoações 5 que eftavam dentro pe- 
lo rio , e fariam daiii muito damno por 
a vizinhança que tinha EIRey de Calecut 
noíTo imigo declarado. D. Henrique com 
efte recado d'ElRey folgou muito, por ter 
azo de caítigar os moradores daquelle rio , 
e por fer hum formigueiro de ladrões , e 
efpedio logo Heitor da Silveira , que foííe 
ao rio Tramapatam , que são duas léguas 
abaixo de Cananor contra Calecut , e com 
duas galés , e hum bergantim queimou o 
lugar 5 e quantos navios ahi eítavam. E foi 

pe- 






Década III. Liv. IX. Cap. III. 379 

pelo rio acima a queimar três lugares, que 
eram dos povoadores , de que EÍRcy íè 
queixava , que cuftáram bem de trabalho , 
e fangue dos noflbs. Porque os Mouros ti- 
nham feito fuás tranqueiras , e forças com 
artilheria ; mas por derradeiro foram entra- 
dos , e lhe foi tomada com morte , e fe- 
ridas de muitos , e ifto fez Heitor da Sil- 
veira em efpaço de dous dias que lá andou» 
E porque D. Simão de Menezes era primo 
do Governador D. Henrique , quiz ante an- 
dar em fua companhia , por fervir de Ca- 
pitão mor do mar 5 que da fortaleza de Ca- 
nanor , da qual elle proveo a Heitor da 
Silveira. E primeiro que fe daqui partiífe, 
mandou a Fernão Gomes de Lemos em 
hum galeão, eduas galeotas, Capitães Go^ 
mes Martins de Lemos feu irmão , e An- 
tónio da Silva de Menezes , que fe foífe 
lançar fobre a barra do rio de Mangalor , 
que ficava atrás , e tiveííe encerrados mais 
de cento e tantos paráos , que eítavam car- 
regados de efpeciaria pêra partir caminho 
de Cambaya , fegundo alli foube. Acabadas 
eftas coufas , mandou-fe efpedir d'E!Rey , 
e fem fe verem , partio pêra Cochij , no 
qual caminho veio ter com elle António de 
Miranda , que Lopo Vaz defpachára com 
huma Armada , que o Vifo-Rey tinha or- 
denado pêra mandar ao eítreito de Meca 

com 



380 ÁSIA de João de Barros 

com feu filho D. Eítevão. E peró que An- 
tónio de Miranda não levava tantas velas 
como efíavam ordenadas , ainda deífas^ lhe 
tirou D, Henrique algumas , porque o in- 
tento feu era hum , e o de Lopo Vaz era 
outro , que erâ alimpar aquella coita do 
Malabar daquelle fervor que os Mouros ti- 
nham de levar efpeciaria. E dilTe a Antó- 
nio de Miranda que elle mandara a Chaul 
duas caravelías pêra António de Macedo, 
que tinha hum galeão , que fe foliem ajun- 
tar com elle António de Miranda , e lhe 
havia de obedecer; e dando-lhe regimento 
do que havia de fazer , o efpedio. E elle 
D. Henrique feguio feu caminho , e de paf- 
fagem deo huma vifta a Calecut , e foube 
de D.João como eítava em tréguas com o 
Regedor de Calecut té aílentarem a paz , 
por entre elles haver rompimento de guer- 
ra. E deo-lhe conta como havia poucos dias 
que per vezes viera commetter queimar-lhe 
a caía da feitoria , e armazéns que tinham 
fora da fortaleza , e iíto com favor de três 
Capitães do Çamorij , que eram vindos a 
eíTa obra. Com que lhe conveio fahir da 
fortaleza a lha defender com té cincoenta 
homens fomente , de que deo vinte e cinco 
a D. Vafco de Lima , e elle outros vinte e 
cinco ; e N. Senhor lhe fez tanta mercê, 
feqdo grande número de Mouros ; e Nai- 

rçs 3 



Década III. Liv. IX. Cap. III. 381 

res , que lhe mataram hum dos principaes 
Capitães % com que os puzeram todos em 
fugida , e não tornaram mais. No qual fei- 
to fe acharam eítes Fidalgos , D. Vafco de 
Lima Capitão de vinte e cinco homens , 
Jorge de Lima , Fernão de Lima , Miguel 
de Lima , Lionel de Mello , Ruy de Mel- 
lo , . António de Sá feu irmão, Diogo de 
Sá , e outros , que por fer gente nobre , fi- 
zeram maravilhas ; e as que alli fez Jorge 
de Lima , lhe cuftou fer muito mais ferido 
que todos, por o feito ler tão furiofo, que 
foi huma grande mercê de Deos não mor- 
rer algum deftes nomeados , fegundo cada 
hum fe oíferecia ao ferro dos imigos. Fi- 
nalmente com eítas , e outras coufas que 
D. João contou ao Governador do eílado 
em que eílava com os Mouros , e que o 
Governador da Cidade não tardaria fem lhe 
logo mandar fallar na paz , D. Henrique 
por lhe não dar azo a fer alli commettido , 
fepartio provendo D. João de alguma cou- 
fa pêra fua defensão. E ante que D. Hen- 
rique chegafle a Cochij , mandou diante 
hum catur com recado ao Capitão, eVea- 
dor da fazenda que o não recebeífem com 
feita por caufa do falecimento do Vifo- 
Rey , e também que não lhe fallaíTem por 
Senhoria , que não fe contentava com cou- 
ias empreitadas : que prazeria a Deos que 

el- 



382 ÁSIA de João de Bakkos 

elle faria taes ferviços aElRey feu Senhor , 
porque lhe ficaííe em vida ; e mais que 
acerca dos homens honrados , mais fe efti- 
mavam os méritos da honra ; que os vocá- 
bulos delia. 

CAPITULO IV. 

Como D. Henrique fe apercebeo em Co- 
chij de huma Armada que fez de cincoen- 
ta velas 5 e foi fobre o lugar de T? a nane 
d^ElRey de Calecut , o qual ãeftruio\ e paf- 
fando per Calecut , lhe âeo hum cajiigo , 
e dahi foi ter ao lugar de Coulete. 

Om Henrique de Menezes quando a 
quatro de Fevereiro chegou a Cochij , 
era já partido D. Duarte de Menezes pêra 
efteReyno; e alguns quizeram dizer, e aífí 
foi na verdade , que a caufa delle D. Hen- 
rique não vir mais cedo a Cochij , e vir 
fazendo as demoras do caminho , pois logo 
havia de tornar dar vifta á coita , fora por 
amor de D. Duarte , porque como eram pa- 
rentes , e tinha fabido que não hiam muito 
contentes do Vifo-Rey elle , e feu irmão 
D. Luiz polo modo que fe teve com elles 
no defpacho de fua embarcação , e elle era 
Official a que competia juftiça mais que pa- 
rentefco 9 e todo o favor havia-fe de attri- 
buir ao langue , por evitar eícandalos das 

par- 






Década III. Liv. IX. Cap. IV- 383 

partes , e inais fendo coufa ? em que o Vi* 
io-Rey puzera a mão , veio fazendo a de- 
mora que Vimos , que não foi ociofa ; e as; 
cartas 3 que havia de efcrever a EIRey de 
Portugal , do caminho as mandou. E por- 
que a principal coufa que o trouxe a Co- 
chij foi fazer huma Armada para tornar 
a dar huma vifta a coita Malabar , come- 
çou logo entender niíTo ; e em quanto tra- 
balhavam no corregimento dos navios > man- 
dou fazer três \ ou quatro alardos de apu- 
ração da gente que havia mifier. Áo der- 
radeiro dos quaes veio EIRey de Cochij , 
por comprazer a D. Henrique , e também 
dar moftra da fua gente , que eftava prefles 
pêra fe elle aproveitar delia em ferviço cTEl- 
Rey de Portugal , nos quaes alardos houve 
tirar com eípingardas , e as outras moílras 
que a gente de armas faz. E porque hum 
peão dos noflbs tirou com huma béfta com 
hum farpão , e paííou o braço de hum Nai- 
re d'E!Rey de Cochij , que he a fua gente 
mais nobre , houve ahi reboliço delles , ao 
que D. Henrique acudio , e mandava en- 
forcar o peão por não fer da eíTencia do 
alardo tirar com farpão , e parecia fer ma- 
lícia mais , que defcuido* Áo que EIRey 
logo acudio , pedindo a vida do homem , 
com que não houve eíFeito a juítiça -, de 
que elle ficou mui contente , vendo que Dom 

Hen- 



384 ÁSIA de João de Barros 

Henrique dava tal caítigo por tocarem em 
coufa íua , e elle D. Henrique a efle fim 
moftrava fazer aquellajuíliça. EIRey de Ca- 
lecut como trazia efpias no que D. Henri- 
que fazia ? fabendo deíla apuração de gen- 
te , e Armada que fe ordenava , como ho- 
mem que tinha merecido caítigo de fuás 
culpas acerca de nos , efcreveo a D. Henri- 
que fobre negocio de paz ; e que folgaria 
de mandar entender niífo , ao que refpon- 
deo , que elle efperava de fer lá cedo , e 
então poderia de mais perto mandar fallar 
niíTo. Partido eíle, per artificio do mefmo 
Çamorij , por elle fer feu vaífallo , veio 
hum menfageiro do Governador de Panane , 
o qual lhe mandava dizer , que feu Senhor 
o Çamorij queria que lhe foíTem entregues 
certos paráos , que eílavam no feu rio , que 
os manclafíe receber , que elle os entregaria 
logo. Ao que D. Henrique refpondeo, que 
elle eílava de caminho, pêra Já , que entre 
tanto que o foíTe elle fazer preftes , e foífe 
de prefla : cá poderia fer que .0 acharia já 
lá mais occupado do que então eílava ; e 
com eíla reípoíla o efpedio fem os mais 
querer ouvir. A eíle tempo eílava já D. Hen- 
rique tão apercebido, que fe embarcou lo- 
go , e partio a dezoito de Fevereiro com 
huma Armada de cincoenta velas , entre ga- 
leões , gales, galeotas, fuítas, bargantijç, 

e ca- 



Década TIL Liv. IX. Cap. IV. 38? 

e catures , de que eftes eram os principaes 
Capitães ?/ Pêro Mafcarenhas, D. Simão de 
Mene^ 5 D. AíFonfo de Menezes , D. Jor- x 
ge de Menezes, D.Jorge Tello de Mene- 
zes , Simão de Mello , Jorge Cabral , João 
de Mello da Silva , Ruy Vaz Pereira , Je- 
ronymo de Soufa , António da Silva de 
Menezes , Francifco de Mendoça o velho , 
Francifco de Mendoça o mancebo, D.Jor- 
ge de Noronha , Aires da Cunha , Francis- 
co de Vafconcellos , Nuno Fernandes Frei-/ 
re , Diogo da Silveira , António d'Azeve- 
do , Gomes de Souto-maior , António Pef* 
foa , Rodrigo Aranha , Aires Cabral , e al- 
guns moradores de Cochij , e o Arei de 
Porca com vinte e fete catures. O qual era 
vaffallo d'ElRey de Cochij, e vivia na po- 
voação de Porca , que he abaixo de Cochij 
nove léguas , com o v qual D, Luiz de Me- 
nezes tinha aíTentado quaíi .per contrato, 
que cada vez que foíTe chamado pêra fer- 
vir EIRey de Portugal com os feus catu- 
res , que foííe ; e não querendo elle metter 
íiifib íua peflba , que déíle os catures efqui- 
pados de remeiros ; e por efta obrigação 
quiz elle peíloalmente ir com D. Henrique : 
aíli que com os feus catures faziam o nú- 
mero das cincoenta velas, em que iriam te 
dous mil homens. Com a qual Armada 
chegou a Panane a vinte e cinco de Feve- 
Tom.III. P.iL Bb rei- 



386 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

reiro , que he huma povoação cPElRey de 
Calecut das principaes que elle tem , íitua- 
da toda ao longo do rio que tem. E peró 
que não era cercada de muro , por em to- 
do aquelle Malabar todalas povoações o 
não ferem , eftava em lugar delle entre o 
rio , e as cafas feita huma defensão de pal- 
meiras 3 e madeira replenada de terra tão 
taipada , que fuppria por hum forte muro, E 
vinha torneando efta defensão toda a povoa- 
ção pela parte do mar de maneira > que não 
íe podia chegar ás cafas , que grão parte 
delias eram de pedra , e cal , fenao per ci- 
ma de muita artilheria , que os Mouros ti- 
nham pofla*naquella força. Da qual artilhe- 
ria , (como fc depois foube,) era Condes- 
tabre hum Portuguez arrenegado , que a 
governava , e dentro no rio havia muitos 
navios de toda forte de carga , e remo , 
também portos em ordem de pelejar , fe al- 
guém os foífe commetter. D. Henrique pri- 
meiro que alguma coufa commetteíTe , man- 
dou hum recado ao Governador , dizendo 5 
que elle paflava per alli, que bem lhe po- 
deria mandar os paráos , que lhe mandara 
dizer , que o Çamorij havia por bem que 
lhe foífem entregues, E em quanto hia efte 
recado , mandou certos bargantijs que en- 
traíTem pelo rio acima , moftrando que que- 
riam fazer aguada , por elle fer de agua do- 
ce, 



Década III. Liv- IX. Cap. IV. 387 

ce , e que o foíTem fondando. Aos quaes 
bargantijs ,, os Mouros que eftavam em guar- 
da dos navios , e aíll na força ao longo do 
rio , começaram de esbombardear. D. Hen- 
rique quando vio que bombardas não re- 
fpondiam a entrega dos paráos , nem o feu 
recado com a fúria da artilheria não foi 
ouvido , nem refpondido , e tudo eram men- 
tiras , e manhas do Çamorij , governado 
per Mouros que eram contra a paz , feito 
confelho com os Capitães , a fahida em ter- 
ra foi pola informação que lhe os bargan- 
tijs deram daquelle pouco que do rio pu- 
deram alcançar ; mas não houve effeito a 
fahida aquelle dia que elle ordenou ; e a 
caufa foi efta. Querendo-fe D. Henrique, 
(a manhã que haviam de faltar em terra,) 
paliar de huma galé em que hia a hum 
bate] , lançou pelo ombro o braço de feu 
lugar \ que caufou anteparar a fahida , e 
tornou-fe elle á galé , onde lhe concertaram 
o braço , e poito hum emprafto nelle , fa- 
hio a outro dia contra vontade de muitos , 
por não crer em agoiros. E ainda diífe a 
hum homem feu familiar , que o muito aper- 
tava niflb : Se ejle agoiro fora bater em-me 
hum çapato , como a meu tio D. João de 
Menezes , per ventura me provocareis a 
não fahir ; mas iflo he lançar-me ombro fó-* 
ra y que eu tomo por muito bom prognofti* 
Bb ii co % 



388 ÁSIA de J0X0 de Barkos 

co \ que não tenho necejjidade delle pelejar ? 
fomente pôr os pés em terra. E o negocio 
do çapato de D. João de Menezes era hu- 
ma couía , que andava muito na boca dos 
Capitães da guerra , quando commettiam 
algum feito , a qual hiftoria contámos no 
Livro terceiro da fegunda Década no fim 
do Capitulo decimo , quando mataram o 
Vifo-Rey D. Francifco , fallando elle nefte 
çapato de D. João de Menezes. D. Henri- 
que leixando os agoiros , fahio nefta ordem 
como tinha aíTentado com os Capitães : Pê- 
ro Mafcarenhas acima i mettido mais den- 
tro no rio com trezentos homens , e D. Si- 
mão com outros trezentos abaixo na praia 
do rtíâr , ern companhia do qual hia Dom 
Jorge feu irmão ; e elle D. Henrique entre 
ambos com todo o mais corpo da gente , 
pêra dalli acudir abaixo , ou acima , onde 
neceíTario foífe. A qual fahida , ainda que 
ella foi bem feítejada dos noíTos com trom- 
betas 5 e gritas , que rompiam os ares daquel- 
la manhã ? tiveram por refpofta outro tom 
mui differente , que foram muitas bombar- 
das , que encubriam as gritas noflas , e fuás , 
e de envolta muita efpingardaria , de que 
os Mouros efiavam bem providos. E per 
todalas partes houve tanta fúria , que huns 
não entendiam os outros naquella primeira 
chegada , que os noíTos chegaram a querer 

en- 



Década III. Liv. IX. Cap. IV. 389 

entrar per cima da força , que os Mouros 
tinham feito ; e porém tiveram tempo que 
na parte da praia , per que D. Simão vi- 
nha , por fer hum pouco longe , e affaftado 
dos outros dous corpos da gente , acudiram 
muitos a elle. Pêro Mafcarenhas também 
como na parte que Jhe coube havia mais 
defensão , teve aílas trabalho em chegar lá ; 
elles com tudo a feu pezar tomaram entra- 
da , e vindo já a bote de lança , e fios da 
efpada , aííí cortavam nos Mouros de mor* 
te , que começaram a defamparar a defen- 
são. D. Henrique por trazer o fentido em 
todalas partes pêra acudir onde foíTe necef- 
fario , vendo que fobre D. Simão acudiam 
muitos Mouros pola razão que acima diíTe- 
mos , mandou alguma gente que lhe leixou 
tomar fôlego. E porém foi já a tempo que 
os Mouros fe punham em fugida , e ao pé 
das bombardas acharam o Condeftabre ar- 
renegado morto , e o roíto todo retalhado 
em cutiladas : parece que quando fe vio na 
agunia da morte , como homem defefpera- 
do de viver , aííí polas feridas que tinha , 
como porque vindo a noífo poder padece-* 
ria o que tinha merecido com fua infideli- 
dade , por não fer conhecido , mandou a 
algum Mouro que lhe retalhaífe o roílo. 
D. Henrique como vio que a fua gente en- 
trava per cima da artilhçria , e que começa* 

varu 



390 ÁSIA de João de Barros 

vam a correr trás os Mouros , por fe não 
efpalhar pelas ruas da povoação per toda 
andar derramada > mandou aos Capitães que 
entretiveíTem a gente , té que o temor que 
os Mouros levavam os fez não parar nas 
cafas , e acolhiam-fe aos palmares. E pofto 
que a povoação eílava defpejada de todo, 
todavia por dar huma cevadura ao Gentio 
que comfigo levava, deo-lhe lugar que fol- 
iem recolher alguma pouquidade que podia 
ficar , e ao mais mandou poer o fogo per 
muitas partes da povoação , e cortar pal- 
meiras , que he o maior mal que lhe pode 
fazer. E também mandou entrar navios de 
remo per o rio , que foram queimar os que 
nelle eftavam , com que efte lugar ficou def- 
truido , e caftigado por huns dias. E entre 
muito grande número de peças de artilhe- 
ria que mandou recolher , achou alguma 
nofla que os Mouros em diverfos lugares, 
e tempos tinham tomado a navios noflbs. 
Todavia não cuftou efte feito tão barato , 
que não morreíTem nelle nove homens de 
armas y e feridos paliaram de quarenta , de 
que os principaes foram Jorge de Lima , 
Simão de Miranda ? Payo Rodrigues d' A- 
raujo. Partido D. Henrique j ao outro dia 
foi dar hum açoute a Calecut , mandando- 
lhe queimar dez , ou doze velas , que efta- 
vam no porto. E em quanto no mar faziam 

et 



Década III. Liv. IX. Cap. IV. 391 

eíla obra , D. João de Lima também com 
fua gente foi á Cidade a lhe pôr fogo per 
partes nos arrabaldes delia ; e por os imi- 
gos acudirem , e elle fe metter mais do ne- 
ceflario no corpo delia , correo grande rif- 
co té fe recolher. Daqui também mandou 
D. Henrique a Coulete , onde era feu prin- 
cipal intento , a João de Mello da Silva , 
com o Piloto mor da Armada, que Ihefof- 
fe fondar a eílancia dos navios , que anco- 
ravam no porto , pêra faber o que havia 
de fazer quando chegaííe. O qual lugar era 
féis léguas de Calecut contra o Norte , a£ 
fentado em huma praia curvada á maneira 
de meia Lua tudo rafo, que com qualquer 
tiro podia offender a ambas as partes , ê 
fomente pegado na povoação tinham hum 
eftreito pequeno. Defronte da qual povoa- 
ção ficava a praia hum pouco Íngreme , e 
fobre ella por defensão tinham feito outro 
muro de madeira replenado de terra á ma- 
neira de Panane , e das ilhargas tinha outro 
tal amparo , ficando-lhe tudo em lugar de 
muro. E ao fob pé tinham todolos feus na- 
vios em ordem com as popas quaíi em íec^ 
co, aíli difpoílos que das tranqueiras deci- 
ma os podiam defender com artilheria dè 
maneira , que quem houveííe de ir ao lugar 
per eíla fronteria domar, lhe convinha paí- 
far per eílas duas eítancias , a dos navios , 

e dos 



g<?2 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

e dos replenos, tudo com muita artilheria. 
D. Henrique tanto que mandou João de 
Mello da Silva a fondar efte porto com té 
dezoito bargantijs , e catures , foi-fe logo 
nas coílas delle , e em defcubrindo huma 
ponta , vio que fe vinha João de Mello re- 
colhendo de cincoenta e féis paráos , que 
lhe fahíram ante que chegaíle ao porto , 
que como gente que corre páreo , vinham 
a elle com grandes apupadas. Aos quaes 
João de Mello leixava , porque não hia a 
pelejar 5 fomente a fondar o porto, e mais 
primeiro a elle o leixáram doze dos catu- 
res , que levava do Arei de Porca, todos 
efquipados de Negros Malabares , que cor^ 
riam, fugindo melhor que os outros, que 
perfeguiam a elle João de Mello. Porém 
quando os Mouros viram apparecer diante 
da ponta , que os defcubria a D. Henrique , 
e entenderam fer elle o Governador , já fur- 
dos de fuás apupadas foram-fe pôr no lu- 
gar de feu abrigo , que era ao fob pé da 
artilheria , que eftava nas eítancias , que dif- 
femos, havendo nelles, e nos outros gran- 
de revolta , bufcando cada hum o lugar 
mais feguro a feu parecer , querendo o Go- 
vernador commettellos , de que tinham gran- 
de temor polo feito de Panane P que já en- 
írg elles era fabido. 

CA~ 



Década III. Liv. IX. 393 

CAPITULO V. 

Como D. Henrique determinou de fahir 
em Coulete , o qual com huma grande vi- 
toria que houve dos Mouros , o queimou > 
e a (Ji grande número de navios , que ejla- 
vam no porto : e dahi fe tornou a Cana- 
nor 5 e efpedio D. Simão de Menezes com 
huma Armada pêra aquella cojla de Ma- 
labar. 

SAbendo D. Henrique de Menezes de 
João de Mello o que paliara , e que íe 
liia recolhendo pêra elle polas razões que 
diíTemos , foi íurgir com toda fua frota hum 
quarto de légua defviado da fronteria do 
Jugar 3 pêra alli aflentar o modo que haviam 
de ter pêra fahir em terra. E como toda 
a frota foi furta , fez ílgnal que vieífem a 
confelho á galé onde elle vinha , no qual 
houve mui diíferentes votos , e todos pa- 
raram que o negocio era de muito perigo. 
E que a fahida naquelle lugar não era cou- 
fa de tanta fubílancia , que por iífo aven- 
íurafle tanta gente ; e toda a vitoria do car- 
io eftava em queimar humas poucas de ca- 
fas palhaças , e aquelles pardos que tinham 
diante , o que eftava mui bem defendido 
per vinte mil homens de peleja , que di- 
ziam eftarem em terra. E correndo a prática 

mais . 



394 ÁSIA de JoÁo de Barros 

mais , huns eram , que já que haviam de pe- 
lejar, foíTe no mar, pêra tomarem aquelles 
navios , e paráos , ou os queimarem , e não 
fahiíTem em terra ; outros que fahiíTem nei- 
]a, e não commetteíTem os paráos; alguns 
em que parte deviam pelejar, por lentirem 
D. Henrique inclinado a iflb , e defejavam 
de o comprazer , e também por ter animo 
•differente. D. Henrique quando fe vio entre 
tão vários pareceres , quiz alargar o feu com 
algumas razões , dizendo , que a principal 
coufa que o movera a partir de Cochij , 
fora caíligar EIRey de Calecut , o qual 
(como elles fabiam) íimulava eílar occupa- 
do em guerra , e tinha em Calecut hum Go- 
vernador , que como de íi fazia guerra á 
noffa fortaleza , em que D. João tinha re- 
cebido muita affronta. E como elle o não 
podia caíligar na peflba , nem em lugar on- 
de eíliveíTe , queria-o -caíligar nas partes em 
que tinha mais olho, e elle não fabia ou- 
tras mais importantes a leu eíiado , que Pa- 
nane , e Coulete , onde elles eílavam. E et- 
te Coulete defejava elle mais deílruir, que 
outro algum , por quantos navios delle par- 
tiam pêra Meca , e iílo o trouxera alli, e 
não pêra andar á caça de paráos , por eíle 
fer officio de hum Capitão da coíla , e não 
da peflba do Governador. E fe iílo era ver- 
dade , que conta daria elle de íi a todolos 

Mou- 



Década III. Liv. IX. Cap. V. 39? 

Mouros da índia , chegar alli com tal Ar- 
mada , e não fahir em terra, e aííblar tu- 
do com tanta , e tão nobre gente como 
alli vinha ? que a elle lhe parecia , que lei- 
xando de o fazer , fazia os Mouros verda- 
deiros, com huma palavra com que amea- 
çam aos Portuguezes , dizendo : Uxar Cou- 
lete , que quer dizer guarda de Coulete. 
Verdade era , (como elles diziam , ) fer pe- 
•rigofa coufa quaíl á efcala vifta commetter 
aquella entrada , onde fe aventurava tanta 
Fidalguia , porque eftes por honra de feu 
fangue fempre eram os primeiros , e não 
tendo elle efte refpeito , commettia dous er- 
ros; o primeiro não fazer o que lheElRey 
mandava em feu regimento , que no com- 
metter de qualquer feito fempre tiveííe mui- 
to refguardo á vida dos homens ; o fegun- 
doerro era, não ter lei, nem amizade com 
muitos parentes , e amigos que alli vinham , 
todos tão cavalleiros , que elle já na fanta- 
fia os eftavam vendo avoar per cima da- 
quellas tranqueiras. Porém por fe conformar 
com o que EIRey mandava , e com o pa- 
recer de todos , e também com o feu , que 
não queria aventurar tanta gente , e elle que- 
ria tomar fomente trezentos homens que le- 
varia per huma parte D. Simão de Me- 
nezes feu primo , e elle pêra fi queria fo- 
mente cento e cinçoenta 7 pêra dar per ou- 
tra 



396 ÁSIA de João de Barros 

tra parte , que feria per ambas as ilhargas. 
E a mais gente lhe parecia bem ficar na Ar- 
mada , pêra commetter os cento e cincoen- 
ta navios , que tinham diante dos Mouros. 
Os quaes quando viflem de terra abalar tan- 
ta gente per diverfas partes , como não fa- 
biam a quantia que havia de ficar no mar, 
e quanta poiar em terra , efta dúvida os fa- 
ria não fe determinarem á parte principal , 
e o temor do feito de Panane , que tinha 
outra defenfa femelhante , os metteria em fu- 
gida. Porque (louvado Deos) des que a 
nação Portuguez contendia com Mouros 
da índia , ainda eftava por ver recolherem- 
fe ás embarcações fugindo , e efta fó razão 
naquelle tempo queria ter por íl contra to- 
dalas outras , que algum deíconfiado de íi 
mefmo podia dar. Por iíTo efta mercê pedia 
a todos , que cada hum confiaííe de íi quan- 
to elle confiava nelles , porque a defconfian- 
ça era o mais forte imigo que podiam ter 
contra íi. E bailava para daquelle feito te- 
rem vitoria , a outra que havia poucos dias 
que tinham havido , de que ainda não ti- 
nham limpas as efpadas do fangue de ou- 
tros taes Mouros. Finalmente com eftas , e 
outras razoes , que lhe D. Henrique propoz , 
todos fe conformaram com feu voto fó, 
pêra o outro dia pela manhã porem o pei- 
to per mar, e em terra ao perigo. Vinda a 

ho- 






Década III. Liv. IX. Cap. V. 397 

hora da maré , começaram os navios , que 
haviam de pelejar , ir demandar os paráos 
dos Mouros , que (como diííemos) eftavam 
abrigados aos feus repairos , e defensão da 
terra. No qual tempo D. Simão com a fua 
gente em vaíilhas pequenas tomaram huma 
parte da terra, que era á efquerda , eDom 
Henrique a direita , em companhia do qual 
hia Pêro Mafcarenhas , ficando os paráos 
entre elles , e levava diante Jorge Cabral 
em huma fufta , que lhe hia fondando o ca- 
minho. Poftas eftas três alas, cada hum te- 
ve tanto cuidado de íi , como tinham de 
animo ; e pofto que o lugar era bem peri- 
go fo , o fumo da artilheria os fez mais fegu- 
ros , porque não havia apontar a huma, e 
outra parte , com que íè chegaram ao lu- 
gar t^e tomar terra, e virem a bote de lan- 
ça _, e (como dizem) mão por mão. Porque 
os Mouros todos eftavam ofFerecidos a mor- 
rer , e affi o fizeram , que logo na primei- 
ra chegada dos noíTos eftiveram tão firmes , 
e conftantes , que cuftou a vida de Diogo 
Pereira de alcunha o Malabar , que como 
era Capitão mor dos catures do Arei de 
Porca , por cada hum acudir melhor a feu 
lugar , repartio-os per eftes Capitães , per João 
de Cerqueira , Manuel da Gama , e outros , 
e querendo fazer vantage á honra em que- 
rer iahir primeiro em terra, não afez á vi- 
da y 



398 ÁSIA de João de Barros 

da, porque o mataram alli. E Manuel da 
Gama pela garganta houve huma frechada 
mui perigoía 3 e aíTi receberam outros íi- 
gnaes de honra , ficando bem feridos. No 
commetter dos quaes navios aíli da fua par- 
te , como da noíTa foi huma nuvem que cu- 
brio a todos , cheia dos foguetes da Juz de 
tanta artilheria , a qual nuvem foi aos nof- 
íòs , (como diflemos , ) mui proveitofa , por- 
que primeiro os Mouros fentíram o ferro 
em íi , que entendeíTem que faltavam nos 
léus navios : úo cego andava o ar , que a 
todos cubria. E a primeira coufa que co- 
meçou prometter a vitoria aos noflbs , foi 
fentirem-fe os Mouros do mar táo aperta- 
dos delles , que por fe falvar faltavam em 
terra , e hiam-fe abrigar á eftancia que ti- 
nham feita , em que eftava a fua artilheria. 
E quem nefíe abalroar dos paráos fe hou- 
ve animofamente , por fer o primeiro que 
abalroou , e enxotou os Mouros em terra 
do paráo que aíFerrou , foi Rodrigo Ara- 
nha , no qual tempo houve grande traba- 
lho em todos ; porque como os Mouros 
começaram a faltar , acudiram D. Aífonfo 
de Menezes , D. Jorge de Noronha , Dom 
Triftão de Noronha , Jeronymo de Soufa y 
António PeíToa , e outra gente nobre , que 
começaram levar os Mouros ante íi. Dom 
Henrique como trazia os olhos em todalas? 

par- 



Década III. Liv. IX. Ca?. V. 399 

partes pcra faber onde havia de acudir , e 
mandar , vendo que o Arei de Porca nefta 
entrada dos noííos fe leixava eftar com al- 
guns dos feus catures , como homem que 
fe não queria metter cm perigo , depois de 
lhe mandar bradar > e fazer muitos fignaes 
que fahiiTe com os feus , mandou-lhe tirar 
com hum berço , e foi elle tão mofino , què 
lhe quebrou huma perna, E fobre iífo man- 
dou-lhe dizer D. Henrique que fe foífe, 
que não tinha neceífidade de homens , que 
vinham á guerra por razão de apanhar o 
defpojo , como os feus Malabares faziam , 
e não pêra pelejar. No qual tempo andava 
já D. Henrique contente , por ver que mui- 
tos dos noffòs tinham já , além da força, que 
aos Mouros fervia de muro , arvorado feus 
guiões , porque os primeiros nefta fubida 
foram os mais ditofos : cá o fumo os cu- 
bria de maneira , e a luz da efcorva lhe di- 
zia onde eftava a bombarda , por cima da 
qual fubiam fem perigo ; e paliados da par- 
te de dentro , por acudirem muitos Mou- 
ros , fizeram maravilhas. A eíle tempo Dom 
Henrique pela parte per onde entrou , por 
fer onde eftava o Capitão mór daquellas ef- 
tancias , como levava gente mui nobre , fa- 
ziam maravilhas , e era já morto efte Ca- 
pitão com outros três aos feus pés , que ti-* 
nham jurado no feu Alcorão de acabaram 

ai- 



4oo ÁSIA de JoXo de Barros 

alli por defensão de fua peflba. Da outra 
parte de D. Simão , por o feu caminho ler 
hum pouco longe, deteve-fe pêra encaval- 
gar per cima da eítancia da fua ilharga , 
que tomou , onde acudio grande pezo de 
gente , por cuidarem os Alouros que alli 
hia o Governador, vendo que a gente era 
dobrada. Mas como todos já andavam tra- 
vados , tanto que a gente dos navios toma- 
ram terra , foi elle mui bem ajudado , prin- 
cipalmente deites Fidalgos, e Cavalleiros, 
Jorge Cabral , João de Mello , João de Be- 
tancor , Manuel da Gama , Fernão de Mo- 
raes , Pvuy d' Acoita , com que acabou de 
rematar nefte grande conflito a vitoria , pon- 
do-fe os Mouros em fugida. No qual ficou 
mofto Diogo Pereira , e outros quatorze em 
eíte feito, e todolos acima nomeados feri- 
dos , a fora outros em outras partes, que 
por todos feriam quarenta e oito. Acabada 
efta vitoria , foram recolhidas trezentas e 
feflenta peças de artilheria de toda forte, e 
grande número de efpingardas , e tomados 
cincoenta e três navios , muita parte del- 
les carregados de efpeciaria , que efíavam 
pêra fazer viagem ; e os mais por ferem 
velhos, e não pêra ufo nolTo, foram quei- 
mados , e por derradeiro foi queimado to- 
do o lugar. Com efta vitoria fe tornou Dom 
Henrique a Cananor a onze de Março , on- 
de 






Década III. Liv. IX. Cap. V. 401 

de fe vio com EIRey em terra , com aquel- 
le apparato , ( fegundo feu ufo , de que já 
efcrevemos.) E entre algumas coufas que 
lhe EIRey requereo , foi a entrega de cer- 
tas Ilhas das chamadas de Maldiva , de 
que lhe aprcfentou huma Provisão d'ElRey. 
A qual como vinha com huma claufula, 
que pagaria delias o que bem pareceíTe ao 
Governador , e elle Rey não fe quiz obri- 
gar a pagar a quantidade do cairo , que lhe 
D. Henrique pedia , ficou fem as Ilhas , e 
aífí fem huns paráos com a artilheria de 
certos ladrões , que fe acolhiam no feu Rey- 
no ; porém cpncedeo-lhe outras coufas le- 
vemente , com que ambos ficaram contentes 
hum do outro , e fe deram peças ; EIRey 
hum colar de ouro, e pedraria a D. Hen- 
rique , que elle mandou a efte Reyno a EI- 
Rey , e com eíla condição o tomou, por 
elle fe haver por injuriado em o não tomar 
D. Henrique , e elle em retorno lhe deo ou- 
tras peças. E daqui mandou D. Henrique 
a D. Simão de Menezes com vinte navios, 
em que iriam té quinhentos homens pêra 
correr aquella cofla té Bracelor , e primeira 
que fe recolheffe invernar a Cochij , foífe 
carregar de arroz a Baticalá ; e leixando al- 
gum em Calecut, o refto levaífe a Cochij. 
E aífi efpedio a hum menfageiro d ? ElRey 
de Ormuz , que com aggravos que dizia 
Tom. III. P.iL Ce ter 



4oa ÁSIA de JoXo de Barros 

ter do tempo de D. Duarte de Menezes y 
e de Diogo de Mello Capitão, efcrevia ao 
Vifo-Rey Conde da Vidigueira ; e vendo 
que era falecido , aprefentou as cartas a 
D. Henrique , e aífi hum fio de perlas, e 
alguns pannos de feda , que lhe mandava 
de preíente. As quaes peças D. Henrique 
lhe acceitou , poio não efcandalizar , e as 
mandou a efíe Reyno a EIRey com o co- 
lar que lhe deo EIRey de Cananor , e ef- 
creveo a EIRey , e a Raez Xarafo as pala- 
vras que haviam mifter queixumes , que 
eram de confolação , e juftiça em feus ag- 
gravos ; e outra a Diogo de Mello , encom- 
mendando-lhe o bom tratamento d'ElRey , 
e feu Governador , por não terem caufa 
de fe queixar. E daqui fe partio pêra Co- 
chij a ordenar as coufas pêra o fundamen- 
to que elle trazia. 

CAPITULO VI. 

Do que pajjbu António de Miranda d? Aze- 
vedo com a Armada que foi ao ejlreito : 
e ajji a D. Simão de Menezes na 
cojia de Malabar té fe reco- 
lher a invernar. 

POr o recado que D. Henrique mandou 
a Manuel de Macedo a Chaul fobre 
as náos de madeira que hiam pêra Meca , 

de 



Década III. Liv. IX. Cap. VI. 403 

de que lhe Álvaro Mendes deo conta, co- 
mo atrás fica, elle partio de Chaul meado 
Janeiro em hum galeão , e levou duas ca- 
ravellas , de hum a era Capitão Ruy Vaz , 
e da outra Ruy Gonçalves. E porque dle 
foi primeiro que António de Miranda , o 
qual partio de Goa a cinco de Fevereiro , 
em chegando a Çocotorá , achou alli nova 
como no Cabo de Guardafú andava huma 
caravella dos noflbs ás prezas , a qual elle 
foi tomar, e era da Armada do Conde Al- 
mirante Capitão Mofem Gafpar , de que 
atrás fizemos menção. O qual como era es- 
trangeiro , fobre palavras de querer mandar , 
que alguns dos noflbs mal foffrêram , elle 
foi morto ; e temendo o caíligo que por iflb 
haviam de haver os authores de fja mor- 
te , determinaram de fe fazer per alli ricos , 
andando ás prezas , fazendo feu Capitão 
hum António Lopes , que não durou mui- 
to tempo no officio. E em feu lugar fize- 
ram outro de appellido Aguiar, author da 
morte de Mofem Gafpar , que depois foi 
degollado em Cochij por efte feito ; e dos 
outros delles foram enforcados em Chaul, 
e outros degredados pêra diverfas partes , 
fegundo fuás culpas. Feita eíla preza depre- 
zos , ajuntou-fe Manoel de Macedo com 
António de Miranda pêra andar alli de Ar- 
mada , já defelperado das náos de madeira 9 
Ce ii por 



404 ÁSIA de João de Banhos 

por ferem paíTadas daquella paragem. O 
qual vinha em huma galeaça , e com elles 
cftes Capitães , Ruy Mendes de Mefquita 
em hum galeão , Francifco de Vafconcel- 
los , Ruy Vaz Pereira , e feria a gente que 
levou té trezentos e cincoenta homens. E o 
inodo que tem as noífas Armadas de andar 
guardando aboca daquelle eílreito 5 por não 
pa(Tar alguma vela de Mouros que lhe não 
caia na mão 5 he o que fazem os pefcado- 
res na fua pefcaria, atraveífando o rio de 
terra a terra com fua rede ; e por efta fer 
a ordem de todalas Armadas que vam alli, 
a efte fim oefcrevemos aqui, por a não re- 
petir muitas vezes. Do Cabo de Guardafú, 
que he a mais Auftral , e Oriental terra da 
parte Africa , ao Cabo de Fartaque 3 que lhe 
fica ao Oriente na terra de Arábia , fe faz 
huma garganta do mar , que vai fazer o 
eílreito do mar^ Roxo. Efta garganta fera 
pouco mais de cincoenta léguas pelas car- 
tas de marear , e nefta diftancia as noífas 
Armadas com feus navios fe vam eftender 
quaíí huns á vifta de outros , porque não 
paffe vela 5 que per elles não feja vifta. E per 
efte modo fe ordenou António de Miran- 
da , e deo a caravella dos alevantados a 
Payo Rodrigues d' Araújo, e nefta pefcaria 
a pouco cufto de peleja houveram dez zam- 
bucos caçregados de ruiva > coufa de pouco 

pre- 



Década III. Liv. IX. Cap. VI. 405^ 

preço , e três náos. Das quaes a mais rica 
tomou Ruy Mendes de Mefquita , e por 
o terem aííipor regimento , por não anda- 
rem com náos carregadas trás fi , Ruy Men- 
des por andar da banda da cofta de Ará- 
bia , a mandou por Francifco Borges a Chaul 
por ordenança de António de Miranda , da 
qual fazenda elle riao deo boa conta. E a 
Manuel de Macedo em feu lanço lhe cou- 
be hum paráo carregado de pimenta , que 
pelejou tão furiofamente , que pereceram 
todos fem fe querer entregar 3 e ficaram fo- 
mente dous vivos. E vindo o tempo em 
que já não podiam andar naquella pefca- 
ria , António de Miranda foi dar huma vif- 
ta a Xael , onde D. Henrique lhe mandou 
que foííe pedir alguma artilheria , que Dom 
Luiz de Menezes não pode recolher com 
o tempo do mar , quando faqueou aquella 
Cidade. Eaííi que houveííe outra artilheria 
de huma náo , que indo pêra Ormuz , com 
tempo fe foi alli perder ; mas os Mouros 
como eftavam efcandalizados do feito de 
D. Luiz , o não quizeram fazer. E conver- 
teo António de Miranda a fúria em pôr 
fogo a humas poucas de náos , porque acu- 
dindo elles a ellas , os caftigaíTe , como fez , 
onde correram muitos fem fahir em terra, 
e das náos foram queimadas fete , e cinco 
foram tomadas* em que houve bom esbu- 
lho. 



4o6 ASIÀ de JoXo de Barros 

lho. E porque o tempo não íbffria andar 
mais naquella cofta, e o galeão de Manuel 
de Macedo fazia muita agua , António de 
Miranda o efpedio que vielTe a Chaul , co- 
mo veio , e elle invernou em Mafcate , e 
depois veio ter com D. Henrique a tempo 
que elle eftava fobre Calecut, como fe ve- 
rá adiante. D. Simão também nefte tempo 
com a Armada que levou pêra andar na 
cofta , foi correndo todolos rios té chegar 
a Mangalor , onde elle cuidou achar Fer- 
não Gomes de Lemos , por levar recado de 
D. Henrique que o tomafle debaixo de fua 
bandeira , e alimpaíTe aquella cofta de la- 
drões , por D. Henrique ter fabido o que 
alli lhe tinha acontecido , de que eftava des- 
contente , e Fernão Gomes muito mais ; e 
ocafo foi efte. Dentro defterío eftava gran- 
de número de paráos carregados de pimen- 
ta ; e como elle não tinha navios pequenos 
pêra poder entrar, por ofeunavio ferhum 
galeão , e as outras duas peças de feu irmão 
Gomes Martins de Lemos , e de António 
da Silva ferem galeotas , eftavam mais em 
guarda que não fahiílem , que em auto de 
poder ir a elles. Os paráos como eftavam 
alli encarcerados fem poderem fahir , pare- 
ce que deram avifo por terra a Calecut do 
eftado em que ficavam , e ordenaram efte 
ardil P que vieífem de mar em fora muitos 

pa- 



Década III. Liv. IX. Cap. VI. 407 

paráos de lá a esbombardear Fernão Go- 
mes. Pofque como elle não tinha navios le- 
ves , e elles o podiam provocar a fe mu- 
dar da boca do rio , pêra no mar largo vir 
pelejar com elles , e lo neíla mudança fica- 
vam elles de dentro defpejados pêra fahi- 
rem com fua carga , pêra o qual negocio 
eftavam preftes. O qual ardil foi como el- 
les o cuidaram , vindo hum grande número 
de paráos todos a ponto de pelejar, ecom- 
mettendo a Fernão Gomes , foi tanta bom- 
bardada nelles , que lhe conveio fahir-fe do 
lugar ao mar largo com as galeotas. E fa- 
hindo os paráos, começaram de fe efpalhar , 
e como eram leves ? não lhes podiam os 
noífos fazer damno fenao • com alguns pe- 
louros da artilheria - fe os acertavam. No 
qual tempo os que eftavam dentro , como 
preza de agua que lhe tiram o impedimen- 
to que tem , fahíram os que eftavam carre- 
gados y e outros de pequeno porte vaíios. 
E em Fernão Gomes fazendo volta , como 
que queria acudir aos entreter , fe mettêram 
pelo rio dentro 5 e por efte modo os car- 
regados foram fua via de Cambaya , e Fer- 
não Gomes ficou mui defcontente , e muito 
mais quando foube que os de dentro não 
tinham carga alguma , com que determinou 
de fe ir dalli quaií em bufca dos outros 
que o fizeram mover , té que D. Simão veio 

dar 



4o8 ÁSIA de Joio de Barros 

dar com elle , e com indignação do caio 
elle D. Simão foi dar em Mangalor , e o 
queimou , e dez , ou doze navios que ahi 
eftavam j e os outros de menos porte fe met- 
têram por effes efteiros , onde os noflbs lhe 
naõ podiam fazer damno. Partido daqui, 
foi correndo a cofta já acompanhado de 
Fernão Gomes 5 e pelejou três , ou quatro 
vezes com paráos. E a maior peleja que 
teve , foi dia de Pafcoa com té íètenta pa- 
ráos , de que tomou vinte , e com outros 
deo á coíla. Aos quaes perfeguiam António 
PeíToa , e Domingos Fernandes por leva- 
rem catures de remo , que são navios mui 
leves , chegando-fe tanto a elles , que vi- 
nham ao bote da lança , onde mataram mui- 
tos Mouros. E vendo os outros que não 
tinham falvação ? lançáram-fe ao mar , e 
outros foram tomar por abrigo o rio Ma- 
rabea dentro do cabo de Cananor. Seguin- 
do os quaes foi D. Simão , António da 
Silva , Gomes Martins de Lemos ; os Mou- 
ros do qual lugar vendo ir os noííbs com 
grande grita trás os paráos , como quem os 
queria defender , começaram oífender os nof- 
fos. E quem nifto fe ventajou de entrar pe- 
lo rio acima , foi Domingos Fernandes , 
por ter leve navio , confiado na vitoria que 
houvera dos outros paráos. D. Simão quan- 
do o vio ir aííi com aquelie alvoroço dek 

at- 



Década III. Liv. IX- Cap. VI. 409 

atenttadamente , e fó , mandou a Gomes Mar- 
tins de Lemos filho de João Gomes de Le- 
mos , que hia em hum batel /que lhe acu- 
diíTe ; e elle em lugar de ir falvar a vida 
do outro , perdeo a fua , por dar em fecco 
com o alvoroço de chegar , onde os Mou- 
ros deMarabea o mataram ás frechadas, e 
com elle D. Miguel de Lima filho de Dom 
Affoníb de Lima , e quantos hiam no ba- 
tel , em que entraram fete Portuguezes , a 
fora efles dous Fidalgos. Domingos Fernan- 
des quando quiz tornar fobre elle > era já 
o cafo feito , e teve bem que fazer em fó 
falvar , e foi-fe pêra D. Simão , que não 
ficou mui contente delle ? por o íeu açoda- 
mento ler caufa daquelie defaílre 1 de que 
ficou mui trifte. E por não ter vafilhas pe- 
quenas 5 leixou de ir deftruir o lugar de Ma- 
rabea, poíto que d ? ElRey de Cananor fof- 
fe • e porque efperava de haver o caíligo 
por o mefmo Rey , e o tempo não foírria 
mais andar na cofta , foi carregar de arroz 
a Baticalá , como D. Henrique lhe manda- 
va , provendo delle Cananor , e Calecut. 
E também lhe leixou alguma gente , por 
eftarem já de guerra com o Çamorij , e da- 
hi fe foi pêra Cochij invernar. E quando 
paífou per Cananor , fez queixume a Eí- 
Rey do que osfeus lhe fizeram 5 o qual po- 
lo fatisfazer mandou matar alguns Naires, 

e Mou- 



4io ÁSIA de JoÁo de Barros 

e Mouros que achou ferem culpados. E 
neíte tempo , que era no principio de Maio , 
quando chegou a Cochij , por fer o tempo 
da monção pêra ir pêra Malaca 5 achou 
que D. Henrique acabava de defpachar Pê- 
ro Mafcarenhas pêra ir fervir a capitania 
delia. Da chegada do qual adiante faremos 
relação, fallando nas coufas deita Cidade. 

CAPITULO VIL 

Como o Çamorij de Calecut defejando 
ãe tomar a nofja fortaleza de Calecut ? por 
artificio mandou commetter pazes ao Go- 
vernador Z). Henrique ; e por lhe não fe- 
rem concedidas com as condições que clle 
queria 5 veio cercar a nojfa fortaleza. 

O Çamorij P.ey de Calecut como nefte tem- 
po 5 que D. Henrique começou gover- 
nar , vio a grande deftruição que lhe fez em 
feus lugares , e quantos navios tinha perdi- 
do , e que elle defprezava os commettimentos 
de paz 5 entre indignação fua , e confeího 
de Mouros mercadores , que muito o de- 
moveram , ordenou de cercar aquelle inver- 
no a nofFa fortaleza ? e a tomar , fe pudeffe. 
E quando não o pudeífe fazer , polla-hia em 
tanta neceflidade , que eífo obrigaria a Dom 
Henrique confentir na paz , conforme ás ca- 
pitulações que elle quizeíTe : cá fegundo 

aquel- 



Década III. Liv. IX. CAP.VIL411 

aquelle homem entrava em feu governo fu- 
riofo , feria ofeuReyno de todo perdido, 
fem huma almadia poder peícar , quanto 
mais navegar navios. E porém primeiro 
quiz ufar de huma cautela pêra diííimular 
com elle , mandar-lhe comtnetter pazes ; 
porque quando viíTe que lhas commettia, 
aíTentaria em feu animo que elle Çamorij 
não havia de cercar a fortaleza , e não a 
proveria de novo. A qual tenção elle fez 
logo no fim de Maio , mandando a Cochij 
hum Gentio homem principal per nome 
Lambeá Morij , que D. Henrique ouvio , 
e tudo eram palavras de defculpas fer mo- 
vida aquella guerra com D.João de Lima, 
por fer hum homem máo de contentar , e 
grande executor crimemente em toda venial 
culpa. E fe da parte do feu Capitão da Cida- 
de Calecut fe houve alguma , foi por elle Rey 
ler ao pé da ferra a huma guerra , que ti- 
vera com feus imigos , que tinha acabada. 
E defejando muito fua amizade delle Dom 
Henrique , tanto como os benefícios da paz , 
lha iriandava requerer. D. Henrique a eftas 
fuás razoes deo outras ; e per fim dos apon-* 
tamentos , e condições da paz, o Embaixa- 
dor fe tornou não mui contente, fem o Ça- 
morij mais a mandar requerer , e folgou de 
lhe não fer concedida pêra pôr em effeito 
mandar cercar a fortaleza. E porque cite 

cer- 



412 ÁSIA de João de Barros 

cerco foi huma das coufas mais perigofas r 
que té aquelle tempo tivemos na índia , aífi 
por caufa do tempo , que era na força do 
inverno , como do íitio da fortaleza , pêra 
fe melhor entender o modo do cerco , fera 
necefíario darmos mais particular declaração 
delia , poíto que já atrás em alguma manei- 
ra o tenhamos feito na relação da Cidade 
dos Mouros. Eíta coita , em que a fortale- 
za eílá íituada , não tem rio , nem porto 
abrigado , onde os navios poliam eítar fe- 
guros 5 tudo he huma coita brava com hum 
recife de pedras com alguns canaes peque- 
nos per que podem entrar navios peque- 
nos. A qual coita fe corre Norte Sul , e 
tem a noíta fortaleza nas coitas da parte do 
Oriente junto á Cidade dos Mouros , e do 
Ponente o mar , tudo tão deíabrigado , e 
patente aos ventos , que pêra fahir na for- 
taleza em paz , ha miíter que feja o dia 
quieto 5 pêra o mar dar fahida em terra, 
quanto mais querer fahir com mão arma- 
da , e o mar que rompe (como dizem) em 
frol. Os Mouros a primeira coufa em que 
entenderam foi cercarem a fortaleza com 
huma cava de té vinte e cinco palmos de 
largo , á maneira de meia Lua , cujas duas 
pontas vinham beber no mar. No fim das 
quaes pontas em cada huma fizeram feu 
baluarte mui forte com artilheria , que jo- 
ga- 



Década III. Liv. IX. Cap.VIL 413 

gava em revés ao longo da praia , pêra 
que vindo foccorro per mar , não pudeífe 
entrar na fortaleza. E em contorno de to- 
da efta cava em lugar de repairo 3 princi- 
palmente donde podiam dar bateria á for- 
taleza 5 fizeram outros cinco baluartes 5 e to- 
da a terra que tiravam da cava faziam hu- 
ma trincheira pêra tirar com efpingardas , 
c frechas , e fe amparar dos noííbs tiros y e 
per eftes principaes baluartes punham a ar- 
tilheria. Da qual obra era meftre hum Si- 
ciliano de nação arrenegado , que era gran- 
de Official , e elle fe gloreava que apren- 
dera todos aquelles artifícios da guerra no 
cerco que o Turco teve fobre Rhodes. Fi- 
nalmente quando os Mouros chegaram a 
fazer efta cava , e baluartes , já os noflbs tir 
nham paífado muito trabalho , e D.João de 
Lima fahido per vezes fora da fortaleza a 
pelejar com elles. E o primeiro movimen- 
to que o Çamorij teve nefte cerco foi man- 
dar dez j ou doze mil homens com hum 
feu Capitão , e o Siciliano que diííemos , 
fazer a cava. A impedir a qual , D. João 
de Lima em diverfos tempos do dia 3 ora 
com cincoenta , ora com cem homens , (por- 
que na fortaleza não havia mais que trezen- 
tos . ) lhe dava rebates , matando , e ferin- 
do aos que andavam nefta obra. E ainda 
pêra o fazer mais a feu falvo > ferviam-lhe 

mui* 



414 ÁSIA de João de Barros 

muito humas cafas noffas , que eftavam fo- 
ra dos muros da fortaleza , que ferviam de 
armazéns , e cafas de feitoria , porque am- 
paravam os noílos , que fahiam a impedir 
a obra que os Mouros faziam, O arrene- 
gado vendo quanto impedimento lhe fazia 
D. João com eíles rebates , com que lhe 
matava muita gente , mandou cubrir da ca- 
va parte delia com vigas , e rama, e ter- 
•ra , pêra os homens per baixo irem traba- 
lhando. E porque com fer muita gente ven- 
ciam o trabalho dos noífos , ante que lhe 
vieílem a queimar as cafas dos armazéns , 
e Feitoria, que eftavam fora da fortaleza, 
D.João mandou recolher dentro toda a fa- 
zenda principal , fem derribar as cafas , por 
lhe fervirem de amparo quando fahia dar 
os rebates. Também vendo elle que a ten- 
ção dos Mouros era tomar-lhe a ferventia 
domar, com os baluartes que jogavam em 
revés , da porta da fortaleza té beber no 
mar , com pipas entulhadas de arêa , e ou- 
tros repairos , mandou fazer huma rua ao 
modo de Coiraça , pêra per ella irem , e 
virem os noífos feguros , e mais per entre 
pipa , e pipa jogarem os noífos com a ar- 
•tilheria miúda , e efpingardas. A eíle tem- 
po, que era já na entrada de Junho, que a 
cava era acabada , chegou o Çamorij , o 
qual diziam trazer noventa mil homens. E 

quem 



Década III. Liv. IX. Cap.VIL 415: 

quem vir eíla gente em campo , dirá fer 
menos ametade , porque como faz pouco 
apparato fomente com hum arco , e frechas , 
efpada , 011 cofo , e alguns delles efpingar- 
das , e todos com hum panno derredor de 
íi fem luzirem mais armas , fazem pouca 
moílra em vifta , e muita no commetter. Na 
qual gente vinham Reys , e Senhores del- 
les vaílallos , e outros amigos ; e por aíTom- 
brar os noífos , e elle abonar feus artifícios , 
o Siciliano trouxe EIRey encubertamente 
aos ver, dando-]he efperança que com fua 
chegada em poucos dias os noífos leriam 
tomados ás mãos. E EIRey aíli lhe pareceo , . 
pondo os olhos em a pouquidade da noífa 
fortaleza , e no grande número da gente 
que tinha , tanto , que gloriando-fe elle en- 
tre os feus do que vira , dizia que com pu- 
nhados de terra fem mais armas os feus ala- 
gariam a fortaleza. Ao que o feu Capitão 
que alli andava , como efcaldado do que 
tinha paliado , refpondeo : Aquella gente y 
Senhor , não fe leixa alagar com terra , 
nem teme ferro , e he como huma pouca de 
pólvora mettida em hum pequeno vafo , que 
fe lhe chega huma faifca de fogo , faz ma- 
ravilhas , de que muitos mortos , e feridos > 
e eu , fomos teftemunha dajua fúria. Dom 
João de Lima , porque o arrenegado veio 
eítar á falia com os da noífa fortaleza , di- 

zen- 



4i6 ÁSIA de JoÁo DE Bakros 

zendo que feria bom darem-fe , por fer vin- 
do o Çamorij com aquelle grande exercito 
de gente , com que viram o dia d'antes 
aquellas praias cubertas , mandou-lhe refpon- 
der , que agora veria elleque os cavalleiros , 
que citavam dentro naquella fortaleza, pe- 
lejavam de melhor vontade , pois eram vif- 
tos de hum tal Príncipe. E por fazer fua 
palavra boa , e que não temia aquella mul- 
tidão de gente , fahio per detrás das calas 
da Feitoria , que eflavam fora do caftello , 
a dar nos imigos , o que lhe houvera de 
cuítar a vida , por ferem tantos íòbre elle > 
que quall o tiveram cercado ; e á força de 
ferro , e feridas , que levaram os feus , fe 
recolheo á fortaleza. E por experimentar na- 
quella fahida que já as cafas lhe não fer- 
viam de amparo , ante podiam fer azo na 
confiança delias de algum grande deíaflre , 
per confelho que fobre iílb teve ? as man- 
dou derribar , ao qual feito os Mouros não 
acudiram por ódio , fegundo o damno que 
delias recebiam. E porque houveram que 
o temor fizera aos nofíbs fazer aquella obra , 
apreflaram-fe muito acabar a fua cava ,• e 
ordenar feus baluartes com toda a artilhe- 
ria que tinham , pêra dar bateria á fortale- 
za y em que entrava peça , que tirava pe- 
louro de leis palmos de roda. 



Década III. Liv. IX. 417 

CAPITULO VIIL 

Como EIRey de Calecut começou combater 
a fortaleza , e ojoccorro que o Governa- 
dor D. Henrique lhe mandou : e dos 
trabalhos que os nojjos pade- 
ciam nejle cerco. 

O Primeiro dia que começaram dar efta 
bateria , foi huma manha treze de Ju- 
nho , a qual manha naquelle tempo não te- 
ve mais claridade , que os relâmpagos do 
afuziíar do fogo , porque todo o mais foi 
hum groflb , e efcuro fumo , que cubria o 
circuito da fortaleza , com tamanho eítron- 
do das bombardas , e grita da gente , que 
por alto que os noííos fallavam dentro na 
fortaleza , não fe ouviam entre fi. Finalmen- 
te a terra tremia, o mar fe empolava com 
alguns pelouros que lá hiam parar , e oar 
roncava com aquelle rumor defvairado do 
eftrondo das peças da artilheria , e tudo era 
huma femelhança do Juizo final • porque o 
animo dos homens, e a palavra fe lhes en- 
cubria de horror , aíTi nos cercados , como 
ao Gentio de fora , ainda que authores da- 
quella obra. D. João neíle tempo tinha re- 
partido aguarda da fortaleza em eftancias, 
de que eftes eram as principaes pefíbas, 
D. Vafco de Lima , Jorge de Lima 7 Ruy 
Tom. III. P. iL Dd de 



418 ÁSIA de JoÂo de Barros 

de Mello, António de Sá feu irmão , João 
Rabello Feitor, Duarte de Faria, e Antó- 
nio de Serpa ambos Efcrivacs da Feitoria , 
com gente ordenada que continuadamente 
eftavam nelles. E D. João andava com ou- 
tra fobrefalente pêra acudir a qualquer par- 
te mais neceíTaria ; mas naquelle dia não 
houve mais que fogo , de que os Mouros 
receberam o maior damno. Porque a fúria 
da fua artilheria parava em o muro da for- 
taleza , e muita delia não lhe fazia coufa 
alguma , por não ferem os bombardeiros 
mui certos ; e a noíTa que lhe refpondia , 
dava no cardume da gente , e pés das pal- 
meiras , as cadeias das quaes era outro gé- 
nero de tiros , que matou , e aleijou mui- 
tos. Paliado efte dia , efpertou os noífos de 
maneira , que foi neccííario efpertar outra 
vez a D. Henrique o Governador, dando- 
lhe conta como tinham recebido o primei- 
ro combate , e eftado em que ficavam , pe- 
dindo-lhe D. João foccorro de gente , por- 
que a que tinha andava mui canfada do 
trabalho de dia , e vigia da noite ; e nas 
fahidas que fizeram , foram alguns feridos. 
D. Henrique tanto que teve cite recado per 
huma almadia, que foi milagre aportar lá , 
com a fúria do mar , por fer na força do 
inverno, que era a dez de Julho, efpedio 
a Chriftovao Ju farte filho de Bartholomeu 

Ju- 



Dec. TIL Liv. IX. Cap. VIII. 419 

Jufarte Alcaide mor da Villa Monforte, e 
com elle Duarte d'Afonfeca filho do Dou- 
tor Fernão d'Afonfeca 3 debaixo de íua ban- 
deira. E ambos fe offerecéram a eíte gran- 
de perigo , por fer couía de muita honra , 
em duas caravellas , que levariam cento e 
quarenta homens , os mais delles de bom 
fangue, com outra provisão de pólvora, e 
coufas que mandava pedir. Chegando am- 
bos a Calecut , teve Chriftovão Jufarte hu- 
ma vantage , que chegou primeiro , e a tem- 
po que pode entrar dentro do recife j e a 
Duarte cTAfonfeca acalmou-lhe o tempo , 
e ficou de fora. Chriftovão Jufarte , como nas 
coufas da guerra era fern medo, e ardido, 
peró que D. João quando o vio no lugar 
onde eftava , temeo fua fahida , e poz-fe á 
porta da Coiraça que tinha feita , acenan- 
do-lhe com huma bandeira que não fahif- 
fe ; com tudo , ou que elle o não enten- 
deo , ou que teve pouca conta com iflb, 
determinou fahir , fem ter aquella cautela > 
■e refguardo , que lhe D. Henrique manda- 
va ter na fahida : efcolheo entre oitenta ho- 
mens , trinta e cinco do feu voto , e aos ou- 
tros que lhe contrariavam a fahida , man- 
dou ficar em o navio em guarda delle ; e 
tanto que lhe viíTem tomar terra , varejaf- 
fem aos Mouros que fobre elles vieífem. 
E pêra fer maior milagre eíla fua fahida, 
Dd ii a for- 



42o ÁSIA de JoAo de Barros 

a força da agua carregou tanto no paráo 
em que fahio , que não foi direito á boca 
da Coiraça onde D. João eftava. E como 
os Mouros o viram ficar fora da garganta 
delia , de que podiam receber damno das 
nofTas efpingardas , que eííavam naquelie lu- 
gar , ainda o paráo não tomava terra , quan- 
do a multidão dos Mouros no collo que- 
riam tomar os noííos. O qual tomar de ter- 
ra era quafi com agua pelos peitos , onde 
os Mouros , e Gentio como não tem cuílo 
de defpir veílidos , e fempre andam pêra 
nadar , andavam a braços com os noílbs. 
E fe lhe de terra os outros não tiravam 
com efpingardas , e frechas , era por teme- 
rem que feriíTem os feus , tendo jáChriílo- 
vaojufarte efpedido o paráo pêra o navio, 
polo não tomarem os imigos. E eram tan- 
tos a elle , que mais afogados andavam os 
nofíbs delles , que da agua, e quaíi reman- 
do vieram ter onde eftava D. Vafco de Li- 
ma 5 que per mandado de D. João lhes acu- 
dia , por fe não perderem todos, E che- 
gando ao lugar da entrada , por já irem 
hum pouco foltos da agua , foi a peleja tão 
travada , que quníi os imigos houveram de 
entrar de envolta com os nofTos , té que a 
poder de ferro , e fogo Chriftovão Juíàrte 
foi falvo , perdendo naquella entrada Fer- 
não de Sequeira , e João de Macedo pef- 

foas 



Dec. III. Liv. IX. Ca p. VIII. 421 

foas nobres , e dons homens de armas , e 
muitos feridos , entre os quaes foi Manuel 
Cerniche. O qual por falvar hum homem 
feu amigo , que ficava entre os Mouros, 
tornou atrás como cavalleiro que era , e 
rompendo per elles , tanto fez té que o fal- 
vou , e não pode falvar a íi mefmo de quan- 
tas feridas lhe deram , de que morreo dahi 
a poucos dias. E nefte tempo da entrada de 
Chriftovao Jufarte fe vio D.João em maior 
perigo do que té li tivera ; porque vendo 
os Mouros que elle havia de acudir á entra- 
da dos que lhe vinham pêra foccorro , ou- 
fadamente remettêram aos muros da fortale- 
za pela banda da terra , pondo nelles efea- 
das pêra fubir. Dado eíte rebate a D. João , 
acudio preítes , e com panellas de pólvora , 
e muita eípingardada , e lançada fe torna- 
ram queimados do fogo , e fangrados do 
ferro a fuás eílancias. Duarte d'Afonfeca 
quando vio os perigos , per que Chriftovao 
Jufarte pairara 3 pofto que era Cavalleiro, 
quiz obedecer ao regimento que levava, 
e tomado confelho , pareceo a todos que de- 
via notificar a D. João a dúvida que tinha, 
e regimento que trazia , e com tudo faria 
o que a elle , e affi os fenhores que com 
elle eftavam bem pareceífe. E efta notifica- 
ção foi per huma carta atada em huma Cét- 
ta , que mandou tirar do paráo , que podi^ 

che- 



422 ÁSIA de JoÃo de Barros 

chegar bem a terra , e fegurar que não ca- 
hifle fora da Coiraça. Vifta a carta em con- 
felho , foi-lhe reJpondido per outra carta 
por o mefmo modo da frecha , que fua fa- 
Jiida era tentar a Deos , porque defernbar- 
car na praia não podia fer com menos de 
quinhentos homens 5 e deftes tinha a for- 
taleza necellitade , porque muitos dos que 
eftavam dentro eram feridos , e os outros 
não podiam vencer o trabalho , que lhes da- 
vam os imigos em commettimentos de re- 
fegas , e de repairar lugares perigoíbsj e 
que ifto efcrevia a D. Henrique na outra 
carta , que com aquella lhe mandava. Duar^ 
te d'Afonfeca vifta a carta , e tomada a ou- 
tra caravella comíigo , partio daquelle por- 
to , e veio dar com elle Francifco de Vaf- 
concellos , a quem entregou a caravella , 
que a levaíTe a Cananor a Heitor da Sil- 
veira , que alli eftava por Capitão. Ao qual 
D. Henrique per elle Francifco de Vafcon- 
ceííos mandou que foccorrefle com qualquer 
coufa que pudefle a D. João , pois eftava 
tão vizinho delle. Chegado Duarte d'Afon- 
feca à Cochij , D. Henrique o recebeo com 
gazalhado , e louvou tanto o que fez , attri- 
buindo-o a cavaileria j como a Chriftovao 
Ju farte em entrar jj pofto que não cumprio 
feu regimento. E vifta acarta que lhe Dom 
João efcrevia P e nova do modo que o Ça~ 

mo- 






Dec. IIL Liv. IX. Cap. VIII. 423 

morij tinha íltuado feu arraial , fegundo o 
que elle Duarte d'Afonfeca pode divifar 
aquelle' pouco tempo que alli eíleve ? orde- 
nou logo a tnefma caravella de Duarte d'A- 
fonfeca , e outro Capitão Pêro Velho , e 
Duarte cPAzevedo em hum navio , e Dom 
AíFonfo de Menezes , e António da Silva 
em duas galeotas 5 ejeronymo deSoufa em 
huma barcaça , e por Capitão mor deites 
navios Francifco Pereira Peíiana , que fora 
Capitão de Goa. E porque em fahindo pe- 
la barra de Cochij , com o temporal, que- 
brou o leme á galeota 3 em que Francifco 
Pereira hia , pedio a D. Henrique que lhe 
mandafle dar hum galeão , que fe lançava 
ao mar , que lhe D, Henrique concedeo. 
E porém porque convinha fazer diligencia , 
mandou que entretanto fe foíTem os navios , 
e por Capitão mor delles António da Sil- 
va 5 e efperaííem Francifco Pereira no por- 
to de Calecut , e não fahiíTe em terra té 
elle não chegar , pêra juntamente fahirem 
com o corpo dos quinhentos homens , que 
lhe D. João de Lima mandava pedir. Por- 
que pela carta que lhe elle efereveo , com 
menos gente não podia tomar terra , fenao 
com tanto perigo , como foi a fahida de 
Chriftovão Jufarte , que ( fegundo lhe con- 
tou Duarte d'Afonfeca) foi milagre não pe- 
recerem todos. Partido António da Silva 



424 ÁSIA de J0X0 de Barros 

juntamente com os navios de fua compa- 
nhia , por razão do tempo fer forte , não 
houve navio que pudefle feguir bandeira 
de Capitão , porque feguiam mais a vonta- 
de domar, que naquelle caminho foi mais 
forçofo Capitão, que a vontade delles. E 
em quanto António da Silva fez eíle cami- 
nho , fe vio D. João em muita affronta , e 
perigo, porque o Çamorij tinha efpias per 
terra do que fazia D. Henrique em Co- 
chij , e do foccorro que mandava , e como 
le fazia preíles pêra vir foccorrer a forta- 
leza ; e ante que vieíTe com tal foccorro , 
queria elle tomar conclusão com ella. E co- 
mo o arrenegado Siciliano neíte negocio 
era o meftre de todolos artifícios , e EIRey 
defejava ver efta conclusão ante que Dom 
Henrique vieíTe , apertado delle , não ficou 
coufa que por mingua de fua diligencia fi- 
caíTe por fazer ; ora com trabucos , que da- 
vam grande opprefsão , e faziam muito da- 
mno dentro na fortaleza , porque não ha- 
via já dentro nella lugar feguro pêra a gen- 
te eftar , ora com matas , e minas , té vir 
a fazer aquellas grandes albarradas , que elle 
aprendeo no cerco de Rhodes , quando o 
Turco o tomou. As quaes albarradas são 
humas ferras de ajuntamento de terra que 
trazem ante II , e vem-fe com ella amparan- 
do que lhes não faça nojo a artilheria de 

den- 



Dec. III. Liv. IX. Cap. VIIL 42? 

dentro á fortaleza , té que vem igualar á 
ferra coiti o muro ; e ainda pêra ficarem 
mais fenhores dos de dentro , fempre a fer- 
ra he mais alta que o mefmo muro. No 
meio dos quaes artifícios 5 que davam mui- 
to trabalho na defensão aos noífos , Deos 
os quiz prover de hum feguro remédio não 
cuidado , pprque eftas são as fuás mifericor- 
dias. Andava hum mancebo grumete per 
nome Baftiao lançado com os Mouros , o 
qual ás vezes fallava com os noífos , e tam- 
bém com D. João y e fegundo pareceo nos 
avifos que deo , o feu officio mais era de 
anjo que de arrenegado : té huma mina que 
os Mouros faziam 3 porque não achou ou- 
tro modo , cantando a denunciou. Final- 
mente em todo efte tempo com o trabalho 
de acudir a tanto artificio , como reíiíliam , 
andavam os noífos de dia , e de noite em 
pé , e fem força por razão do mantimen- 
to que lhes falecia , e não comerem mais 
que hum pouco de arroz cozido com agua 
tal. Mas o animo , e fangue generofo os 
efperava , e trazia vivos , e aífi pêra impe- 
dir pelejando , como cavar , queimar , e ufar 
de todolos artifícios que podiam, com que 
vieram os Mouros a fe enfadar , e o Ça- 
morij anojar tanto , que mandou que não 
houveífe mais artifício , por não ver tanta 
morte dos feus > e mágoa de quão pouco 

lhe 



426 ÁSIA de João de Bakros 

lhe aproveitavam , fegundo logo eram con- 
trariados dos noíFos , e aíll mandou que 
houveíTe combates , e bateria fem mais ou- 
tra coufa 5/ pondo ília efperanca em os ren- 
der , ou matar por fome. 

CAPITULO IX. 

Como o Governador D. Henrique pro- 
veo por algumas vezes a fortaleza de Ca- 
lecut com gente , e mantimentos , e ou- 
tras munições ^ e as coufas que nella paf- 
faram té elle vir em feufoccorro : e as dif- 
f crenças que teve no feu confelho fobre fa- 
hir elle com a gente em terra ? e por fim 
deftas differenças fe ajjentou que fahijje. 

AEíle tempo eram já dos noíTbs mortos 
mais de cincoenta homens ; porque 
onde houve tanta defensão , e oíFensão , não 
pode fer fem cuftar vidas , e muito fangue. 
E verdadeiramente fe houveíTe de particu- 
larizar coufas y que peflbas particulares fize- 
ram , bem fe podia deite cerco fazer huma 
particular hiíloria ; mas nós feguimos a fi- 
gura de todo , e não os fcus miúdos mem- 
bros. E eftando ncfte trabalho , chegou An- 
tónio da Silva fó , porque os outros na- 
vios que partiram de Cochij com elle , a 
força do tempo os efpalhou. E de noite 
a nado per hum homem foube o que Dom 

Jo- 



Década III. Liv. IX. Cap. IX. 427 

João queria que elle fizeíTe , e elle o man- 
dou amoedar que não fahiííe em terra, fo- 
mente o proveffe com alguma pólvora de 
noite ; o que fe fez com muito trabalho , 
por os Mouros eítarcm á lerta , e a qual- 
quer coufa que fentiam eram logo alli. E 
porque eftar no recife não fervia coufa al- 
guma , António da Silva fe tornou a Co- 
chij com recado do eftado em que leixava 
a fortaleza , e lá achou os outros navios de 
lua companhia , que arribaram com o tem- 
po. Partido elle de Calecut, chegou Hei- 
tor da Silveira Capitão de Cananor com 
a caravella , e fufta que levou Francifco de 
Vafconcellos , e cinco paráos da terra , com 
muitos mantimentos, provisões de pólvora, 
e de outras coulâs , de que a fortaleza ti- 
nha neceííidade. E havendo recado de Dom 
João de como o havia de prover das cou- 
fas que trazia de noite , elle mefmo Dom 
João acudio com gente á boca da Coira- 
ça ; e a poder de ferro, pólvora, e muito 
trabalho, Heitor da Silveira o provêo de tu- 
do o que trazia , e fe tornou pêra Cana- 
nor , porque D. João nefte tempo não que- 
ria mais gente , por ver que os Mouros já 
de canfados , ou defefperados de poder to- 
mar a fortaleza per combate, não os davam 
tão a miúdo , e faziam mais fundamento 
de a tomar per fome. E porque diziam a 

D. 



s 



428 ÁSIA de J0X0 de Barros 

D.João que os Mouros cantavam cantigas 
no arraial deita fome 3 em que eíperavam 
de os pôr , mandou chamar o moço Baf- 
íião ao pé do muro , e o convidou com 
taflalhos de carne frefca , e outras coufas , 
té folhas do betelle , de que elles muito 
ufam trazer na boca por derramar a hu- 
midade do eftomago , dizendo-lhe que con- 
vidaffe feus amigos. A efte tempo , que era 
já no fim de Setembro, e o verão começa 
naquellas partes , chegou Francifco Pereira 
Peftana , o qual té então eftivera mettido 
110 rio Chatua , por não poder navegar no 
galeão em que vinha , como fizeram os ou- 
tros , que foram em pequenas vaíilhas. E por 
efta razão de navio grande não entrou den- 
tro no recife , e poz-fe de largo , parecen- 
do-lhe que viriam os outros navios que elle 
cuidou achar alli , té que per hum paráo , 
que levava comfigo , foube de D. João o 
que era paífado , dizendo , que ao prefente 
não havia mifter mais que provello de al- 
gumas coufas , que lhe pedio. E como a 
noite em que o provêo era de grande líiar , 
acudio grande número de Mouros a impe- 
dir efta provisão , magoados das que lhe 
eram dado , fegundo viram em os íignaes do 
refrefco , que o moço Baftião moftrou. E 
foi tamanha a revolta , por acudir quaíi to- 
do o arraial per huma , e outra parte , que 

ma- 



Década III. Liv. IX. Cap. IX. 429 

mataram cinco dos nofTos 5 e foram muitos 
feridos , té D. João com huma efpingarda 
o feriram em huma perna de maneira , que 
não podendo ir per fi , Jorge de Lima o 
tomou ás coftas , e metteo na fortaleza , e 
foi lançado na cama , por a ferida fer pêra 
ifíb. E querendo Francifco Pereira dahi a 
dous dias prover ainda a fortaleza , fem ter 
recado de D. João , nem ter fabido como 
fora ferido , por lhe parecer que era me- 
lhor tempo pela féfta , em que toda a gen- 
te eítá em repoufo , como quem lhe furta- 
va a volta , mandou o paráo com a maré. 
O qual foi rebatido da agua de maneira , 
que aportou abaixo da Coiraça em poder 
dos Mouros , fem os noílbs lhe poderem 
valer , e houveram á mão cinco marinhei- 
ros entre mortos ? e cativos. E tiveram os 
Mouros ainda outro ardil ? que primeiro 
que vieííem ao paráo , hum Capitão delíes 
fe lançou como em cilada junto da boca da 
Coiraça ; e em vindo D. Vafco de Lima 
com fetenta homens pêra receber o batel , 
fahio efte Capitão com fua gente , e houve 
entre elles huma peleja tão brava , que dos 
Mouros foram muitos mortos , e feridos. 
No meio do qual conflito , por a grande re- 
volta que havia , não fe pode D. João fof- 
frer na cama 5 e chegou a huma janella fer- 
rada P que cílava fobre a Coiraça > e vendo 

a pe- 



430 ÁSIA de JoÁo de Barros 

a peleja 3 também dalli quiz ajudar os feus. 
E porque não rinha comíigo homens , fo- 
mente huma efcrava , efta lhe acudio com 
duas efpingardas : dalJi , huma carregada , 
e outra deícarrcgada , pelejou também em- 
pregando feus tiros , como os que andavam 
em baixo. Finalmente a fuiia foi tal , que 
Jorge de Lima foi ferido com huma efpin- 
garda , que lhe metteo o capacete pela car- 
ne , e affi o foram alguns dos noíTòs 3 té 
que com morte do Capitão Mouro , que 
D. Vafco de Lima matou ? que foi caufa 
pêra os feus alargarem o lugar , e os nof- 
fos fe recolheram , do qual trabalho Dom 
João ficou maltratado , porque o mover 
da perna , e accendimento do efpirito lha 
acanhou. E ainda fez efta fua perna outro 
damno , além de fe pôr em perigo de mor- 
te , porque lhe houvera de faltar erpes , que 
deo prefumpção entre os imigos fer morto 
polo não verem pelejar. A qual coufa de- 
íejando o Çamorij íaber polo ódio que lhe 
tinha 5 como fabia que o arrenegado Baf- 
tião ás vezes fallava com elle, mandou-lhe 
que foubeífe feeítava doente, ou como não 
apparecia , e fe lhe diíTeífem que eftava doen- 
te , pediffe feguro pêra o ir viíitar, como 
logo affi fe fez. Quando D. João vio Baf- 
tiao ante fi , fez-lhe grande gazalhado , e 
entendeo a caufa de fua vinda ; que o mef- 

rao 



Década III. Liv. IX. Cap. IX. 431 

mo Baftiao lhe confeflbu ; e fobre efte pro- 
poíito do .Çamorij D. João praticou mui- 
tas coufas com eíle , e mandou-lhe dizer 
per elle que fe cfpantava de hum tal Prín- 
cipe tão cavalieiro haver tanto tempo que 
durava aquelle cerco, e nunca o ver, cou- 
fa que os Prin ;pes fazem por animar os 
feus naqueJles lugares , e aífi outras pala- 
vras retorcidas a fraqueza. Partido Baftião 
contente doveílido, e mimos que lhe Dom 
João fez i ficou o Çamorij tão corrido do 
que lhe diiTe , que entre indignação, econ- 
felho dos Mouros mandou lego pôr fogo 
a hum baluarte de madeira , que D. João 
tinha feito á porta da fortaleza , por fegu- 
rar aquella entrada. E verdadeiramente que 
efta foi a mais trabalhofa coufa , e de maior 
perigo , em que os noflbs té li fe tinham 
vifío , por o baluarte arder, fem haver mo- 
do de o apagar , nem impedir , por a gran- 
de multidão dos Mouros que eram a eíle 
feito ; mas onde desfalece a força , e induf- 
tria humana , acode Deos com feu remé- 
dio , efoi eíle ; não de chuiva pêra apagar 
o fogo , mas com vinda de Heitor da Sil- 
veira , que chegou neíle inftante. O qual 
vinha com os propriçs navios que veio da 
outra vez , e trazia algumas provisões pêra 
a fortaleza , e leixava em Cananor D. Si- 
mão de Menezes > cuja ella era 7 por vir 

de£- 



43^ ÁSIA de João de Barros 

. defavindo de D. Henrique , por lhe não 
querer dar o ordenado , que lhe pedia do 
Capitão mor do mar , como trazia D. Ef- 
tevao da Gama filho do Conde Almirante , 
que levou efte cargo quando defte Reyno 
partio. E como D. Henrique era mui regu- 
lado em dar ordenados , que as partes não 
tinham fenão por EIRey , e D. Simão efpe- 
rava iílo delle, e com eíTe propoíito leixa- 
va a fortaleza de Cananor , tornou-fe a el- 
la , o que D. Henrique muito fentio , por 
razão do grande parentefco que tinham. 
Efta foi a caufa por que Heitor da Silveira 
leixou a fortaleza de Cananor • e quando 
chegou naquelle accidente que o baluarte 
ardia á porta da fortaleza , chegou-fe quan- 
to pode ao porto 3 e começou de esbombar- 
dear contra a gente , que andava derredor 
do fogo. Os Mouros vendo fete , ou oito 
velas no porto , e o que faziam , parecen- 
do-lhes que eram da Armada do Governa- 
dor que vinha , e que confiados nella que- 
riam tomar terra , leixáram o baluarte, e 
a grão preífa acudiram á boca da Coiraça , 
com o qual fôlego que os noíTos receberam 
ria fortaleza , tiveram tempo de apagar o 
fogo com terra. E pêra os Mouros ficarem 
mais certos em fua opinião , entraram fobre 
elle vinte e cinco velas com té trezentos e 
trinta homens , que trazia Pêro de Faria, 

o qual 



Década IIL Liv. IX. Cap. IX. 433 

O qual per avifo de D. Henrique , que man- 
dou per terra , partio de Goa em fim de 
Julho , e com os fortes tempos que paflbu y 
não pode chegar mais cedo. Eíles dous Ca- 
pitães como eram Cavalleiros , e prudentes 
no governo , todo feu officio , em quanto o 
Governador não vinha , foi prover a forta- 
leza de alguma coufa que D. João pedia , 
e de fora esbombardear aos imigos , que 
não lhe fizeílem damno , té que D. Henri- 
que chegou a vinte de Setembro com vin- 
te velas , em que levaria mil e quinhentos 
homens , da qual frota eíles eram os Capi- 
tães , D. Affonfo de Menezes , D. Jorge 
Tello de ?*íenezes , D.Jorge de Menezes, 
D. Jorge de Caílro , D. Pedro de Caílello- 
branco , Jorge Cabral , D. Diogo de Lima , 
D. Triítão de Noronha > João de Mello da 
Silva , António da Silveira , Fernão Go- 
mes de Lemos , António da Silva de Me- 
nezes , António d ? Azevedo , Manuel de Ma- 
cedo , Henrique de Macedo feu irmão , 
Jorge de Vafconcellos , Duarte d ? Afonfe- 
ca , António PelToa , Rodrigo Aranha. E 
além das velas principaes , em que vinham 
eíles Capitães , havia também outros de ca- 
tures de maneira , que com os navios que 
achou no porto de Calecut , e António de 
Miranda , que era vindo donde invernára , 
(como diflemos , ) enchiam toda aquella fron- 
' Tom. III. P.iL Ee te- 



434 ASIÀ de JoÂo de Barros 

teria de Calecut. D. Henrique depois que 
foi mui particularmente informado do cita- 
do da fortaleza , e notou per íi com alguns 
Capitães , que a iíío levou , a íituação do 
arraial com todo o mais que elle podia ver 
do mar , donde eítas coufas notava , teve 
três , ou quatro confelhos com todolos Ca- 
pitães no feu galeão , os quaes duraram tan- 
tos dias , e houve mui differentes votos , fem 
D. Henrique fe determinar no que havia 
de fazer , delejando elle muito de fahir em 
terra. Somente alguns feus parentes , e ami- 
gos , como conheciam fua natureza , eram 
em contrario parecer de outros , que não 
approvavam a fahida , vifto como EIRey 
mandava desfazer aquella fortaleza , fegun- 
do fe dizia que o Conde Almirante levava 
iíTo em regimento. D. Henrique a muitas 
razões que alguns deites davam do perigo 
da fahida por caufa do arrecife, e que ha- 
via miíler hum dia muito brando , e outras 
razoes do grande poder do Çamorij , e ar- 
tilheria que tinha afleftada nos baluartes que 
diíTemos , tinha a experiência em contrario , 
porque fabia quão poucos homens já por 
aquelíes perigos entraram a pezar dos Mou- 
ros dentro na fortaleza \ e a maia principal 
couía , que tinha ante os olhos , era ver ou- 
tra femeíhança daquellè cafo em outra par- 
te > em que houve outras tantas , etaes dii- 

vi- 



Década III. Liv. IX. Cap. IX. 43? 

vidas; e quando fe poz o peito em terra, 
ficou o caio leve , e ifto fora na Villa de 
Arzilla em Africa , quando o anno de qui- 
nhentos e oito EIRey de Fez a cercou, e 
entrou a Vilia , fomente o caftello ficou por 
entrar , em poder de D. Vafco Coutinho 
Conde de Borba Capitão delia, a qual che- 
gou D. João de Menezes tio delle D. Hen- 
rique , em cuja companhia elie hia na Ar- 
mada , que EIRey D. Manuel fez pêra Aza- 
mor aquelle anno de oito. Sobre o qual 
caftello eftava EIRey de Féz com tanta po- 
tencia de gente , como o Çamorij ; e tendo 
outros baluartes com tanta , e melhor arti- 

. lheria , e a fahida da gente havia de fer 
per mais perigoíò recife de pedras , eomar 
mais furiofo , e tudo ifto não foi impedi- 
mento pêra D. João de Menezes leixar de 
íahir em terra. E o primeiro que a tomou 
foi hum primo delle D. Henrique per no- 
me D. Triftão de Menezes filho baftardo 
de D. Rodrigo de Menezes , que ganhou 
o preço de trezentos cruzados , que feu tio 

, D. João prometteo ao primeiro que puzef- 
fe o pé em terra. Pois vendo D. Henrique 
efte perigo da fahida do mar , e potencia 

- da terra , de homens armados a cavallo , e 

.a pé , e elle paífou pelo perigo delles , co- 
mo Cavalíeiro mancebo fem algum temor, 
como o poderia elle ter ainda que Capitão > 
Ee ii e de 



436 ÁSIA de João de Barros 

e de mais maduro confelho , vendo índios 
menos armados , poílo que mais frecheiros 
que os Alarves de Barberia ? Aííi que o feu 
animo eftava poílo entre prudência , e cau- 
telas de Capitão , e animo de Cavalleiro 
já mui experimentado neftas partes cá de 
Barberia , e naquellas de lá nas coufas que 
paliou em Coulete , e Panane , que fabia te 
onde chegavam os receios , e temores das 
coufas ante de commettidas. E mais conhe- 
cia os homens que eram em hum voto , e 
outro , cujos nomes ficam na penna , por não 
darmos noticia dos ditos de cada hum 2 que 
muitas vezes neftes cafos taes , que não são 
fraqueza do animo , mas particulares refpei- 
tos. E porque António dWzevedo vio Dom 
Henrique inclinado a fahir em terra, e era 
grande amigo de D. João de Lima , man- 
dou-lhe huma carta per hum feu criado , 
que foi , e veio a nado , em que lhe refu- 
mia a confusão , em que D. Henrique efta- 
va. Que devia hum dia fahir a tomar hu- 
ma bombarda groífa , e outros tiros poftos 
310 baluarte da principal deíèmbarcaçao , 
porque todos em feus pareceres tiravam 
áquelles tiros. Eíle baluarte na verdade ef- 
tava abaixo da banda do Sul , onde elles 
chamavam Cota China ., por razão que quan- 
do os povos Chijs tiveram p commercio 
da pimenta , tiveram alli huma fortaleza, 

a que 



Década III. Liv. IX. Cap. IX. 437 

a que os da terra chamam Cota , e China , 
por fer dos Chijs , de que ainda alli eíta- 
vam as ruinas delia , e por efta razão era 
mais prejudicial, que a outra de cima. Al- 
guns quizeram dizer que efta carta , e mo- 
do de commetter aquellas bombardas > Dom 
Henrique induftriára tudo ? porque quando 
approvafle o feito , não diffeíTem que tudo 
ordenavam ao feu voto , poílo que té alli 
não fe tinha determinado. D. João como 
entendeo que D. Henrique teria diffo pra- 
zer , ao outro dia pela íéfta mandou fahir 
té cincoenia homens efcolhidos , e por Ca- 
pitão delles Jorge de Vafconcellos , hum 
Fidalgo que tinha prudência , e animo pê- 
ra aquelle feito , o qual commetteo o cafo 
como fe delle efperava. E porque fua fahi- 
da foi pela féíla , em que os Mouros efta- 
vam defcuidados , e toda fua vigia era na 
praia 5 fe dcfembarcavam : em dando nel- 
les , ficaram tão fobrefaltados , que mais ten- 
to tiveram em fe affaftar , que defender a 
artilheria. No qual tempo , porque os Mou- 
ros haviam de fazer grande rumor, D.João 
de Lima mandou defparar muita artilheria 
nas fuás eftancias , que eftavam no muro 
contra o corpo de todo o arraial. E o pri- 
meiro que poz os pés em cima da bombar- 
da groíía , que era hum camello , foi Bel- 
chior de Brito filho de Jorge de Brito Co- 
pei- 



438 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

peiro mor que fora cTElRey D. Manuel. 
dizendo em alta voz aquellas paiavras , que 
os homens mancebos , e Cavalleiros come 
elle era , dizem : Amores , amores. No qual 
inftante era já tão grande a grita entre os 
Mouros , por acudirem , que tiveram os nof- 
fos tempo pêra tirar dalli as peças da arti- 
Iheria ; as quaes euftáram a vida de dous 
homens , hum era Jorge Vaz Almoxarife da 
fortaleza ; e outro hum amo de D. Diogo 
de Lima, Tendo D, João provido com iua 
peffoa , porque como vio que Jorge deVaf- 
concelloseracommettido dos Mouros, acu- 
dio com gente que tinha preftes , e não fe 
puderam efpedir huns dos outros fem a vi- 
da deíles dous, e outros feridos, dos Mou- 
ros também levaram parte de feu damno. 
O qual feito teve tanta parte de prudência , 
como de cavalleria pelo modo que fecom- 
metteo , e geralmente foi gabado na frota , 
de que D. Henrique teve muito prazer por 
abonar feu voto. Do qual eícreveo logo os 
agradecimentos a D.João, e a todolos que 
foram nelle , pedindo a D. João que lhe 
mandaffe hum homem honrado , que lhe 
pudeíTe dar informação do que lhe pergun- 
taííe. Pêra a qual ida fe oífereceo Jorge de 
Lima, e ainda pedindo-a em modo de mer- 
cê a feu tio, por elle duvidar fua ida por 
caufa do perigo. Todavia como veio a noi- 
te, 



Década III. Liv. IX, Cap. IX. 439 

te , em huma rnanchua , que eftava dentro 
na fortaleza , coufa mui pequena , eJle Jor- 
ge de Lima fe metteo com hum marinhei- 
ro, que fe chamava de alcunha Guizado; 
mas não pode ifto fer tão furdo , que os 
Mouros o não fentiífem. E tirando a mon- 
tão , onde viam a ardentia da agua, hum 
tiro arrombou a rnanchua , e ficaram ambos 
a nado , e falváram-íè no primeiro navio 
que puderam tomar. Levado Jorge de Lima 
ao galeão do Governador , quando o vio , 
fabendo as coufas que tinha feito, eaquel- 
le perigo a que fe oíFerecêra , e que tudo 
procedia de animo decavalleiro , fendo elle 
de idade de vinte annos , queria-o metter 
na alma com amor ; e não o quiz muito 
deter , por lhe elle pedir que o leixaífe 
aquella noite ir dormir á náo de D. Dio- 
go de Lima fcu tio , e affi o fez. Quando 
veio a outro dia, mandou chamar Jorge de 
Lima , e aíli a confelho pêra ante os Ca- 
pitães dar o parecer de D. João de Lima , 
que elle trazia fobre o que entendia que 
devia fazer naquelle cafo , em que té en- 
tão fe não determinava. Poílo D. Henrique 
em confelho, quiz que difleífe Jorge de Li- 
ma primeiro o parecer de D. João , e aíli 
das outras peífoas de qualidade , que efta- 
vam na fortaleza, eaffi o feu com as mais 
razoes pêra confirmação do feu parecer. Jor- 
ge 



440 ÁSIA de JoÁo de Barros 

ge de Lima , depois de propor o que man- 
dava dizer D. Joáo , e o voto dos que 
com elle eítavam , que tudo vinha a con- 
cluir que elle D. Henrique fahifíe em terra 
por honra do eílado d'ElRey, e de quan- 
ta Fidalguia era prefente , poílo que logo 
ao outro dia houveííe de mandar derribar 
a fortaleza , começou de dar feu parecer, 
que era efte , e bem confirmado com mui- 
tas razões do que era paíTado , e fe podia 
fazer pêra fazer o cafo mais leve , do que 
eram os temores , e inconvenientes , que fe 
podiam pôr. E porque o negocio dos vo- 
tos foi huma nova peleja de perfias , rema- 
tou D. Henrique o cafo em duas palavras ; 
e por magoar a huma certa peffoa , que 
contrariava muito o cafo , e diíle com gran- 
de confiança de fua cavalleria : Ora bem, 
lá iremos , e veremos o que cada hum faz. 
Refpondeo D. Henrique : Eu juro a efte 
Livro , que tenho na mão , em que eftam 
os Evangelhos , que fohre o cafo não tenha 
mais confelho fe fahirei em terra , mas o 
modo da fahida , vifto o parecer , e razoes 
de Z). João , e dos que tem experimentado 
poder dos imigos ha três mezes e meio , e 
também de muitos deftes fenhores Capitães 
que aqui eftam. Eaftijuro de dar trezentos 
cruzados ao primeiro que for diante do fe~ 
nhor Jorge de Lima , que aqui eftd > eferá 

a ca- 



Década TIL Liv. IX. Cap. X. 441 

4 cada hum daquelles que contraria o feu 
voto , com o qual me eu contento ; e le- 
vantou-fe por então por evitar mais per- 
fias. 

CAPITULO X. 

Como D. Henrique logo aquella noite 
depois de ter efte confelho , ordenou de met- 
ter gente dentro na fortaleza , e depois 
fahio em terra : e paffados certos dias de 
trégua , que lhe o Çamorij pedio pêra en- 
tenderem na paz , porque não fe concerta- 
ram nas capitulações delia , D. Henrique 
derribou a fortaleza , e fe partio : e o que 
o Çamorij por ijfo fez. 

P Afiado aquelle confelho , em que Dom 
Henrique aíTentou de íahir em terra , 
por embaraçar os Mouros , e não entende- 
rem efte feu propofito , por lhe não dar 
matéria de fazerem algumas minas de pól- 
vora , e outros artifícios de que pudeífe re- 
ceber damno , e também pêra ter gente em 
terra, que vieííe entreter aos Mouros quan- 
do elle quizefTe poiar nella , logo aquella 
noite ordenou de metter dentro na fortale- 
za hum bom golpe de gente , e aííi o fez 
a noite feguinte, com que os Mouros to- 
maram fufpeita que elle não queria mais 
que foccorrer a fortaleza, que pêra o Ça- 
marij foi hum grande prazer ? porque lha 



'442 ÁSIA de JoÃo de Barros 

pareceo que D. Henrique leixava de o fa- 
zer com temor delie , e afij lho davam a 
entender os Mouros. ~E a primeira gente 
que metteo , foram cento e cincoenta ho- 
mens , Capitão Heitor da Silveira , que en- 
trou com aftas trabalho ; e na feguinte noi- 
te levou D. Diogo de Lima primo de Dom 
João de Lima outros cento e cincoenta. 
Quando veio ao quarto da Alva pelo fignal 
que D. Henrique tinha mandado fazer na 
gávea do feu galeão , x Heitor da Silveira 
por fua parte com a gente que levou , e 
D. Vafco de Lima com duzentos homens y 
commcttêram dar rebate nos Mouros , e en- 
tretanto o Governador chegou a defembar- 
car. E diante íi mandou ir D.Jorge de Me- 
nezes , e D. Jorge Tello de Menezes, am- 
bos feus primos , com feíTenta homens , ca- 
da hum com panellas de pólvora , e hum 
entraíTe pela cava da parte do Norte, que 
vinha dar no mar , e o outro pela outra 
da banda do Sul , e foffem queimando os 
Mouros que achaíTem dentro pêra ir fa- 
zendo caminho á gente detrás. E per ou- 
tra parte hia Heitor da Silveira levando an- 
te íi Fernão de Moraes com vinte homens 
com panellas de pólvora , e D. Vafco per 
o mefmo modo. Póftos todos na ordem, 
fegundo lhes era mandado , (barba em ter- 
ra como dizem ; ) começou o Governador 

dar 



Década III. Liv. IX. Cap. X. 443 

dar ás trombetas , e D. João cm terra da 
parte da fortaleza refpondendo com as fuás. 
E bem como quando fe folta huma gran- 
de preza de agua, a qual não cabe no açu- 
de , a quebra per partes , fahe tão furiofa 
que leva quanto acha ante íl , aíTí rompe- 
ram os dianteiros , e trás elles os trazeiros , 
que não houve naquellc primeiro Ímpeto 
coufa que os efperaííe. A grita delies 5 dos 
da fortaleza , e dos que ficavam em os na- 
vios , por quebrar o animo aos Mouros , e 
Gentios , era coufa que rompia os ares , 
tudo eram gritas da gente , fom das trom- 
betas , eílrondo da artilheria , e fumo da 
fua pólvora , que cegava a luz da manhã , 
que rompia , de maneira , que os imigos na- 
quella primeira fahida não fabiam onde ha- 
viam de acudir , com que muita da noífa 
gente ao defembarcar não tiveram impedi- 
mento algum. Os que levavam as panellas 
de pólvora , com ellas hiam defpejando as 
cavas ; e quando os imigos queriam fubir 
pêra cima , achavam dos noíTos efpingar- 
das , lançadas , bombas de fogo , e mil gé- 
neros de morte. Outros dos noílbs , a que 
eíle officio era encommendado , punham fo- 
go aos trabucos , que tanto mal tinham fei- 
to na fortaleza ; e a pólvora que achavam 
nas eílancias , lançavam nas cavas que la- 
vrava nos imigos com fúria do fogo ? que 

lhe 



444 ÁSIA de João de Barbos 

lhe lançavam. Eemhuma grande cafa, que 
fora noíTo armazém de recolher o gengi- 
vre , aqui foi grande mortandade delles, 
porque mais de trezentos homens que efta- 
vam recolhidos dentro , todos foram quei- 
mados. E em hum dos feus baluartes em 
guarda da artilheria morreram mais de du- 
zentos com o feu Capitão ; e tendo huma 
bombarda groíTa , de torvação , ou (por 
melhor dizer) polo Deos impedir , nunca 
lhe quiz tomar fogo , porque fem dúvida 
fizera muito damno em os noíTòs , e aqui 
morreo o Siciliano arrenegado que nos ti- 
nha feito grande mal com fuás obras. Fi- 
nalmente foi a coufa tão baralhada , que 
não fe pode particularizar o que cada hum 
fez , baila que os Capitães que nomeamos , 
como andavam mais na vifta da gente pola 
obrigação do fangue , e principalmente de 
feu cargo , fatisfizeram com feu officio. Af- 
íl como D. João de Lima Capitão da for- 
taleza , D. Vafco de Lima , D. João de 
Lima feu irmão chamado o moço , a diffe- 
rença do tio , Jorge de Lima , António de 
Sá , Ruy de Mello feu irmão cada hum 
per fua parte , como homens que receberam 
damno dos imigos , nefte tempo quizeram 
vingar fua indignação. E ainda D. Vafco 
de Lima , por fe moftrar ante o Governa- 
dor y e toda aquella Fidalguia , quiz perfe- 

guir 



Década III. Liv. IX. Ca?. X. 44? 

guir tanto hum Caimal peííbà bem nobre 
dos Gentios , o qual fe hia recolhendo pê- 
ra a Cidade com hum corpo de gente de 
té Quatrocentos homens ; e quiz-íe metter 
tanto entre elles , por chegar ao Caimal 
que hia diante , confiado em huma efpada 
de ambalas mãos , que fe houvera de per- 
der , fe lhe não acudiram. Heitor da Silvei- 
ra quando já acudio a eíle perigo de Dom 
Vafco , tinha feito maravilhas pela parte 
que lhe coube em forte , em companhia do 
qual hia Fernão de Moraes com as panei- 
las de pólvora, e Belchior de Brito , eChrif- 
tovão Jufarte. Pois D. Jorge de Menezes 
nas cavas per onde foi o feu caminho, tam- 
bém com outra efpada de ambas as mãos 
fez defpejo té que lhe cortaram a mão di- 
reita , ecumprio-lhe por falvar ávida, que 
trocou a efpada grande com outra pequena 
a hum Balthazar Fernandes , que andava com 
elle , criado de D. Antão d'Almada Capi- 
tão de Lisboa. Finalmente os Mouros que 
ficaram vivos , defpejáram fuás eftancias , e 
os mortos ficaram enterrados nas cavas , e 
delles onde a morte os derribou - y e por fe- 
rem tantos que com fedor , e quentura do 
Sol podiam corromper o ar, D.João man- 
dou notificar á Cidade aos Mouros quevief- 
fein enterrar os corpos dos feus , que elle 
os fegunava de lhes não tirarem com arti- 
lhe- 



446 ÁSIA de JoJvo de Barros 

lheria, nem fer feito outro damno. E ante 
que eftes Mouros viefíem , o Governador 
D. Henrique mandou que todolos mari- 
nheiros , e grumetes viefíem com enxadas , 
e pás 3 com que abateram os valos das ef- 
tancias fobre as cavas , onde ficaram enter- 
rados muitos daquclles corpos mortos. E 
affirma-fè que pereceram aquelle dia mais 
de três mil homens 3 e dos noíTos pafláram 
de trinta , fem haver entre elles peífoa 00- 
rfàyel , e feridos duzentos e trinta. E não 
fomente as enxadas vieram pêra agente do 
• mar enterrarem os mortos , mas ainda pêra 
aíTentar feu arraial. Na qual obra não ficou 
Fidalgo , que com enxada , com pá , com 
ceíto 5 ou com madeira ás coitas não traba- 
lhada de maneira , que o refte que ficava 
do dia fe gaitou em fortalecer aquella praia 5 
.em que feafTentou feu arraial, e os feridos 
foram levados aos navios. E porque huma 
das maiores injúrias que o Gentio" recebe 
naquelle Malabar no eítado da guerra, he 
..ferem-! he cortado fuás palmeiras , porque 
íigniíica ferfenhor do campo quem faz efla 
obra 3 e junto da fortaleza tinham hum pal- 
mar novo , o Çamorij temendo que o Go- 
vernador o mandaífe cortar , mandou-íhe 
dizer que déííe feguro a Coge Bequij , que 
o queria enviar a elle fobre coufas que fa- 
ziam ao bem da paz. Eílc Coge Bequij era 

hum 



( 



Década III. Liv. IX, Cap. X. 447 

hum Mouro honrado , que no tempo do 
levantamento , quando mataram Aires Cor- 
rêa , eíhndo Pedralvares Cabral naquelJe por- 
to , e depois , tinha fervido bem a ElRey 
de Portugal , e tinha delle vinte mil reis de 
tença cada anno aflentados na Feitoria de 
Cananor. E como era tão conhecido , de- 
pois que D. Henrique deo licença que vief- 
fe a elle , por o mais honrar , entrando em 
onoíTo arraial, elle o mandou receber com 
trombetas , e Fidalgos , que lho levaram á 
tenda que tinha , moíhando-lhe muito amor 
noagazalhado que lhe fez, por faber quão 
leal fetnpre fora ás coufas do ferviço d 5 El- 
Rey íèu Senhor. CogeBequij depois de lhe 
agradecer as palavras, que lhe dilTe emfua 
chegada , logo naqueile negocio a que vi- 
nha , quiz pagar a confiança que fe tinha 
de lua lealdade , dizendo que o Çamorij o 
mandava a dlc pcra contratarem de paz; 
mas que elle entendia que nunca a poderia 
ter com elle por muitas razões , que logo 
apontou* E porém não fe perdia ouvir as 
condições delia, etaes podiam fer, que fua 
Senhoria folgaria de a conceder , e de fe 
cumprirem ; iílo he o que elle duvidava. E 
que pêra tratar efte negocio , pedia elle Ça- 
morij quatro dias de trégua ; e efte tempo 
pola lealdade com que fempre fervia EI- 
Rey de Portugal , pedia a fua Senhoria fer- 

lhe 



. 



448 ÁSIA -de J0Ã0 de Barros 

lhe a elle concedido. E aífí fe fez , man- 
dando logo o Governador apregoar eíla tré- 
gua , e o Çamorij fez outro tanto no feu 
arraial , que foi mui provei tofa aos nofíbs y 
porque vinham muitos Gentios ao noílb ar- 
raiai vender mantimento , e todo refrefco 
de que tinham neceílidade. O Çamorij quan- 
do foube de Coge Bequij com quanta hon- 
ra fora recebido , como homem quedefeja- 
va ficar em paz , prometteo-lhe a elle Coge 
Bequij o officio de Xabandar , que he o 
mais honrado , e proveitofo que elle tem 
pêra dar , que he fer o fupremo na juftiça 
entre os Mouros , fe elle fizeífe com o Go- 
vernador que lhe concedeíTe a paz com as 
condições que elle apontafle. Ao que elle 
reipondeo , que fem eíTe premio trabalharia 
polo fervir, quanto nelleFoflej equerendo- 
íhe remunerar feu trabalho , como elle di- 
zia , eíla mercê podia fazer a feu filho , por 
elle já não ter idade pêra iílb. O Çamorij 
logo polo mais obrigar deo o officio ao 
filho , como lhe pedia , com grande cere- 
monia de honra 5 fegundo feu ufo. Satisfei- 
to Coge Bequij , tornou ao Governador corn 
as capitulações da paz, que eram eftas. Que- 
rendo elle Çamorij á ília cuíla tornar pôr a 
fortaleza no eftado em que eílava ante que 
foffe combatida , e pagar as perdas , e da- 
mnos y que EIRey de Portugal por caufa 

da- 






Década III. Liv. IX- Cap. X. 449 

daquella guerra tinha recebido , e a liqui- 
dação fe faria depois de a paz jurada ; e 
mais queria dar a pimenta , que houveíTe 
no feu Reyno ao modo , e pelo preço que 
dava EIRey de Cochij ; e mais queria en- 
tregar a artilheria , que em feu Reyno fe 
achaífe fer d'ElRey de Portugal. D. Hen- 
rique vifto eííes apontamentos não ficou 
fatisfeito delles , e accrefcentou outros , hum 
dos quaes foi , que lhe havia de entregar o 
Arei de Porca , que fe paíTára naquella guer- 
ra d'ElRey de Cochij pêra elle Çamorij , 
e ifto em ódio delle D.Henrique polo que 
lhe aconteceo com elle em Coulete , quan- 
do per defaftre com o tiro que lhe mandou 
tirar, lhe quebraram huma perna. CogeBe- 
quij polo que tinha dito a elle D. Henri- 
que do que fentia daqueíla paz que o Ça- 
morij commettia , como homem que fabia 
os confelhos que lhe davam os Mouros , 
defejava não perder noíTa amizade , e como 
difcreto quiz ufar de huma cautela por 
não entrevir no aíTentar das capitulações do 
contrato. E difle a D. Henrique, que por 
não haver tantas idas, e vindas, em que fe 
podiam paíTar os quatro dias da trégua , que 
lhe parecia bem mandar fua Senhoria hum 
homem de authoridade ao Çamorij com a 
refolução de fua vontade ; o que pareceo 
bem a D. Henrique > e por então efte fó re* 
T4m.ni. P.iL Ff ca- 



45*0 ÁSIA de JoXo de Barros 

cado levou ao Çamorij. Quando veio ao 
outro dia , mandou D. Henrique a efte ne- 
gocio das pazes Fernão Martins Evange- 
lho , hum Cavalleiro homem antigo na ín- 
dia ? e que tratara muitas vezes com Prín- 
cipes Gentios , e Mouros coufas de muita 
importância , e fabia bem feus modos 3 e 
coftumes. O qual Fernão Martins foi , c 
veio duas vezes , fem o Çamorij querer con- 
ceder o que D. Henrique queria , principal- 
mente o Arei de Porca. E mais defejavam 
os Mouros tanto de fe não fazerem eftas 
pazes i que eftando Fernão Martins com o 
Çamorij , moveram hum arroido fora da 
cafa onde EIRey eílava , por matarem dous 
Portuguezes , que levava em fua companhia , 
que fenão fora por alguns Naires , e polo 
-mcfmo Çamorij acudir a iflb 3 Fernão Mar- 
tins viera fem ellcs. E ainda temendo elle 
Çamorij que no caminho recebeíTe elle al- 
guma affronta dos Mouros , mandou com 
elle hum Capitão Naire té o pôr dentro dos 
noíTos. A qual coufa tanto defcontentou ao 
Governador com ornais que o Çamorij ne- 
gava , que não quiz que tornaffe lá mais 
Fernão Martins , e nifto fe acabaram os qua- 
tro dias da trégua, com que tornaram a fi- 
car no eftado da guerra. Finalmente vendo 
D. Henrique , que com eítes recados de ir , 
*e vir Xe começava de encruar mais ódio, 

quq 



Década III. Liv. IX, Cap. X. 45-1 

que termos de paz , por o não obrigar a 
mais , teve confelho fobre o que faria da 
fortaleza. E poílo que nelle houve mui dif- 
ferentes pareceres , vifto como o Conde Al- 
mirante levava recado d'E!Rey que a der- 
ribaíTe 5 aíTentou que logo fe fizeííe. E mof- 
trando aos Mouros que a mandava refor- 
mar , por não fer delles fentido , mandou-a 
picar per partes , e metter-lhe pólvora em 
certos lugares , no qual tempo , por modo 
que não fofle fentido , fe recolheo quanto 
havia nella , eno arraial, ehuma ante ma- 
nhã appareceo aos Mouros embarcado na 
fua frota , e todas fuás eftancias começaram 
arder. Os Mouros parecendo-lhes que na 
fortaleza podiam achar alguma rabufca da 
fazenda , que os noflbs tinham dentro , acur 
díram logo a ella ; e como o fogo hia per 
baixo da terra per feu caminho lavrando > 
tanto que chegou aos lugares da pólvora , 
fez maravilhas nas paredes do muro , onde 
morreram grande número delles , e outros 
ficaram tão aleijados , e feridos , que lhes fo- 
ra melhor a morte. E todavia ainda que 
Manuel de Macedo , que ficou pêra fazer 
efta obra y trabalhou pêra a pólvora obrar 
per todas as partes , ainda ficou da torre da 
menage hum cunhal todo inteiro com gran- 
de parte da parede. O Çamorij vendo o 
Governador partido , toda a fúria de fua 
Ff ii in- 



4$2 ÁSIA de JoXo de Barros 

indignação 3 por ficar fem as pazes que com- 
mettia , poz contra Coge Bequij , dizendo 
que elle lhe eílorvára tudo , porque ninguém j 
fabia fer o Arei de Porca vindo a feu fer- 
viço fenao elle , por haver dous dias que 
viera , quando o Governador lho mandou 
pedir. A qual indignação parou em lhe man- 
dar cortar a cabeça , e os filhos nefta revol- 
ta fugiram pêra Cananor, por fe amparar 
naquella fortaleza noffa , onde fempre lhes 
foi paga a tença , que lhe EIRey D. Ma- 
nuel tinha dada a feu pai. 



PE. 



DÉCADA TERCEIRA. 
L I V R O X. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fize- 
ram no defcubrimento , e conquifta dos 
mares , e terras do Oriente : em que 
fe contém parte das coufas , que 
fe nelle fizeram em quanto 
D. Henrique de Menezes 
nelle governou. 

CAPITULO L 

Como D.Henrique de Menezes > depois 
que acabou as coufas de Calecut , ordenou 
outras com fundamento de ir tomar a Ci- 
dade Dio , entre as quaes foi mandar hu- 
ma Armada , Capitão Heitor da Silveira , 
o qual , por lhe não ir o recado que elle ef- 
perava , foi bufcar , por lhe fer mandado , 
D. Rodrigo de Lima ao Rejno do Prefte 

João. 

DOm Henrique de Menezes leixando 
a fortaleza de Calecut pofta per ter- 
ra pelo modo que efcrevemos nefte 
precedente Livro , como quem fe queria re- 
colher a Cochij defpachar as náos , que efte 
anno haviam de vir com carga da efpecia- 

ria, 



45*4 ÁSIA de JoXo de Barkos 

ria , e outras coufas que tinha por fazer, 
logo dalli efpedio a Pêro de Faria com to- 
dalas velas que trouxe de Goa pêra andar 
per aquelia coíla de Malabar. Chegado a 
Cochij , ordenou que foflem logo defpacha- 
das cinco náos , que eíle anno de quinhen- 
tos e vinte e féis vieffem com a carga da 
efpeciaria , os Capitães das quaes foram , 
D. Diogo de Lima filho do Bifconde Dom 
João de Lima , Diogo de Sepúlveda , que 
vinha de fervir de Capitão de Sofala , João 
de Mello da Silva , que neíte caminho fe 
perdeo fem fe faber onde 3 nem como. 
E depois deitas três náos partidas , partiram 
mais , D. João de Lima , e Diogo de Mel- 
lo y que fe perdeo em a barra de Lisboa ; 
mas falvou-fe toda a gente. E eíle Diogo 
de Mello era hum dos quatro Capitães das 
náos , que de Lisboa partiram o anno de 
quinhenros e vinte e cinco pêra trazer efta 
carga , e os outros três Capitães eram Dom 
Lopo d'Almeida filho de D. Diogo d' Al- 
meida Prior do Crato da Ordem de S.João , 
o qual hia pêra Capitão de Sofala em lu- 
gar de Diogo de Sepúlveda , e Francifco 
d'Anhaya filho de Pêro d'Anhaya , que fe 
perdeo também á fahida da barra de Lis- 
boa. E o Capitão mor de toda era Filippe 
de Caftro filho de Álvaro de Caftro , o 
qual fe foi perder na coita da Arábia junto 

do 



Década III. Liv. X. Cap. I. 45^ 

do Cabo Rofçalgate por má vegia , dando 
o Piloto cóm a náo em terra. E daqui man- 
dou recado á Villa Calayate do noíTo Rey- 
no de Ormuz , que lhs mandou huma náo , 
em que recolheo o que fe falvou , aíli que 
á ida fe perderam duas ? e á vinda outras 
duas. Defpachadas eftas náos pêra efte Rey- 
no , começou D. Henrique entender nas 
couías que elle trazia no peito, femascom- 
municar com alguém , efperando de as pôr 
em ordem pêra então as defcubrir , que era 
ir tomar a Cidade Dio do Reyno de Cam- 
baya. Com o qual fundamento peró que de 
Álvaro Mendes , que viera de lá com Ci- 
de Alie , tinha muita informação da forta- 
leza delia , como de homem que lá eftava 
por Efcrivão da Feitoria com Gafpar Paes , 
como diííemos , todavia quiz mandar outra 
DeíToa de mais authoridade a ver oíitio del- 
ia , e a lhe fondar a entrada da barra , e 
: 7 oi António da Silva de Menezes. E a voz 
da fua ida era ir bufcar roupas , que lhe 
havia de entregar o Feitor Gafpar Paes , 
que lá eftava ? e as levar a Malaca , por fer 
Capitão dos navios que andavam de Co- 
chij pêra Malaca , pêra trazer as drogas, 
que daquellas partes vem pêra efte Reyno. 
E por outra via , por fe mais certificar do 
cafo , mandou Pêro Barreto pêra per íi no- 
tar o íitio , e entradas , e fahidas da Cida- 
de , 



45*6 ÁSIA de JoÁo de Barros 

de, e com elle o Piloto mor da índia ? pê- 
ra lhe fondar a barra , e rio. Também , 
por não fazer grande eftrondo , mandou fa- 
zer huma Armada de féis velas , a capita- 
nia mor das quaes deo a Heitor da Silvei- 
ra , com fama que o mandava ao mar Ro- 
xo a trazer D. Rodrigo de Lima , que lei- 
xou de vir com D. Luiz de Menezes po- 
las razoes que atrás diíTemos. E em fegre- 
do lhe mandou que fua derrota fofle direito 
á Ilha Çocotorá , e feita fua aguada an- 
daíTe no roílo do Cabo Fartaque té quinze 
de Março ; e fe elle D. Henrique não fof- 
fe té efte tempo com elle > então fizefle fua 
viagem ao eftreito, e dahi a Maçuá trazer 
D. Rodrigo de Lima. Defpachado Heitor 
da Silveira do Governador , partio de Goa 
a dous dias de Fevereiro do anno de qui- 
nhentos e vinte e féis com quatro galeões, 
huma galeota , e huma caravella , de que 
eram Capitães do feu delle Heitor da Sil- 
veira , e Nuno Barreto , e dos outros Ma- 
nuel de Macedo , Henrique de Macedo feu 
irmão , e Francifco de Mendoça. E das ou- 
tras duas peças Fernão de Moraes da cara- 
vella , e Francifco de Vafconcellos da ga- 
leota , o qual logo fe perdeo da Armada, 
e iriam nella té quinhentos homens. Chega- 
do a Çocotorá , onde fez fua aguada , foi- 
fe pôr na paragem das prezas , como lhe 

D. 



Década III. Liv. X. Cap. L 457 

D. Henrique mandou , onde fe deteve té 
vinte de Março , mais cinco dias do que 
trazia em regimento ; e não vendo recado 
de D. Henrique , quiz fazer mais eíta dili- 
gencia , ver fe per ventura na coita de Do- 
far, que he na Arábia, achava algum na- 
vio com recado , porque os navios fempre 
fe inclinam mais áquella coita por caufa das 
prezas , que ao mar largo. Na qual travei- 
la teve tanta calmaria , andando já á viíta de 
terra , que primeiro de chegar á Cidade Do- 
far, os Mouros a tinham defpojado do fa- 
to , de que era Senhor hum Mouro Ará- 
bio , que fe intitulava por Rey. E peró que 
ella era pequena , por íitio era forte , por 
eítar aíTentada em coita brava, éter os ma- 
res de levadia , e mui bem cercada de mu- 
ros , e torres de pedra , e cal ao modo de 
Hefpanha. Heitor da Silveira chegando ao 
porto já quaíl noite , quando veio pela ma- 
nhã, vio a praia cheia de gente, poíta em 
armas , como quem não confentia alguém 
fahir em terra contra fua vontade. A qual 
moítra deo mais fabor a Heitor da Silveira , 
e a todolos noffos de ir experimentar a ra- 
bolaria daquella gente , e aíli fe fez , fahin- 
do logo com té trezentos e cincoenta ho- 
mens. Ao qual os Mouros oufadamente vie- 
ram receber , como gente que ainda não 
tinha experimentado. o noíTo ferro 7 mas de- 
pois 



458 ÁSIA de João de Barros 

pois que o fentíram nas carnes , viraram 
as coitas acolhendo-fe á Cidade. E na en- 
trada da porta foi tamanha a revolta , que 
mataram dous dos noíTos , e feriram oito , 
ou nove , na qual porta tanto que foi fecha- 
da , de dous berços de ferro que lhes fervia 
de tiros , fizeram vai , e vem , com que a 
quebraram pêra entrar. Ao qual tempo já 
outros dos noflbs entraram per cima do mu- 
ro comefcadas que pêra ilTo traziam, o pri- 
meiro dos quaes foi hum Diogo Corrêa 
criado de D. Henrique de Noronha irmão 
do Marquez de Villa Real , fendo homem 
tão fraco nas forças corporaes , que não es- 
peravam ifto delíe ; mas no ferir do feu fer- 
ro moílrou as que tinha no animo. Aber- 
tas eítas duas entradas , a do muro pelas ef- 
cadas , e do rachar das portas , começaram 
os Mouros de fe acolher, não pêra o caf- 
tello que a Cidade tinha , mas pêra fora. 
No qual nos noíTos não acharam fazenda , 
fomente acharam algumas almas fem cor- 
pos , e forças pêra fugir, que eram velhos, 
velhas , e meninos , que fe mettêram em cis- 
ternas feccas pêra fe lalvar ; mas a fua ida- 
de foi a própria defensão pêra ficarem vi- 
vos , e livres , porque não lhes foi feito 
mal , nem menos na Cidade houve coufa 
de fubftancia, porque (como diííemos) nos 
três dias que os noíTos andavam em calma- 
ria 



Década III. Liv. X. Cap. L 45*9 

ria á vifta delia , tiveram tempo de falvar 
as fazendas. E ao embarcar de huma pou- 
ca de pobreza que acharam , e alguma ar- 
tilheria , aconteceo-lhes com ella o que paf- 
íbu D. Luiz de Menezes , quando quiz em- 
barcar a que houve no efcalamento da Ci- 
dade Xaer , porque os mares dos lugares 
daquella coita , todos com leve tempo são 
poítos em as nuvens. Affi que áfahida nef- 
ta Cidade cuftou aos noíTos os dous que 
diíTemos ferem mortos á entrada da por- 
ta , e vinte e tantos feridos , e dos Mou- 
ros affi na praia , como pelas ruas , ficaram 
muitos eílirados. Tornado Heitor da Silvei- 
ra embarcar com aílas trabalho , e mãos 
vazias do defpojo , fez fua viagem ás por- 
tas do eftreito , e dahi pêra Maçuá , onde 
chegou nos primeiros dias de Abril , a qual 
Ilha Maçuá eítava de guerra comnofco ; e 
peró que Heitor da Silveira a mandou ro- 
dear debateis daquella parte que ella tem, 
pêra dalli fe paliar a terra firme , por im- 
pedir aos moradores que o não fizeíTem , 
por efta terra firme fer do Rcy daAbaííia, 
a que nós chamamos Prefte João , onde hia 
bufcar D. Rodrigo de Lima , não pode elle 
fazer ifto com tanta diligencia , que não fof- 
fem já paíTados muitos, por haverem vifta 
da fua Armada , e conhecerem fer nofía , 
com quem eftavam mal. E os que não ti- 
ve- 



460 ÁSIA de J0Ã0 de Barbos 

vcram preftes embarcação , no meio do ca- 
minho foram romados , e no lugar , que fe- 
ria de dous mil vizinhos , acharam os .nof- 
ibs pannos de algodão , a que chamam tea- 
das , e são trazidas pelos Mouros da índia 
áquella Ilha , porque os feus moradores as 
refgatam per ouro com os Abaffijs. Da qual 
roupa, por fer boa quantidade, Heitor da 
Silveira a mandou paliar ás náos ; e em Ar- 
quico lugar do Prefte fe vendeo , e trocou 
por efcravos , e mantimentos aos próprios 
íiaturaes do lugar Maçuá , que alli eftavam , 
e fe lhes fez bom barato , por ferem feus ; 
os quaes ficaram em noífa amizade , fem 
ferem caíligados , e aífentáram paz com Hei- 
tor da Silveira , com páreas de trezentos 
pardáos por anno , de que logo fizeram a 
primeira paga. A exemplo das quaes , a Ilha 
Dalaca , que he de três léguas em torno alli 
vizinha , temendo fer-lhe dado outro tal 
falto , ajuntaram três mil pardáos , que lhe 
logo trouxeram , e queriam pagar de páreas 
cada anno , ficando em nofla paz , e ami- 
zade , o que lhe Heitor da Silveira accei- 
tou , por a virem demandar , e requerer hu- 
milmentc ; peró que entendeíTe que era pru- 
dência fua delles , como quem vinha com- 
prar, ou (por melhor dizer) refgatar pef- 
foas , e fazenda , por elle não fahir com a 
mão armada fobre elles. E em doze dias 

que 



Década III. Liv. X. Cap. I. 461 

que Heitor da Silveira alli efteve , em quan- 
to não vinha D. Rodrigo de Lima , que 
elle mandara chamar, fez eftas coufas com 
os moradores deitas duas Ilhas Maçuá , e 
Dalaca. Chegado D. Rodrigo com lua gen- 
te , foi entregue a Heitor da Silveira por 
aquelle fenhor chamado Barnagax , que o 
recebeo quando Diogo Lopes de Sequeira 
lho entregou , como atrás efcrevemos , e 
alli lhe entregou hum Embaixador homem 
religiofo , que o Prefte João mandava a El- 
Rey D. João de Portugal , o qual veio a 
efteReyno. Epafladas as entregas delle Bar- 
nagax , de que levou fua certidão ao Pref- 
te , e dadas de huma parte a outra dadi- 
vas , Heitor da Silveira fe partio daquelle 
porto a vinte e oito de Abril de quinhen- 
tos e vinte e féis , caminho da Ilha Cama- 
rão , onde chegou ao primeiro de Maio. E 
em quanto alli efteve fazendo fua aguada, 
o Padre Francifco Alvares , que foi com 
D. Rodrigo de Lima , e vinha com elle, 
lembrado dacreação que recebera de Duar- 
te Galvão, e fabia onde o leixára enterra- 
do , (como atrás efcrevemos , ) fecretamen- 
te com Gafpar de Sá , com quem tinha ra- 
zão, foram bufcar os feus oífos. Os quaes 
o mefmo Francifco Alvares depois trouxe 
a efte Reyno , e entregou a feus herdeiros 
pêra lhe darem natural fepultura , e não tão 

/ ef- 



462 ÁSIA de João de Barros 

eílranha como era a Ilha Camarão. E co- 
mo vieram os Ponentes , que he a própria 
monção pêra fahir daquelle eftreito , Hei- 
tor da Silveira partio ; e tanto que foi 
defembocado delJe , faltou tamanho tem- 
poral com clle , por começar já o inverno , 
que não pode dar vifta á Cidade Adem, 
como lhe D. Henrique mandava 5 e con- 
tentou-fe com faber novas do eftado da 
terra per alguns Mouros delia pêra dar 
razão a D. Henrique ; porque a primeira 
coufa que o temporal fez foi derramar- 
lhes as velas de maneira , que cada hum 
correo por onde o vento a levou , paíTan- 
do todas grande rifco de fe perder ; e o 
maior que Heitor da Silveira paífou foi 
fede , em tanta maneira , que lhe faleceo 
gente por falta de agua, nem o tempo lhe 
dar lugar pêra a ir tomar a terra , té que 
Deos o levou a Mafcate, e dahi foi inver- 
nar a Ormuz. 



CA- 



Década III. Liv. X. 463 

CAPITULO II. 

Em que fe conta a ida de Pêro Maf- 
carenhas a Malaca , e algumas coufas que 
lá eram acontecidas no tempo do Governa* 
dor D. Henrique de Menezes , que o ãef- 
f achou ofendo Capitão Jorge d? Alboquerque y 
a quem elle Pêro Mafcarenhas fuccedeo. 

PEra ir enfiando noíTa hiftoria no tem- 
po , e na ordem que dêmos no princi- 
pio no oitavo Livro deita terceira Década , 
■como havíamos de ajuntar as coufas de Ma- 
laca por diante com as da índia té o Po- 
nente da nofla fortaleza Eofala , convém 
<jue demos ora conta doeftado em que Pê- 
ro Mafcarenhas achou a Cidade Malaca, 
pois o Governador D, Henrique o defpa- 
chou pêra ir fucceder a Jorge d ? Alboquer- 
que. Elle Pêro Mafcarenhas partio de Co- 
chij a oito de Maio do anno de quinhen- 
tos e vinte e cinco com quatro velas , em 
que levava trezentos e cincoenta homens , 
e muitas munições , de que a Cidade efta- 
va mui desfalecida; e Jorge d 5 Alboquerque 
por a neceffidade que diíío tinha o cha- 
mava per cartas , com a qual provisão che- 
gou a falva mento a tempo que a Cidade 
eftava bem neceílitada detodalas coufas que 
«lie levava > aíli da gente , como navios , e 

mu- 



464 ÁSIA de J0Â0 de Barros 

munições por os trabalhos que tinham paf- 
fado. Dos quaes nós convém dar razão an- 
te que Jorge d'Alboquerque Capitão da Ci- 
dade íe parta delia 5 pois elle os paliou , 
e nós palia de hum anno que leixamos de 
fallar nella , e affi na fortaleza de Maluco > 
de que também he necefíario que demos 
conta. Por os grandes trabalhos , e neceílí- 
dade que Jorge d'Alboquerque padecia, ef- 
creveo a D. Duarte de Menezes Governador 
da índia , pedindo-lhe que o proveífe de 
gente , navios , e munições , pêra poder re- 
iiílir á contínua guerra , que lhe fazia El- 
Rey de Bintam , dando-lhe conta miuda- 
mente dos trabalhos que padecia aquella 
Cidade. E porque D. Duarte ao tempo def- 
ta carta era em Ormuz, e D. Luiz de Me- 
nezes íeu irmão com os léus poderes eítava 
em Cochij , mandou com efte foccorro a 
Martim Aífonfo de Soufa filho de Manuel 
de Soufa, o qual andava por Capitão mór 
da Armada , que trazia do monte Delij té a 
Ilha Ceilão , de que o Governador D. Duar- 
te o provera , em lugar de Pêro Lopes de 
Sampayo , que alli andara em guarda da- 
quella cofta. E levou Martim Aífonfo de 
Soufa féis velas com té duzentos homens 
de armas , das quaes eram Capitães debai- 
xo de fua bandeira , ( por elle levar officio 
de Capitão mór cio mar ; .) Álvaro de Bri- 
to, 



Década III. Liv. X. Cáf. II. 465* 

to, André de Vargas, António de Mello, 
Vafco Lourenço , André Dias , e elle ern 
outra vela. Jorge d'AIboquerque tanto que 
elle chegou , como hia com gente freíca, 
e bem provido, e eftava magoado do que 
Lacfamana tinha feito (como atrás fica,) 
em tempo de D. Duarte , logo o mandou 
que fe foffe lançar fobre o rio da IlhaBin- 
tam pela maneira que elle mandara feu cu- 
nhado D. Garcia Henriques , a quem acon- 
teceo o que atrás eícrevemos. Peró Lacfa- 
mana vendo Martim AfFonfo na boca do 
rio , e que não podia fahir pêra fóra , por 
fe não atrever pelejar com os noíTos , nem 
menos ufar de outro tal ardil como fez a 
D. Garcia, e eftava feguro de Martim Af- 
fonfo poder fubir acima a Cidade por mui- 
tas eftacas com que o rio eftava pejado , de- 
terminou de o enfadar , e com boa vigia 
leixou-fe eftar. Porque como EIRey de Bin- 
tam tinha fuás intelligencias de tudo o que 
fe fazia em Malaca, tanto que Martim Af- 
fonfo chegou , foube logo de fua vinda , e 
gente que trazia , e como vinha de andar 
por Capitão mor da cofta do Malabar , e 
era já Official velho de mandar gente , e pe- 
leja. A noticia das quaes coufas fez entre- 
ter Lacfamana pêra o enfadar, ou, acudin- 
do a doença que alli acode em certos me- 
zes , o fizeífe acolher. B como elle Lacfa* 
Tom. III. P.iL Gg ma- 



466 ÁSIA de João de Barros 

mana o cuidou , affi foi , que enfadado Mar* 
tim Aífoníb de efperar que fahiífe 5 teve 
confelho com os Capitães que levava, que 
lhe aconfelháram o que fez. Porque como 
alli hiam homens eíhntes em Malaca , ef- 
candali.zados da guerra paliada, em que ti- 
nham perdido muito do feu , e também fa- 
berem a terra fer doentia , diíTerarn-lhe que 
fe foííe á coíla de Malaca contra o Reyno 
de Pam , porque fazia nifto duas coutas : 
dar fahida áquelle Mouro , que eílava en- 
currelado , e no mar largo fe poder vingar 
delle ; e a outra coufa era ir fazer guerra 
á coíla de Pam por caíligo da morte de 
D. Sancho Henriques , e André de Brito , 
pêra a qual coíla eíle Lacfamana cada an- 
no navegava por dar favor aos feus na- 
vios • e vindo elle a iííò , vinha-lhe cahir 
na rede. Martim Affonfo como homem no- 
vo na' terra, e o parecer, e voto daqueija 
mudança era de homens coíhimados a pe- 
leja delia , acceitou o confelho , e começou 
de ir fazendo guerra a fogo , e fangue per 
toda aquelía coíla caminho de Sião té o 
porto de Calantam , onde queimou hum 
junco de hum noflb amigo, e dahi téJPa- 
tane fez eítrago , cujo Rey , por fer vaflallo 
d 5 EIRey de Sião , era ido a elle. E ante 
de chegarem á Cidade que eílava pelo rio 
dentro, deftruíram algumas Aldeãs , a qual 

no- 






Década III. Liv. X Cap. II. 467 

nova fabida cm Sião , fez que houveram 
de tomar Duarte Coelho , e os juncos que 
fora bufcar , como atrás diflemos , por eftas 
terras lerem dos vaíTalios d'ElRey de Sião* 
Mas como Duarte Coelho era muito conhe- 
cido d'E!Rey , lá apagou efte damno de 
maneira , que íe veio pêra Malaca , onde 
já achou Martim Aíronfo , e tão ferido , que 
dahi a poucos dias morreo do que tinha 
paffado em Malaca depois de fua chegada ; 
e o caio foi efte. Com aquella obra , que 
elle foi fazendo per toda a cofia em damno 
de muitos amigos d'E!Rey de Bintam \ e 
de alguns noíTos , ficaram todos tão efcan- 
dalizados , que achou o meímo Rey de Bin- 
tam ajuda em todos pêra ir cercar Malaca 
com obra de mil e trezentos homens em 
vinte lancharas. Da qual Armada era Capi- 
tão mor Lacíamana , e Coja Cámeçum Sota^ 
Capitão , e com elle vinha o Capitão dos 
Luçoes, que hehuma gente da Ilha de.Bor- 
neo , a mais guerreira , e beilicofa daqueí- 
las partes. E teve Lacfamana efte ardil , por 
não fer fentida fua chegada j veio-fe alon- 
go da Ilha de Çamatra , e de noite atra-- 
veíTou a cofta de Malaca de maneira, que 
ante manhã veio lançar hum golpe de gen- 
te junto deUpe, queeftá mui perto da po- 
voação dos Mouros , a tempo que Jorge 
d'Aiboquerque eftava ouvindo Mifla ? dia 

Gg ii da 



468 ÁSIA de João de Barkos 

da Annunciaçao de N. Senhora, que he a 
vinte e cinco de Março. E fabendo elle a 
chegada da Armada , e revolta da povoa- 
ção dos Mouros, a grão preíTa mandou o 
Feitor Garcia Cainho com té oitenta ho- 
mens que acudiffem áquella parte , em que 
entravam eftas pefíbas nobres que eram 
Officiaes da fazenda d'E!Rey : Gafpar Ve- 
lho , Simão Mendes , Francifco Bocarro , 
Nicoláo de Sá , e Antão d' Aguiar. E aíli 
mandou Martim AfFonfo de Soufa Capitão 
mor do mar em duas fuftas que havia ahi 
mais , elle em huma , e João Vaz Serrão 
por Capitão de outra , em que iriam té ou- 
tras oitenta pefíbas. Entre as quaes eram 
eftas de nome : Aires Coelho , Gonçalo d'A- 
taíde , Garcia Qeimado, Álvaro Botelho, 
Francifco Fernandes Leme, Francifco Ra- 
bello , Gafpar Barbudo , António Carvalho , 
Duarte Borges. Os que foram per terra T co- 
mo eram os primeiros que tomaram as ar- 
mas , deram primeiro vifta deli aos imigos 
que faltaram em terra , os quaes quando 
viram que os noíTos não dormiam , e que 
acudiam mais preftes do que cuidavam , fem 
oufar experimentar o leu ferro , a grande 
preíTa fe tornaram recolher. Os que acudi- 
ram ao mar , porque os mais delles anda- 
vam oíFendidos de Lacfamana , puzeram o 
rofto nelle com remo tezo , e grandes apu- 
pa- 



Década III. Liv. X. Cap, II. 469 

padas chamando por N. Senhora, cujo dia 
era, O Mouro como era fagaz , alargou-fe 
ao mar , e fez duas partes das fuás velas , 
cercando as noífas 5 com efperança que os 
havia de tomar á mão , quaíi abafados da 
muita gente que trazia. Aferrados huns nos 
outros , era já o ar feito tão efcura noite , 
que fe não viam , tudo era fumo , fogo , 
ferro , e fangue , cm que morreo muita gen- 
te. E foi tanta 3 ferida , que não havia já 
quem remaíTe 5 fomente andavam travados 
huns nos outros á vontade • do mar , que 
os levava de huma parte á outra , em a 
qual peleja morreo João Serrão em a proa 
do feu bargantim , Aires Coelho de Tan- 
ger , que fora Alcaide mor de Pacem , Duar- 
te Borges 5 Gonçalo d\Ataíde fobrinho do 
Capitão mor , e outros , que não eram de 
tanto nome ; o Capitão mor ficou tão feri- 
do , que faleceo a vinte e cinco de Julho 
de quinhentos e vinte e cinco , vivendo nef- 
te officio de Capitão mor hum anno, e dez 
dias 5 porque começou a fervir a quinze de 
Julho de quinhentos e vinte e quatro. E 
como a noite foi o partidor defta faria que 
lhe deo a morte , pela manhã mandou Jor-> 
ge d'Alboquerque em bufca dos noílos ; e 
eftavam os mais delles tão feridos, ecanla- 
dos , que não havia quem remaíle , e os na- 
vios andavam á vontade da agua íem mais 



470 ÁSIA de JoXo de Barros 

governo. Lacfamana também ficou com tan- 
ta gente mona , e ferida , que náo tendo 
quem lhe remafle os navios , foi-fe metter 
aio rio de Muar 5 onde fe refez de remei- 
ros , e dahi fe acolheo a Bintam. EIRey , 
primeiro que elle fahiííe das lancharas com 
que efcapou , fabendo que íòmente dous na- 
vios noífòs o desbarataram , mui indignado 
contra elle, mandou-lhe dizer que não lhe 
viífe o rofto. Epoíta a gente ferida em ter- 
ra, pois nas feridas traziam íinaes que pe- 
lejaram , elle com a outra fe foífe prefen- 
tar a B.aja Nára feu Capitão , que eftava 
fobre EIRey de Linga , e fízeííe o que lhe 
elle mandaííe ; ao que Lacfamana logo obe- 
deceo. Efte Rey de Linga era grande nof- 
fo amigo 5 e por efta caufa EIRey de Bin- 
tam o queria deftruir , e mandou a efte Raja 
Nára feu genro , caiado com huma fua filha , 
€ fe intitulava por Rey de André Gerij vi- 
zinho a Linga , que he na Ilha de Çama- 
tra , que o foíle cercar. Ifto mandou elle 
no tempo que Lacfamana vinha cercar Mala- 
ca , porque com efte impedimento que nós 
teríamos 5 não poderia fer ajudado per nos 
efte noiTo amigo. Lacfamana obedecendo ao 
que lhe EIRey mandava , foi-lè ajuntar com 
Raja Nára , e não como homem que hia 
meio corrido ; mas moftrando-fe mui fober- 
bo ^ e viítoriofo de nos> mandou dizer a 

El- 



Década III. Liv. X. Cap. II. 471 

EIRey de Linga , que defpejaííe a terra , ou 
íè fizeíTé vaííallo d'E!Rey feu Senhor , e 
leixaíTe a amizade que rinha com os Portu- 
guezes , porque elle vinha de os desbara- 
tar , e leixava morto o feu Capitão mor 
do mar. Ao que EIRey de Linga refpon- 
deo , que outra nova tinha elle em contra- 
rio . porque a noite paliada lhe era vindo 
recado de Malaca que elle fora o desbara- 
tado , e com prazer deita vitoria que os Por- 
tuguezes delle houveram , celebrara a feita 
com mandar matar cincoenta cabras. E que 
antes de poucos dias efperava de mandar 
matar cento pola vitoria que delle > e de 
fua companhia havia de ter. Eíta nova era 
verdade , a qual elle foube per hum feu cria- 
do , que tinha mandado a Malaca , pedin- 
do-lhe foccorro contra aquelle Raja Nára, 
que o vinha cercar per mandado d 5 ElRey 
de-Bintam; ao que Jorge d'Alboquerque lo- 
go acudio com lhe mandar oitenta ho- 
mens , e dous navios 5 de que eram Capi- 
tães Álvaro de Brito , e Balthazar Rodri- 
gues Rapofo de Beja. Os quaes chegados 
ao porto do rio de Linga , por a Cidade 
eítar per elle acima, hum dia pela manhã 
foram viítos das vigias que Lacfamana tra- 
zia no mar ; e receando que o tomaíle den- 
tro no rio , começou de fe defamarrar, e 
fahir pêra fora. Álvaro de Brito indo pêra 

em* 



47^ ÁSIA de JoXo de Barros 

embocar o rio , houve viíla delles por fe 
ajuntarem ambos , Lacfamana , e Raja Ná- 
ra , que fazia hum corpo de oitenta lancha- 
ras , com que occupavam todo o rio , e fur- 
gio delles a tiro de bombarda , té agua fi- 
car eftofa fem vaiar , nem encher. E tanto 
que ateve a feu propoííto , querendo- fe ir a 
elles , elles mefmos os vieram cercar de 
maneira , que os navios dos noíTos ambos 
juntos , e aíferrados hum no outro , ficavam 
no meio como baluarte, eas lancharas hu- 
ma praça de madeira , per que de huma 
cm outra fe podiam correr todas. Final- 
mente a peleja foi travada , e tal , que mais 
pareceo a vitoria , que os noífos houveram , 
milagre de Deos , que forças humanas por 
perecerem mais de feiscentos Mouros de 
dous mil que eram, e dos noífos hum fo- 
mente foi morto , e muita parte delles fe- 
ridos , com que Lacfamana , e Raja Nára 
fe foram com ametade das lancharas per- 
didas , e queimadas. EIRey de Linga ven- 
do-fe em hum meio dia livre de feus imi- 
gos , fem faber que efta ajuda lhe era che- 
gada em favor , parecendo-lhe que parti- 
rem- fe aífi as lancharas pelo rio abaixo fem 
tornarem mais , era algum ardil delles , man- 
dou huma efpia defcubrir o que faziam. 
E quando lhe levou a nova da vitoria, 
veio com grande feita em feus paráos re- 

ce- 



Década III. Liv. X. Cap. II. 473 

ceber os noííòs navios , e os levou á Ci- 
dade , onde celebrou efta vitoria com gran- 
de feíla a feu modo. Porque além de per 
os noffos fer defcercado , e ficarem fenho- 
res de muito defpojo do lugar', onde ti- 
nham os imigos fituado o cerco em terra , 
recebeo hum grande prefente , que lhe Jor- 
ge d 5 Alboquerque mandou ; o qual elle 
moftrou eftimar em tanto , por fer íignal de 
honra , e amizade , como a vitoria j e elle 
também o gratificou com coufas da terra , 
que mandou a Jorge d'Alboquerque , e aíii 
deo outros aos Capitães. Os quaes fe tor- 
naram a Malaca , onde foram honradamen- 
te recebidos, por fer efta huma vitoria que 
alegrou muito a todos por os trabalhos, 
e perdas de gente , e honra , e fazenda , 
que tinham perdido todo o tempo atrás 
per tantos defaítres. 



CA- 



474 ÁSIA de JoÃo de Barros 
CAPITULO III. 

Como hum arrenegado de appellião Avelar > 
que andava lançado com EIRey de Bin- 
tam^ lhe move o hum modo de guerrear 
Malaca : e como não aprovei- 
taram fuás induftrias 
caufa alguma. 

ANdava neíle tempo lançado com EI- 
Rey deBintam hum Portuguez , cujo 
appellido era Avelar , porque nome da Pia 
já o não podia ter , pois era arrenegado. 
O qual vendo EIRey deBintam mui agaf- 
tado daquella grande perda que houve em 
Linga , o quiz confortar com efperança de 
fe vingar per efte modo , dizendo : Senhor y 
tu es efperimentado que Malaca , fe lhe 
poe a mão na garganta , não tem vida , e 
ejia mão he tolher-lhe os mantimentos \ e 
por termos fabido que elles ejlam em gran- 
de necejjidade ^parece-me que feria bem ator- 
mentar ejla gente per duas partes : per 
mar , tolhe}td(hlhe os mantimentos , no qual 
mifier , e defenfa andará Lacfamana com 
fuás lancharas \ e per terra , danâo-lhes a 
miude rebates com corridas pêra os can- 
far , por fer mui pouca gente , e muita del- 
ia com a fome fraca , etao debilitada , que 
não poderá rejiftir a tanto trabalho j e fe 

tu 



Década III. Liv. X. Cap. III. 475* 

tu houveres por bem que eu feja o Capitão 
dejla gente da terra , eu me offereço a ijfo , 
e efpero de te fazer grande fervi ço. A qual 
couía dando EIRey orelhas , quiz ter prá- 
tica com Lacíamana > e com outros feus M:m- 
darijs , e Capitães. O qual modo de nos 
guerrear dizem que o mefmo Lacfamana 
induftriou cora eíle Avelar , por fer grande 
íèu amigo , e o queria metter cem EiRey 
em negócios de confiança , e também ale- 
grar a EiPvey da triíleza que tinha do caio 
de Linga , e dle fe tornar a.reftituir na 
fua graça , de que andava muito deícahido 
por nefte feito de Linga perder tanta gente , 
e lancharas , com os noíTos ferem oitenta 
homens , e dous navios , e pelo outro em 
que Martim AíFonfo foi morto. Acordado 
efte confeího , que Lacfamana approvou po- 
•las razões acima , elle fez preftês fuás lan- 
charas ? e ao Avelar foram dados ires mil 
homens , e per terra fe veio lançar obra de 
meia légua de Malaca naquelia parte a 
que elles chamam Campuchina. E como na 
Cidade pêra poder pelejar havia pouco 
mais de cem homens , e ainda delíes doen- 
tes , dava eíle arrenegado muito trabalho 
com fuás corridas ; porque como Jorge d 5 AI- 
boquerque fentio o cerco , pêra que lhe con- 
veio pôr a gente em fuás eftancias , foi ne- 
ceíFario ; por a pouca que havia , mandar a 

el- 



476 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

elles os homens enfermos y que era hum 
grande trabalho aos sãos , quanto mais a 
elles : cá no tempo que lhe a elles parecia 
poder ter repoufb , acudiam os Mouros com 
rebates , muitas vezes delias de noite , em 
tanto , que huma vendo o Avelar que todas 
fuás arremettidas eram mais damno feu que 
noííb , por lhe cufíar caro a reíiftencia que 
achava ? determinou de fazer huma entrada 
real , porque té li tudo eram commettimen- 
tos por afadigar , e canfar os nofíbs. Cá 
a tenção delles já era mais matallos per fo- 
me , e canfeira , que per ferro j e a eíle 
tempo tinha Lacfamana per fua parte bem 
defendido que não vieíTem navios á Cida- 
de com mantimentos da Jaiia , de Sião , e 
de outras partes coftumados aos trazer. E 
era tanta a neceílidade delles , que valia em 
Malaca huma ganta-de arroz dez cruza- 
dos , e huma gallinha dous. E fe Jorge d'AI~ 
boquerque , e Garcia Cainho Feitor , que 
era hum homem largo , e rico , não deram 
de comer a muita gente, e podiam fuften- 
tar a defpeza , muita delia perecera. Final- 
mente o que Avelar huma noite accommet^- 
teó com grande impeto foi com a força 
de toda a gente que tinha querer entrar 
a Cidade pela parte onde habitavam os Que^ 
lijs , ( que são os mercadores , ) por terem 
bairro apartado per íi 3 cuja cerca era de 

ma<* 



Década III. Liv. X. Ca*. III. 477 

madeira ; e por haver muito tempo que ifto 
era feito , eftava já tão podre , que em efte 
impeto dos Mouros lhe pondo os peitos , 
a levaram ante II como huma fraca febe; 
e não foi tão pequeno lanço , que não fizef- 
lè huma entrada de fete braças. Ao cahir 
da qual foi tamanho o eftrondo , que acu- 
dio toda a gente que dormia cantada da 
trabalho , e do pouco repouib que tinha de 
dia , e vigia de noite ; ao que acudio Gar- 
cia Cainho com a outra da vigia daquelle 
lanço derribado , o qual foi grande defenfa 
aos Mouros não entrarem. Porque como era 
de madeira, e elles á força de peites alaf- 
tráram todo aquelle lanço , ficou de manei- 
ra retorcido , e quebrado , que de dia não 
oufára hum homem paíTar per elía , quanto 
mais de noite. E fobre efta defenfa, com a 
grande grita dos noíTos , acudio tanta gen- 
te y que os mefmos Mouros ficaram no ani- 
mo mais cortados , que na carne \ e como 
que hia trás elles o mundo de gente 5 fem 
haver dar , e tomar , defamparáram o lu- 
gar ^ e não pararam menos de fete legua^ , 
onde o Avelar os levou. E como homem 
que via a gente receofa de chegar áquelle 
trabalho por andar efcaldada do ferro , 
que fentiam no commetter fuás entradas, 
quiz çwitentallos , ajudado do confelho de 
Lacfamana, por fe communicarem por re* 

ca- 



478 ÁSIA de João de Barros 

cados , e avifos do que cada hum fazia. E 
hum dia de propoíito lá onde eftava quiz 
dar aos principaes hum jantar a feu modo, 
porque íempre fobre eíle comer , e beber , 
os homens, (como fe diz,) eftam difpof- 
tos com coração de pouíada. E no fim da 
prática que tiveram fobre commetter , fe de- 
terminaram cincoenta homens , per voto que 
todos fizeram , de huns morrerem por ou- 
tros , té fazerem hum feito grande, de tra- 
zer a cabeça do Capitão , ou do Feitor 
Gafpar Cainho , e a levar aElRey de Bin- 
tam. Sabido o qual voto da outra gente , 
fci em todos tanta a competência de hon- 
ra , que fe oíFerecêram outros, com que fi- 
zeram número de duzentos e -cincoenta. No- 
tificada efta determinação a Lacfamana per 
Avelar , que lhe mandaíTe vaíilhas pêra fe 
embarcarem a vir commetter o feito , elle 
lhe mandou doze peças as mais pequenas 
que entraram per hum efteiro té irem dar 
onde eftavam. E dahi fe vieram lançar em 
cilada obra de duas léguas da Cidade , e 
mandaram alguns como defcubridores , que 
foílem fazer algum damno ; e acudindo al- 
guns Porcuguezes , os foliem cevando , e 
entretendo" té os metter na cilada. Chega- 
dos á parte encuberta que defejavam , met- 
tendo os navios no mais efpeífo lugar do 
arvoredo > foram alguns faltear humas vac- 

cas 5 



Década III. Liv. X. Cap. III. 479 

cas , que andavam paceando , do qual falto 
os que guardavam as vaccas appellidáram 
a gente da Cidade , ao que acudio Garcia 
Cainho , que elles defejavam. O qual por 
o mato fer efpefib , vendo que os Mouros 
fugiam , não os quiz feguir, havendo que 
feriam alguns ladrões , que vinham roubar 
as vaccas ; e fazendo volta , vcio-fe de feu 
vagar pêra a Cidade. Da companhia do qual , 
logo no primeiro impeto de fua chegada 
correram trás os Mouros ; e não vendo co- 
mo Garcia Cainho fe tornava , os primei- 
ros que hiam diante feguíram hum bom 
pedaço aquelle curfo té irem dar na cila- 
da. Os quaes quando fe acharam no meio 
de tanta gente , quizeram fugir ; mas vendo 
Francifco Corrêa , que era hum dos féis 
que eílavam naquelle perigo , que não tinha 
pernas pêra fe acolher , por ir muito doen- 
te da enfermidade da terra , taes palavras 
lhes difle , que tomaram por remédio acci- 
dental ampararem- fe todos féis a humas ar- 
vores mui bailas , que per huma parte os 
pés , e ramas lhe guardavam as coitas , e o 
roílo lhe ficava contra hum defcuberto , per 
onde os Mouros os com met tiara com fre- 
chadas. Poíto que os noílbs eílavam alli co- 
mo leões acanhados , e com três efpingar- 
das que tinham , cm os Mouros vindo a 
elles j ficavam logo alli eílirados ; e fempre 

te- 



480 ÁSIA de João de Barros 

temerofos , parecendo-lhes que a eílancia que 
os noílos tomaram naquelle lugar era mais 
em modo de anagaça , por terem nas cof- 
ias gente em fua guarda , que per outro res- 
peito. Os noílos vendo que elles não ou- 
iavam de fahir a terreiro defcuberto 5 mais 
que dez , ou doze , moílrando fer verdade 
o que elles fufpeitavam que tinham algum 
em lua guarda , com huma grande grita fahí- 
ram impetuofamente dos pés das arvores. 
Quando os Mouros os viram remetter , hou- 
veram que vinha o Mundo trás elles de 
gente ; e quem mais corria , melhor caval- 
Jeiro era , com que de todo leixáram o lu- 
gar , e a empreza 5 ficando alli quatorze 
mortos , e dos féis noííos ficou hum bom- 
bardeiro , e iílo por cubica de querer ir to- 
mar huma arma , a que elles chamam cris , 
ao modo de adaga , por fer lavrado de ou- 
ro. E nefta contenda que foi duas horas de 
tempo , trazendo os quatro fobraçado Fran- 
cifco Corrêa , mais por não poder vir de 
fua rná difpoíição , que por ferido ; teve 
Jorge dWlboquerquc avifo per elles do que 
paíTáram com os Mouros , e que hiam fu- 
gidos , como gente que cuidava levar trás 
fi o mundo de homens. E porque aos te- 
merofos o medo os vence , determinou lo- 
go Garcia Cainho em continente com licen- 
ça de Jorge d'Alboquerque ir pelo raftro 

dei- 






Década III. Liv. X. Cap. III. 481 

dclles , e affi o fez. E o melhor, e mais 
certo fignal que levou pêra ir dar com el- 
les , foi o langue , ao modo que faz o mon- 
teiro , quando o veado vai da fua mão feria- 
do , por a terra ter mato efpélío té junto 
da praia 5 onde Garcia Cainho lhe deo tal 
caftigo , que fe puzeram em fugida. E de- 
pois que os fez acolher y foram os noííbs 
dar com os barcos , que tinham efcondi- 
dos , os maiores dos quaes foram arromba- 
dos pêra não fervirem mais ,- e os outros 
ínandou levar á fortaleza , e elle per terra 
ao outro dia chegou a ella > e efte foi po* 
então o remate dos commettimentos daquel- 
le arrenegado. E porque nefte tempo Dom 
Garcia Henriques 3 cunhado de Jorge d 5 AI- 
boquerque , era ido a Maluco a fervir de 
Capitão daquella fortaleza em lugar de An- 
tónio de Brito , e he neceííario dar conta 
das coufas daquellas partes , contaremos o 
que elh fez nefte caminho té chegar a Ma- 
luco 5 e o que lá também. lhe aconteceo no 
modo da entrega da fortaleza. 



T0m.IILP.1l Hh CA- 



4§z ÁSIA de JoXo de Barkos 

CAPITULO IV. 

Como D. Garcia Henriques partio de 
Malaca pêra fervir de Capitão de Malu- 
co em lugar de António de Brito : e como 
na Ilha de Banda achou Martim Affonjo 
de Mello Jufarte , e o que aconteceo a am- 
bos com a gente da terra. 

AO tempo que D. Luiz de Menezes 
em Cochij defpachou Martim Affon- 
íb de Soufa pêra ir fervir de Capitão mor 
do mar de Malaca , levou Provisão a Jorge 
d'Alboquerque de D. Duarte de Menezes, 
que eile mefmo mandara pedir , a qual era , 
per que fazia mercê a elle Jorge d\Albo- 
querque , cm nome d'ElRey , da capitania de 
Maluco pêra hum de feus cunhados Dom 
Sancho Henriques , ou D. Garcia Henri- 
ques. E eftas coufas quando os Governado- 
res da índia as provêm , como he cargo , 
officio , ou mercê , de qualquer qualidade 
que feja , fempre na tal Provisão diz que 
faz mercê de tal coufa em nome d'ElRey 
NoíTo Senhor a foao , havendo refpeito aos 
ferviços que tem feitos a Sua Alteza. E per 
efte modo fez D. Duarte efta a Jorge cPAi- 
boquerque , nomeando ambos os cunhados, 
por terem as qualidades em ferviço , fidal- 
£. ia , e peflba, que o tal cargo requeria. 

E 



Década III. Liv. X. Cap. IV. 483 

E o que moveo a Jorge d'Alboquerque a 
eííe requerimento , e a D. Duarte conce- 
der-lho , eftando António de Brito fervindo 
efta capitania , foram cartas que elle efcre- 
via aííi a hum, como ao outro ^ que man- 
daíTem alguém fervir aquelle cargo , pois 
não era provido das coufas neceíTarias pê- 
ra defender aquella fortaleza. Porque da 
primeira pedra que nella puzera, tudo fo- 
ram guerras , e trabalhos, fem ter algum 
proveito , e íbbre iífo máo provimento do 
neceífario , aífí pêra o negocio da guerra , 
como provimento de roupas , e outras cou- 
fas , com que os homens da fortaleza são 
pagos de feus foldos. E vendo D. Duarte 
que Jorge d 5 Alboquerque pedia efta vagan- 
te de António de Brito pêra cada hum de 
feus cunhados , folgou de lha conceder, 
porque per efta razão de cunhado > e vizi- 
nhança que tinha com Maluco , com mais 
diligencia , e cuidado trabalharia por acu- 
dir , e prover a fortaleza ; e também por- 
que os Capitães de Malaca comem o me- 
lhor bocado delia no trato de noz , e ma- 
ça de Banda , e cravo de Maluco. Aflí que 
vinda efta Provisão em companhia de Mar- 
tim Aifonfo de Souià , veio a mui bom 
tempo pêra D. Garcia não ficar efcandali- 
zado tirar-Ihe Capitão mor do mar de Ma- 
laca que fervia, e dalla a Martim AíFonfo , 

Hh ii da 



484 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

da qual fortaleza de Maluco elle foi mais 
contente , por fer de mais honra , e pro- 
veito. E tomada poíTe Manuel de Soufa 
da fua capitania mor do mar, Jorge d'Al- 
boquerque defpachou logo feu cunhado 
D. Garcia Henriques , o qual partio de Ma- 
laca na entrada de Janeiro do anno de qui- 
nhentos e vinte e cinco , com quatro na- 
vios , hum junco da íerra , dous navios re- 
dondos , e huma fufta , em que levaria té 
feflenta Portuguezes , e toda a outra gente 
era do mar naturaes Malayos de Malaca. 
Com os quaes navios chegou á Ilha Ban- 
da , por fer no caminho de Maluco 5 e 
achou alli Martim AfFonfo de Mello , que 
vinha de Maluco , onde o nós leixámos , e 
trazia hum junco feu carregado de cravo , 
e os outros três eram de mercadores de 
Malaca, E como elle do tempo que alli 
eíleve , ( como atrás eferevemos , ) leixára 
os moradores dalli efcandalizados , não fol- 
garam muito com fua vinda , e vigiavam- 
fe huns dos outros 5 como grandes imigos. 
Chegado D. Garcia , por Màrtim Affonfo 
eftar indignado contra aquelles Mouros , e 
defejava de fe vingar , fez-lhe logo quei- 
xume delles , ao modo que foi da outra 
vez quando aíli foi ter com elle Baíliao 
de Soufa. E commetteo D. Garcia que o 
auizeíTe ajudar ? porque elle determinava 

de 



Década III. Liv. X. Cap. IV. 4S? 

de lhe dar hum bom caíligo , tendo-lhe já 
elle Martim AíFonfo queimado hum jun- 
co , que eftava alli á carga na Ilha Neira, 
que era de Mouros de Patane. Ordenados 
pêra efta ida mais com ódio, que com ra- 
zão , e prudência , por íer aquella huma 
terra , a que cada anno os noíTbs vam fa- 
zer feu commercio de noz , e maça , e con- 
vém não efcandalizar a gente , ambos fo- 
ram caftigados no lugar de Lonter , que 
he cabeça de todolos outros da Ilha , vin- 
do muitos delles bem efcalavrados. E pof- 
to que queimaram algumas cafas palhaças 
áquella pobre gente , foi ella tanta em acu- 
dir ao damno que lhes faziam , e foi tama- 
nha a revolta , que foi D, Garcia ferido 
com hum zarguncho de arremedo. Final- 
mente com efta vitoria elles houveram por 
bem , ( como dizem , ) de ficar cuftas por 
cuftas , e cada hum fazer feu caminho , Mar- 
tim AíFonfo pêra Malaca , e D. Garcia pê- 
ra Maluco, aonde chegou a falvamento. 



CA- 



486 ÁSIA de J0A0 de Barros 

CAPITULO V. 

Como D. Garcia Henriques chegou a 
Maluco , e as differenças que teve com An- 
tónio de Brito té lhe entregar a fortale- 
za : e como ambos mandaram defcubrir ou- 
ro d Ilha de Celehes , e como defcubríram 
outra Ilha nova de gente mui ejlranha. 

AO tempo que D. Garcia chegou a 
Maluco , eílava António de Brito or- 
denando pêra mandar fobre hum lugar d'El- 
Rey deTidore, com quem eílava de guer- 
ra 3 (como atrás efcrevemos.) E por elle 
D. Garcia ir pêra fervir de Capitão , ceifou 
António de Brito daquelle Ímpeto , por fuc- 
ceder outra coufa que foi aziar de mais dor 
pêra fe efquecer deita , que era de mais 
obrigação. O qual aziar foi , que D. Garcia 
não qujz ir ancorar ao porto da fortaleza 
de S.João, em que eílava António de Bri- 
to , e foi tomar outro na própria Ilha de 
Ternate , a que chamam Talangame , que 
he duas léguas da fortaleza. Verdade he 
que eíle não tem recifes tão perigofos , e 
he pêra náos grandes , o que não tem o 
da fortaleza , e pareceo a António de Brito 
que elle D. Garcia tomaria aquelle porto 
,de Talangame por fegurar o feu junco, 
Peró quando ouvio os requerimentos de 

D. 






Década III. Liv. X. Cap. V. 487 

D. Garcia , entendeo que por efta razão o 
fizera ; porque António de Brito vendo hum 
recado de D. Garcia , em que lhe notifica- 
va que era vindo pêra Capitão da fortale- 
za , que lha mandafíe fua mercê defpejar, 
porque não havia de defembarcar té lhefer 
defpejada; refpondeo que fahiíTe fua mercê 
em terra , e lá fallariam niífo , e tudo fe 
bem faria. D. Garcia como ouvio eíle re- 
cado, começou de tomar huma prefumpção 
pêra ambos fe defavirem , que António de 
Brito tanto que o viífe em terra não lhe 
havia de entregar a fortaleza. E mais , que 
lhe tomaria a embarcação que trazia , e de- 
pois que recolhefíe o cravo , que tinha pê- 
ra trazer , e toda a gente que com elle íe 
queria ir pêra Malaca , então lhe entrega- 
ria a fortaleza , e ifto não podia fer fenão 
vindo a monção , que era dahi a oito me- 
zes. Pêra a qual fufpeita não faleceram al- 
guns dos noííbs , que da fortaleza vieram 
ver D. Garcia , como Capitão novo , que 
lhe faziam eíla fufpeita mais firme, té que 
António de Brito , como quem entendia a 
natureza dos homens que andavam neftas 
vifítações , fegurou D. Garcia de fuás fuf- 
peitas , pedindo-íhe que fahiíTe em terra y 
e aíTi o fez indo jantar com elle. Mas Dòm 
Garcia ou porque aíli o aconfelháram , ou 
porque queria defcubrir com eífeito a von- 

ta- 



'428 ÁSIA de JoÃo de Barros 

tade de António de Brito , em acabando 
de comer , fobre meza quiz-lhe moftrar as 
Provisões que levava , pêra lhe entregar a 
fortaleza : ao que António de Brito lhe foi 
á mão , dizendo que foífe dormir , e repou*- 
far , e depois entenderiam niíío. Paliada 
aquella hora do repoufo , fendo prefente o 
Feitor, Alcaide mor, e Officiaes da forta- 
leza , diífe António de Brito a D. Garcia , 
que aprefentaíTe as Provisões que trazia. As 
quaes lidas , diífe Antpnio de Brito , que 
aquellas Provisões do Governador levavam 
alguns pontos 9 em que não obrigavam de 
todo a elle entregar a fortaleza , as quaes 
logo apontou ; mas que elle com tudo a 
queria entregar , e feria a feu tempo , que 
era quando vieífe a monção de Janeiro , 
forque não eílava em razão fendo elle Ca-*- 
3Ítão , e não tendo acabado feu tempo , que 
MieElRey limitava pêra poder eílar na for- 
taleza, de Capitão que era, e podia man^ 
dar té fua partida , fe fazer laícarim pêra 
fer mandado. D.Garcia, porque dalli a Ja- 
neiro havia oito mezes , refpondeo que elle 
não viera de Malaca pêra eftar efperando 
tanto de tempo , fenão logo fer entregue da 
fortaleza , e começou de fazer proteftos com 
requerimentos ao Alcaide mor , Feitor , e 
Qfficiaes , que cumpriífem a Provisão que 
aprefentava , e lhe fizeflem entregar a for-r 

ta- 



Década III. Liv. X. Cap. V. 489 

taleza. E porque elles não refpondêram ao 
feu requerimento conforme o que elle pe- 
dia , fe tornou pêra o feu junco ; mas não 
acabou aqui o negocio , porque houve de 
parte aparte tantas paixões per homens que 
as traziam , que ficaram poftos em bandos. 
E porque noífo coftume he contar a guerra 
que os noííos tiveram com os Mouros , e 
não paixões , e divisões , que tiveram em 
íí , leixáíemos as miudezas que fe paliaram 
entre elles. Baila que ambos fe vieram a 
concertar , per hum certo modo , té hum 
tempo que António de Brito tomava pêra 
acabar hum junco feu , em que queria vir 
agazalhado ; e feito o junco , entregaria a 
fortaleza , com a qual condição D. Garcia 
fe foi poufar á fortaleza , e eíliveram em 
grande amizade. Nefte tempo que ambos 
eílavam concordes , fem haver buliço de 
guerra da parte d'E!Rey de Tidore , ven- 
do elle juntos dous Capitães conformes , e 
gente frefca que trazia D. Garcia ? tiveram 
ambos os Capitães nova que nas Ilhas dos 
Celebes , ( por os moradores delias affi fe- 
rem chamados , ) havia ouro , que indo lá 
homem que o foubeífe negociar , que ref- 
gataria boa quantidade. E como eftas Ilhas 
eftam dalli té feífenta léguas , pouco mais , 
pu menos , pareceo bem a ambos que de- 
viam lá mandar defeubrir eíla fama , e tra~ 

zer 



490 ÁSIA de João de Barros 

zer António de Brito tão boa nova a El- 
Rey. E pêra eíla ida elegeram , por fer ho- 
mem pêra iííò , ao Almoxarife da fortale- 
za , o qual partio pêra lá em hum a fuíla 
com alguns pannos , mais a tentar , e def- 
cubrir , que a refgatar , e por iffo não le- 
vou outro navio , e também por fazer fua 
viage primeiro que António de Brito fe 
partiíTe. Partido efte Almoxarife em Junho 
com fundamento que poderia tornar em Ju- 
lho , ou Agoíto, a mais tardar, chegou a 
huma das Ilhas , onde foi mui bem recebi- 
do. Mas como viram pannos , e outras cou- 
fas pêra refgate do ouro , fentindo que eíla 
era a caufa da lua ida , fizeram-fe em ou- 
tra volta ; porque como tinham por nova 
que por razão do cravo tinhamos tomado 
as Ilhas de Maluco, e a guerra que fazía- 
mos aos mefmos natutaes da terra era por 
elle , tomaram outra determinação , e foi 
ver fe podiam tomar a fuíla pêra não vir 
recado dos noíTos. E huma noite muitos 
delles vieram á fufta , que eftava com hum 
proiz em terra amarrada ás arvores , por alii 
ler tão alcantilado, que não fe podia lançar 
ancora ; e tirando pela amarra , deram com 
a fuíla em fecco. No qual tempo com a pan- 
cada que deo em terra , os noííos fentíram 
a fua obra , e a grão prefTa remettêram 
ás armas > e artilheria, e affi os trataram, 

que 



Década III. Liv. X. Cap. V. 491 

que lhes fizeram foltar a fuíla , e a tornaram 
pôr em hado , por ainda a maior parte del- 
ia eílar na agua ; e dalli fe foram a outra 
Ilha , onde os não confentíram , e menos 
em outras três , ou quatro , onde os rece- 
biam ás frechadas , fem fomente os confen- 
tirem tomar agua pêra beber, como gente 
que eftava pofta em ódio noííb , temerofa 
de irmos tomar a terra. Vendo o Capitão 
que andar de Ilha em Ilha mais era buf- 
car arroido , que ouro , determinou de fe 
tornar pêra Ternate a dar razão do efta- 
do em que aquella gente fe punha contra 
elles j mas parece que ainda tinha outro no- 
vo trabalho pêra paífar, e foi eííe. Como 
as aguas entre aquelle grande número de 
Ilhas são com a mudança dos tempos hum 
redemoinho com os ventos , e aguages , na- 
quella travefla que quizeram paífar , foi a 
fuíla arrebatada , e levada a hum mar mui 
largo , fem faberem onde eram , correndo 
fempre pêra o nafcimento do Sol. Final- 
mente perdido o tento da paragem onde 
eram , e correndo a Deos mifericordia com 
tormenta que os comia , por fer mar deía- 
brigado de Ilhas , indo fempre a popa , por 
não oufarem , nem poderem tomar outro 
rumo, fegundo feu parecer, elles correram 
algumas trezentas léguas. E indo poftos 
mais na mifericordia de Deos > que na con- 

fi- 



49^ ÁSIA de João de Barros 

fiança de fua navegação , pêra mais fua con- 
fusão , huma noite lhe faltou a agulha do 
leme fora das fêmeas. E como era de noi- 
te , não o puderam remedear , e efperáram 
té vir a manha , com que ficaram confola- 
dos , por fe acharem junto de huma Ilha 
grande mui formofa , a feu parecer, emfref- 
cura de arvoredo. Concertado feu leme , 
cujo defeoncerto foi pêra não fe perderem 
efeorrendo a efta Ilha , na detença que fize- 
ram em efperar a manhã , foram-íe a ter- 
ra , aos quaes veio receber a gente delia , 
inoftrando em muitos fignaes terem tanto 
prazer, como efpanto em os ver. E verda- 
deiramente, fegundo elles moftráram na fe- 
gurança de fe chegar a elles , parecia gente 
que não tinha recebido efcandalo , nem da- 
mno algum , porque com huma fimplicida- 
de fe chegavam aos noíTòs , que defta fua 
fimplicidade , e fegurança confiou hum del- 
hs a ir em fua companhia a ver o Senhor 
da terra. E podo que a fua lingua não fe 
entendia com alguns eferavos , que leva- 
vam das Ilhas a Maluco vizinhas, per ace- 
nos entenderam delíes haver muitas cente-^ 
nas de annos que alli eítavam. Eram ho- 
mens mais brancos que pretos , todos bem 
difpoftos , aíli homens , como mulheres , de 
roílo alegre , bem aííombrados , enxutos , fem 
moftra que padeciam enfermidades , os ho- 
mens 



Década HL Liv. X. Cap, V. 493 

inens de barbas compridas ao noílb mo- 
do, e o cabello de todos corridio. O vef- 
tido era humas efteiras tecidas , mui macias , 
e brandas , que lhes fervia como a nós as 
camizas , e em cima outras compridas fei- 
tas em tranças mais groíTas fem talho al- 
gum , fomente como hum panno folto , que 
os cubria da cinta pêra baixo. O Senhor 
da terra quando vio o noíío homem , fol- 
gou muito de o ver , e com efta facilida- 
de , e manfidão delles , todos houveram 
que aquella Ilha era de gente , que eílava 
em huma íimplicidade racional, e fem al- 
guma malicia , receio , ou cautela , como 
tinham viílo em as Ilhas daquelle Orien- 
te , donde lhe parecia eílarem na fimpleza da 
primeira idade. Seu mantimento era humas 
raízes como inhames , legumes , cocos , fi- 
gos como os da índia ; e em quatro me- 
zes que os nofios íe aiii detiveram té vir 
a monção pe r a fe tornar a Maluco , mo£ 
trando-lhes ferro , cobre, eftanho , eouro, 
fomente deite moílráram ter noticia , e ace- 
navam com a mão haver efte metal con- 
tra o Ponente da Ilha em huma ferra mui 
alta, E porque tinham grandes paráos , e 
os noílbs não lhes viam o ufo do ferro , 
perguntando-lhes como os faziam , moftrá- 
ram efpinhas de peixes , com que corta- 
vam r e taes ; que os noííos podiam ufar 

dei- 



494 ÁSIA de JoÁo de Barros 

delles pêra aquelle ufo , como de ferro. 
Finalmente como veio o tempo pêra na- 
vegar, demarcada a Ilha, e pofta na car- 
ta de marear per Gomes de Sequeira , que 
era o feu Piloto , ficou com o nome del- 
le. E partiram dalli a vinte de Janeiro, 
dando a entender áquella íimples gente que 
haviam de tornar , moftrando todos fenti- 
rem lua partida ; e fazendo fua viagem , 
chegaram a Maluco , havendo oito mezes 
que eram partidos , e acharam já fua fa- 
zenda vendida , e pofta em arrecadação , 
como fe faz aos defuntos. E afli acharam 
António de Brito embarcado pêra partir, 
com o qual nos convém irmos pêra Ma- 
laca , e dahi nos tornaremos á índia a 
contar o que fe paífou naquellas partes, 
em quanto nos detivemos neftas as mais 
orientaes que té efte tempo defcubrimos, 
porque a efte fim contamos efta. 



CA- 



Década III. Liv. X. 495* 

CAPITULO VI. 

Como Pêro Mafcarenhas vijlos os tr ah alhos 
da guerra y que fazia EIRey de Bintam 
a Malaca , determinou de ir febre 
elle : e o que pêra iffò orde- 
nou y fem daquella vez 
haver ejfeito. 

T) Artido António de Brito de Maluco , 
JL] veio ter á Ilha de Banda ; e havendo 
pplicos dias que ahi eítava , chegou Mar- 
tirn Corrêa Alcaide mór de Maluco , que 
quafí partio logo trás elle com grande ne- 
ceflidade em que ficava a fortaleza. E vi- 
nha âquella Ilha de Banda com efperança 
de achar nella navios de Malaca pêra o 
proverem do que elle hia bufear ; porque 
como António de Brito fe partio ainda mal 
avindo de D. Garcia , por terem maiores 
paixões á partida , do que foram á chega- 
da 3 como contamos , trouxe no feu junco 
tudo o que havia miííer , e alguns homens , 
que com elle fe quizeram vir contra von- 
tade de D, Garcia. E como com eíta fua 
partida falecia gente , e outras coufas , de 
que a fortaleza tinha neceííidade , mandou 
logo D. Garcia , em fe elle partindo , a 
Martim Corrêa bufear o necefTario. E foi 
fua viagem tão perigofa , com hum tempo- 
ral 



4<?6 ÁSIA de João de Baêros 

ra! que paííou , perdendo todalas velas , 
que lòmente com o traquete da proa quaíi 
perdido chegou a Banda. E a eííe tempo 
também chegou Manuel Falcão em hum 
navio de Malaca com certos juncos , que 
hiarn fazer carga de maça, enóz, do qual 
Martim Corrêa houve as mais das coufas , 
que hia buícar , e mais foi-fe com elle a 
Maluco no Teu navio , por lhe elle Mar- 
tim Corrêa fazer requerimento da parte de 
D. Garcia , que fe foífe com aquella gen- 
te , e navio, por a neceííidade em que fi- 
cava a fortaleza. A qual viagem Manuel 
Falcão folgou de fazer , porque levava 
huns poucos de omiziados no feu navio es- 
condidos de Pêro Mafcarenhas , que o man- 
dara de Malaca áquella Ilha Banda. Os 
quaes omiziados tinham morto a hum Dio- 
go Gago , que com elles andava por Ca- 
pitão de hum navio feu na cofta de Pegii 
roubando navios de Mouros , e fizeram alli 
traveíluras que cuftou a fazenda cativeiro 
a alguns dos noííos , como adiante conta- 
remos. E parecendo a hum Gafpar Velofo 
da lua companhia que ganhava niílb, por 
fe tomar á graça do Governador da ín- 
dia , polo crkiíe do officio em que anda- 
va , o matou mal , jazendo elle no regaço 
de huma eícrava fua , que o eílava catan- 
do. Mas a morte foi mais por paixões par- 
ti- 



Década III. Liv. X. Cap. VI. 497 

ticulares , que por outro fim , pois com fim 
morre não Jeixou de andar no officio elle , 
e os outros , que não nomeamos por ília 
honra. E por Pêro Maícarenhas faber ^ar- 
te deftas coufas , quizera haver todos á mão ; 
mas Manuel Falcão , que depois moítrou 
fer homem deita virtuofa companhia , íe 
acolheo , de que Pêro Maícarenhas ficou 
muito efcandalizado. Partido Martim Cor- 
rêa pêra Maluco , ficou em Banda António 
de Brito , e como veio a monção , fe par- 
tio pêra Malaca , onde achou pêro Maíca- 
renhas já entregue da fortaleza 5 que lhe 
entregou Jorge d'Alboquerque , e elle era 
partido caminho da índia. Da viagem do 
qual adiante faremos menção , porque pois 
eílamos cm Malaca i convém dar razão do 
que Pêro Maícarenhas fez fobre aquella 
guerra de Bintam , que tão atormentada a 
tinha , não fomente os Portuguezes , mas a 
todolos moradores de Malaca ? Gentios , e 
Mouros , té os cílrangeiros , que a ella vi- 
nham por razão de commercio , por fer 
huma Cidade onde concorriam todalas cou- 
fas do Oriente 3 e Ponente a commutar, 
trocar , e vender por outras , ( como já te- 
mos eícrito neíta noffa hiftoria;) e como 
com a guerra deite Mouro Rey de Bintam 
não ouíavam de ir a ella , polo damno que 
recebiam. Pêro Mafcarenhas confultando íb- 
Tom.IILP.il. li brc ' 



498 ÁSIA de J0Â0 de Barros 

bre efte negocio com as principaes peíToas 
de Malaca , aííentou que convinha pêra quie- 
tação daquella Cidade , perfeguir tanto aquel- 
le Mouro Rey de Bintam , té de todo o 
deftruir , porque em quanto viveílfe não po- 
diam ter paz. E pofto que fabia que Jorge 
d'AIboquerque já fora fobre elle a Bintam , 
e depois mandara lá D. Garcia Henriques 
feu cunhado , e Martim Affbníb de Soufa 
pêra lhe tolherem os mantimentos , por lhe 
fazerem entender que deitas idas os feus def- 
aftres foram mais culpas dos Capitães , que 
cafos de má fortuna ; quiz levar efte mef- 
mo caminho , mandar lá primeiro. E de- 
pois que o puzeram em neceílidade de man- 
timentos , como elle punha a Malaca , en- 
tão elle em peflba ir cercar a Cidade onde 
EIRey eftava , e a combater, e não leixar 
efte proceflb de guerra té lhe dar fim. Pêra 
o qual negocio mandou Aires da Cunha fi- 
lho de Ruy de Mello da Cunha o do Al- 
garve , como Capitão mor do mar , com 
hum galeão , e outros dous navios de re- 
mo , em que .levaria té cento e vinte ho- 
mens , com regimento que furgiíTe na barra 
de Bintam , e dali-i não fe movèíTe té não 
lhe mandar recado, edefendefle a entrada, 
e fahida de todo navio por pequeno que 
folie. Partido Aires da Cunha , efteve no 
lugar que lhe foi mandado y mas fuccedeo 

ca- 



Década III. Liv. X. Cap. VI. 499 

cafo que não pode elle foffrer o trabalho 
daquelle lugar ; porque nos mezes que elle 
alli eítcve , he tanta a enfermidade de fe-> 
bres , que he peior que pefte. E vendo quan- 
ta gente lhe morria , per huma das velas de 
remo o mandou dizer a Pêro Mafcarenhas ; 
e que fe havia por bem que alli eftivefle 
mais , que o proveíTe de gente em lugar da 
falecida. Ao que Pêro Mafcarenhas logo 
proveo , mandando outro galeão pequeno, 
Capitão Jorge Mafcarenhas de Santarém 
com té cincoenta homens de refrefco ; e 
fendo elle tanto avante como o eftreito de 
Cingápura , achou Aires da Cunha , que 
havia três dias queeftava alli furto fem po- 
der navegar, por não ter quem lhe mareai 
fe o navio com a gente que trazia morta , 
e enferma. E porque a ambos pareceo bem 
tornar-fe a Malaca , por não ir matar mais 
gente , vieram-fe , o que Pêro Mafcarenhas 
muito fentio por a perda da muita gente, 
e houve por bem não irem lá nefta conjun- 
ção da corrupção dos ares , ao qual nós ora 
leixaremos , por dar razão da viagem de 
Jorge d'Alboquerque , e do trabalho em que 
fe vio junto de Cochij , e do que o Gover- 
nador D. Henrique fobre iífo fez. 



Iiii CA- 



joo ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VIL 

Do que Jorge d? Alboquerque Capitão que 
foi de Malaca pafjou depois que delia 
partio : e o Governador D. Hen- 
rique fobre ijjò fez. 

JOrge cPAlboquerque depois que entregou 
a Pêro Maícarenhas a fortaleza de Ma- 
laca , partio a quatro dias de Setembro de 
quinhentos e vinte e cinco , e por não ter 
náo pêra fe vir , veio em hum junco peque- 
no feu. E por ferem peííoas que havia tem- 
po que andavam naquellas partes , e tinham 
recebido dellc Jorge d'Alboquerque boas 
obras , e bom tratamento na converfaçao de 
íua peífoa , vieram-fe com elle quarenta Por- 
tuguezes, de que os principaes eram Duarte 
Coelho , que depois elle cafou no Reyno 
com huma lua fobrinha filha de Lopo d'Al- 
boquerque leu irmão, António de Mello, 
Ruy Lobo , Baílião Rodrigues Marofím , 
Francifco Bocarro , Gomes do Campo , Ni- 
coláo de Sá , António Carvalho , Francif- 
co Fernandes Leme , e outros que N. Se- 
nhor ordenou que vieífem em fua compa- 
nhia perà o livrar (como dizem) da boca 
do lobo , onde veio cahir , como veremos ; 
porque paliadas as Ilhas de Linga , onde 
eíleve dez, ou doze dias, e a Ilha dosAl- 

mei- 



Década III. Liv. X. Gap. VIL 5-01 

meiróes , que eftá fora da Linga contra a 
terra firme , donde partio a dezenove de 
Outubro , foi dar vifta ao Cabo Comorij , 
e dahi chegaram á paragem da noíTa for- 
taleza de Coulao. E o lobo que acharam , 
foram vinte e cinco fuílas de Calecut , de 
que era Capitão o Arei de Porca , o qual 
pelo efcandalo que recebeo de D. Henrique , 
quando com o berço lhe quebraram a per- 
na em o lugar Coulete , e depois por elle 
D. Henrique o pedir a EIRey de Calecut , 
( como eícrevemos , ) andava fazendo per 
aquella coita todo o mal que podia. Mas 
té então não tinha feito coufa notável ; e 
fe Jorge d 5 Alboquerque não viera tão acom- 
panhado j certo elle não pudera efcapar, 
fegundo o apertou com as fuftaç. Cá elle 
tomou hum podo, onde Jorge d 5 Alboquer- 
que não podia ir a elle , e dalli tinha o feu 
junco por barreira , gaitando nelle quaíi a 
maior parte de fua pólvora, porque a ba- 
teria começou do Sol fahido té vefpera , 
com o mar eílar quaíi morto. Na qual ba- 
teria lhe mataram hum Negro fomente, 
que era delle Jorge d 5 Alboquerque ; e fe os 
tiros das* fuílas foram groíTòs , como eram 
miúdos , e os juncos não tiveram fuás ar- 
rombadas, que aquellas peflbas nobres or- 
denaram , elle fora mettido no fundo. E 
eftas peífoas peró que não podiam obrar de 



5*02 ÁSIA de JoÁo de Barros 

efpada , e lança , com a artilheria , e es- 
pingardas , de que fe ferviam , fizeram mui- 
to damno ao Mouro , com morte 5 e feri- 
mento de muita gente , como depois fou- 
beram pelos da terra. E ao outro dia veio 
dar com elle Jorge Cabral , que hia já em 
foccorro feu em huma galeota , e cinco ca- 
tures , que D. Henrique mandava de Co- 
chij 5 onde eftava , o qual , quando chegou , 
Jorge d'Àlboquerque recebeo com toda hon- 
ra , e gazalhado , que elle merecia. E deite 
feito , e perigo que elle paliou , tomou 
D. Henrique hum azo pêra fazer o que 
defejava , que era huma obra mui impor- 
tante ao ferviço d'ElRey , por fe fazer fem 
defpeza fua , que era cercar Cochij , a qual 
obra elle já tinha começada no inverno per 
efte modo. Acertaram Malabares Gentios 
d'ElRey deCochij furtar humas poucas de 
efpingardas , e dous berços de metal , os 
quaes hiam vender aos Mouros ; e ainda 
que o negocio era de pouca importância , 
quiz D. Henrique fundar fobre efle furto, 
e fobre outras traveífuras , affi dos Gentios, 
cm a noífa povoação , como dos Portugue- 
zes na d'ElRey de Cochij , a cau&i de feu 
requerimento. E foi-fe hum dia a EIRey 
de Cochij y e lhe contou o que paíTava de 
huma povoação á outra , que por evitar ef- 
candajos , e queixumes 5 que daqui proce-* 

di- 



Década III. Liv. X. Cap. VIL 5^03 

diam, elle tinha cuidado huma coufa, que 
lhe parecia mui proveitofa pêra elle , e pê- 
ra EIRey feu Senhor, e entre elles fe con- 
tinuar aquella paz que tinham , a qual cou- 
fa muitas vezes fe perturbava per gente 
delia fim pies , íem íaber o que fazia , e ás 
vezes maliciofa , e commettiam taes coufas 
fem refpeito ao damno que faziam ; e por 
evitar efres males, que podiam acontecer , 
cuidara que taes azos não fe podiam me- 
lhor tirar , que cercando elle Cochij , por- 
que fendo cercado , nem Portuguezes iriam 
á fua povoação de noite a fazer traveífu- 
ras ; porque como foíTe noite , mandaria fe- 
char as portas , nem dos léus Malabares 
viriam á nolfa povoação. E também defe- 
java elle ifto , porque Mouros não vieíTem 
de Calecut pôr fogo ás noífas cafas , para 
queimar muita parte da povoação , como 
já muitas vezes acontecera , e fe dizia que 
elles eram authores diífo. Aíli que por evi- 
tar tantos azos de damno , elle devia que- 
rer ir aílignar a parte , per onde pareceífe 
proveitofo fazer o muro da cerca , com 
o qual ceifariam eftes trabalhos de furtos 
de gente vil 5 e pobre , e não dariam azo 
a maliciofos fazerem damno. EIRey com 
eftas , e outras palavras de D. Henrique fi- 
cou fatisfeito , e pareceo-lhe coufa jufta fa- 
zer-fe aquella obra , ç hum dia foi ter a 

Co- 



^04 ÁSIA de JoXo de Barros 

Cochij , e andou com D. Henrique affignan- 
do lugar per onde lhe parecia bem que 
foffe a cerca feita. Tanto que D. Henri- 
que teve efte aprazimento d 5 E!Rey de Co- 
chij , ordenou a Armada de Jorge Cabral 5 
que foccorreo a Jorge d'Alboquerque , que 
(como ora contamos) efteve em rifco de fer 
mettido no fundo. E mandou apontar to- 
dolos moradores de Cochij que foíTem a 
eíla Armada , os quaes fe foííem logo ag- 
gravar a elle , dizendo que não era coulà 
jufta leixar fuás caías , mulheres , e filhas 
pêra os lafcarijs da Armada attentarem nel- 
las , como gente ociofa. Ao que D. Hen- 
rique refpondeo , que elles tinham razão , 
mas que a gente de armas andava com el- 
las ás coitas aventurados a todolos peri- 
gos , e elles eítavam repoufados , tratando , 
c enriquecendo - y e quando vinham inver- 
nar , em lugar de acharem quem os aga- 
zalhaíTe , achavam quem os esfolava , ven- 
dendo-lhes as coufas por grandes preços ; 
e que nefta ida de Calecut via os homens 
feridos pobres , e não tinha que lhes dar 
pêra fe manterem , e mais crueza lhe pa- 
recia mandallos a pelejar , que a elles far- 
tos 3 e ricos , e fora deitas defpezas. E por- 
que elle queria mandar cercar aquella po- 
voação , que era em grande proveito dei- 
les , que viíTem qual delias queriam , ir na 

Ar- 



Década III. Liv. X. Cap. VIL 505 

Armada , ou dar dinheiro para fe ella cer- 
car. E o' que ellc tinha d'ElRey pêra efta 
obra , daria á gente de armas em pagamen- 
to de feus íòldcs , ecom ifto iriam conten- 
tes, e EIRey feria fervido em tudo, e el- 
les moradores ficariam com o fomno mais 
repoufado recolhidos dentro de bons mu- 
ros 5 e não poftos no campo fujeitos a to- 
do perigo. Praticado o negocio em Gama- 
ra , aíTentáram os moradores deCochij que 
D. Henrique tinha razão no que ordenava, 
e logo dahi a três , ou quatro dias trou- 
xeram em começo de lançamento , que en- 
tre íi lançaram pêra efta- obra , três mil par- 
dáos , e o mais iriam dando como fe ella 
foííe fazendo. E com eíte dinheiro applica- 
do pêra eíla obra , de outro d'ElRey pagou 
á gente de armas , com que fez os navios 
preftes , Capitão Jorge Cabral , que acudio 
a Jorge d'Alboquerque , (como ora vimos.) 
A qual oufadia do Arei de Porca indignou, 
muito a D. Henrique , por fer feito quaíl 
a vifta delle, pois era tão junto deCochij, 
onde eftava. 



CA, 



yoó ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VIII. 

Do que D. Henrique de Menezes fez 
o inverno que ejleve em Cocbij , onde Cide 
Alie menfageiro de Melique Ali az o veio 
vijitar : e o requerimento que lhe Lopo Vaz 
de Sampayo Capitão de Cochij fez , vendo 
os apparatos da guerra , com que elle que- 
ria partir de Cochij. 

COmo D. Henrique teve a vontade d 5 El- 
Rey de Cochij pêra aquella obra de 
cercar aquella Cidade pelo lugar per onde 
demarcaram , mandou cortar algumas pal- 
meiras , e derribar cafas , que eram impe- 
dimento , efez osaliceces á maneira de ele- 
gimento , té fe ajuntar pedra , e cal , pêra 
poer mãos á obra. A qual não houve effei- 
to , e tornou-fe o dinheiro aos cafados , 
por os comprazer , e fuccedeo depois da 
morte delle D. Henrique , como fe contra- 
riaram outras , que não apontamos , por 
não macular os authores diíTo. Além def- 
ta obra , que era muito importante ao fcr- 
viço d'ElRey , também naquelle inverno 
ordenou outras coufas , todas a fim de feu 
propoíito , que era ir fobre a Cidade Dio , 
como fe depois foube , fem diflb dar con- 
ta a alguém. E ainda por mais diílimula- 
cão y mandou Armadas pêra diverfas par- 



Dec. III. Liv. X. Cap. VIII. 5-07 

tos , aífí como Heitor da Silveira com re- 
gimento que levava , que efperafle feu re- 
cado té hum certo tempo , como efcreve- 
mos. E defpachou Jorge Cabral , como ora 
diííemos , e fecreta mente lhe mandou que a 
outro limitado tempo o foíle efpcrar a ou- 
tra parte , depois que o elle efpedifle de 
Cananor té onde o havia de levar , e eílava 
de caminho. E a eíles Capitães dava enten- 
der que fua tenção era ir fobre Adem , por 
tirar fufpeita de tanto apparato como fa- 
zia, de mantas, efcadas , barcaças, pólvo- 
ra grande fomma , e outra muita cópia de* 
munições. E em Goa mandou fazer huma 
grofla cadeia pêra atravefiar o rio de Dio, 
fem deitas coufas dar conta a pefíba algu- 
ma , temendo que fe vieííe a romper íèu 
fegredo. E mais tinha comflgo Cicie Alie 
menfageiro de Melique Aliaz Senhor de 
Dio , que per feu mandado era vindo ao 
viíitarj porque como efte Mouro era mui- 
to fagaz , tanto que ouvio o feito de Ca- 
lecut , ficou aífombrado , e todolos Mou- 
ros da índia , vendo a defensão dos noíTos 
que eílavam na fortaleza , e o tempo em 
que navegaram os outros , que foram em 
feu foccorro, e como elle Governador lhe 
acudio , e fua fahida em terra contra toda 
a potencia do Çamorij ; e temeram muito as 
coufas de D. Henrique , ajuntando eíla ás 

paf- 



5*08 ÁSIA de João de Barros 

pagadas , que tinha feito cm tão pouco tem- 
po. E por eíh caufa , e quaíi em modo de 
efpreitador do que eile razia , o mandou 
viíitar eile Melique Aliaz , dando-lhe a 
prolfaça do officio de Governador , moftran- 
do que defejava affentar paz com eile , por- 
que EIRey de Cambaya leu Senhor eile de- 
fejo tinha por amor d'E!Rey de Portugal , 
e outras palavras íimuladas das que eile cos- 
tumava dizer. E em fígnal defta amizade, 
que defejava ter com eile, lhe mandou hum 
prefente de muitas peças ricas, de que Dom 
Henrique lhe tomou fomente eíta : hum af- 
fento forrado de madre de perla , de que os 
Mouros ufam pêra fe aífentar, e eile aífen- 
to foi pêra mandar a efíeReyno a EIRey, 
como mandou. E quando lhe engeitou as 
outras peças 9 mandou trazer huns poucos 
de ferros de lanças , e amoílrando-os a Ci- 
de Alie ,. difle-lhe : Se me vós trouxerdes 
dejias peças , eu as tomara de boa vonta- 
de , porque das taes fou eu grande ami- 
go , por ajudar com ellas aos fervi dores , 
e amigos d^ElRey meu Senhor , e caftigar 
aquelles que o não forem. E porém em retor- 
no das que lhe não acceitou , lhe mandou 
dar outras : e quanto á refpofta do recado 
que lhe trazia , o dilatou para Cananor , 
dizendo que eftava pêra ir pêra lá , e lá o 
deípacharia > e iíio per artificio, que viíTe 

el- 



Dec. III. Liv. X Gap. VIII. 509 

elle os grandes apparatos , mais que pêra 
lhe dar fufpeita , e afibmbrar , que efper- 
tar* E por outra parte fazia coufas que o 
não entendiam , porque no maior fervor 
deites apparatos de guerra, mandou percon- 
felho de Médicos pôr botões de fogo em 
huma perna , eacaufa era acudir-lhe áquel- 
le lugar hum máo humor , que lha incha- 
va ., e impedia anão andar tão leites, como 
elle queria, naquelles apercebimentos. Efi- 
zeram-lhe crer os Médicos que com hum 
par de botões de fogo que trouxeíle aber- 
tos , purgaria aquelle roim humor , que lhe 
alli acudia , e não teria tanta paixão no an- 
dar; mas clles obraram o que adiante ve- 
remos. Lopo Vaz de Sampayo Capitão de 
Cochij três, ou quatro dias ante que Dom 
Henrique parti fle , vendo tanto apparato de 
guerra , fem faber o fundamento daquellas 
coufas , ora fufpeitava em Adem , ora em 
Dio , e não podia achar mais noticia , que 
a prefumpção das coufas. E hum dia pu- 
blicamente quali em modo de requerimen- 
to lhe diífe, que lua Senhoria hia fora da 
índia com aquella 'Armada , e que diziam 
ler a Adem , e que dahi havia de ir inver- 
nar a Ormuz , que lhe devia lembrar quão 
defamparada eílava a coita do Malabar, na 
qual convinha naquelle tempo andar de con- 
tino huma boa Armada. E também quanto 

á ida 



^10 ÁSIA de João de Barros 

á ida de Ormuz , lhe lembrava que EIRey 
defendia que os Governadores não foffcm 
lá , que lhe fazia eftas lembranças por fer- 
viço d'E!Rey , e fer a iflb obrigado. Ao 
que lhe D. Henrique refpondeo , que as lem- 
branças eram mui boas , e o feu caminho 
não era máo , mas tal , de que elle efpera- 
va em Deos , e EIRey feu Senhor ferem 
fervidos ; e fe o feu caminho não foífe tal 
qual elle efperava , que EIRey o caftigaria 
poriíío. Quanto mais, que quando elle pu- 
zeíle os pés onde elle hia , ahi lhe ficaria 
o confelho de mui bons Fidalgos , que com- 
figo levava , cõm parecer , e voto dos quaes 
faria o que foífe lerviço d'ElRey. 

CAPITULO IX. 

Como o Governador D. Henrique partia 

com huma Armada de dezeftte velas 

caminho de Cananor. 

PRovído D. Henrique de Menezes do 
que lhe era neceííario pêra o funda- 
mento que levava de ir combater a Cidade 
Dio , pela maneira que efcre vemos , dahi a 
quatro dias que Lopo Vaz deSampayo lhe 
fez eftas lembranças que ora vimos 3 partio 
com dezefete velas , porque as mais que 
elle efperava levar pêra aquelle feito , eram 
as que tinha enviado ás partes que difle- 

mos, 



Década III. Liv. X. Cap. IX. jrii 

mos , e algumas das que tinha Pêro de Fa- 
ria , que ,elle Jeixou na cofta , quando íè 
partio a invernar a Cochij. E como elle 
queria também ir alimpando a cofta , hia 
hum pouco de vagar , levando ante 11 os 
bargantijs , que lhe foííem defcubrindo quan- 
tas pontas , cotovelos , e angras a terra fa- 
zia, E por alguns delles verem entrar huns 
poucos de paráos no rio de Challe , que 
era duas léguas de Calecut , mandou íahir 
em terra a D. Jorge de Menezes com qui- 
nhentos homens , o qual deílruio , e quei- 
mou a povoação , que eftava bem dentro 
do rio , e adi os paráos que achou. Seguin- 
do mais íua viagem per o mefmo modo, 
ante de chegar a Cananor íeis léguas onde 
eftá hum rio da povoação Maim , os catu- 
res que levava diante viram entrar huns pou- 
cos de paráos , e ainda em modo de rebo- 
laria , fizeram alguns fignaes aos noflbs que 
os tinham em pouco , e verdadeiramente 
pelo que aqueceo , mais foram demónios 
que homens ; porque hum dos Capitães dos 
noflbs catures chamado Pêro Gomes , foi-fe 
a D. Henrique mui indignado , dizendo o 
que os paráos fizeram. E que lhe parecia 
ler aquillo em confiança de haver dentro 
no rio mais fomma delles , que o rio era 
muito bom pêra entrar nelle 5 que mandava 
que fizeflèmu D. Henrique havendo por aba- 
ti- 



5i2 ASI A de João de Barros 

timento ante a vifta de fua Armada terem 
aquelles Mouros ouíadia de apparecer , quan-^ 
to mais fazerem algazarras , quiz entrar no 
rio y e não confiando a vifta da entrada del- 
le , fenão de íi mefmo , mandou trazer hum 
batel a bordo , e quando foi á barra do 
rio , achou não haver remédio pêra poder 
entrar , nem menos lhe pareceo que per 
elle podiam ir os pardos que elle dizia. Do 
qual cafo fe indignou muito contra o Ca- 
pitão 3 e entre paixão , e trabalho , que le- 
vou , andando fragueiro naquella bulca da 
foz do rio y quando veio a tarde curar a 
fua perna , achou-a mui acanhada , e hu- 
mas nódoas negras , que o meftre teve por 
máo fignal , ecom ella curada fe fez á ve- 
la caminho de Cananor , onde ao tempo 
que chegou lhe veio recado de D. Jorge 
Tello , e Pêro de Faria , que citavam fobre 
a barra do rio de Bacanor , e tinham en- 
cerrado hum grande número de pardos, 
que paliavam de cento, fegundo tinham fa- 
bido , todos carregados de efpeciaria pêra 
Cambaya , pêra que haviam mifter mais geiW 
te , que lhe mandaífe acudir com alguma. 
Ao qual foccorro elle mandou' logo Dom 
Jorge de Menezes com hum galeão em que 
andava , e mais hum navio com quatrocen- 
tos homens , e achou que ambos eítes Ca- 
pitães tinham vinte bargantijs , e catures, 

e hu- 



t)ECADA III. LlV- X. CAP. IX. 513 

e huma galeota , e os Mouros diziam fe- 
rem obra de quatro mil entre os dos na- 
vios , e da terra que eílavam em fua defen- 
são. Eftes três Capitães confultado o modo 
que teriam pêra pelejar com elles , ordena- 
ram entrar pelo rio acima em os bargan- 
tijs , e navios de remos , e ifto fizeflem oâ 
primeiros ; e Pêro de Faria que ficaíle com 
os outros navios na boca do rio em guar- 
da , temendo que de fora per avifo dos 
Mouros podia vir alguma Armada delles, 
de que podiam receber muito damno. Vin- 
da a maré dante manha , partiram os dous 
primos com a galeota , bargantijs , e cata- 
res ; e como a maré ajudava o remo, e a 
vontade os braços , ao modo de quem cor- 
re pario naval por chegar ao premio da 
honra , com grandes gritas começaram ir 
pelo rio acima bufcar os imigos. Eftes co- 
mo tinham fabido per alguns Negros da 
terra , que fe lançaram dos navios de Pêro 
de Faria a nado , que eftava elle tão pobre 
de gente, que não oufava de os ir bufcar, 
e não tinham ainda fabido da chegada de 
D.Jorge de Menezes, eílavam mui fóra de 
ouvirem aquellas grandes gritas , emais lhes 
parcceo ardil , que vontade de os ir com- 
mettcr; porque fe o fufpeitáram, impediram 
a entrada do rio com eftancias de artilheria 
na borda delle, como depois fizeram quan- 
TonuIlL P.iL Kk do 



5^4 ASIx\ de JoÃo de Barros 

do Lopo Vaz de Sampayo os foi buícar, 
fegundo adiante veremos. Porém quando 
acudiram com feus paráos armados , e co- 
meçaram a fentir as efpingardas dos noííos, 
que os aguilhoavam de moite , avoavam em 
fe tornar recolher a huma povoação , ou 
(por melhor dizer) a huma guarida , que pe- 
lo rio acima tinham , que era huma ponte 
que o atraveflava , de cima da qual fe po- 
diam defender , ainda que o rio foíTe coa- 
lhado de noflbs bargantijs. Mas primeiro 
que lá chegaíTem , huns aqui, outros alli, 
defattentados com temor , hiam dar em fec- 
co , e juntamente alguns dos noffos faziam 
outro tanto , com que. de huma parte , e da 
outra tudo era fangue , e fogo por efía- 
rem encalhados. D.Jorge de Menezes, co- 
mo levava hum batel que demandava pou- 
ca v agua , foi tanto polo rio acima té ante- 
parar na ponte , equaíi a bote de lança ef- 
teve com os Mouros que eftavam nella. 
Mas quando fe vio fó , e que alli fazia 
pouco, e abaixo ficava D. Jorge Tello com 
muitos catures dos Mouros, que o tinham 
cercado , tornou a elle. Os Mouros vendo 
que fe tornava , cobraram coração , e vie- 
ram trás elle , na qual volta houve tanta 
detença , que vafava já a maré, e onde a 
terra fazia hum cotovelo , veio alli enca- 
lhar com a maior parte dos noííos catu- 
res* 



Década III. Liv. X, Cap. IX. 515 

res. No qual tempo tiveram os Mouros 
eípaço de \r bufcar certas peças de artilhe- 
ria que aííeftáram na ribanceira do rio , que 
alli era alcantilado , de que faziam muito 
damno aos noífos , matando , e ferindo nel- 
les; e pêra maior mal com hum tiro deram 
em hum noíTo bargantim , e por o fogo 
lhe dar onde trazia a pólvora , fez mara- 
vilhas , não fomente em arder de todo, mas 
cm matar alguns homens. E outros que an- 
davam na agua, não oufavam fahir em ter- 
ra , temendo o grande número dos imigos , 
que os efperavam , e acudiam como eftor- 
ninhos fobre elles , que os faziam metter 
debaixo da agua , por fugir ás frechas. E 
muitos Mouros de ouíados fe mettiam den- 
tro na agua , e á força de braços os que- 
riam affogar debaixo delia : tanta ouíadia 
dá hum pequeno favor quando algum def- 
aílre acontece , como os noíTos naquelle 
tempo alli tiveram. D. Jorge de Menezes , 
quando fe vio decepado fem poder ir atrás y 
nem adiante , mandou faltar na agua vinte 
homens do leu batel , com que ficou em 
nado , e metteo-fe entre elles como hum 
leão acanhado do que té alli eííava pade- 
cendo , e com hum falcão , e hum berço 
fez affaítar os Mouros , com que fe acolhe- 
ram aterra, e dando nos que eftavam com 
as peças da artilheria, foi-lha tomar. Neíle 
Kk ii tem- 



$16 ÁSIA de JoÃo de Barros 

tempo acertou D. Jorge de ver hum gran- 
de corpo de gente , que vinha contra onde 
elle eftava , entre a qual vio hum fombrei- 
ro de pé alto , que cubria a cabeça de hum 
homem a cavallo , per a qual infignia co- 
nheceo fer peíToa nobre. O qual fombrei- 
ro he trajo na índia vindo da região Chi- 
na , e entre os Chijs não o pode trazer fe- 
não hum homem Fidalgo , por fer infignia 
de nobreza , o que podemos chamar pallio 
de huma fó mão, ao refpeito dos que ve- 
mos levar quatro homens , quando recebem 
algum grão Rey , ou Principe na entrada 
das Cidades , e nobres Villas de ku Eílado. 
A feição , e tamanho deite redondo he ter 
fete , e oito palmos em diâmetro , e mais , 
ou menos, como cada hum quer, com abas 
ao modo de efperavel. O qual he de hu- 
mas caninhas mui miúdas , cubertas de ta- 
fetá , ou lenço , fegundo a peíToa tem o po- 
der , ou dignidade , com muitos lavores de 
ouro, elouçainhas poios alparavazes, e tu- 
do eftá armado fobre hum peão , ao modo 
do efperavel que diflemos , e as canas jo- 
gam todas , fechando , e abrindo pêra o 
encolher , e eítender. E quando querem que 
faça aquella grande copa , com que faz 
íombra , mettem naquelle peão huma aíte 
de páo mui leve, de comprimento de quin- 
ze palmos pouco mais , ou menos , e então 

cor- 



Década III. Liv. X. Cap, IX. $iy 

correm com hum noete pelo páo acima , e 
té de todo fe eftender quando enteíla no 
peão , e alli atraveíTam hum páo na afte, 
que alli tem hum furo, com que fecha, e 
não cahe pêra baixo. E ha homens que le- 
vam efte fombreiro de tomar o Sol tão def- 
tros , que ainda que o Senhor vá trotando 
no feu cavallo , não Jhe ha de tocar o Sol 
em todo o corpo ? e eíles taes homens cha- 
mam na índia Boi. E ver na Corte de hum 
Príncipe os Senhores que o acompanham 
cubertos com eftes fombreiros de pé , ar- 
vorados fobre fuás cabeças, dá-lhe grande 
mageítade , por quão formofa coufa he quan- 
ta pompa moftram eftas infignias de honra. 
E como D. Jorge de Menezes entendeo 
que podia fer algum Senhor o que trazia 
aquelle fombreiro , mandou per hum Ca- 
narij faber quem era , e trouxe-lhe recado 
fer hum Capitão d'E!Rey de Narfinga Gen- 
tio , que vinha áquella terra arrecadar os 
rendimentos delia , por fer fua , e que tra- 
zia comíigo vinte mil homens. D. Jorge 
como foube iílo , mandou-lhe dizer ,'" por- 
que confentia aquelles ladroes na fua ter- 
ra , pois EIRey de Narfinga era amigo d'El- 
Rey de Portugal , e entre clles havia paz. 
Ao que refpondeo , que elle chegava de 
caminho naquelle inftante , mas que logo 
os mandaria caftigar per feus Capitães , e 

affi 



yiS ÁSIA de João de Barros 

aífi o fez , fazendo-os logo recolher com 
tanto império , como fe foram feus efcra- 
vos. Vendo D. Jorge a boa diligencia que 
clle niíTo poz , confiado nelle , fahio em 
terra , e acompanhado de alguns Portugue- 
ses , aífi como eftavam o foram ver , e dar 
agradecimentos do que fizera. E eftiveram 
hum pouco falíando , té que a maré veio , 
que fe efpedíram delJe , tornando-fe a em- 
barcar, e recolher na Armada, onde acha- 
ram que lhes faleciam quarenta homens, 
por ferem mortos , e feridos eram muitos. 
E havido confelho do que deviam fazer , 
determinaram todolos três Capitães de fe 
não mover daquelle rio , e o fazer a faber 
a D. Henrique , pêra mandar o que havia 
por bem que fizeíTem. E foi a tempo , que 
não eítava elle em eftado pêra já entender 
naquellas coufas ? por caufa da lua enfer- 
midade, que o tinha poíto no extremo. 



CA- 



Década III. Liv. X. 5*19 

CAPITULO X. 

Como o Governador D. Henrique cref- 
cendo o mal de fua enfermidade , entrou 
na fortaleza de Cananor 3 onde primeiro 
que chegajfe a hora da morte , provêo al- 
gumas coufas : e o que fe fez depois que 
faleceo. 

DOm Henrique , paíTado aquelle dia em 
que o trabalho , e paixão , que levou 
em bufear a entrada do rio que diífemos , 
caufou acanhar a perna que trazia enferma , 
foi eíle mal tomando tanta poífe , que def- 
cubertamente o Cirurgião , e Medico o acon- 
felháram que fe paflaffe á fortaleza 5 por- 
que eftava emeílado de cura, que não con- 
vinha eílar no galeão. Mas elle tinha o ef- 
pirito tão accezo naquella viagem que fazia , 
que entreteve os Médicos quinze dias, fem 
querer mudar-fe do galeão á fortaleza ; e 
ainda padeceo tantos martyrios em cautérios 
de fogo , como fe a carne , em que faziam 
aquella obra , não foíTe fua , e pafmavam 
os homens com ver a paciência que tinha 
nos martyrios que lhe davam. Té que ven- 
cido mais de rogos, e admoeílaçoes , quede 
fua vontade , confentio fer levado á forta- 
leza, tendo já nefte tempo huma chaga tão 
grande como huma palma de mão. E como 

ho- 



5^0 ÁSIA de JoXo de Barros 

homem entregue á obrigação de feu offi- 
cio mais , que a fua vontade , efpedio a 
Jorge Cabral , que fe foífe andar contra 
aquella parte de Ceilam , e Ilhas de MaL- 
diva , fem o obrigar ir a outra parte , co^- 
mo tinha com elle affentado , pêra a obrg. 
que elle trazia no feu peito , (como atrás 
diíTemos.) E aííi mandou D. AíFonfo de 
Menezes filho do Conde de Cantanhede 
com alguns navios dos que alli tinha , que 
fe foffe lançar fobre a barra de Calecut, e 
não fe moveíle dalli té o elle mandar ; e 
falecendo , fe leixaífe eftar té vir outra pef- 
foa , que per feu falecimento governaíTe. E 
vendo que os feus dias eram poucos , por 
lhe não ficar coufa por fazer do ferviço 
d'ElRey , mandou chamar D, Simão de 
Menezes feu primo , Capitac^ da fortaleza , 
e a António de Miranda d 5 Azevedo , e aífi 
outros Fidalgos , e diífe-lhes , que elle fe via 
em eílado que não podia acudir ás coufas 
do ferviço d'E!Rey : que pedia a elle Dpm 
Simão, que pêra as coufas da terra elle tt>- 
maífe o cuidado de as fazer , e pêra iífo 
Jhe dava todolos feus poderes; e as coufas 
da Armada , que eílava alli , entregava a elle 
António de Miranda, com outras taes par 
Javras. E quanto ás coufas da governança 
da índia , fe N. Senhor o levaífe , fariam 
o que EIRey feu Senhor mandava. E pa- 

/ rém , 



Década III. Liv. X, Cap. X. 521 

rém , porque a peflba que o fuccederia , per 
ventura não feria prefente , elle tinha feito 
hum papel , que appareceria por fua mor- 
te , em que nomeava huma peíToa que ti- 
nha qualidades ., e Fidalguia pêra poder go- 
vernar , quando o outro não viefle, E elle 
jurava pela hora em que eftava , que fazia 
iílo por lhe parecer que aííi convinha ao 
ferviço d 5 E!Rey , e bem, paz, e aífocego 
de todos , que lhes pedia por mercê , polo 
-que deviam á lealdade de fuás fidalguias, 
que aííi o fizeífem. E eíle papel , e nomea- 
ção não quiz alli moflrar, nem denunciar, 
por não dar matéria de efcandalo entre pef- 
íbas , que tinham opinião que podia fer hum 
daquelles , como foi depois de feu faleci- 
mento , fegundo adiante veremos. O qual 
falecimento foi logo dahi a dous dias , com 
todolos autos feitos de catholico varão , a 
vinte e três de Fevereiro do anno de qui- 
nhentos e vinte e féis , em idade de trinta 
annos. Foi D. Henrique de Menezes filho 
de D. Fernando de Menezes , de alcunha 
o Roxo , era homem de grande , e honra- 
da prefença , a quem com razão fe podia 
chamar gentil-homem. Era Catholico mui- 
to amigo da juftiça , e trabalhava que fe fi- 
zeífe mui inteiramente pelos Miniftros delia. 
Limpo em feu officio , muito cubiçofo de 
honra, e fem nenhuma cubica de fazenda, 

pof- 



522 ÁSIA de João de Barros 

pofto que andava na índia , onde ha gran- 
de matéria de tentações. E nelle não pude- 
ra com juftiça fer executado a lei Júlia de 
-pecuniu repetundts , de que o Senado Ro- 
mano muito ufava , a qual foi conftituida 
por reprimir a cubica , e avaricia dos Ma- 
giftrados , principalmente quando prefídiam 
nas Províncias a que eram enviados. Na- 
turalmente era inclinado á guerra de Mou- 
ros , e bem affortunado nella , afíi nas vezes 
que fe achou em Africa nos lugares do 
Reyno de Féz , e Marrocos , como no que 
vimos na índia efle pouco tempo que vi- 
veo. Muito amigo do íerviço d'ElRey, e 
dos homens, queelíe via feguir eftafua na- 
tureza , e tinha grande odie^ar^omens re- 
-voltofos , que foi caufa de alguns Fidalgos 
fe efcandalizarem delle , fendo homem le- 
ve , converfavei, enão inflado , nem impe- 
riofo. A maior tacha que teve foi hum 
pouco defconfíado , que lhe deo matéria de 
alguns defgoílos com Fidalgos ; e porém 
não que poriífo eíla defconfiança otrouxef- 
fe a eílado de fe vingar. Jaz o feu corpo 
na Capella de Sant-Iago na Igreja de Ca- 
nanor , onde foi fepultado junto dò Altar 
mor na parte do Evangelho , ao qual po- 
demos crer que N. Senhor daria íua glo- 
ria , pois tantas vezes oíFereceo fua vida , 
pugnando com os infiéis > e blasfemando do 

feu 



Década III. Liv. X. Cap. X. 5-23 

feu nome. Foi cafado com D. Guiomar 
da Cunlía filha de Henrique de Figueire- 
do , de que houve eíles filhos , D. Diogo , 
D. Simão , D. Antónia , que cafou com 
D. António filho íegundo do Conde de 
Abrantes ; e D, Catharina , que cafou com 
António Dozem. Entre muitas coufas , que 
aconteceram depois da morte de D. Hen- 
rique, que lhe deram nome de fer homem 
amigo da juítiça , foi o tefterrjunho de dous 
Fidalgos feus imigos 3 dos quaes diremos 
feus nomes , por lhes pagar com a memoria 
defte feito quanto mais honra nifto ganha- 
ram , que no que tinham feito contra Mou- 
ros , a hum. chamavam Belchior de Brito 
filho de Jorge de Brito Copeiro mor d'El- 
Rey D. Manuel j e ao outro D. Vafco de 
Lima filho de Duarte da Cunha. Efte Bel- 
chior de Brito, ao tempo que D.Henrique 
faleceo eílava prezo em Cochij por feu 
mandado , por algumas traveffuras que ti- 
nha feito , de foberbo , e de grande opi- 
nião , parecendo-lhe pouco o eílado da ín- 
dia pêra elle , e tudo iftô procedia de fer 
cavalleiro , como de feito elle o era. E al- 
gumas vezes que D. Henrique paífava junto 
de huma torre , onde elle eftava prezo , co- 
mo o fcntia pairar , a altas vozes dizia in- 
jurias a D. Henrique , que fe fora outro 
mais apaffionado 7 elle o mandara caftigar 

mui- 



524 ÁSIA de JoÃo de Bakros 

muito bera. Morto D. Henrique , Lopo 
Vaz de Sampayo em Cochij o mandou lo- 
go foltar, eelle fe foi aCananor, e a pri- 
meira coufa que fez , foi ir-ie á Igreja on- 
de D. Henrique jazia , e feita fua oração a 
Deos , foi-le á fua fepultura , e aflentado 
em giolhos , e ditas algumas orações por 
fua alma com muitas lagrima? 5 no cruzeiro 
daCapella começa em alta voz fazer hum 
fermao das virtudes de D. Henrique , tão 
ordenadamente , que hum Theologo eftu- 
dando pêra pregar luas honras o não fize- 
ra melhor , em tanto que poz quafi toda a 
gente em lagrimas. E tudo era louvallo de 
jufto , e amador da juíliça ; e que quanto o 
que tinha feito na fua prizão , fora como 
de homem lem ódio , ou paixão , fomente 
como homem zelador da juíliça, e que fo- 
ra pouco o que fizera pêra o que elle tinha 
merecido. Quafi per o mefmo modo , por 
D. Vafco de Lima ler traveífo , e brigofo , 
ao qual D. Henrique queria grande bem , 
por fer muito bom cavalleiro , e principal- 
mente polo que fez em Calecut , também 
ocaíligou, e elle D. Vafco na própria Igre- 
ja veio fazer outra tal proteftação. E ainda 
accrefcentou mais , por faber que alguns 
homens murmuravam delle , dizendo , que 
fehouveíle homem que contra D. Henrique 
diíTeífe o contrario do que elle alli dizia, 

que 



. Década III. Liv. X. Cap. X. 5:25: 

que fe mataria com elle. E Heitor da Sil- 
veira também depois delle falecido , em hu- 
ma meza , em que comiam com elle mui- 
tos homens nobres , começou hum de má 
lingua de dizer mal de D. Henrique , pon- 
do-! he por tacha que não era pêra íer Ca- 
pitão , por fer tão cavalleiro , que fernpre 
queria fer dos primeiros. E Heitor da Sil- 
veira, por efte homem fer aííamado deroim 
lingua, refpondeo : Amaior tacha, que eu 
fuèe de D. Henrique , foi não dejierrar 
quantas mas línguas ha na Índia ; e de 
lhe avorrecer ouvir mal , alevantou-fe da 
meza. Em aufencia do qual diííe hum dos 
que alli comiam : Quem quer que dijfer mal 
de D. Henrique , eu me matarei com elle ; 
e com ifto ficou a meza quieta , e o outro 
julgado por quem era , folto na lingua , e 
atado nas mãos 5 e que fabia bufcar boas 
abrigadas 5 quando havia tormenta de pele- 
jar com os imigos ; e o nome do qual ca- 
lamos , por fua honra , e pola nofía , cuja 
natureza he neíla noíía hiítoria não publi- 
car defeitos de partes , que não fazem a 
bem delia. 



Fim do Livro X. da Década III. 



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